Arquivo mensal: Maio 2015

Mike Oldfield – “Tubular Bells II”

Pop Rock

9 SETEMBRO 1992

CANOS DE ESGOTO

MIKE OLDFIELD
Tubular Bells II

LP/MC/CD Warner Bros., distri. Warner portuguesa

Negócio é a palavra-chave. Negócio de imagens, números, reciclagem, desenterrar o passado, polir o produto e apresentá-lo como uma “ideia original”, inteligente, um golpe de génio. É disso que trata “Tubular Bells II”, versão tardia, de 20 anos, do original que nos anos 70 “revolucionou” a música pop, nas palavras de Rob Dickins, presidente da Warner no Reino Unido. Ao ponto de, na campanha publicitária, o primeiro “Tubular Bells” ser referido como uma “prequel”, dando a entender que o novo produto é que é o genuíno, numa brincadeira sintomática que recupera o termo “sequel”, ou sequela, cada vez mais em voga no cinema.
Dickins fala, a propósito, num “mundo de ‘Alien III’, ‘Arma Mortífera III’ e ‘O Exterminador Implacável II’, um mundo de números, de exploração de fórmulas que deram frutos dourados. Se “’O Padrinho II’ era melhor que o primeiro”, diz ainda Dickins, porque não ver em “Tubular Bells II” apenas a “sequência lógica” daquela atitude transposta para a música? Porque é óbvio que não, respondemos nós.
Coincidindo com a edição do novo disco de Mike Oldfield para a Warner, pela primeira vez, Richard Branson da Virgin não auferirá de quaisquer proventos. O compositor, guitarrista e multi-instrumentista assegurou também um novo acordo com a EMI, que, recorde-se, adquiriu todos os seus direitos de autor, quando da compra do grupo Virgin. “Tubular Bells II” terá ainda direito a um “home video”, na Warner, consumada que está a apresentação ao vivo, com pompa e circunstância, num espectáculo realizado num castelo de Edimburgo, que os portugueses tiveram oportunidade de assistir, na sexta-feira, em directo pela televisão.
“Tubular Bells II” é a versão adocicada do original. Carregou-se nas tintas “new age” e na limagem de arestas. A estrutura é a mesma, respeitando as diversas partes onde nem sequer falta a sequência final do primeiro lado (no formato vinílico), com um “mestre de cerimónias” incumbido de apresentar os diversos instrumentos até ao momento apoteótico correspondente à entrada dos célebres “tubular bells”. Mas como os tempos mudam, apesar de tudo, ouve-se uma introdução a “two sampled guitars” e a outros artefactos electrónicos que, diga-se de passagem, são muito menos românticos que os “mandolins” e “glockenspiels” do disco antigo. Não faltam a voz feminina à beira do desfalecimento de Sally Bradshaw e as gaitas-de-foles, aqui entregues aos P. D. Scots Pipe Band e aos Celtic Bevy Band. Mike Oldfield toca o esperado estendal de instrumentos, incluindo os sinos, e Trevor Horn assegura a produção, ele que foi um dos grandes impulsionadores do projecto e a quem, por tal motivo, devem ser assacadas responsabilidades. Nunca há só um culpado.
Ainda segundo Rob Dickins, “Tubular Bells” dirige-se a uma “subgeração de jovens fartos de música minimalista, à base de ritmos computorizados e ‘samples’” que procuram “outra coisa qualquer, próxima da música clássica”.Essa coisa é um híbrido mole e requentado, um golpe oportunista, pese embora os argumentos em contrário avançados por todos os envolvidos, com a agravante de minimizar e conseguir apagar as virtudes, que as havia, da versão original. Os tubos, depois de cornucópia de divisas, mesmo se a nova capa os mostra dourados, passaram a canos de esgoto. Não por acaso, sempre se foi lembrando que “Tubular Bells II” já vendeu, 20 anos passados sobre a sua edição, mais de 16 milhões de cópias em todo o mundo, mantendo uma média de vendas anual na ordem dos cem mil exemplares. É obra. Mas não de arte. (3)

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Tom Verlaine – “Warm And Cool”

Pop Rock

8 JULHO 1992

TOM VERLAINE
Warm and Cool

LP/CD Rough Trade, distri. MVM

Inesperado. Relaxante. Espartano. Ambiental. Um objecto de cristal. De despojamento. Tom Verlaine recupera a guitarra como instrumento ao serviço da serenidade, num exercício contemplativo que o coloca entre as vastidões desérticas de Ry Cooder, a sedução expressionista de B. J. Cole e a pureza tímbrica do doutor Les Paul.
Demarcando-se aqui de quaisquer pulsações rock, o antigo guitarrista dos Television descola dos “blues” a nostalgia para flutuar no diálogo tripartido, por vezes quase sonambúlico, com o baixo de Patrick Derivaz e a bateria de Billy Ficca. Música de refracções luminosas, tremulando entre as sombras do crepúsculo. “Warm and Cool” passa com tranquilidade, em vagas onde a guitarra nunca tem pressa de chegar a lado algum. “Cool”, sem dúvida. Cada tema é um pequeno lago de água escura. Cada nota um pingo de chuva, um estilhaço de espelho. Música com paredes de vidro. Nocturna. Naquela hora da noite em que se escuta o silêncio, as ruas estão desertas e os pensamentos fazem eco. Algures, ouvem-se passos. (7)

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Momus – “Voyager”

Pop Rock

8 JULHO 1992

MOMUS
Voyager

LP/CD Creation, distri. MVM

Sabe-se como as palavras desempenham um papel primordial na obra de Momus, o hedonista obcecado pela confissão das suas perversões sexuais mais heterodoxas, como fazer amor tendo atado o… é melhor passar adiante. Estranha-se por isso a não inclusão das letras das respectivas sessões de psicoterapia, remetendo-se o auditor para a leitura de “Lusts of a moron – the lyrics of Momus”, no caso de querer guardar as palavras para fins preventivos, ou simplesmente como manual de instruções. Quem sabe, um súbito acesso de pudor? “Voyager” é, do princípio ao fim, uma viagem pelos ritmos do sequenciador, em canções hipnóticas que o são à custa da repetição, e que servem para Momus ir murmurando, com a voz monocórdica que lhe é habitual, as tais da histórias da vida, às vezes pouco natural. “Summer holiday 1999” afasta-se um bocado da linha dos restantes temas, no registo mais diversificado e quase barroco da electrónica, em que o próprio Momus acorda da letargia vocal e se atreve a cantar em vez de simplesmente versejar. Pouca matéria para pensar, toda para dançar. (5)

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