Arquivo mensal: Março 2012

Low Res – “Blue Ramen”

07.02.2003

Low Res
Blue Ramen
Plug Research, distri. Ananana
6/10

Mais um disco que parece ter saído da fábrica ainda a pingar o “som do momento”. Electrónica ambiental, ambientes digitais, notas alinhadas de maneira a parecer jazz, “easy listening” à hora do “cocktail”, batidas automáticas de rumba tiradas de “presets” de velhos órgãos electrónicos. É a fórmula escolhida pelos Low Res para tentar bater a concorrência e arranjar um cantinho sossegado para fazer correr os seus programas. A fusão, se assim se pode chamar, de “Blue Ramen” encontra antecedentes no Paul Schütze “light” de “Site Anubis”; o som, deliberadamente artificial, tresanda a Atom Heart (do projecto mimético Lassigue Bendthaus) e, esforçando um pouco a imaginação, até é possível encontrar numa faixa como “Dirty serenade” uma microssequência transportando a informação dos ficheiros de Robert Wyatt. Soa, em suma, como um produto típico da idade cibernética, clone de um clone de um clone de uma entidade entretanto desaparecida. Música ambiente que faz as cidades modernas mergulharem ainda mais fundo na sua solidão.

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Peter Gabriel – “Peter Gabriel 1” (self conj.)

24.01.2003

Peter Gabriel

Peter Gabriel 1
8/10

Peter Gabriel 2
7/10

Peter Gabriel 3
8/10

Virgin, distri. EMI-VC

Quando Gabriel Se Tornou O Anjo Negro

Os últimos anos da década de 70 foram cinzentos. Peter Gabriel abandonara os Genesis e o seu teatro sinfónico para, também ele, vestir a gabardina e fungar a depressão. Mas o primeiros disco que gravou a solo, em 1977, sem outro título além de “Peter Gabriel” (o mesmo aconteceria aos três seguintes), identificado como “Car”, permanece ainda sob o domínio da fábula, ainda que a máscara começasse já a desbotar sob os efeitos da água da chuva. O álbum, ainda não totalmente liberto dos lampejos “progressivos” dos Genesis, conta algumas das melhores histórias do arcanjo, como “Solsbury Hill”, “Humdrum” ou o aviso prévio do fim dos tempos que é “Here Comes the Flood” (vale a pena ler a letra e tomar as precauções devidas…).
O segundo capítulo (1978), identificável como “Scratch”, início de um processo de transfiguração que se reflectiria na sucessão de capas até ao volume quatro (o grafismo desta mostra Gabriel a rasgar a imagem pelo lado de dentro), escurece nos ciclos de mania que são qualquer coisa de inevitável sempre que está presente alguém como Robert Fripp. Fripp incluiria mesmo no alinhamento uma versão alternativa de um tema da sua autoria, “Exposure”, que serviria de título ao seu primeiro álbum a solo. “Mother of Violence” e “Animal magic” reforçam a ideia de que, provavelmente sob a influência do guitarrista dos King Crimson, Gabriel abandonara o imaginário dos Genesis para dar vida às suas visões mais obscuras e obsessivas.
No terceiro volume (1979), anotado como “Melt” (na capa o rosto do músico derrete, corroído pelo ácido), apesar do som soar hoje algo datado, a presença do Fairlight (primeiro sampler comercializado) e os tambores tribais, sem pratos, de Phil Colins, ajudam a construir uma fusão bizarra de industrialismo, surrealismo e cânticos de guerra. Prevalece o clima de crime e paranóia, em faixas como “No self-control”, “I don’t remember” e um muito genesiano “Family snapshot”. “Games without frontiers”, paródia aos “Jogos sem fronteiras” e metáfora sobre a alienação da Europa, funcionou bem como “single” enquanto o hino “Biko”, inspirado no assassinato do activista sul-africano Stephen Biko, confere ao álbum uma nota politizada. Estava aberta a porta ao papão. Mas seria a “world” music a aproveitar a deixa no álbum seguinte. As novas reedições, remasterizadas, são em cartão, embora não respeitem na íntegra o formato das embalagens originais.

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Meredith Monk – “Mercy”

10.01.2003

Meredith Monk
Mercy
ECN, distri. Dargil
9/10

LINK

Escrita para uma “perfomance” criada por Monk de parceria com Ann Hamilton, a música de “Mercy” prossegue uma via de desenvolvimento encetada com “Dolmen Music”, de aliança entre a polifonia antiga, o minimalismo, a electrónica e a investigação sistemática dos limites musicais da voz humana. Acompanhada pelo seu habitual “ensemble” vocal, Allison Sniffin (piano, sintetizador, viola e violino), John Hollenbeck (percussão, melódica, piano) e Bohdan Hilash (clarinetes), Meredith Monk sobrepõe “layers” vocais/corporais sobre fraseados melódicos repetitivos, ora de estrutura menos linear, como no mafnífico “Core chant” final, liturgia imbuída do ascetismo pré-barroco de um Schutz ou de Gabrielli. Outras inflexões aponta para a obra de Daniel Schell (“Braid 1”), o canto gregoriano (“Braid 2”) e cuiriosas acentuações árabes (“Urban March”), a par de extensões fonéticas patentes em “Masks” (apesar de Irene Papas ter feito, há anos, algo muito semelhante….). Um mundo único e em perpétua expansão que em “Mercy” roça a perfeição.

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