Arquivo mensal: Dezembro 2015

Manuel Faria – Entrevista

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995

Manuel Faria expõe-se

LIGADO À CORRENTE

Manuel Faria reconhece que o seu defeito é esconder-se atrás dos grupos. Por isso é uma das mais influentes figuras da música portuguesa do nosso tempo e, no entanto, mal se dá por ele. Nesta entrevista, sacode a timidez e tira do saco mais uma pilha de projectos, enquanto acerta contas com o passado dos Trovante.


K7MFaria

Manuel Faria não gosta de dar nas vistas e não era seguramente a estrela dos Trovante. Mas, acabado o grupo, Manuel Faria produziu “Filhos da Madrugada”, a homenagem a José Afonso, trabalhou com Ricardo Pais em “Fados”, produziu discos de artistas como Carlos Zel e os Entre Aspas, além de criar música para publicidade. Agora produz o álbum de estreia dos Cramol, prepara-se para lançar o seu projecto musical sob o nome Sociedade Recriativa e fundar uma editora independente. Uff… Continua a não se dar muito por ele, mas Manuel Faria tornou-se um dos personagens centrais da música portuguesa, pelas mãos do qual passarão certamente os seus destinos em 1995.
PÚBLICO – Como se processou a sua passagem da criação musical (Trovante) para a produção?
MANUEL FARIA – No Trovante eu também exercia um bocado esse papel, ou seja, a experiência que tenho da vida em grupo é que, no início, os músicos são todos muito parecidos e fazem tudo em conjunto. A pouco e pouco, porém, vão crescendo e cada um vai tendo mais jeito para umas coisas e menos para outras. No Trovante, era eu que tratava das relações com o estúdio e a produção sempre me atraiu imenso. Há outra condicionante no facto de eu ter uma formação em engenharia electrotécnica que me transporta muito para esse lado. Nos dois últimos anos do Trovante fui montando um pequeno estúdio em casa e fui-me interessando pelo mercado da publicidade, algo que me dá imenso prazer. Logo que o Trovante acabou, a minha actividade passou a ser a produção; se não me engano a primeira que fiz foi a dos Entre Aspas. 1993 foi praticamente preenchido com a pré-produção de “Filhos da Madrugada”. Como músico lembro-me que toquei em Coimbra com os Sitiados.
P. – E depois dos “Filhos da Madrugada”?
R. – Continuei a minha actividade como compositor e como director, com um sócio meu, do estúdio de publicidade. Comecei também a desenvolver um projecto antigo, Sociedade Recriativa. Um dos meus sonhos, ainda existia o Trovante, era produzir algo numa área diferente. Sem querer fazer uma autocrítica, nos últimos anos do grupo, o tipo de instrumentação que o grupo usava, uma instrumentação “standard” – bateria, baixo, guitarra, piano, saxofone, voz –, já não me satisfazia. Queria experimentar outro formato. Como é que se comportaria um grupo com outro tipo de instrumentos?
P. – A Sociedade Recriativa será o quê?
R. – Para já, é um projecto pessoal, não é um grupo. Nunca há-de existir “os” Sociedade Recriativa. São pessoas [Manuel Paulo, Filipa Pais, Mário Pacheco e um violinista russo de nome Gregori] com quem trabalhei e para quem imagino um universo musical tocado por elas. Embora eu tenha um defeito que me apontam os amigos mais próximos, de me esconder atrás de grupos, de não gostar muito de protagonizar, neste caso é uma coisa pessoal. O disco terá temas se calhar só com piano e violino, outros com piano, trombone e violoncelo, sons que eu tenho descoberto a pouco e pouco. É um projecto instrumental, talvez com uma ou duas canções, muito virado para o meu próprio gozo.

O produtor discreto

P. – Nos Trovante existia uma forte componente de música tradicional. Poderá regressar a ela no novo projecto?
R. – O tradicional hoje em dia anda de mãos dadas com o ambiental. Por exemplo, uma das coisas em que trabalho muito é com samples. Já se perdeu um pouco aquele mito, que se tornou numa moda, no princípio dos anos 90, que era o acústico obrigatório. Até me apetecia às vezes fazer um disco chamado “Plugged” [“ligado à corrente”, por contraste com o programa “Unplugged”, ou seja, “acústico”, da MTV]. Interessa-me a área dos “loops”, dos samples, do ritmo hipnótico, misturado com esse tipo de sonoridades.
P. – Outro projecto que tem neste momento em mãos é a produção do primeiro disco dos Cramol…
R. – O disco já está praticamente feito. O grupo tinha apresentado um projecto à BMG. A primeira vez que o ouvi, achei fascinante. É uma área que me interessa. Tenho discos de vozes corsas. Há muita gente a interessar-se por várias áreas ao mesmo tempo. Veja por exemplo o Kronos Quartet, que é muito irreverente na escolha dos parceiros com quem toca, como os cantores de Tuva que de repente aparecem em peças com eles, ou a música do Piazolla. No caso do Cramol, a música tradicional é trabalhada com autenticidade e sabedoria. Elas têm uma colocação de voz que, embora sendo popular, não é a de um coro académico. Com o Cramol é simples. Aprendo o que não sei, como saber como aquele tipo de música é feito. E dou-lhes aquilo que elas provavelmente não saberão, como criar as infraestruturas para gravar um disco.
P. – Eis a sua faceta de organizador, de alguém atento e preocupado com vários aspectos em simultâneo…
R. – … Na posição de aprender. Não sou um produtor muito interveniente, nem acho que o produtor deva ser o centro de um trabalho. Se o som me interessa, aceito produzir e tento enquadrar-me o melhor possível, embora com certeza tenha e dê ideias. Mas não tento transportar o meu som. Quando a produção é muito boa, não se nota. Para mim é o conceito último de produção. Prefiro isto ao Trevor Horn, por exemplo, onde tudo o que ele toca parece um disco seu. Prefiro ter mesmo o meu disco e pôr nele tudo o que tenho para dizer do que estar a servir-me de outro artista.
P. – Não haverá um risco quando a opção é, como parece ser o seu caso, pela desmultiplicação de actividades?
R. – Isto é um país muito pequeno e há aqui também um lado financeiro. É muito difícil uma pessoa viver só duma actividade, em que há altos e baixos. Não se pode fazer mais do que disco por ano, como autor, e eu tentei encontrar vários caminhos que me dessem prazer e nos quais sou competente. Por exemplo, produzi um disco de fado, do Carlos Zel, algo que nunca tinha feito antes. A primeira coisa que ouvi dizer, de um dos guitarristas, foi: “O que é que este gajo está aqui a fazer, que não percebe nada de fado?” Respondi que percebia de discos. Gravámos o disco como se fosse um quarteto de câmara, todos ao mesmo tempo, uma coisa que, desde que existem gravadores multipistas em Portugal, estava ultrapassada, mas que acabou por acrescentar uma sonoridade bastante mais interessante. Na altura não sabia nada de fado, tive que aprender. Depois fiz o disco em que trabalhei com o Ricardo Pais [“Fados”, espectáculo deste encenador levado à cena no CCB].

“Agora o pai morreu”

P. – Com o conhecimento acumulado que tem hoje, se pudesse voltar atrás, faria algumas modificações na música dos Trovante?
R. – Não sei se poderia ter sido diferente. Sei que até 87 não mudaria nada. Até 87 fomos um grupo de facto, com uma identidade musical própria. Era rara a ideia que um de nós dava e os outros não gostassem. Depois começámos a divergir musicalmente, e talvez humanamente, e passou a haver uma coisa muito séria que são os jogos de poder. Às vezes eu, o Luís e o Gil, por brincadeira, dizemos: “Pronto, agora o pai morreu, já podemos ser amigos outra vez.” Deixou de existir a estrutura da qual éramos todos filhos e nos obrigava aos tais constantes jogos de poder.
P. – Aceitaria produzir um disco de algum dos seus antigos companheiros?
R. – O Luís represas propôs-me ser produtor do disco dele [“Represas”], mas tinha que ser ele a fazê-lo sozinho. Se eu entrasse, ia voltar a levar com a minha visão musical e os meus arranjos. Não ia ser tão Luís Represas como foi. Até porque, enquanto as bandas têm os seus próprios arranjos, o produtor de um artista a solo tem uma posição mais determinante sobre o produto final. Depende dele a escolha de tudo, dos músicos, do arranjador, o protagonismo é muito maior. No caso do Luís, estava ainda tudo muito fresco, incluindo a dissolução ainda recente do Trovante. Teria sido uma asneira. Mas se fosse hoje talvez aceitasse…



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Vitorino – “Anos 60-70, As Saudades” (Concerto)

POP ROCK

3 de Maio de 1995

Saudades ao estetoscópio


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Vitorino, depois de “Fados Meus”, de Paulo de Carvalho, e de “Só”, de Jorge Palma, será o próximo artista a apresentar-se na atmosfera especial e sem artifícios dos Concertos Íntimos, que estão a decorrer no auditório do antigo Cine-Teatro do Casino Estoril. Uma tentativa, para Vitorino, de recuperar o conceito de “temporada”, característico da “escola francesa, de ficar uns tempos num teatro”. “Anos 60-70, As Saudades” foi o título genérico escolhido pelo artista para designar a linha geral que orientará cerca de duas horas de canções ligadas à história e às memórias daquelas duas décadas. Uma ideia que parece ter sido criada de propósito para o autor de “Leitaria Garrett”, já que Vitorino é uma espécie de enciclopédia viva de uma época em que os actos se regiam por ideais e não por interesses, como hoje é norma acontecer. Lisboa, o Alentejo, a errância pela Europa, lutas e camaradagens várias, cruzam-se na vida e no imaginário de Vitorino como num caleidoscópio.
Em toda a discografia do cantor é visível esse interesse pela natureza íntima das coisas, pelas razões e pelas emoções irrisórias, mas que, não poucas vezes, mais do que os grandes manifestos de intenções, fazem mover as pessoas e evoluir os lugares. Sabe-se do conhecimento e do gosto de Vitorino pelos salões de dança, pelos passos que conduzem à paixão, pelas horas mortas em que tantas vezes uma vida se decide. Os boleros, os tangos – “um imaginário muito presente na música portuguesa, havendo mesmo grandes compositores em Portugal deste género musical, como o Cruz e Sousa, que compôs para o Tomás Alcaide” – as quermesses e os bailes de finalistas, os bairros e as suas tentações. Com tudo isto Vitorino se cruzou, a par do convívio, directo ou indirecto, com as músicas e as atitudes importadas do estrangeiro. Os ideais e a revolução, deixaram marcas na sua música. Vitorino canta a cidade e o campo, as vielas e os montes, as noites de sol e os dias de luto. Anarquista por vocação, fez-se cantor por devoção.
Por isso a sua voz soará talvez com maior força – decerto, mais próxima e com outras “As Mais Bonitas” para cantar – numa pequena sala do que debaixo dos holofotes gigantes e da antropofagia das massas. Uma celebração de nostalgia? Talvez, se considerarmos que a música não passa de uma sucessão de modas e de um corte sistemático com o passado. Porque, sob as luzes mais baixas do pequeno auditório do Casino, Vitorino vai cantar os extremos da música portuguesa, se Zeca Afonso a Tony de Matos. Mas também as canções estrangeiras dos anos 60 e 70, dos Beatles – “uma música já muito evoluída nos anos 70, em relação aos serões para trabalhadores que se fazia em Portugal, que eram de um conservadorismo e um hermetismo a toda a prova, existindo só por teimosia, uma teimosia beirã, a teimosia do Botas. Isso reflectia-se em toda a música portuguesa, que só começou a mudar com o Adriano e com o Zeca” – de Gianni Morandi, de Jacques Brel, entre tantos outros, “que influenciaram a juventude e a própria música portuguesa” destas duas décadas. Segundo “um olhar irónico e com algum humor”. Vitorino recorda ainda, pondo alguma pimenta nas palavras, essa época “em que havia cantores, hoje muito presentes, que diziam que a língua portuguesa não prestava para cantar”.
Com o cantor, recentemente chegado de alguns espectáculos de boa memória em Goa – “lá têm uma admiração cega pela cultura e língua portuguesas, e saudades de um tempo que, se calhar, era melhor” -, vão estra em palco, em mais este “concerto íntimo”, Janita Salomé, Filipa Pais, que cantará a Billie Holiday e a Ella Fitzgerald, “cantoras eternas, cujos ‘hits’ estiveram bastante presentes nos anos 60 e 70”, e André Cabaço, juntamente com o pianista Vasco Gil, também responsável pelos arranjos musicais, o baterista Rui Alves e o percussionista Quim N’Jojo.
Vitorino, visto à lupa e escutado ao estetoscópio.

VITORINO
“Anos 60-70, As Saudades”

Auditório do antigo Cine-teatro do Casino Estoril
4, 5, 6 e 7 de Maio



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Luis Delgado – “Al Andalus”

Pop Rock

7 Dezembro de 1994
WORLD

CANTOS DO ISLÃO ELÉCTRICO

LUIS DELGADO
Al Andalus

Lyricon, distri. MC-Mundo da Canção


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Natural de Madrid, Luis Delgado é um músico multifacetado que distribui a sua actividade por diversos grupos, entre os quais os já nossos conhecidos La Musgaña, de música tradicional, Atrium Musicae – “heréticos” da música antiga dirigidos por Luis Paniagua – e os excelentes Mecanica Popular, especializados em música electrónica. Enquanto produtor, Luis Delgado trabalhou em discos de Maria Del Mar Bonnet, Emilio Cao e Aurora Moreno, entre outros. A música medieval, com os Calamus, o “rock andalus”, com os Califato Independiente, fusões étnicas, com os Finis Africae e Babia, ou a tradição sefardita, com os Halilem, são outras tantas direcções já exploradas por este músico, que, curiosamente, foi nomeado membro honorário da Grand Ole Opry, mítica entidade da música country norte-americana. Luis Delgado é ainda assessor musical e compositor permanente do planetário de Madrid, fundou uma editora para as “novas músicas” espanholas, El Cometa de Madrid, escreve regularmente bandas-sonoras e ainda arranja tempo para se dedicar à sua colecção de instrumentos musicais, já com mais de 200 peças, que ele próprio utiliza nas suas gravações.
Nutrindo um interesse especial pela chamada “Espanha das três culturas”, judaica, cristã e islâmica, Luis Delgado faz em “Al Andalus” uma recriação em moldes vagamente “new age” (não esqueçamos que esta é uma das áreas privilegiadas do selo Lyricon) da música islâmica, numa banda-sonora composta para o documentário sobre a exposição “Al Andalus, las artes islámicas en España”, organizada pelo Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e pelo Patronato de la Alhambra, de Granada, em 1992.
Situando cronologicamente a temática do disco no século X, durante o califado de Córdova, coincidente com o apogeu da cultura islâmica no Sul de Espanha, “Al Andalus” segue o esquema de obra conceptual onde se ilustram histórias, lendas, edifícios e lugares, pormenores da vida de pessoas, desde o próprio califa e seus mais altos dignitários aos poetas, carpinteiros, jardineiros e outros artífices que, à sua maneira, contribuíram para a construção e implantação de uma das culturas que mais e mais fundas marcas deixou na arquitectura e na estrutura anímica de “nuestros hermanos”.
Em “Al Andalus”, as percussões electrónicas e as tecituras urdidas pelo computador misturam-se com instrumentos típicos como o “ud”, o “gimbri”, o “bendir”, o “nei”, o “tar”, a “darbouka” e o “qanum”, só para mencionar aqueles com que os nossos leitores mais assíduos já se terão decerto familiarizado. O que significa que, neste caso, o termo “fusão” faz sentido. Mas, num terreno onde cada vez mais se corre o risco de as particularidades específicas de cada região e de cada cultura se “fundirem” numa amálgama amorfa sem fogo nem contrastes, “Al Andalus” consegue sair incólume. Porque a sua finalidade não é, de forma alguma, nem simular nem muito menos reproduzir, mas sim reconstruir em novos moldes um determinado imaginário, reconvertendo-o para uma dimensão sonora a que poderemos chamar cinematográfica e, sem dúvida, actual. Utilizando, no fundo, processos não muito diferentes dos usados pelos Atrium Musicae em relação à música antiga. Se é música electrónica com influências étnicas ou música étnica do próximo milénio, a questão está em perceber que os extremos, quando se não perde o fio à meada, se tocam. (8)



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