Arquivo mensal: Novembro 2015

Dervish – “Harmony Hill”

Pop Rock

16 FEVEREIRO 1994
WORLD

MADUROS COMO OS VETERANOS

DERVISH
Harmony Hill

Whirling Discs, distri. MC – Mundo da Canção


dervish

Na Irlanda, depois dos Déanta, os Dervish são a nova grande revelação. “Harmony Hill” impressiona em vários aspectos. Se o primeiro álbum dos Déanta apresenta ainda alguns sinais de imaturidade, desculpáveis num disco de estreia, os Dervish explodem logo de entrada com um som que pouco deve aos veteranos: afirmativo, pujante e dando mostras de um virtuosismo instrumental que seria raro encontrar em estreantes, caso de tratasse de outro país que não a Irlanda. Ainda fazendo comparações: nem os próprios Altan, já elevados à categoria de “clássicos”, se podem orgulhar de uma estreia tão promissora como a dos Dervish.
À semelhança dos Dèanta e dos Altan, os Dervish não incluem as “uillean pipes” no seu arsenal de instrumentos. Curioso é traçar possíveis filiações para cada um destes grupos. Aos Altan já chamaram (com pouco razão, diga-se) os novos Bothy Band. Os Dèanta permitem que os situemos perto dos Clannad da primeira apanha. Quanto aos Dervish, não devem ficar escandalizados se os alinharmos ao lado dos De Dannan.
Têm excelentes trunfos estes “novatos” que já dão cartas: Cathy Jordan é mais uma grande cantora a juntar às muitas que a música irlandesa tem dado a conhecer ao longo das últimas duas décadas. Mairéad Ní Mhaonaigh, dos Altan, não cantava tão bem como ela, nos seus tempos de estreante. A voz de Cathy Jordan, a espaços reminiscente de Triona Ní Dhomnaill e com algumas inflexões que recordam a juventude de Dolores Keane passada nos primeiros De Dannan, desliza como seda aquecida por baladas como “Hills of Greenmore”, “Bellaghy fair” (aqui “a capella”), “The ploughman”, The fair maid” (baseado no canto de Triona Ní Dhomnaill na versão do mesmo tema incluída num álbum dos Bothy Band) e “A stór mo chroi”.
Do lado instrumental despontam dois novos “virtuoses”: Shane McAleer, no violino, e sobretudo Liam Kelly, na flauta. O primeiro brilha nas sequências de jiga quando, a par da tradicional velocidade de execução, que atinge o auge em “The green mountain”, usa o violino para simular a voz das “uillean pipes”, em “Hills of Greenmore” e “Welcome poor Paddy home”, neste tema lançando-se de seguida num impressionante diálogo com a flauta. O segundo dá “show” num solo da sequência final “Slides & Reels” e em “The green fields of Miltown”, onde também toca “tin whistle”, acompanhado por uma Cathy Jordan surpreendentemente ágil no manuseamento rítmico dos “bones” e do “bodhran”. As cordas dedilhadas (bandolim, mandola, guitarra) juntam-se em “The ploughman”, um original de Robert Burns, no acompanhamento à voz de Jordan, evocando as antológicas prestações de Andy Irvine nos Planxty. Shane Mitchell mostra-se igualmente um bom acordeonista (nan sendo dos mestres deste instrumento que passaram pelos De Dannan, com Mairtin O’Connor mais alto que todos os outros) em “Jig C jig” e na sequência final atrás referida. Todos aqueles que perdem a cabeça só de ouvir falar em música irlandesa podem saltar sem receio de cair dos Altan para os Dervish. Alta qualidade garantida. Até porque daqui a um ou dois meses já deve haver outras bandas do mesmo quilate em fila de espera. (8)



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Shirley and Dolly Collins – “For As Many As Will”

Pop Rock

11 de Maio de 1994
WORLD

Shirley and Dolly Collins
For as many as will

Fledg’ ling, distri. MC – Mundo da Canção


sdc

Shirley Collins não goza do mesmo estatuto que as deusas. A sua voz não tem o dramatismo da da malograda Sandy Denny, a pureza da de Jacqui MsShee, a intensidade da de Maddy Prior sem a solenidade da de June Tabor. E, no entanto, talvez nenhuma das divas tenha a mesma capacidade de nos comover que esta senhora a quem muitos chamam “the first lady of folk”. Uma voz sem grandes predicados técnicos mas que guarda em sim uma sabedoria acumulada de séculos. Uma voz com a textura de pano antigo, musgo, mel e madeira.
“For as many as will”, de 1978, foi a última produção discográfica da cantora com a sua irmã Dolly Collins, autora dos arranjos e possuidora de um estilo de acompanhamento nos teclados (sobretudo no órgão de foles e em particular num “flute organ” especialmente concebido para este disco) com os quais a voz de Collins mantinha uma relação de quase simbiose. No folheto que acompanha esta reedição, como num texto recente na “Folk Roots”, suspira-se por uma nova geração da dupla. Ou estão todos loucos ou então estou eu, já que me lembro de ter lido, há anos, sobre o falecimento de Dolly!…
Sem alcançar o registo por vezes épico de “Love, Death and the Lady” ou do magistral “Anthems in Eden” (cuja longa suite com o mesmo nome foi transferido para o álbum “Amaranth”, de Shirley Collins, acompanhada de temas novos), “For as many as will” apresenta o som habitual da dupla, dos diálogos emotivos entre a voz e as teclas (como a versão tocante de um tema de Richard Thompson, “Never gain”) aos arranjos que revelam um amor profundo pela música antiga, nos “medleys” “Beggar’s opera” (com Dolly Collins surpreendentemente interessante no sintetizador) e “Harvest home” que, entre outras colaborações, contam com o arsenal de sopros medievais de Phil Pickett e o violino de Barry Dransfield. Shirley e Dolly Collins arrancam do abismo dos tempos ecos do paraíso da velha Albion antes da Queda. (8)



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Balanço do Ano de 1993 – World Music

Pop Rock

5 JANEIRO 1994

O ANO EM WORLD

O ANO DO DILÚVIO


moller

Para muitos, cada vez mais, a música tradicional, ou de raiz tradicional, é a música do futuro. Uma música que nasceu com o nascimento da própria música. Que religa e se projecta nas três dimensões que cruzam o ser: Deus, Homem, e Natureza. Uma música que incessantemente muda de forma sem perder o coração. Eixo de sons, terreiro de danças. De palavras que contam histórias. Arquétipos da vivência humana, transmitidos de geração em geração. A “world music” – designação que neste suplemento, por conveniência de arrumação, se aplica num sentido lato a todas as músicas que integrem elementos tradicionais – ganha a cada dia novos adeptos e maior vitalidade. Na Europa é visível a importância crescente do género, na multiplicação dos lançamentos discográficos e dos festivais, na criação de novos organismos e circuitos de divulgação e edição. Em Portugal são também em cada vez maior número aqueles que descobrem na folk, na étnica, nas diversas sínteses do novo mundo um universo interminável de múltiplas geografias, exteriores e interiores.

Se em anos não tão afastados como isso, era difícil aos amantes desta música encontrarem no mercado português os discos pretendidos, essa situação inverteu-se totalmente nos últimos tempos. E, se os discos ainda não chegam aos nossos escaparates na sua totalidade (o que será das pobres carteiras do melómano consumidor quando tal acontecer?!…), para lá caminhamos, com os CD a chegarem em quantidade e em ritmo regular não só às discotecas da especialidade, como também às secções (por vezes escondidas e ainda dando mostras de uma certa timidez, fruto do medo de arriscar e de alguma ignorância na matéria…) dedicadas a este tipo de música.
Maurizio Martinotti e Beppe Greppi, dos Ciapa Rusa, estiveram entre 28 de Maio e 2 de Junho em Castro Verde, no Alentejo, para gravarem o “cante” do grupo Ganhões desta localidade, cuja edição em compacto está prevista para breve na Robi Droli, em Itália, e que no nosso país terá o selo Etnia, que entretanto alargou o seu campo de actividades à edição discográfica. Neste selo foi já lançado, no final do ano, a estreia em compacto dos Toque de Caixa, “Histórias do Som”, que será objecto de análise numa das próximas edições do Pop Rock.
Também este ano duas novas revistas dedicadas à folk vieram juntar-se à “Folk Roots”. Primeiro a “Trad. Magazine” francesa, a que se seguiu, alguns meses depois, a “The Living Tradition” escocesa, uma “principiante absoluta” nestas andanças. Ambas distribuídas pela MC – Mundo da Canção que – três vivas! – começará igualmente, já a partir de Janeiro, a distribuir também a “Dirty Linen”, uma das melhores publicações do género.
A este acompanhamento “em cima do acontecimento” do que se passou lá fora não correspondeu, infelizmente, a edição, em quantidade e qualidade, de discos portugueses. Descontando o já citado álbum dos Toque de Caixa, foi o deserto. Resta-nos a consolação de sabermos ainda em existência de grupos da velha guarda como os Almanaque, Raízes, Ronda dos Quatro Caminhos e Brigada Victor Jara. Para quando novos discos? Os Romanças preparam material novo, enquanto circulam alguns rumores sobre o novo capítulo da saga de Manuel Tentúgal, com ou sem os Vai de Roda, a seguir ao magnífico “Terreiro das Bruxas”.
As senhoras trocaram ideias, mas não houve meio de chegarem a acordo quanto ao famigerado grupo de supervozes femininas. Filipa Pais, Teresa Salgueiro, Minela e, mais a norte, na Galiza, Uxia para já não se entendem. Quem se esteve nas tintas e continuou a cantar de forma soberba foi Amélia Muge, cujas “múgi cas” estão prestes a reincidir num álbum novo que, diz quem já ouviu algumas maquetas será ainda melhor que a estreia da cantora. Amélia Muge que, por seu lado, prepara também ela um grupo com algumas colegas de ofício, entre as quais Margarida Antunes, do coro feminino Cramol. Maria João, a grande senhora do país do jazz, após alguns “flirts” com a música tradicional portuguesa parece querer mergulhar de corpo e voz nas raízes. O disco, a acontecer, vai fazer ondas.
Os homens, esses, organizam-se. Dois novos grupos prometem fazer furor no ano que agora se inicia: o Grupo de Gaiteiros de Lisboa, de Paulo Marinho, Carlos Guerreiro, Rui Vaz e, acabado de recrutar dos Almanaque, José Manuel David, bem como os Realejo, de Fernando Meireles. 1994 poderá bem ser o ano de arranque para novo “boom” da MPP, recuperando o elo perdido dos anos 70 e início dos 80. Sobre a “música popularucha portuguesa” e alguns discos que apareceram por aí a tentar vender banha da cobra basta dizer que os oportunismos não vingarão e que o joio apenas medrou porque as espigas de trigo não cresceram (falta de adubo?). Esperemos pela nova colheita.
De discos nacionais de música tradicional, de recolha ou de adaptações com novos arranjos, estamos conversados. Pura e simplesmente, com as excepções já mencionadas, não existiram. Mas há quem do outro lado da barricada, não desista. José Alberto Sardinha – antigo músico dos Almanaque e autor dos três volumes de recolha de música tradicional da Beira Baixa e Trás-os-Montes, publicados em 1982, de genérico “Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa” e de “Viola Campaniça – Um Outro Alentejo”, em 1986 – tem no prelo o livro “Tradições Musicais da Estremadura”, que a Imprensa Nacional, “por não estar na sua ordem de prioridades”, se recusou a editar.
De entre o dilúvio de álbuns chegados no ano findo ao nosso mercado, o destaque vai para a invasão nórdica iniciada em 1992 na Europa, mas que só este ano chegou até nós numa onda que trouxe os Hedningarna, Värttina, Möller, Willemark & Gudmunson, Niekku e Angelyn Tytot e que deverá prosseguir o longo deste ano (atenção também para as vagas árabes e da Europa do Mediterrâneo!) com a chegada de nova horda “viking”.



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