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| By N2H | ||||||




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Encore
30 Anos Depois
Genesis
Encore Cascais 75
DVD distri. Bazar do Vídeo
7/10
Há 30 anos, o cordeiro deixou a Broadway para vir, mais do que descansar, desatinar Cascais e o público português. O DVD “Genesis Encore Cascais 75” relembra como tudo se passou, para gáudio dos que pretenderem reavivar a memória do mítico concerto de 6 de Março de 1975.
Intercalados com os vários depoimentos, surgem imagens da época que recuperam o ambiente político do país até se chegar ao próprio pavilhão Dramático de Cascais e, por fim, a imagens do concerto, captadas por elementos do público.
Os entrevistados vão desfiando memórias, nem sempre coincidentes com a realidade. Eram os tempos, diz alguém, em que os discos chegavam cá com meses de atraso. Não é verdade. As novidades, muitas delas álbuns obscuros, chegavam por via de importação com relativa celeridade a discotecas como a Melodia, Universal, Valentim de Carvalho, Sassetti e Sinfonia. Eram tempos, diz outro entrevistado, em que apenas havia publicações de música em francês (presumivelmente estaria a pensar na Rock & Folk” e na “Best”) e em alemão (“Bravo”9. Errado. Os jornais britânicos “Melody Maker” e “New Musical Express” há anos que ocupavam semanalmente os escaparates de algumas livrarias e papelarias de Lisboa.
Politicamente vivia-se o tempo do PREC (“Processo Revolucionário em Curso”), saltam imagens de comícios e manifestações de rua. O concerto dos Genesis era visto como algo difuso, “uma coisa colada à direita”. A voz “off” de José Mário Branco canta versos como “abaixo a burguesia e a exploração”. O 11 de Março não tardaria nessa “semana completamente louca” em que o jornal A Capital anunciava que a “CIA planeia golpe de estado em Portugal antes do fim de Março”. 20 liceus estavam em greve, era “vulgaríssimo haver cenas de pancadaria”. No meio de tudo isto o concerto dos Genesis era uma “coisa extra-terrestre”.
Chegado o dia, e para não destoar do contexto, “foi a balbúrdia total”. O DVD, realizado por João Dias a partir de um conceito idealizado por Mário Caeiro, mostra recortes de jornal. Num deles pode ler-se “Genesis em Cascais: Um novo processo de tortura voluntária”. As imagens paradisíacas do jardim anexo ao pavilhão escondem a violência e a incomodidade dos que conseguiram entrar, pagando ou não o bilhete de 80 escudos. São mostradas imagens do pavilhão, ainda em construção. 10 mil, 11 mil pessoas em cada um dos dias transformaram o Dramático de Cascais num barril de pólvora.
Mas quando o espectáculo começou finalmente, todo o sofrimento desaparece como por magia. Os rostos ficam “histéricos”. Alguém fala no chuto que sentiu quando o som irrompeu de repente das colunas. Ninguém esqueceu o aparato cénico. Peter Gabriel que aparece em dois locais do palco simultaneamente. “Uma projecção”. Um deles era um “boneco”. “Jogo de espelhos”. Ainda hoje o mistério permanece. Também é recordada a parte em que o vocalista dos Genesis passeia dentro de um tubo iluminado. Um “preservativo gigante” onde Gabriel fazia de “espermatozóide”. Só no fim do DVD, sobre as imagens do grupo em palco captadas por um amador, se ouve a música de “The Lamb Lies Down On Braodway”.
Os extras incluem material fotográfico abundante, desde imagens registadas durante os dois dias de concertos a uma fotoreportagem com fotos do grupo antes e depois dos concertos, em poses descontraídas na vila e na baía de Cascais.
Há ainda um apanhado de reacções da imprensa da época, reproduções das páginas da próxima edição da revista Cais (CasCAIS 75…) inteiramente preenchida pelo acontecimento de 1975 e excertos do espectáculo “The Lamb Lies Down On Broadway” que o grupo canadiano The Musical Box, clone dos Genesis, apresentará em Lisboa, na Aula Magna, em Maio, comemorando os 30 anos da edição original do álbum. Os The Musical Box, depois de já terem mimado álbuns anteriores do grupo original, como “Foxtrot” e “Selling England By The Pound”, foram desta vez ao ponto de reproduzir os modelos de instrumentos originais usados pelos Genesis em “The Lamb Lies Down On Broadway” e vão socorrer-se igualmente de todos os truques de encenação que a banda britânica usou em Cascais.
30 anos é muito tempo para ser concedido um “encore”. Mas ao ver-se este DVD parece que foi ontem.
01.10.2004
Néon
Ana da Silva
Menina Que Estás À Janela
Tudo partiu de um sonho e do desejo de fazer algo sozinha depois do fim das Raincoats. Ana da Silva sonhou que andava à deriva no mar, procurando tocar a luz de um farol. Chamou ao seu disco de estreia “Lighthouse”, que sairá em Novembro pela editora das Chicks On Speed.
Um farol brilha na escuridão. Em volta o mar agitado por ondas alterosas envolve-lhe o corpo, aproximando-a e afastando-a, num incessante movimento de fluxo e refluxo, da luz que brilha no cimo da torre de pedra. Ana da Silva, madeirense a viver em Londres e antigo elemento do grupo “indie” The Raincoats, teve este sonho e aproveitou-o para título e mote central do seu álbum de estreia a solo, “The Lighthouse”, a editar em Novembro na editora das Chicks on Speed.
“The Lighthouse” é a torre de orientação. Ana da Silva, ora com os olhos postos no mar ora fixos nos recantos do seu quarto interior, parece uma criança perdida, a correr à chuva atrás de um impossível brinquedo. A música, escrita, arranjada e executada pela própria, é assumidamente simples e introspectiva. O autocolante da capa chama-lhe “electric folk” mas é falso. O universo de faz de conta, a presença dos elementos naturais e uma forte dimensão imagética recordam ocasionalmente os mundos escondidos de Lisa Germano. Mas Ana da Silva não pretende mais do que retratar (ela pinta e faz fotografia como passatempo) estados de espírito provocados por coisas tão humanas como a amizade, o medo e a tentativa de encontrar um sentido para a existência.
O disco foi sendo feito aos poucos. As palavras foram-se juntando, depois vieram os sons, num beijo estreito. Extinto o grupo que tão rasgados elogios recebeu de Kurt Cobain, dos Nirvana (uma digressão conjunta chegou a estar marcada só que entretanto o poeta do “grunge” morreu), Ana da Silva não ficou parada: “Resolvi que havia de fazer qualquer coisa sozinha e comecei lentamente a pensar em como fazer, a escolher umas letras, a mexer um bocadinho na guitarra, até que encontrei uma aparelhagem electrónica que me permitiu fazer tudo eu própria, um pequeno sequenciador com teclado acoplado, uma maquineta Yamaha.” As músicas foram surgindo para acompanhar as letras. “Fui andando, trabalhando sempre, tive que aprender tudo o que tinha a ver com tecnologia MIDI, arranjei um gravador… Antes não percebia nada, fui aprendendo por mim própria…”
Por fim, chegou a um resultado definitivo, pegou na gravação e mostrou-a a Paul Smith, patrão da editora Blast First que já tinha editado um disco das Raincoats. “Para lhe pedir a opinião e conselhos, é uma pessoa muito conhecedora que gosta de coisas diferentes.” Ele gostou e mostrou-a por sua vez às Chicks on Speed, quando estas foram a Londres dar um concerto. A Chicks também gostaram de “The Lighthouse” e ficou decidido que o álbum sairia no selo delas. Pelo meio, um dos temas, “Modinha”, conta com a participação de Stuart Moxham, ex-Young Marble Giants. Um tema de António Carlos Jobim e o único cantado em português. “Esta canção foi feita antes do meu disco e faz parte do projecto de uma editora francesa com versões de músicas do Jobim. O Stuart telefonou-me a perguntar se eu queria cantar uma música do Jobim, eu disse que sim e escolhi esta, que não conhecia.”
Depois há a luz e as sombras que atravessam janelas, várias janelas. A janela de um hospital, diante da qual Ana da Silva passou um dia inteiro, numa visita à mãe internada, agarrada ao seu módulo electrónico – “é uma coisa pequena, com uma ficha para ligar à electricidade e levei uns auscultadores”, que deu origem ao instrumental “Hospital Window”. Ou as janelas sobre as asas do avião em que viajava para a Madeira e onde compôs “Two Windows over the wings”.
“As janelas separam o aqui do resto”, diz. O “aqui” é “The Lighthouse”, o lado de dentro, dos sonhos e das histórias, o “resto” pode ser a passagem do tempo e a observação das coisas. Ou as músicas que ao longo dos últimos anos foi ouvindo, “blues”, Chemical Brothers, Jim White, Miss Kittin. O farol, “uma janela de luzes”, o tal sonho. “Eu estava na água e queria chegar ao farol mas ficava ali, para a frente e para trás, sem o alcançar.” A capa, uma foto tirada por Ana numa praia em Sunderland, ao pé de Newcastle, mostra uma onda. “Estava no cais, quando vinha uma onda havia outra que a empurrava para trás, nunca chegavam a bater, senão tinha morrido” (risos) – “gosto do mar”. E gosta que a sua música crie imagens nas pessoas que a ouvem. “sou uma pessoa bastante visual, sou capaz de estar a ver um filme e estar interessada mais no que estou a ver do que na história. Gosto de olhar para as coisas, de tirar fotografias, de pintar.”
“The Lighthouse” é um disco melancólico mas Ana da Silva recusou a autobiografia explícita. “Senti-me um pouco como uma criança perdida”. “Calhou”, explica, “escrever nos momentos de maior melancolia, quando se está sozinho com os próprios pensamento”. Mas esclarece de seguida: “Mas não sou depressiva! O que eu sempre quis fazer com as minhas músicas é que, apesar de terem melancolia e mostrarem a solidão, apresentam sempre uma nota positiva. Muitas das canções acabam no fim por mostrar uma certa esperança.”
Escrever Cuidadosamente Palavras
Cada canção de “The Lighthouse” traz consigo um pequeno filme, um fragmento de viagem ou de memórias. “Friend” fala da “amizade e da separação, geográfica, ou quando uma das pessoas morre”. “Running in the rain” é um bocado mais complicada, escrita na terceira pessoa. “Às vezes escrevo na primeira pessoa mas nestes casos prefiro que não se saiba, não sou eu que estou a pensar isso, são canções não é uma autobiografia. Esta tem mais pedacinhos, é sobre uma mulher que continua a correr, apesar da chuva, À procura de alguma coisa…” E Ana da Silva, anda à procura de quê? “não sei, ando sempre a tentar descobrir coisas novas.” E como a inspiração vem quando menos se espera, Ana nunca se separa de uma caneta mesmo que esta, na maior parte das vezes, sirva para concretizar gestos tão comezinhos como o “preenchimento de um cheque” ou “apontar um número de telefone”. Em casa escreve e apaga e escreve outra vez cuidadosamente cada palavra, com um lápis e uma borracha.
O fascínio da imagem torna-se ainda mais evidente em “In awe of a painting”. “Vi um filme sobre o pintor Jean-Michel Basquiat, de quem gosto imenso, passa-se em Nova Iorque e senti-me como se estivesse dentro de um filem. Há uma cena que me marcou, onde alguém sente as lágrimas virem aos olhos apenas pela visão de um quadro. Essa capacidade de se ser tocado por uma pintura achei extremamente interessante. ‘In awe’ significa esse estado de espírito entre o espanto e o êxtase.”
“Disco ball” é o aproveitamento de um equívoco. “Há um disco da Madonna em que ela canta ‘I feel I just been born’. Mas a primeira vez em que ouvi essa canção percebi ‘I feel like a disco ball’, percebi mal. Gostei imenso deste novo verso e como ela não o tinha escrito achei que o podia utilizar. O problema estava em escrever o quê sobre alguém que se sente como uma bola de discoteca. A resposta é que ela reflecte o que está em volta. Há coisas que nos fazem brilhar e coisas que nos quebram.” A terminar “Climbing wall” fala do amadurecimento, do que sentimos à medida que a vida vai passando. “Amadurecemos, mas há sempre em nós uma parte, a tal criança perdida. Quando somos novos achamos que as pessoas são o aspecto que têm. Se têm cabelos brancos são velhos, se não têm são novos, as pessoas de meia-idade são outra coisa. Não é assim. Há pouca coisa que muda dentro de nós, aprendemos algumas coisas, ficamos mais ou menos tolerantes. Eu fiquei mais tolerante, entendo que as pessoas são todas diferentes. Somos aquilo que somos por dentro e é difícil fugir a isso. Temos que procurar limar as nossas arestas mais agudas.”
Um Gerador na Capela
Guy Evans & Peter Hammill
The Union Chapel Concert (6)
2XCD
Peter Hammill
Sonix (7)
David Jackson
Fractal Bridge (7)
Todos Fie, distri. Megamúsica
Refazer a história é difícil. Ressuscitar o mito é impossível. Os Van Der Graaf Generator são, quer se queira quer não, um mito, dos poucos que, nos anos 70, elevaram, de facto, a música progressiva à categoria de grande arte. Assinaram uma obra-prima absoluta, “Pawn Hearts”, dissolveram-se, reuniram-se de novo para viver uma segunda vida que culminou noutra obra-chave, já na antecâmara da década de 80, “Still Life”. Finalmente, o gerador extinguiu-se e cada músico seguiu o seu próprio caminho, embora as ligações entre os vários lementos jamais se extinguisse. Guy Evans foi, desde o primeiro álbum do grupo, “The Aerosol Grey Machine”, o baterista dos Van Der Graaf Generator (VDGG). Anos mais tarde, gravou com Hammill um disco instrumental de música electrónica que passou despercebido. “Spur Of The Moment”. Em “The Unon Chapel Concert” retomaram ambos, ao vivo, essa colaboração, com a curiosidade de contarem com a participação de todos os músicos que, em diversas fases, passaram pelo grupo. É assim que, a par dos diversos duos e trios com Stuart Gordon e Manny Elias, chegamos ao momento culminante do disco: Peter Hammill, Guy Evans, Daviod Jackson e Hugh Banton, os quatro juntos, ou seja, a formação mítica dos VDGG, de “Pawn Hearts”, para tocarem um tema deste disco, “Lemmings”. Poderia ser um momento de magia, mas, como já dissemos, os mitos não se ressuscitam. Não são os VDGG mas apenas quatro homens a tentar puxar pela memória, buscando uma mística inalcansável. Custa ouvir Hammill entrar atrasado com a voz numa aglomerado sonoro em que os decibéis não disfarçam a pobreza de uma estrutura que reduziu a um casebre o que era uma catedral. O resto do disco, incluindo uma versão, tanbém simplificada, de “Red Shift” (do álbum de 1974 de Hammill, “The Silent Corner and the Empty Stage”), é interessante. Diálogos entre as percussões computorizadas de Evans com as “hammilltronics”, na guitarra, de Hammill, Banton a comprometer-se com um “Adagio for Strings”, de Samuel Barber (1910-1981), e Stuart Gordon perdendo-se no violino no tradicional irlandês “Women of Ireland”.
Quanto à discografia a solo de Peter Hammill, já se sabe, o homem é mais prolífero que um coelho. Também no seu caso o tempo fez estragos. O génio que marca toda a sua obra até “A Black Box”, incluindo o equivalente solitário de “Pawn Hearts”, a descida solitária aos infernos que é “In Camera”, cedeu à pura excentricidade, de alguém que, seja como for, teima em não se deixar prender nas malhas do sistema. “Sonix” não é o seu novo álbum, mas sim um capítulo semelhante a “Loops & Reels”, isto é, uma colecção de temas, quase todos instrumentais, que incluem a banda sonora de “Emmene-moi”, uma peça extensa (26 m, a única vocalizada), “Labyrinthine Dreams”, para bailado, e experiências com “loops” (Dark Matter”) ou com novas tecnologias de estúdio (“Four The Floor”). Entre os diálogos pungentes da guitarra com o violino de Stuart Gordon, a graça de programações que fazem um teclado tocar sozinho e alguns ruídos curiosos, fica, também aqui, como já referimos, não estejamos perante a sucessão “oficial” do excelente e anterior álbum da Hammill, “Xmy Heart”.
Acaba por ser o álbum do saxofonista David Jackson o mais inovador dos três. Jackson era camionista, antes de entrar para os VDGG. Com o desaparecimento destes, participou em diversos projectos, entre os quais “The Long Hello” (uma série de álbuns descomprometidos que podem levar a assinatura de qualquer dos antigos elementos do grupo), antes de se dedicar à terapia pelo som. É neste âmbito que surge “Fractal Bridge”, um trabalho de música electrónica que usa, em larga escala, o chamado “Soundbeam”, um sistema de sintetizadores interligados por MIDI cuja particularidade é poder ser accionado através de movimentos do corpo. Uma espécie de harpa de feixes electrónicos de múltiplas frequências suspensos e manipulados no ar. “The Amazing Invisible Elastic Keyboard In The Air”, como David Jackson lhe chama.
Cada faixa corresponde a uma especificidade do sistema, jogando na combinação entre um número diferente de “soundbeams” e nos diferentes comprimentos de cada um, pondo em prátic ao conceito de “ponte fractal” enunciado no título. Mas o que poderia soar como um catálogo de sons bizarros é contido dentro de uma esfera estritamente musical, funcionado o “Soundbeam” e as suas quase infinitas potencialidades como um parceiro dialogante para os saxofones e flautas de Jackson. Umas vezes próximo da serenidade “new age”, outras agitado pela fricção da interactividade com a máquina, “Fractal Bridge” (produzido e com a participação de Peter Hammill, como em “Wildman”, um concentrado louco de Urban Sax) constitui um objecto de algum fascínio, enquanto pesquisa de formas sonoras e estados psíquicos alterados.
01.10.2004
Brian Wilson
Brian Wilson Presents Smile
Elektra Nonesuch, distri. Warner Music
9/10
Brian Wilson Volta a Sorrir
Custou mas foi, 38 anos decorridos sobre a sua concepção original, em 1966, “Smile”, a obra-prima-que-nunca-chegou-a-sê-lo, foi agora editada com pompa e circunstância, não como um álbum dos Beach Boys, mas como um disco a solo de Brian Wilson, ideólogo e líder do grupo, com o título “Brian Wilson Presents Simle”. A história desta obra maldita conta-se em poucas palavras. Após a edição do aclamado “Pet Sounds”, Brian Wilson subiu ainda mais a fasquia pretendendo a criação de uma verdadeira obra de arte que suplantasse tudo o que fora feito antes em ambos os lados do Atlântico. Chegaram a ser feitas gravações de estúdio mas raza a lenda que a edição de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, terá desferido sobre o ego de Wilson um golpe fatal. O músico terá ficado desmoralizado e achado que “Smile” não estaria à altura deste álbum dos “fabulous four” de Liverpool. Deixado na prateleira, “Smile” foi preterido pelo seu substituto, “Smiley Smile”, onde temas de “Smile” foram refeitos em moldes mais modestos.
“Smile” tornara-se, entretanto, numa obra de culto e numa causa jamais abandonada pelos fãs. Uma versão não oficial do disco chegou a ver a luz do dia mas a obra sumptuosa que Wilson e o seu companheiro letrista Van Dyke Parks, prometeram, nunca chegou aos escaparates. O novo “Smile” pode ser, como diz o seu autor, um “sonho tornado realidade”, mas é difícil tomá-lo como a conclusão do disco perdido original. É verdade que a sua apresentação ao vivo, no Royal Festival Hall, a 20 de Fevereiro deste ano, teve uma recepção estrondosa, o que terá contribuído para Wilson levar avante a gravação, efectuada nos estúdios Sunset Sound, em Hollywood, de 13 a 17 de Abril (no mesmo Studio One, com a sua câmara de eco mantida intacta, onde foram efectuadas sessões nos anos 60 de “Heroes and villains” e “Good Vibrations”). O trabalho de composição, levado a cabo por Wilson e Parks, já fora concluído na Primavera de 2003 mas este “Smile” é algo entre a ideia original e uma obra nova.
Wilson procurou respeitar alguns dos procedimentos dos anos 60, recriando-se a mesma estrutura “modular” das composições, gravadas separadamente de maneira a conservarem um som e textura específicos. Também idêntica foi a execução e gravação, ao vivo, no estúdio, das “masters”, com as cordas e os metais. A consola tubular usada para registar as harmonias vocais é igualmente semelhante à utilizada pelos Beach Boys no Western Studio 3, nos anos 60. As semelhanças ficariam por aqui, se fosse verdadeiramente possível comparar este objecto real com o seu duplo não realizado dos “Sixties”. Podemos, de qualquer forma, comparar os temas com as versões de “Smiley Smile” ou com as que acabaram por ir parar aos alinhamentos de outros álbuns, como “20/20” e “Surf´s Up”.
O novo “Smile” apresenta as orquestrações barrocas idealizadas para o antigo, as vozes dos elementos do novo grupo não são, obviamente, as dos Beach Boys (Wilson, esse não perdeu pitada do seu inconfundível falsetto) embora permaneça o intricado das harmonias vocais. Pegue-se, para fazer o teste definitivo, em “Good Vibrations”, considerada por muitos a melhor canção pop de todos os tempos. As diferenças são subliminares (lá está, igual, a linha floreada do theremin) e mal dão para perceber que este “Smile” pertence a uma época diferente. A voz aparece talvez mais compactada do que na versão original a que estávamos habituados. Seja como for, o melhor mesmo é apreciar “Brian Wilson Presents Smile” como um híbrido dos tempos modernos e deixar uma vez por todas de tentar responder à questão reformulada nas notas de capa: “Does ‘Smile’ really exist?”. Mais do que isto importa realçar que 38 anos não conseguiram apagar o génio de Brian Wilson. E que “Smile” deixou enfim de ser o sorriso enigmático como o da Gioconda para passar a ser uma realidade intemporal.
[...]
Vitorino – “Se pudesse, gostava de cantar em sérvio, ou em gaélico. Em inglês é que não… Por isso é que comecei a cantar em castelhano [num álbum recente, “La Habana 99”, com reportório cubano e a presença do Septeto Habanero]…”
“Os textos em inglês que muitas bandas cantam estão sintacticamente errados.”
Amélia Muge – “Nada do que o Fernando Pessoa escreveu em inglês o impediu de escrever o que escreveu em português. E o Eça teve um cargo importante no consulado em Paris. Eu canto em português, porque é a maneira de resolver, em mim própria, influências que recebo de muitos sítios. Fazer uma canção com a mesma matéria, a mesma língua, com que penso. Um poema é, antes de mais, uma base de trabalho sonora”
Miguel Cardona – “Escrevo em português e em inglês. Quando é um ‘rapport’ autobiográfico, escrevo em português. É a única via para ser sincero comigo mesmo. As coisas não me acontecem em inglês. Nas quando aio da minha vida, já posso recorrer ao inglês.”
Jorge Dias – “Está associada a quem canta em inglês uma ideia de antipatriotismo. É uma estupidez completa. Não há coisa que mais me entristeça do que poder absorver uma islandesa como a Björk, uns judeus belgas ou uns tipos franceses, todos a cantar em inglês, e não conseguir ver ninguém do meu país a conseguir vingar lá fora, a conseguir mostrar que em Portugal se fazem coisas tão actuais e tão interessantes como no resto da Europa, sem ser remetido para a categoria do exotismo.”
Rui Reininho – “Os brasileiros apropriaram-se da linguagem de computador e já falam em ‘downlodar’ ou ‘browsar’.”
“No outro dia reparei num cartaz de uma ‘rave’. É impressionante como se faz uma solicitação destas sem uma única palavra em português. É uma tentativa de globalizar. Em Atenas ou no Senegal seria a mesma coisa. É tudo a mesma tribo.”
“É importante a defesa da língua portuguesa. Aprendi um bocado isso com os nossos amigos galegos. Não lhes passa pela cabeça cantar em inglês. E, se calhar, em certos aspectos, até são mais modernaços do que nós.”
Miguel Cardona – “Os espanhóis dobram tudo. Tem a ver com uma certa ideia de nação. Nós, enquanto artistas, reportamo-nos muitas vezes a coisas exteriores. Um guitarrista fala do seu ‘amp’, num som de “Rhodes”, há toda uma linguagem corrente em inglês.”
FM – O presente, parte 2. As editoras são as bruxas da história, porque só promovem o produto que vem de fora. Os “media” são vilões, porque só escrevem sobre música chinesa. O Estado não apoia. Há preconceitos e barreiras a romper.
Miguel Cardona – “O rock cantado em português não sofre da mesma injecção de espuma que o inglês. É possível ler nos jornais ‘revivals’ de Bob Dylan ou Pink Floyd, com a cumplicidade de toda a gente, que não passam de meras manobras de promoção de limpeza de fundo de catálogo. Com certeza que não vão buscar os NZZN ou os Tantra e promovê-los na América…”
Vitorino – A rádio não passa música portuguesa, enquanto as percentagens de música anglo-americana são brutais. O Ministério da Cultura só dá força ao cinema. Tem que começar a apoiar a música portuguesa. Os Beatles foram condecorados pela Rainha.”
Jorge Dias – “As bandas que cantam em inglês também não passam na rádio. Não por cantarem nesta ou naquela língua, mas porque não têm o apoio de uma grande campanha de ‘marketing’. Não há critérios de avaliação. As pessoas limitam-se a colar-se a modelos de sucesso. Como, com raras excepções, não se consegue criar cá nenhum desses modelos, ninguém liga. Quem está nos centros de decisão pertence à geração do Rui, dos que conquistaram para a música a língua portuguesa, mas que, de repente, fecharam os olhos. Existe hoje um caciquismo, entre aspas, nos ‘media’ e, sobretudo, nas editoras. Apresenta-se uma banda a cantar em inglês e é recusada só por esse facto, nem sequer chegam a ouvir.”
Rui Reininho – “Tenho pena de que ninguém tenha rompido aquela barreira do meio milhão de discos. Toda a gente encravou nos 300 mil. É uma barreira psicológica.”
FM – O futuro. Globalizar ou resistir. O que é que podemos fazer?
Talvez socializar.
Amélia Muge – “As coisas que vêm do Norte têm uma conotação de tecnologicamente mais avançadas, enquanto o étnico estaria umbilicalmente ligado a um certo terceiro-mundismo. A imagem da música, da cultura portuguesa, enquanto for passivamente vendida sob estas conotações de mercado, tem que submeter-se à máxima do ‘quanto mais étnico ‘ melhor. Se calhar o circuito que vende os Madredeus não é o mesmo que vende a música tradicional portuguesa, no seu sentido folclórico.”
Vitorino – “Há uma grande música deste século, a música anglo-americana dos anos 60 e 70, conotada com um movimento social universal. Depois entrou numa decadência horrível, quando começou a ficar visual, a ouvir-se através dos ‘clips’. Subverteu-se a escuta. No Midem latino de Miami as estatísticas afirmavam que nos últimos três anos a música anglo-saxónica já tinha perdido no mundo um espaço de 6 por cento para as músicas de expressão castelhana. A única possibilidade que temos de exportar uma música cantada em português no mundo é fazer uma aliança com os brasileiros, como os espanhóis têm com toda a América Latina e as Caraíbas. Infelizmente os brasileiros fecharam-se a nós nos anos 60, coincidindo com a ditadura.”
“A salvação é a socialização dos meios. Dentro de uns dois anos eu ou o Rui Reininho podermos gravar em casa sozinhos. Os anglo-saxónicos inventaram os ‘media’ e nós vamos aproveitar e socializá-los.”
29.10.2004
Siva Pacifica
Last Voices From Heaven
National Geographic, distri. Sony Music
3/10
LINK
pwd: DoZor
“A mais perigosa viagem alguma vez empreendida na busca de música indígena”, lê-se na contracapa. Somos percorridos por um frémito. O lugar de pesquisa está assinalado no mapa nas ilhas do Pacífico, cerca de 200, e o intrépido explorador chama-se Anthony Copping, produtor e musicólogo, auxiliado por Adam Wren, dos Afro-Celt Sound System. Copping, australiano, andou a recolher as vozes do paraíso antes que estas se extinguissem definitivamente, ou seja, a gravar vozes, ambientes e instrumentos indígenas que depois levou para estúdio para os vestir com os trajes mundanos da ocidentalidade. Ficou o caldo entornado. Ao invés de algo excitante como o criado pela dupla italiana Roberto Musci/Giovani Vennosta, um novo mundo gerado pela fusão da tecnologia, a imaginação e elementos “World”, “Last Voices From Heaven” fica-se pela superficialidade e facilidade de processos. Os “field recordings” não passam de pretextos para um trabalho de maquilhagem onde os sintetizadores, as programações foleiras e os cânticos reverberados reduzem a escombros o mistério do desconhecido. Algures num território entre os Trance Mission e os Enigma, o projecto Siva Pacifica vende o paraíso num panfleto de super-mercado, com o seu exotismo de pacotilha.
12.05.2000
Cinco Estrelas
33 anos de carreira, 20 álbuns de originais ao longo dos quais a cantora e compositora canadiana tem escrito e reescrito a sua própria história. Um universo pessoal, tão musical como pictórico, sem paralelo na enciclopédia dos grandes singers-songwriters norte-americanos. Desta longa viagem confessional retirámos cinco momentos que são outros tantos álbuns de retratos. Uma escolha assumidamente subjectiva, não consensual, que exclui a fase mais recente da cantora, presente em álbuns como “Turbulent Indigo” ou “Taming the Tiger”, sem dúvida excepcionais. Apenas porque a intenção foi, acima de tudo, chamar a atenção para o barro e para as estrelas de um passado sem o qual nunca se teria iluminado o firmamento de clássicos que Joni Mitchell, no seu mais recente capítulo de uma história de amor interminável, entroniza em “Both Sides Now”.
“Blue” (1971)
“Sentia-me isolada, como uma ave presa na gaiola. Já não conseguia relacionar-me com as pessoas. Uma certa dose de sucesso pode acabar com uma pessoa, de várias maneiras”. Esta dose de sucesso tinha sido granjeada ao longo dos três álbuns precedentes e “Blue” é a resposta aos que queriam ver nela apenas a “hippie” que assinou o hino “Woodstock”. Com “Blue”, Joni Mitchell demarca-se do seu passado recente, abandonando os concertos ao vivo para se auto-analisar num retiro interior do qual resultou este álbum, onde é possível descortinar os claros-escuros de um poço emocional e criativo sem fundo. É ainda a autora que, a propósito deste seu trabalho, afirmou: “Neste período da minha vida não tinha quaisquer defesas, por isso dificilmente se encontrará nas letras ou na voz o mínimo sinal que não corresponda a uma sinceridade absoluta”.
“For The Roses” (1972
Apesar da ausência voluntária dospalcos, “For the Roses” entra, num ápice, para as listas de vendas dos EUA, feito para o qual muito contribuiu o impacto do single “You turn me on, I’m a rádio”, o primeiro “hit” da cantora que chegou a ter alguma divulgação em Portugal. Embora muitos prefiram o tom mais extrovertido do álbum seguinte, “Court & Spark”, é em “For the Roses” que a relação entre a voz e o piano de Joni Mitchell – nalguns casos e pela primeira vez, pontuados por uma orquestra – se tornam cúmplices de mil e uma solidões repartidas. Um crítico do “New York Times” apontava então para ela como uma “cantora e compositora de génio que fazia com que não nos sentíssemos sozinhos”, enquanto ela própria, na canção “Woman of heart and mind”, canta: “Pensas que sou como a tua mãe, ou outra das tuas amantes, ou a tua irmã, ou a rainha dos teus sonhos, ou apenas outra rapariga tonta, quando o amor faz de mim o que quer.”
“The Hissing of Summer Lawns” (1975)
Há quem não morra de amores por este álbum, embora tivesse sido, uma vez mais, um sucesso de vendas. Ao contrário de todas as obras anteriores, auto-confessionais, “The Hissing of Summer Lawns” aponta o bisturi para o exterior, fazendo a dissecação de alguns dos vícios da sociedade americana. É, em simultâneo, em termos musicais, o álbum mais experimental da compositora, carregado de uma electrónica densa que atinge o esplendor em “The jungle line”. Manhattan transformada numa selva tropical, cimento e lianas, atravessada por jibóias e batuques rituais. E o jazz começava a despontar.
“Hejira” (1976)
O oposto do anterior. Se “Hissing tjhe Summer Lawns” era calor e humidade, “Hejira” é branco e frio, com o desenho rigoroso de uma patinadora no gelo. Conta Joni Mitchell que a maioria das canções foi composta em viagens de automóvel. O título significa “uma viagem empreendida com a finalidade de escapar a um ambiente hostil ou indesejável”. Por vezes algo hermético, de um apuro formal levado à perfeição, “Hejira” é um exercício de jazz ambiental, cuja arquitectura depende em grande parte do baixo de Jaco Pastorius, da bateria de John Guerin e do vibrafone de Victor Feldman. Neil Young, um velho amigo, toca harmónica como convidado. “Coyote” e “Amelia” são as canções que fogem um pouco a esta paisagem imaginada por uma esteta.
“Mingus” (1979)
Depois da participação, em 1978, no filme de Scorcese, “A Última Valsa”, Charles Mingus, um dos maiores contrabaixistas e compositores da história do jazz, já na fase terminal da sua doença, contactou-a, manifestando-lhe o desejo de trabalharem juntos numa adaptação musical de “Four Quartets”, de T. S. Eliot. Ele escreveria a música, ela editaria os textos. Joni Mitchell declinou a oferta, com a justificação de que seria mais fácil fazer uma síntese da Bíblia. Mingus, insistiu, compondo seis composições para a voz da cantora. Acabaram por ser utilizadas apenas quatro, incluindo o “standard” “Goodbye pork pie hat”. Completam o alinhamento de “Mingus” dois originais da cantora e cinco designados rap, que não são mais do que curtíssimos excertos de monólogos de Mingus, um “Parabéns a você” e conversas e sons de circunstância captados durante o funeral do músico. Mingus morreu a 5 de Janeiro de 1979, mas “Mingus”, o álbum, ficou como uma tocante homenagem a esse músico visionário. Contribuíram para a gravação, além de Guerin e Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Peter Erskine e Don Alias.
29.10.2004
Radian
Juxtaposition
Trapist
Ballroom
Thrill Jockey, distri. Ananana
7/10
Trata-se da música das máquinas. Começou com a cena industrial dos 80’s, apadrinhada pelos krautrockers Cluster, Conrad Schnitzler ou Seesselberg, mais de uma década antes. E os Kraftwerk, claro, mas esses optaram por colocar uma alma de surfista nos circuitos. Com o pós-rock, alguma daquela desumanidade regressou e os austríacos Radian, com o patrocínio dos This Heat, podem ser considerados descendentes do industrialismo na sua faceta mais esquálida. “Juxtaposition” retoma os “grooves” descarnados, as drones ferrugentas e as pulsações secas desenhadas a papel milimétrico sobre paisagens desoladas. O prazer do som sustentado por um “pacemaker” que alimenta um corpo de metal. Na mesma editora, os Trapist são trabalhadores da mesma fábrica. Usam tinta envenenada e brocas de laser nas suas esculturas de electricidade e contraplacado. O longo tema de abertura poderia ser um “test signal” dos This Heat, até as guitarras trazerem vida aos materiais inanimados. Mas a palpabilidade dada aos timbres é manifesto, aspecto em que “Ballroom” é pródigo, na abundância de texturas suculentas dos sintetizadores analógicos. Radian e Trapist escavam um nicho entre a electro-acústica e a electrónica.
03.11.2000
Nova Música Electrónica Portuguesa
Um Oásis No Deserto
A música electrónica tem sido uma paisagem desoladora, onde a vida escasseia. Mas no meio do deserto surgem, de quando em quando, oásis. É sobre eles que o PÚBLICO fala esta semana, em conversa com Vítor Joaquim, no balanço do festival EME 2000, e através da recensão de alguns álbuns representativos do género, por ilustres desconhecidos.
Nos últimos tempos algo mudou na música electrónica produzida em Portugal. Provam-no a edição, nalguns casos de autor, de diversos e interessantes CD apostados em dignificar a electrónica feita em Portugal e até, pasme-se, a organização de concertos protagonizados por músicos nacionais. É o caso do festival, ou dos encontros, Eme 2000 que recentemente teve lugar em Setúbal onde, entre outros, estiveram presentes Nuno Rebelo, Vítor Joaquim, Emídio Buchinho e Rodrigo Amado. Vítor Joaquim, de nome artístico Free Field, autor do projecto com este nome ao qual se deve a edição de “Tales from Chaos”, um dos marcos da música electrónica feita em Portugal, foi aliás um dos responsáveis pela organização do evento.
“Tales From Chaos” faz parte de um grupo selecto de discos que também inclui clássicos como “Mr Wollogallu”, de Nuno Canavarro e Carlos Maria Trindade, “Plux Quba”, de Nuno Canavarro, “Música de Baixa Fidelidade”, de Tozé Fereira, “Musiques de Scéne”, de Carlos Zíngaro, “Celsianices”, de Celso de Carvalho, “Part Human, Part Simpson”, de Discmen, “Evil Meatal”, dos Telectu, “M2” e “Azul Esmeralda” de Nuno Rebelo, “A Nova Portugalidade”, dos U-Nu, e Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzp!” do grupo com este nome, do qual será editado em breve um novo álbum. A estes nomes pode acrescentar-se os dos No Noise Reduction, Vítor Rua, Rafael Toral e Bernardo Devlin, entre outros.
Mas sob o solo lavrado pelos clássicos agitam-se novos miasmas e organismos vivos em fase de crescimento, ávidos de saírem para a luz do dia. É sobre alguns destes novos discos e projectos que falaremos neste artigo, ao mesmo tempo que convidámos Vítor Joaquim a fazer um balanço do Eme 2000. A electrónica já dá choque, em Portugal.
Eme 2000
O Eme 2000 dividiu-se em três sessões ao longo das quais a electrónica andou lado a lado com a música improvisada. Vítor Joaquim (VJ) explica como foi possível: “Após três meses de produção solitária, maioritariamente de telefone em punho e e-mails intermináveis (enquanto os amigos iam de férias e para a praia!), acabou por surgir um conjunto de apoios bastante interessante que viria a tornar viável a montagem dos encontros, enquanto se delineava simultaneamente uma equipa de pessoas entusiasmadas, que do primeiro ao último momento contribuiu com o seu melhor nas tarefas mais diversas que se possa imaginar: vender bilhetes, servir cafés, esticar alcatifas, carregar aparelhagem, esticar cabos, controlar entradas, etc.”.
Quanto ao critério de escolha dos artistas, a “ideia fundamental foi encontrar um grupo de músicos que pudesse proporcionar um conjunto suficientemente diversificado de abordagens em termos da génese do som – desde a electrónica acentuada até à exclusividade acústica -, assim como do próprio discurso interpretativo sem perder de vista, obviamente, o lado performativo de cada indivíduo na sua relação com o(s) instrumento(s)”. Não foi esquecida, “num plano paralelo de opções, uma perspectiva de ‘sedução’ na apresentação e progressão dos concertos, com toda a subjectividade que o termo pode implicar”.
O Eme 2000 pôde contar com o apoio de “13 entidades que se mostraram disponíveis para prestar apoio à sua realização, sendo que, de entre elas, cinco fizeram apoio financeiro directo, enquanto as restantes colaboraram em termos de permuta publicitária”. Uma crítica à autarquia do concelho que VJ culpa pelo “trabalho nulo ao longo dos anos” e acusa de não ter contribuído “com um único centavo” para a realização destes encontros.
Sobre o saldo final em termos de adesão de público e dos músicos, ou do ambiente, e dada a escala modesta destes encontros, Vítor Joaquim é peremptório: “Em termos de adesão de público foi verdadeiramente surpreendente. Não só pelo número global de espectadores como também pelo aumento na afluência, passando de aproximadamente 85 pessoas no primeiro dia para 100 no segundo, culminando em cerca de 120 no terceiro.”
VJ refere mesmo a existência de “sérios indicadores de um interesse progressivo pela área da improvisação e da experimentação, provando-se desta forma que, quando há trabalho e empenhamento por parte dos músicos e produtores, as coisas acontecem de facto”. “Ao que as pessoas reagem”, acrescenta.
Macacos E Apóstolos
Ainda em relação à Câmara Municipal de Setúbal, VJ não resiste a comentar que “está na fase de aprender a soletrar” e que “demorará ainda algum tempo até que, para além das palavras, as pessoas em causa saibam compreender os conceitos que elas abrigam ou invocam”. E cita Lichtenberg: “Tais obras são como espelhos; se um macaco olhar para dentro delas, nunca poderá ver um apóstolo”.
O Eme 2001 está na calha, com a hipótese de participação de músicos estrangeiros, embora a “primazia continue a pertencer aos portugueses”. Entretanto, “como forma de preencher o vazio existente entre duas edições, está em fase de implementação um programa de espectáculos que carece ainda de um suporte finaceiro regular por forma a poderem ser produzidos espectáculos não só na área da experimentação musical como da dança, perfomance, instalações, etc.”, diz VJ.
Vítor Joaquim prepara entretanto a edição de um novo álbum, que dará pelo nome de “La Strada is on fire” com o subtítulo “And we are all naked”, onde contará com participações de Vítor Coimbra, no baixo, Rodrigo Amado, no saxofone, e o inglês Martin Archer, em saxofone, assim como colaborações de Chris Bywater e Charlie Collins, na electrónica.
Novos Rumos
Code-N
Per:Form
Ed. de Autor
Nuno Correia é o cérebro dos Code-N. Entre temas compostos para um recital de poesia multimédia e para uma peça de teatro, “Per:Form” atravessa os territórios da electrónica ambiental, do dum ‘n’ bass, do breakbeat, do neo-industrialismo e da techno de corridas (“Mach One”), entrando em regiões menos exploradas do universo electro em temas como “Southwest”, “O Som dos Instrumentos” ou “Luzazul”. A manipulação digital assumida a cem por cento, com resultados por vezes surpreendentes.
Mola Dudle
Mobilia
Ed. de Autor
Nasceram em Tavira e arrumaram a mobília da casa segundo o design e a lógica alucinada de um louco. Nanu e Miguel Cabral, os “loucos”, asseguram a totalidade da produção sonora, usando para tal “tudo o que produz som que se pode encontrar em casa”. Colagens, electrónica desconstrutivista e dissecação de canções que não chegam a sê-lo, confluem num compartimento onde a desarrumação sonora é apenas aparente. A estética Recommended espreita, os desarranjos psicológicos de uns Biota, idem, mas quando o swing electrónico de um tema como “Allo…” funciona em pleno, são os melhores Negativland ou os actuais brincalhões da a.musik que deitam a cabeça de fora, enquanto em “Partypooper” enm Frank Zappa faria melhor. Mas os Mola Dudle devoraram todas as influências e, queira alguém “pegar” neles, poderão tornar-se num dos casos mais sérios e originais da nova música portuguesa.
Ras.Al.Ghul
Subharmonic Density Strucutures
Aquatica, distri. Symbiose
Terceiro trabalho desta banda formada por ex-elementos dos “industriais” Cranioclas, “Subharmonic Density Structures” limpou o som das antigas impurezas para se concentrar numa electrónica de cariz hipnótica e forte carga onírica em forma de mantras que comandam os movimentos do cérebro. Do transe psicadélico ao chill out, passando pelo techno ambiental, os Ras.Al.Ghul visitam as divisões vazias deixadas pelos Biosphere para tentarem chegar ao lado obscuro revolvido pelos Coil.
Vários
Ar Da Guarda
Ed. Câmara Municipal da Guarda
A julgar pelos 13 exemplos apresentados nesta colectânea, a Guarda apresenta-se na vanguarda das novas músicas nacionais. Entre os exercícios das guitarras “new age” de Rogério Pires a parasitária de Albrecht Loops, o neoclassicismo pianístico de Maria João Magno e de Hélia Fernandes, destacam-se as colaborações de Leonel Valbom e José Tavares, ambos discípulos do “sequenciador analógico” dos Heldon, Vítor Afonso, do projecto Kubik, com uma sequência acutilante de percussão e vozes de “contemporânea erudita”, sax zorniano e electrónica fraccionada (David Garland meets Holger Hiller meeets Laibach) e Miguel Prata Gomes, com um excelente pedaço de mistério em fita magnética na linha de Steve Moore/Jocelyn Robert. Anote-se ainda a proposta consistente de Gilberto Costa na área do jazz fusionista tendência “electrodowntown”, a portugalidade bizarra de um fado astral electrocutado por Carlos Barreto Xavier e o “jazz mesmo” que Maria João e Mário Laginha poderiam assinar se estivessem pedrados, de António Cavaleiro, com a voz de Joana Correia. Saudáveis e inovadores estes ares que sopram da Guarda.
29.10.2004
Ana Moura
À porta, à espera
Aconteceu é uma mais madura etapa. Mas o grande Fado ainda está à espera.
Ana Moura
Aconteceu
2xCD, ed. E distri. Universal.
6/10
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pwd: oneil
Ana Moura é mais uma das novas fadistas que vieram dar um rosto e uma voz novos ao fado. Ou melhor, mais do que apenas engrossar o lote, ela é “uma”. Uma voz diferente das outras, quente e sensual (alguns furos mais grave que a da generalidade das suas colegas) que agora se apresenta no seu segundo álbum, “Aconteceu”, depois de no ano passado ter gravado “Guarda-me a Vida na Mão”. Alguém com influência no além deve tê-la ouvido e atendido ao seu pedido. “Aconteceu” tem uma mão com vários trunfos, a começar pela voz, mais trabalhada e maturada, e a terminar num reportório bem escolhido e conduzido. O CD é duplo e divide-se em dois discos, o primeiro, “À porta do fado”, preenchido por fado musicado, o segundo, “Dentro de Casa”, dedicado ao fado tradicional. Ana Moura navega livremente no primeiro, sobre poemas de Sophia de Mello Breyner (“Através do teu coração”) ou Natália Correia (“Creio”) e música de Tozé Brito, Jorge Fernando, João Pedro Pais ou do “jazzman” italiano Arrigo Cappelletti, mas o seu coração dispara com o segundo, num fado da meia-noite, num fado corrido ou num fado Acácio.
Ana Moura não é – não quer ser? – fadista de grandes arrebatamentos ou dolorosos extremos. A sua voz e os eu canto preferem o embalo doce, o sussurro ao ouvido, os tempos médios que hipnotizam e fazem suavemente sobressair o sentido das palavras. (…a poesia/Não é só caligrafia/São coisas do sentimento”) canta em “Ao poeta perguntei”, de Alberto Janes. E, no mesmo poema: “Como a expressão e os jeitos/Que p’ra cantar/Se vão dando à voz”. Percebe-se que é uma intuitiva que se entrega à emoção e ao sentimento, sem resistências, e por isso com a naturalidade e a fluência de quem canta como respira. Ou com o rasto exótico que ficou dos tempos em que cantava música pop com o grupo Sexto Sentido, a infiltrar-se por entre as sílabas e as interjeições de “Amor de uma noite”, “Creio” e “Através do meu coração”.
No segundo CD o sentido interior muda e escurece. “Hoje tudo me entristece” mostra uma fadista a trabalhar a tragédia, mas ainda a rondar do lado de fora da dor, embora já com a imaginação e a cor do sangue. Fadista e não cantora de fados, a separação e opção são dela. “Passos na rua” dá a ver ornamentações de ave, a prometer voos mais altos. Há ainda “Dentro da tempestade” onde “há restos de verdade/A que a dor tirou sentido”, com a guitarra a golpear uma voz que se despede. “Aconteceu” mostra uma fadista a caminho. O que, para já, aconteceu, chega para nos acariciar e fazer acreditar num futuro promissor. Falta a solidão que torna único o fado de quem o canta.
Fado ou Fadistas?
Ana Moura nasceu em Santarém, há 24 anos. Ribatejana, como Cristina Branco. Também como Cristina Branco, a Holanda, onde se encontra em digressão, é ponto importante do seu roteiro de viagem. A transição do poprock para o fado foi rápida e passou por um convite de Maria da Fé para cantar no “Senhor Vinho”. Nessa altura o seu reportório e experiência eram curtos mas os amigos (Jorge Fernando, Manuel Martins, a própria Maria da Fé) ajudaram. Depois de em “Guarda-me a vida na mão” ter contado com uma composição de Pedro Ayres de Magalhães e a guitarra de Pedro Jóia, “Acontecendo” impôs-lhe a necessidade de gravar um CD inteiro só de fados tradicionais. Os fados musicados estão no outro disco porque algumas pessoas, já lhos tinham oferecido. Acabou por sair um disco duplo.
“Em estúdio senti que era difícil escolher. Achámos engraçado separar os dois géneros”. Uma das faixas de “à porta do fado”, “Através do meu coração”, leva um violoncelo, experiência instrumental única fora das normas. “Então no fado tradicional, nem sequer com contrabaixo toco, é só guitarra portuguesa, guitarra e baixo”.
“Novo fado” é expressão que para Ana Moura não tem razão de existir. Novos fadistas, sim. “Não faz sentido falar em ‘novo fado’. Assim como aconteceu com a geração da Amália, quando se dizia que ela também cantava novo fado, por causa dos poetas que cantou, também neste momento há letras de poetas que são intemporais, mas há outras que não podem ser cantadas por esta geração. O que de novo tentamos trazer ao fado é a interpretação e uma ou outra novidade ao nível dos arranjos musicais”.
Insiste em que um fado apenas faz sentido e pode ser cantado com o coração quando a letra é totalmente interiorizada. “Há coisas que eu sei que ainda não sinto”, reconhece com a sinceridade de quem assume que só agora a estrada se começou a revelar, “pode ser que daqui a uns anos…”. Os versos de Natália Correia, em “Creio” – “é como se fosse uma oração” – esses adora-os e canta-os como se fossem seus: “Creio em amores lunares/Com piano ao fundo/Creio nas lendas/Nas fadas, nos atlantes”. Não é oração fácil de rezar. E se ontem foi na pop que acreditava, hoje o fado apoderou-se de todo o seu espaço e roubou-lhe todo o seu tempo.
“O fado passou a fazer parte da minha vida”. Demorou quatro anos até essa assunção tomar conta dela a cem por cento. “Mudou por completo a minha vida, eu estava a estudar durante o dia, aguentei a escola durante um ano, entretanto passei a viver mais durante a noite que de dia e abandonei os estudos. A minha vida passou a ser literalmente fado”.
Estranha forma de vida, dirão alguns. Numa casa de fados ou numa casa de espectáculos. “É diferente, nas casas de fado há a proximidade das pessoas, é uma coisa muito íntima, de improviso, enquanto que nas salas é um espectáculo, com um alinhamento mais ou menos feito”. “Mais ou menos” porque o humor muda e Ana Moura só canta “o que lhe apetece”. “Se me apetecer cantar outra coisa, eu canto, altero”. Em qualquer dos casos, “o fado acontece”. Como uma coincidência. Aliás, a sua vida tem sido assim, a vida e a carreira, “feitas de coincidências”.
Como coincidentes são a voz com a imagem glamorosa do seu corpo como aparece retratado na capa e nas imagens de promoção, onde veste um decotado vestido vermelho sobre fundo verde de vegetação escura. Poderia passar por uma capa dos Roxy Music se Ana não explicasse o seu fundamento. “gosto muito do vermelho. O vermelho e preto são as minhas cores preferidas. O sítio das fotos foi o Palácio da Pena em Sintra, lugar que adoro”. Lugar ideal para se cantar o “astral mais puro”, dito nos versos de Natália Correia. O que mais irá acontecer a Ana Moura, só o fado o dirá.