Arquivo mensal: Julho 2010

Sheryl Crow – Special Edition (conj.)

14.11.1997
Reedições
O Céu Pintado De Estrelas
Talvez porque o Natal está à porta, o mercado português está a ser inundado por uma quantidade de colectâneas e redições das chamadas “estrelas”. É uma boa oportunidade para decorar a estante com caixas de êxitos que, na maior parte dos casos, já toda a gente conhece.

Do monte de colectâneas e reedições que chegam ao mercado nesta altura, a caixa mais importante é, sem dúvida, a dupla correspondente à reedição de “200 Motels”, de Frank Zappa, obra de fôlego composta pelo génio entre 1967 e 1971 para a banda-sonora do mesmo nome. O álbum faz parte de uma nova série de “OST” (“Original Soundtrack”, “soundtrack”, em português, “som de traque”), da Rykodisc, cujo primeiro pacote inclui ainda as bandas-sonoras de “Carrie”, “Chitty, Chitty, Bang, Bang”, “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” e “Octopussy” (da série James Bond), todas em “Deluxe Edition”, com apresentações impecáveis e uma reprodução dos “posters” de lançamento originais. Inexplicavelmente, estou a usar uma quantidade absurda de termos estrangeiros. Mas voltemos a Zappa. “200 Motels” não é o melhor álbum, longe disso, do homem dos bigodes. Mistura, em doses desiquilibradas, mas sem dúvida capazes de impressionar o desprevenido consumidor de pop no ingénuo ano da graça de 1971, sequências clássicas pela Royal Philharmonic Orchestra, apontamentos humorísticos e “rock ‘n’ roll (“roca e rola”, chega de estrangeirsmos) na veia (na veia?) dos Mothers of Invention (“Matas da Invenção”), como “Magic Fingers”, em duas versões. A reedição inclui ainda quatro “spots” (“potes”) publicitários originais feitos para a rádio e um livrete cheio de informação e fotos da fita. Sendo uma boa amostra da faceta mais erudita de Frank Vincent Zappa, “200 Motels”, não obstante, não se livra de cair ocasionalmente no aborrecimento, o que, sendo o seu autor quem era, não deixa de ser surpreendente. 200 motéis é muito motel. (Rykodisc, distri. MVM, 6)

Outro músico importante que já não petence ao mundo dos viivos é John Lennon, cuja memória volta a ressuscitar através de “Lennon Legend”, subintitulado “The Very Best of John Lennon”. É uma colectânea sem surpresas, que parte da apresentação de alguns dos temas mais famosos do ex-Beatle, como “Imagine”, “Mother”, “Jealous Guy”, sem esquecer a faceta mais politizada dos Plastic Ono Band, de “Instant Karma2 e “Power to the People”, o Lennon “rocker” de “Cold Turkey” e “Whatever gets you thru’ the night”, e o baladeiro romântico, de “Woman”, e esquerdista, de “Working Class hero2, passando pelo “reggae” de “Borrowed time”. O álbum termina, adequadamente, numa nota natalícia, com os manifestos pacifistas “Happy Xmas (war is over)” de “Give peace a chance”. Lennon ficou para a História como o Beatle rebelde, em oposição à imagem de esteta que ficou colada a Paul McCartney. Chamem-me nomes, mas a realidade é que o primeiro nunca chegou aos calcanhares do segundo, em matéria de composição de boas, clássicas canções. Mas é claro que Lennon sempre representou com outra convicção os valores politicamente correctos da sua geração, mesmo que os seus melhores momentos como compositor revelassem, afinal, um incorrigível romântico, capaz de escrever coisas tão belas e tão simples como “Love”, uma das grandes canções desta “Lenda”, que conservou até hoje toda a sua frescura. Só por isso devemos dar algum desconto a Yoko Ono. (Parlophone, distri. EMI-VC, 7).

Avancemos para gente para quem a rebeldia é conceito totalmente desconhecido. Mike Oldfield, menino-prodígio dos anos 70 que encheu os bolsos ao patrão da Virgin à custa do megasucesso “Tubular Bells”, transformou-se nos últimos anos num dos gurus da “new age”, ultrapassada a fase criativa que caracteriza os primeiros álbuns, “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations” e “Five Miles Out”, regressando ainda no mais tardio “Amarok”, antes de se eclipsar nas traseiras da vulgaridade. Foi então que o multiinstrumentista se lembrou da fábula da galinha dos ovos de ouro, partindo para um “Tubular Bells 2” de má memória que, mesmo assim, lhe terá feito reembolsar mais alguns milhões. A má notícia é que, a julgar pelo último tema desta colectânea, há já um “Tubular Bells 3” no prelo. Mas “XXV – The Essential Mike Oldfield” (XXV porque o velho Mike já leva XXV anos de carreira…) dirige-se, em primeiro lugar, aos saudosistas, reunindo excertos das longas composições que ocupavam invariavelmente lados inteiros dos discos em vinilo, pertencentes aos quatro primeiros álbuns, atrás mencionados, seguidos de uma canção gira de “Crises”, “Moonlight Shadow”, vocalizada por Maggie Reilly, e do “single” “Portsmouth”. Depois vem o pior, dois temas de “Tubular Bells 2” juntos com nacos de “Songs of Distant Earth” de “Voyager”, típicos da fase “tecno prog” do músico. Informa-se ainda V. Excªs que Mike Oldfield era o extraordinário guitarrista que acompanhava Kevin Ayers, no não menos extraordinário grupo The Whole World. Mudam-se os tempos… (Warner Bros., distri. Warner Music, 5).

Podia perfeitamente ter pertencido ao grupo de cantoras que, ao longo dos anos, foram dando voz feminina à música de Mike Oldfield, como Maggie Reilly e Sally Oldfield. Só não aconteceu porque não calhou. Para Enya, o destino foi outro. Depois de abandonar os Clannad em 1982, para onde entrara já na fase descendente do grupo, Enya criou o seu estilo pessoal, tirando partido de uma voz incomparavelmente doce e de um tipo de produção dirigido ao mercado “new age” de influência “celta” (a “celtic ambient”, como já lhe chamam na “Folk Roots”…), o que lhe valeu a conquista do prémio de “melhor álbum” nesta categoria, em 1995, com “The Memory of Trees”, e de um “Grammy”, quatro anos antes, com “Sheperd Moons”. “Paint the Sky with Stars: The Best of Enya” passa em revista alguns dos melhores momentos da cantora, incluindo, a abrir, o altamente trauteável “Orinoco Flow” e “The Celts”, título-tema do álbum que melhor soube recriar as envolvências celtas que sempre a inspiraram. Os indefectíveis têma ainda ao seu dispor um par de inéditos, “Only if…” e “Paint the sky with stars”, um belo título, ao nível do cuidado extremo posto na embalagem, jogando nas cores e nas texturas de uma proposta musical e de um rosto que, goste-se ou não, possuem um incomparável poder de sedução. (Warner Bros. distri. Warner Music, 6)

Mais uma senhora, a terminar. Esta mais recente e cultivadora de outro tipo de imagem. Falamos de Sheryl Crow, que em “Special Edition” (o álbum editado recentemente, “Sheryl Crow”, acrescentado de um segundo CD com actuações ao vivo) confirma estar alguns furos acima da chusma de candidatas a estrelas que todos os dias vão aparecendo com o fito de tentar chegar aos “tops”. Feita a aposta numa produção seca e numa criteriosa selecção de canções, tudo se conjuga para fazer brilhar ao máximo a voz de Sheryl, que aqui se revela capaz, tanto de recriar o neo-country, em “Redemption Day”, como de fazer a evocação de John Lennon, em “Ordinary Morning”, ou de se afirmar como veículo de uma “rocker” de cabelos ao vento. Para os registos, fica uma canção absolutamente a guardar no cofre das excepções, a belíssima e interiorizada “The Book”, virando as mesmas folhas de Suzanne Vega, e a ideia de que um corte no alinhamento poderia valorizar ainda mais um álbum onde o sentido comercial não dispensa um elevado nível de exigência. (A&M, dustri. Polygram, 6).

Declan Masterson – Drifting Through the Hazel Woods (conj.)

31.10.1997
World
Prendas de Natal
“Celtic Twilight”, “Celtic Lullaby”, “Celtic Odissey”, “Celtic Legacy”, “Celtic Heartbeat”, “Celtic Potatoes”, “Celtic Shit”. Socorro, tirem-me daqui! Desamparem-me a loja. Se isto é música céltica, eu sou australiano. Mas era de prever. As pessoas precisam de lenitivos, de sonhos, de coisas bonitas, como diria Artur Jorge. “Celtic” tornou-se sinónimo de conforto por medida.

Agarre-se num postal ilustrado, de preferência com um lago e muita verdura (um castelo também calha bem), numa harpa e numa menina de olhos verdes e cabeleira loura e pronto, está composto um cenário “celta”. As pessoas adoram.
O pior é que a música tradicional de raiz céltica, que de facto existe e que, apesar de tudo, goza de boa saúde, tem pouco ou nada a ver com estas séries “celtic” que vão aparecendo um pouco por todo o lado.
É a velha operaçãod e liofilização do produto, tão do agrado da indústria, quando se trata de controlar e desvirtuar determinada música situada fora dos parâmetros “mainstream”. Por regra, as produções são asépticas, com as tais capas postal-ilustrado e a música produzida por gente, alguma dela com responsabilidades, cuja preocupação principal é ganhar dinheiro. Deitemos, de qualquer modo, um olho ao pacote mais recente.

A série “Celtic Heartbeat”, com distribuição MCA, acaba de lançar o que, para muitos, será a prenda de natal ideal. “The Roots of Riverdance”, de Bill Whelan, sucede ao multipremiado espectáculo “Riverdance”, capitalizando em obras anteriores deste especialista na composição de “suites” orquestrais que, regra geral, contam com grandes músicos da tradição irlandesa. Estão neste caso “The Sevilla Suite” e “The Spirit of Mayo”, onde marcam presença, entre outros, Eileen Ivers, Dónal Lunny, Nollaig Casey, Mairtin O’Connor e Tommy Hayes, a par de excertos de “EastWind”, de Andy Irvine e Davy Spillane, e de “Riverdance”. Tudo o que foi possível arranjar com a participação de Bill Whelan. Mesmo assim é, de longe, o melhor disco do lote. (7)

Declan Masterson é, em termos rigorosamente técnicos, um bom executante de “uillean pipes”. Infelizmente o bom-gosto não impera na composição e nos arranjos de “Drifting Through the Hazel Woods”, um pastelão de programações do piorio. Comparado com o nível médio dos discos de ouro “piper” de gostos semelhantes, Davy Spillane, é bastante pior. (3)

“Omnis”, do colectivo vocal Anúna, consegue ser boa música de fundo. O álbum de estreia do grupo era bom. O mercado encarregou-se de tornar inócuas estas harmonias que parecem descer dos céus mas que na verdade não passam de um rigoroso trabalho de cosmética laboratorial. (5)

Outra obra de fôlego é “The Children of Lir”, de Patrick Cassidy. Neste caso, a “folk” desaparece para dar lugar a uma composição sinfónica, com ocasionais intromissões profanas de sabor “rock”, no qual participa uma das mais notáveis formações de música antiga da actualidade, os Tallis Choir. Ouve-se com outros ouvidos, embora a faceta ecorativa não tenha sido totalmente leiminada. (6)

Thomas Loefke é um alemão apaixonado pelas tradições irlandesas e pelo imaginário celta mais delicodoce. Para romper os véus de Tir Nan Aog, nada melhor do que fazer passar os dedos por uma harpa céltica. Se assim pensou, melhor o fez. “Nordland Wind” é uma versão plastificada que junta o pior Alan Stivel à frivolidade de um William Jackson, amparado em vocalizações de duas senhoras que, entre imitarem as inglesas June Tabor e Sandy Denny, revelam uma total incapacidade para compreender os segredos do genuíno canto irlandês no feminino. (5)

Frances Black tem boa voz, mas não a confundam com uma cantora “folk”. “Talk to me” agradará aos apreciadores de canções de variedades, ponto final. (3)

E já que se falou em prendas de natal, era natural que na Celtic Heartbeat se lançasse, com a devida antecipação, um objecto destinado a esse fim. Então aí temos “A Celtic Heartbeat Christmas”, cuja embalagem explica melhor do que mil palavras o conceito subjacente: um violino misturado com enfeites de Natal. A escolha dos celebrantes, em excertos de discos já editados antes, enfia os Altan ao lado dos “maus” Clannad, os “vendidos” Nightnoise (com senhores e uma senhora que já pertenceram aos Botty Band…), Thoms Loefke, Anúna, Declan Masterson, Brian Dunning (um ex-Gryphon, vejam lá…) e Cormac Breatnach, entre outros. Feliz Natal para eles e para todos nós. (5)

Também com a etiqueta “celtic” apareceu outra colectânea, desta feita com canções de embalar, “The Celtic Lullaby”, num selo do qual não se esperaria, tão cedo, cedências deste tipo, a Ellipsis Arts…, e com um anjinho na capa. Como, por regra, se trata de um género lento, funciona às mil maravilhas. Colaboram alguns nomes interessantes, alguns deles com pergaminhos: Tommy Sands, Plethyn, Jean Redpath, Mac-Talla e Alison Kinnaird. O melhor elogio que se pode fazer é que cumpre na perfeição o objectivo de pôr, mesmo o adulto mais “stressado”, a dormir. Como um anjinho, claro. (Ellipsis Arts…, distri. Megamúsica, 5).

Reservamos para o final uma surpresa agradável, o mais recente de Loreena McKennitt, “The Book of Secrets”. Embora insistindo na mesma tónica de sempre, uma abordagem leve da música antiga e da “folk” do ciclo Arturiano, com ramificações nas músicas do Oriente, na efabulação de um panceltismo planetário, o álbum oferece não poucos motivos de deleite, indo mais fundo do que os anteriores. Tmas longos, construídos sobre o equilíbrio de programações electrónicas mais discretas do que o habitual e uma vasta e sofisticada gama de sonoridades acústicas. “The Book of Secrets” regista dois excelentes momentos: “The Mummer’s Dance”, enobrecido pelo “swing” medieval do convidado Nigel Eaton, na sanfona, e os dez minutos de “The Highwayman”, onde a diversidade de registos e entoações vocais, verdadeiramente encantatórias, de Loreena McKennitt se consegue equiparar aos melhores momentos de Maddy Prior com os Carnival Band (Quinlan Road, distri. Warner Music, 6).

Elizabeth Anka Vajagic – Stand With The Stillness Of This Day

17.09.2004
Elizabeth Anka Vajagic
Stand With The Stillness Of This Day
Constellation, distri. Sabotage
6/10

LINK

Passar 40 minutos a gemer em agonia num disco não é proeza ao alcance de qualquer um. Elizabeth Anja Vangajic não só o consegue como deixa quem o ouve de rastos. É mais uma artista da Constellation e está tudo dito. A coisa passa-se assim: Elizabeth esvai-se em cada canção enquanto por detrás se fazem ouvir omnipresentes “drones” de violinos sepulcrais, mais pianos gélidos, guitarras sem alma, lascas de mármore e ruídos de electrónica de tempestade, como em “Around here”. Existe um som Constellation, sem dúvida, e para acentuar tal facto nem faltam neste disco as colaborações de elementos dos gybe! E dos A Silver Mt. Zion. Significa que o já tradicional movimento “vai acima, vai abaixo”, leia-se subidas e descidas musico-emocionais, entre clímaxes de “noise” orquestral e a depuração máxima, funciona em pleno. A capa também não engana, com as suas estátuas, portos desertos à chuva e templos em ruínas, em tons de pastel escuro. Estranhamente, o tema de abertura, quase podia fazer lembrar os Radiohead à hora da morte. É que Anka não perdoa, ao cantar palavras versos lapidares como “I Saw your face when you killed yourself/Smashed your face and you killed yourself”. Está visto que o Verão acabou.