Arquivo mensal: Fevereiro 2012

Vários – “Nuit Celtique II”

27.02.2004

Vários
Nuit Celtique II
DVD
Ed. e distri. Sony Music
8/10

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15 de Março de 2003. Um estádio de futebol (o Stade de France, em Paris) encheu-se para ouvir música céltica, na segunda “Nuit Celtique” com selo organizativo do festival intercéltico de Lorient, Bretanha, um dos mais prestugiados do circuito folk europeu. 500 artistas provenientes do polígono celta (bretanha, Irlanda, Gales, Galiza e Astúrias) proporcionaram uma noite única. Quando John Kenny entra sozinho erguendo ao alto uma longa trompa com cabeça de lobo, o silêncio religioso que se instala não faz prever a euforia que explodirá a seguir. “Bagads”, bandas militares escocesas, coros, um grupo de pandereteiras, outro de metais, uma orquestra sinfónica, dança irlandesa, “ceilidh” e bretã – a cerimónia adquire todos os tons da celtitude. Os convidados mergulham no ambiente, presos como a multidão ao sortilégio. Carlos Nunez está em transe, toca alguns dos temas que puderam ser escutados há poucos dias em Portugal. Os olhos brilham e, no meio do habitual desempenho virtuosístico na gaita-de-foles, solta urros de incitamento e não pára de declarar que a Bretanha é um paraíso (o que é verdade). O coro vocal de anciãos Flint Male Voice Choir antecede mais folk rock, pela banda do jovem cantor bretão Deniz Prigent. As dançarinas dos Roscara Dancers da Irlanda são fadas a voar. As maiores estrelas actuam no fim mas soçobram na grandiosidade do momento. Sinead O’Connor, sem voz nem presença, parece uma menina perdida com a sua folk de trazer por casa. Por fim, como corolário lógico, chega o bardo bretão, Alan Stivell. Canta e toca harpa, hesitante, enquanto à sua volta, num imenso crescendo, se vão juntando orquestra e dançarinos. Só a voz e as notas mortiças de harpa estão desfasadas, presas ainda a este mundo. Alan Stivell perdeu-se no caminho mas o caminho continua. Lá e cá.

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Paco De Lucia – “Cositas Buenas”

20.02.2004

Paco De Lucia
Cositas Buenas

Ed e distri Universal
7/10

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Melhor “Cositas Buenas” do que nada. Paco de Lucia, um dos magos do flamenco, é incapaz de fazer maus discos. O “duende” pode estar mais ou menos adormecido dentro de si mas pode sempre esperar-se alguma chama. Sem o esplendor de álbuns como “Entre Dos Aguas”, “Siroco” ou “Amoraima”, “Cositas Buenas” impele à dança dervíchica e induz à sensualidade, dando voz e corpo à modernidade que tem sido desde sempre apanágio do guitarrista. O flamenco funde-se com o jaz rock no título tema e em “Antonia”, e com África, em “El dengue”. Estão presentes as palmas, os olés de incitamento e, na melhor de todas estas coisinhas boas, a voz de Camarón de la Isla (há aqui um enigma por resolver: as composições são novas, a voz não parece samplada mas a verdade é que o cantor há mais de dez anos que deixou o mundo dos vivos…) e a guitarra de Tomatito, em “Que venga el alba”. As bulerias, tangos, rumbas e tientos de “Cositas Buenas” mais do que fogo são água que refresca. A limpidez com que Paco de Lucia a faz nascer permanece impoluta.

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Ani Di Franco – “Educated Guess”

13.02.2004

Ani Di Franco
Educated Guess
Righteous Babe, distri. Megamúsica
8/10

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Declaração de Independência

O caso de Ani Di Franco faz pensar. Com alma educada na folk e corpo tatuado no punk, a cantora de 34 anos, natural de Buffalo, é a lutadora por excelência contra o sistema, a “workaholic” infatigável, adepta do “faça você mesmo”, mas também a compositora inspirada e uma “true original” que, álbum após álbum (e já lá vão 17), vem traçando uma obra ímpar no panorama dos “singer songwriters” norte-americanos. Se longe vão os tempos em que Ani percorria os EUA de costa a costa no seu Volkswagen de molde a satisfazer os compromissos de um calendário de 200 concertos por ano, a verdade é que, nem por isso se aproximou mais do que quis ou que devia do “mainstream”.
“Educated Guest” é tão marginal ao sistema como qualquer dos seus discos anteriores, ao ponto de assegurar, sozinha, a composição, interpretação, gravação e misturas das 14 canções. Mas Ani foi mais longe desta vez. Além do prodigioso trabalho de som que torna sonicamente fascinante um álbum quase exclusivamente elaborado com a voz e uma guitarra acústica, com esporádicas pontuações de piano eléctrico ou de “wind chimes”, é a própria música que evidencia uma riqueza e complexidade que neste álbum conseguem ser tão ou mais cativante do que alguns dos seus trabalhos mais “produzidos”, como “Little Plastic Castle” ou “Up Up Up Up Up Up”. Ani declama, examina-se ao espelho em “overdubs” vocais, tira da guitarra refracções e reflexos de electrónica artesanal ou aumenta a ressonância até às dimensões de uma caverna.
Depois, o seu sentido de ritmo e de dinâmica contradizem tudo o que a indústria musical exige actualmente das “divas” pop. Ao invés de fórmulas adocicantes e “groove” sintético, a música de “Educated Guest” elimina tudo o que não tenha a luminosidade do espírito e a textura sanguínea e musculada da carne. Implosões e explosões de palavras e frases de guitarra que tanto bebem no “blues” e no “jazz” como numa “folk” espectral ilustram um sentido intricado do tempo e o desejo de experimentação, a par de uma elegância que jamais se dilui no novelo de canções psicológica e socialmente empenhadas. Ani apenas terá como concorrentes Joni Mitchell e, no caso de “Educated Guest”, o álbum mais “difícil” da cantora canadiana, “The Hissing of Summer Lawns”, sem os sintetizadores e as percussões africanas; e, esporadicamente, Annette Peacock, com quem partilha o gosto pela “spoken word” “swingante”, em que a acutilância e a ternura se confundem, em poemas apontados a alvos precisos, como “Grand Canyon” – uma raspagem ao relevo emocional e social da América e um retrato cruel dos seus habitantes, tão carregados de sarcasmo como de esperança – como ela, “born of the greatest pain/into a grand canyon of loght”.
Ani canta e “scata” como uma criança magoada, um sádico em busca de vítimas, uma “blueswoman” (por vezes mais próxima do misticismo descarnado de um John Fahey) em transe, uma sonhadora, uma guerreira. “Educated Guest” é a primeira grande declaração de independência da pop deste ano.

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