Arquivo mensal: Agosto 2015

Muzsikas – “The Lost Jewish Music of Transylvania”

Pop Rock

23 JUNHO 1993
WORLD

SALOMÃO NOS BALCÃS

MUZSIKAS
The Lost Jewish Music of Transylvania

CD Hannibal, import. Contraverso


muz

De novo, rumo aos Balcãs na companhia dos Muzsikas, banda que começou por ser conhecida em Portugal por contar nas suas fileiras com uma senhora chamada Marta Sebestyen. “The Prisoner’s Song”, “Muzsikas” e “Blues from Transylvania”, todos disponíveis no mercado nacional, formam um monumento ímpar à música tradicional da Hungria. Mais recentemente, Marta Sebestyen afastou-se do grupo para gravar “Apocrypha”, um projecto que revisitava antigas canções vestidas com arranjos e sons de computador. Neste novo disco, a vocalista aparece apenas como convidada numa formação que, mais do que nunca, investiu no aprofundamento da tradição voltando as costas à experimentação formal.
Neste caso tratou-se da recuperação e reconstituição do reportório dos músicos judeus húngaros Klezmorin, que se julgava perdido devido à ausência de quaisquer gravações ou notações, num trabalho que deve muito à colaboração com Zoltán Simon, teórico oriundo de uma família judia e discípulo de Zoltán Kodaly, que recolheu “in loco” e fez as transcrições de melodias já quase desconhecidas. O projecto partiu das evidentes semelhanças existentes entre o folclore búlgaro e as peças instrumentais judias conhecidas por “csárdás”. De igual modo, tanto os agrupamentos convencionais como os constituídos por judeus tinham por costume tocar nas festas de casamento nas várias regiões do país.
Encontrado, com uma margem mínima de erro, o elo que faltava entre duas tradições próximas no espírito e na letra, Muzsikas procederam a um reajustamento instrumental, reduzindo o leque de instrumentos, que em anteriores álbuns incluía a gaita-de-foles e o oboé, à típica configuração violino/viola de arco/contrabaixo/saltério, à qual acrescentaram a guitarra, o bouzouki, mais uma “zongura” e um “cembalon” tocados por convidados ciganos que durante anos actuaram ao lado de músicos judeus.
Concluída a leitura do folheto, que fornece informação detalhada sobre a origem e significado de cada faixa, bem como da música judia klezmer em geral, entra-se nestas canções “perdidas” como no templo de Salomão. O som parecerá familiar a quem já viajou nas asas da música até ao limite oriental da Europa. A diferença, subtil, que separa “The Lost Jewish Music” dos anteriores álbuns da banda torna-se perceptível a um nível intuitivo. O ritmo é menos sacudido que nas usuais folias ciganas, incluindo por exemplo uma espécie de “ragtime” klezmer tocado em “cembalon”. Nota-se, por outro lado, e nisto reside um dos prazeres maiores da audição, um calor, uma radiação de sentimentos interiorizados de forma peculiar que permitiram a Marta Sebestyen rubricar neste álbum algumas das suas melhores vocalizações de sempre: “Szól a kakas már”, uma história sobre um rabi que “roubou” a um jovem pastor a beleza e visão interiores, a troco de duas moedas, e “Keserves”, canção de lamento devocional de mulheres.
Um grande disco e uma louvável tentativa para retirar do anonimato uma tradição musical que começa a emergir do “ghetto” a que tem sido remetida. (9)

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Klezmatics – “Rhythm + Jews”

Pop Rock

23 JUNHO 1993
WORLD

KLEZMATICS
Rhythm + Jews

CD Piranha, distri. Etnia


k

A estratégia de divulgação da música tradicional judaica delineada pelos Klezmatics é diametralmente oposta à dos Muzsikas. Onde estes se mantêm fiéis a um registo aprendido dos manuscritos e da tradição oral, os Klezmatics seguem a via da transgressão e da modernidade. O modo como estes lidam com o passado arruma-os ao lado de Ivo Papasaov, na Bulgária, ou, pasme-se, ao nível de uma certa atitude, dos Hedningarna, na Suécia: energia, energia, energia e uma grande dose de originalidade. Os sopros, num ciclone entre o jazz e uma espécie de “ceilidh” hebraico, atropelam-se em ritmos cruzados, o acordeão junta-se à festa e, de súbito, a voz, uma voz de timbre e inflexões pouco usais e plenas de dramatismo, de Lorin Sklamberg, vem recordar-nos toda a tristeza e todas as lágrimas vertidas por um povo que, embora marcado ao longo da História pela dor, nunca se vergou a ela. “Di zun vet aruntergeyn”, o pungente “Honikzaft” e “Shnirele fantasy” em quatro movimentos. À laia de prefácio, os Klezmatics apresentam no livrete, por ordem alfabética, o léxico completo dos tempos actuais, numa lista dos temores, horrores, “slogans” e disfunções várias que afectam a nossa sociedade. Os “blues” do “kibutz”. (8)

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Emilio Cao – “Cartas Marinas”

Pop Rock

23 JUNHO 1993
WORLD

EMILIO CAO
Cartas Mariñas

CD Lyricon, distri. Etnia


EC

Segundo parece, nunca mais teremos deste autor um álbum da qualidade de “Fonte do Araño”. Emilio Cao, músico galego habitualmente com um pé em Portugal, é um excelente harpista, um cantor sofrível, e um compositor que tem alternado o melhor e o pior. “Cartas Mariñas”, composto sobre textos do poeta Manuel Antonio, o Rimbaud galego, vítima aos 30 anos da tuberculose, presta um mau serviço tanto às palavras como à música da Galiza. Cao toma-se aqui pelo cantor que não é, em vez de se confinar aos murmúrios e fungadelas que costumam acompanhar as suas prestações mais intimistas.
Os diversos temas, submetidos à temática do mar, estão mais próximos da new age do que da folk, fazendo jus ao assunto pelo enjoo que provocam. Depois sobressai uma mistura infeliz que faz por exemplo soar de forma extremamente agressiva e áspera o som da sanfona, instrumento que Cao não domina, no tema que mesmo assim consegue ser dos melhores do disco: “Domadores do mar”. A beleza da capa e os pormenores de execução na harpa não chegam para evitar a desilusão. (4)



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