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| By N2H | ||||||




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02.07.1999
Entrevista Com Meira Asher
“Vamos Lá Purificar O Mundo”
Com “Spears Into Hooks”, editado no princípio deste ano, Meira Asher pretendeu “espelhar os traumas e a violência do mundo, para que as pessoas compreendam o que se passa”. Depois de um apocalíptico concerto no Porto, o PÚBLICO falou, por sua conta e risco, com esta israelita que gosta de provocar os fanáticos e para quem o torturado se transforma, inevitavelmente, no torturador. Purificação pelo dilúvio.
A intensidade do discurso de Meira Asher tem a mesma força e o mesmo carácter de desafio que estão presentes nos seus discos e, de forma ainda mais radical, como o Porto teve oportunidade de testemunhar, nos espectáculos ao vivo. A “world music” deixou de ser uma coisa inofensiva, quando a israelita entrou em cena.
FM – No concerto do fim-de-semana passado no Porto, parte da assistência não conseguiu suportar a violência da sua música. Costuma acontecer isso com frequência?
MEIRA ASHER – Talvez não estivessem suficientemente preparados. Mas os que ficaram ouviram com atenção. Já me aconteceu tocar em recintos absolutamente vazios, em que as pessoas rejeitaram em absoluto a minha música. No Porto houve emoções desencontradas, de choque e excitação. Em todos os meus concertos há sempre gente que sai. Se isso não acontecesse é que ficaria preocupada.
FM – O que aconteceu entre “Dissected” e “Spears Into Hooks”? Não há comparação possível entre estes dois trabalhos…
MEIRA ASHER – “Dissected” representou o culminar de dez anos em que estive envolvida no estudo da música clássica o Norte da Índia e das percussões africanas. Usei processos de composição através dos quais procurei formas diferentes de expressão para a língua hebraica. “Spears Into Hooks” é um álbum conceptual. Nunca me considerei integrada na música étnica. Não se trata de uma influência, mas de uma vivência. Foi isso que fiz quando estudei música indiana. Durante sete ou oito anos dediquei-me exclusivamente a cantar no estilo “dhrupad”.
FM – Ao contrário de “Dissected”, em que os elementos acústicos eram preponderantes, “Spears Into Hooks” é um disco que, em termos formais, se pode conotar com a música electrónica industrial.
MEIRA ASHER – Deixei Israel há dois anos para ir viver no Ocidente, onde me familiarizei, de forma natural, com a electrónica. Decidi explorar a problemática das relações entre a Palestina e Israel através deste meio, o que me permitiu atingir o nível de intensidade e de ruído que procurava.
FM – Por que razão gravou “Spears Into Hooks” em Ljubljana, na Eslovénia, a cidade sede dos Laibach?
MEIRA ASHER – Conheço e aprecio bastante os Laibach. Fizeram um trabalho importante, de grande discernimento político e social. Abriram as mentes das pessoas. São artistas completos. Escolhi esta cidade por outras razões, encontrei lá métodos de trabalho que me agradaram. Depois de um curto período em que vivi em Londres, regressei a Israel já com os textos do álbum prontos. Trabalhei nessa altura com um inglês, Jeremy Azies, músico e etnomusicologista, especialista na música funerária dos Camarões. Os temas “Tiring night” e “Weekend away break”, por exemplo, foram escritos em conjunto pelos dois. Londres não me inspirou. É uma cidade demasiado virada para a moda e para as últimas tendências. Já tinha alguns conhecimentos na Eslovénia e estabeleci os meus contactos, sobretudo através do Aldo, um dos músicos do grupo Borghesia, que acabou por funcionar, um pouco, como produtor executivo na Eslovénia. Encontrei na Eslovénia a energia certa para gravar. Além disso, é um lugar com raízes balcânica, que são também, em particular, as minhas, uma vez que o meu pai é búlgaro e os meus avós maternos são russos, mais exactamente da Letónia.
FM – “Spears Into Hooks” pode ser encarado como a “música do mundo” contemporâneo?
MEIRA ASHER – A “world music” não pode ser aquilo que a indústria quer que ela seja. “World Music” pode ser facilmente aquilo que faço., embora pareça não se adaptar ao termo. A escolha da minha música para a programação do festival do Porto foi muito inteligente, já que ela reflecte a realidade actual do Médio Oriente. Há quem se contente em fazer canções com base no verso e no refrão. Eu não. Se alguém espeta uma faca no estômago de outra pessoa, eu quero que se ouça o som das tripas a sangrar.
FM – Disse que duas das doenças que afectam o indivíduo neste final do século XX são a cobardia e a apatia. São os seus principais inimigos?
MEIRA ASHER – Sim. Quando se passa sucessivamente por várias guerras, e por toda a espécie de violência, como acontece no Líbano, por exemplo, ao fim de 32 anos de ocupação, acaba por se desenvolver a apatia. E por crescer uma “pele de elefante”, como eu costumo dizer. Uma armadura de apatia que faz da pessoa um cobarde. Deixa-se de querer mostrar os ferimentos, de falar sobre o assunto. De encarar de frente o problema.
FM – Em que é que o mundo se está a tornar?
MEIRA ASHER – Caminha para a globalização, sem dúvida, no sentido do conforto económico. Funciona sobre o princípio simples da acumulação de poder. Gira tudo em torno do poder e não se pode fazer nada contra isso. Faz parte da nossa natureza, acumular mais e mais poder até nos tornarmos o vencedor absoluto.
FM – “Spears Into Hooks” reflecte experiências pessoais, sem dúvida, mas que também vão buscar material à memória colectiva…
MEIRA ASHER – Sim, acredito que uma parte da História da Europa – de há 50 anos atrás – se transferiu para o Médio Oriente, para um pequeno local chamado Israel. Foi uma das consequências do Holocausto. Daí o paralelo que estabeleço entre o holocausto nazi e o holocausto palestiniano. Quem sofreu torturas e vagueia por aí cheio de traumas, provocados pelo Holocausto, pode tornar-se facilmente o torturador. Como uma criança maltratada pelos pais que, em adulta, se torna o pai que maltrata os filhos. É um desenvolvimento natural. Ou um contradesenvolvimento… “Spears Into Hooks” espalha amor de uma maneira negativa. Pretende espelhar os traumas e a violência para que as pessoas compreendam o que se passa.
FM – No seu espectáculo, a frase “Birkenau, aqui e agora” repete-se de forma obsessiva, como um sinal de alarme.
MEIRA ASHER – Sim, tudo continua, independentemente do nome do campo de concentração. Os princípios permanecem os mesmos.
FM – Tem alguma explicação para os horrores que aconteceram na II Guerra Mundial?
MEIRA ASHER – Não se pode racionalizar. Foi uma espécie de… é difícil explicar por palavras… como se as coisas se juntassem todas num determinado sentido para dar origem a um acontecimento anormal. O mais importante foi o que aconteceu depois, os desenvolvimentos que deram origem às transformações da nação alemã e, por consequência, da Europa e do Médio Oriente.
FM – É uma pessoa religiosa?
MEIRA ASHER – Não, de maneira nenhuma.
FM – Não acredita em nada?
MEIRA ASHER – Acredito no poder que nos faz viver e agir. Acredito que existe uma energia que nos conduz. Acredito na intuição. E nas pessoas. O que tento dizer e partilhar com as pessoas é algo muito simples: “O que é que pode desenvolver-se a partir de uma realidade violenta?” e “Estamos, de facto, prontos, para trazer mais crianças a um mundo dominado pela violência?”. Somos suficientemente responsáveis? É justo?
FM – Um dos temas mais fortes de “Spears Into Hooks” é “The Flood”, o dilúvio. O Apocalipse está próximo?
MEIRA ASHER – É a história clássica da Bíblia, um grande livro de poesia. A versão em inglês soa de forma completamente diferente do original em hebraico. Gosto de provocar os fanáticos. Em “The Flood” – que, segundo a Cabala, se assemelha muito ao Holocausto, razão por que pus o tema sobre Birkenau logo a seguir -, escolhi aquela parte em que Deus diz a Noé: “’Ok, man’, prepara-te!” [Risos.] Vamos lá purificar o mundo um bocadinho.
17.12.2004
Danko Jones
The Magical World Of Rock
Bad Taste, distri. Musicactiva
8/10
Como este homem fala. “The Magical World of Rock” contém 70 minutos de “spoken word” do canadiano Danko Jones, guitarrista e vocalista de “hardblues”. Ele abre logo o jogo: “Fiquei viciado em estar no palco.” E como em Agosto deste ano tinha uma semana sem tocar com a sua banda, marcou sete actuações em clubes da Noruega e Suécia. Não é “stand up comedy”, não é um comício, não é um sermão – é uma mistura de tudo isto. Tecnicamente, não se pode apontar nada a Danko: voz forte e bem colocada, controlo dos tempos, equilíbrio nas entoações, facilidade de encadeamento de temas. Falando das (muitas) coisas que o fascinam, consegue manter controladas audiências culturalmente longínquas. Temos então histórias de um fanático de música. “Se me virem a falar com alguém com ar de a conversa se encaminhar para um tema sério, como a guerra no Iraque, esqueçam. O que eu estou mesmo a pensar é como seriam os Metallica se Cliff Burton não tivesse morrido.” Um CD que é uma espécie de “High Fidelity”, com “sketches” de personagens cuja função na vida é fazer listagens de discos ou comprar bonecos dos Kiss, ou que pensam que Nina Persson dos Cardigans escreveu “Erase and Rewind” para eles. A roçar o viciante.
25.06.1999
La Bottine Souriante Lança 10º Álbum Com Título Novo
A Bota Sorridente Porque Bebe
LINK (En Specta)
Editado há um ano no Canadá, “Xième”, o mais recente álbum dos La Bottine Souriante, só agora foi editado em Portugal, mesmo assim uma semana antes que no resto da Europa. E com um novo nome: “Rock & Reel”. Quanto à Bota Sorridente, também poderia chamar-se Os Amantes da Garrafa. O grupo actuou recentemente no festival Cantigas do Maio, no Seixal. O PÚBLICO falou com alguns dos seus membros e ficou a saber que o vinho, a par dos padres e das mulheres, é um tema recorrente na tradição do Quebeque. O partido comunista é que parece não ter grande freguesia.
Impregnados da herança céltica e temperada com salsa, a música dos La Bottine criou um estilo próprio através da utilização de um naipe de metais. O resultado é uma aliança entre a energia do rock’n’roll, a musicalidade da língua francesa pronunciada à maneira do Quebeque e uma alegria contagiante. Confira-se pelo novo álbum, “Xième”. Ou “Rock & Reel” , se preferirem.
FM – “Rock & Reel” está a ser apresentado como um novo álbum do grupo, quando o disco original saiu no ano passado…
YVES LAMBERT – O disco não tinha tido ainda nenhuma distribuição fora do Quebeque, era praticamente desconhecido. Houve pessoas, como você, que fizeram alguma confusão com a diferença de títulos e com o facto de as capas, embora parecidas, não serem exactamente as mesmas. Mas isso só aconteceu com uma minoria, que conhece a existência de “Xième”. No Quebeque continua a haver apenas a edição original.
FM – “Rock & Reel” é um título um bocado redundante, não acham?
JEAN FRÉCHETTE – Não é um álbum tão tradicional como “La Traversé de l’Atlantique”, por exemplo…
YVES LAMBERT – … Mas também não é um álbum rock. Talvez a energia seja a mesma do rock’n’roll. O termo rock, no nosso caso, aplica-se mais a um determinado tipo de pulsação.
FM – O “reel” compreende-se, até porque se trata de um dos álbuns dos La Bottine onde a vertente céltica está mais presente.
DENIS FRÉCHETTE – Sim a herança céltica está sempre presente. A Escócia, por exemplo, é uma influência determinante nos “reels” do Quebeque.
YVES LAMBERT – Sim, como a música irlandesa, que constituiu uma influência enorme em meados do séc. XIX, dando origem a uma fusão do “beat” francófono com o “beat” irlandês. Mas não são só os “reels” mas também os “airs” e as canções de origem francófona. Apesar de tudo, “Xième” é bastante mais “québéquoise”, com um som mais particular.
FM – “Xième” foi editado no Quebeque com o selo Mile-Pattes, do qual os La Bottine são os fundadores. Quais são os objectivos da editora?
YVES LAMBERT – “Mille-Pattes” foi o primeiro álbum que produzimos, em 1982. A intenção era financiarmos os nossos álbuns, e nos tornarmos independentes. A música é um meio onde há muitos “tubarões”, muita gente desonesta. Por outro lado, o facto de a EMI passar a distribuir os nossos discos constitui um apoio. Mas permanecemos independentes, uma vez que é a Mille-Pattes quem negoceia com a EMI.
FM – Até que ponto existe uma tomada e posição política no grupo? À primeira vista, parecem dar relevo, essencialmente, ao humor.
YVES LAMBERT – O nosso objectivo é ajudar as pessoas a descontraírem-se, a sentirem alegria de viver. Não somos um grupo politicamente “engagé”. Cada elemento tem as suas ideias próprias. Um álbum como “Le Trésor de la Langue”, de René Lussier, isso sim, é trabalho com um belo conceito político.
FM – E os grupos folk canadianos que começaram um pouco antes da Bottine, como os Harmonium, Séguin ou Cano, conhecem?
DENIS FRÉCHETTE – Fazem parte da nossa cultura, embora nunca tenhamos contactado com eles. Os Beau Damage eram um grupo maravilhoso dessa época. Não nos sentimos, de modo nenhum, isolados. Todos os anos, em Dezembro, fazemos uma digressão pelo Quebeque, em salas regionais.
YVES LAMBERT – Falta dizer que a música do Quebeque se encontra, mais ou menos há dez anos a esta parte, num marasmo. O que está na moda são os espectáculos com humoristas, as pessoas gostam de rir. O contexto actual torna difícil a existência de verdadeiros músicos no Quebeque. Os jovens estão a afastar-se da música tradicional e uma das causas é a rádio. Quanto a nós, já existimos há 23 anos e, por isso, gozamos de uma certa reputação, as salas em que tocamos costuma estar cheias.
Quando contratámos os músicos que tocam os metais, houve uma certa recusa, as pessoas consideravam-nos ainda como a banda que éramos nos anos 70, mais puristas e próximos da “real thing”. Mas, finalmente, chegados aos anos 2000, a Bottine é um grupo acarinhado. No estrangeiro foi mais fácil, há um público mais recente que não conhecia o nosso passado.
FM – Como é que trabalham a esse nível, na ligação dos metais com o reportório tradicional?
JEAN FRÉCHETTE – É o Denis que faz todos os arranjos, antes tocou muita salsa. Está no grupo desde 1986 e a ele se deve a ideia de introduzir os instrumentos de metal na banda.
YVES LAMBERT – Ele e eu fizemos parte de um grupo anterior aos La Bottine, completamente diferente. E fora do contexto do Quebeque. Tocávamos música italiana, judia e indiana.
FM – Há pouco, negaram qualquer envolvimento político, mas a verdade é que já tocaram há uns anos em Portugal, na Festa do “Avante!”
YVES LAMBERT – Ao princípio nem sequer sabíamos que pertencia ao Partido Comunista, pensávamos que se tratava apenas de uma festa onde eram apresentados vários estilos de música. No Quebeque não existe nenhum partido comunista. Lembro-me, pelos jornais, de todo o folclore, em torno das bandeiras com a foice e o martelo… Na Europa é vulgar a luta entre o comunista e o capitalismo, politicamente ´+e interessante, mas a verdade é que, no Quebeque, não acontece nada disso.
FM – É verdade que têm em Marcel Bordeleau um especialista na acústica dos sapatos?
YVES LAMBERT – Sim, já usou umas solas de plástico que tinham um bom som, mas que acabaram por se partir. A sua descoberta mais recente são uns tacões de metal, ideais para bater no estrado. É um talento natural…
FM – Os músicos dos La Bottine são verdadeiros “amantes da garrafa”? O álbum tem várias faixas dedicadas ao tema…
JEAN FRÉCHETTE – Sim, sim, no meu caso até faço vinho. Também já fiz cerveja… Na tradição do Quebeque o tema da bebida é frequente. Como o clero e as mulheres.
07.01.2005
Na Barca Com Ulisses
“Venham meus amigos, Não é demasiado tarde para partir em busca de um mundo novo, porque sempre tive o propósito de viajar para além do crepúsculo…”. Este extracto do poema “Ulysse”, de Alfred Lord Tennyson (1809-1883), impresso no interior da capa do disco de Cristina Branco, serve de legenda a um projecto de intenções que a cantora vem pondo em prática desde o início da sua carreira. “Ulisses” é mais uma viagem que parte do fado para chegar a um canto universal que tem na saudade a sua vela e a sua âncora. Cristina Branco nunca quis confinar-se à estrita condição de fadista. Isso seria limitar os seus sonhos, a inquietude da descoberta. “Ulisses” é um périplo por várias músicas, poesias, línguas e geografias.
“Sonhei que estava em Portugal”, tema de abertura, apresenta Cristina a cantar com sotaque brasileiro um poema de João de Barros. Logo a seguir, em “Alfonsina y el mar”, o idioma escolhido é o castelhano. O sentimento ultrapassa a formulação de estilos estratificados. É uma música que a cada nota parte em demanda de novos portos. “Sete pedaços de vento” é a primeira composição com a assinatura de Custódio Castelo, uma vez mais condutor musical do projecto. Imaculada é a versão de “Redondo vocábulo”, de José Afonso, servido por distinta impressão digital do piano de Ricardo Dias.
A surpresa surge com “A Case of You”, tema de Joni Mitchell. Será caso para supor que a portuguesa e a canadiana são irmãs espirituais. Cristina toca nos timbres, nas acentuações e nas ornamentações de Joni. Joga com as mesmas luzes e sombras. O caminho fica aberto a todas as ousadias.
Ricardo Dias e Vitorino criaram um ambiente que de início sugere Paredes, em “Navio Triste” e “Soneto” é uma nova apropriação da poesia de Camões, com sabor a música antiga e a Chico Buarque criado por Castelo. “Choro” é equilíbrio perfeito entre a guitarra portuguesa de Castelo e o piano de Dias em notável exemplo de nova MPP com raízes na tradição folk. Depois do castelhano e do inglês, o francês é utilizado por Cristina Branco para interpretar a “Liberté” de Paul Éluard, exercício Breliano, um tipo de energia por enquanto ainda afastada da sensibilidade da cantora. O “Cristal” de Vasco Graça Moura e Castelo é mais neo-folk-progressiva idealizada a grande altura, com sensual vocalização e “Porque me olhas assim” satisfaz as exigências da autoria de Fausto. Custódio Castelo cria sobre as palavras de David Mourão-Ferreira, Júlio Pomar e Alexandre O’Neill, respectivamente em “E Por Vezes”, “Meu amor corre-me o corpo” e numa “Gaivota” onde pela primeira vez a cantora assume o vocabulário e a postura fadistas. “Ulisses” fecha com um instrumental de Castelo. Chama-se “Fundos” mas tem a leveza da “new age” e, no final, a provocação de uma batida “drum ‘n’ bass”. A viagem não poderia afastar-se mais das convenções.
Cristina Branco chama-lhe um “encontro com o amor, desta vez um amor satisfeito e assumido”, e um toque de liberdade – “de escolher um itinerário próprio ao fim da vitória sobre tantas contrariedades”.
16.04.1999
XTC Gravam Com Orquestra
Licor de Maçã
“Apple Venus, Volume One” é o álbum da luxúria dos XTC. A pena de um pavão onde se esconde a imagem da vulva de uma mulher. No planeta Vénus, Andy Partridge, herdeiro dos segredos pop de Paul McCartney e Ray Davies, faz escorrer da orquestra licor de maçã. Collin Moulding, o seu parceiro, falou ao PÚBLICO dos caminhos que levaram à feitura daquele que é o melhor álbum dos XTC desde “Skylarking”.
Foi preciso esperar sete anos para os XTC ultrapassarem o problema legal que levou à ruptura da banda com a Virgin. Tempo aproveitado para a maturação de uma galáxia de canções inglesas até ao caroço e tão suculentas como um pomar de melodias com raízes nos anos 60.
FM – “Apple Venus” é um álbum magnífico, um dos melhores de sempre da banda, sem dúvida o melhor desde “Skylarking”. Concorda?
COLLIN MOULDING – Toda a gente diz isso. É um álbum que flui como um todo, algo que nem sempre conseguimos fazer antes. É, sem dúvida, o trabalho mais coerente desde “Skylarking”.
FM – Nota-se o prazer que tiveram em tirar o máximo partido das possibilidades oferecidas pelo estúdio. O prazer de manusear um brinquedo?
COLLIN MOULDING – Prefiro pensar que decorámos as canções apenas com aquilo de que elas precisavam, nada mais do que cada uma delas pudesse aguentar. Tratou-se de encontrar o vestuário certo para cada letra específica.
FM – Correm rumores de que “Apple Venus” esteve mesmo para ser o primeiro álbum a solo de Andy Partridge. É verdade?
COLLIN MOULDING – Quem disse iso foi Dave Gregory, o nosso ex-teclista, mas ele não tem razão. O álbum é o resultado de um esforço conjunto. Na realidade, o Dave não gostpu muito da ideia de fazer este álbum, nem sequer queria gravá-lo. ele toca no disco, como é que podia ser um disco a solo do Andy? Penso que ele disse isso em desespero.
FM – Poquê desespero?
COLLIN MOULDING – Porque se sentia infeliz e tinha que o demonstrar. ele nunca esteve de acordo em fazer um álbum com orquestra, preferia usar mais guitarras eléctricas, esse tipo de sonoridade. Mas se fizéssemos isso, estaríamos a repetir algo que já tínhamos feito em “Nonsuch”.
FM – Ao longo de todos estes anos, houve momentos de tensão, mesmo de alguma rivalidade, entre vocês e Andy. Andy foi sempre uma espécie de Lennon e McCartney ao mesmo tempo, enquanto você representou o papel de George Harrison, com contribuições muito mais esporádicas para o som do grupo. Sente-se confortável nessa posição?
COLLIN MOULDING – Andy escreve mais do que eu. Não se trata de uma divisão de 50 por cento para cada um. Digamos que eu fico com 25 por cento para mim…
FM – Consta que ele tinha na carteira 40 canções para este álbum e você, seis…
COLLIN MOULDING – Os números não são bem esses… Há aí um certo exagero da parte dele. É verdade que ele tinha mais canções do que eu, mas a verdade é que elas são todas boas. E é ele quem toma as decisões. Mas, quando é preciso, também imponho os meus pontos de vista.
FM – A questão que se pode pôr é se as próprias canções de Andy seriam as mesmas sem o seu “input”…
COLLIN MOULDING – Sim, gosto de pensar que assim acontece. E, provavelmente, ele também influencia a minha escrita. No estúdio, pedimos sempre a opinião do outro. Ele pergunta-me se as suas canções precisam de mais alguma coisa. Há um ponto em que só a imaginação de uma pessoa não chega para fazer avançar uma canção. Temos funcionado bem desta maneira nos últimos 20 anos, não vejo razão para mudarmos.
FM – Antes de “Apple Venus”, editaram uma caixa com gravações ao vivo antigas para a BBC. Não acha que foi uma operação algo desnecessária, que não veio trazer nada de novo ao que já se conhecia da banda?
COLLIN MOULDING – A questão é que essas gravações para a BBC já estavam feitas há muito tempo e haveria sempre alguém para as explorar. Se não fôssemos nós, outra pessoa qualquer o faria, foi assim que nos foi apresentado o assunto. Corríamos o perigo de alguém comprar a licença de edição dessas gravações e editá-las de qualque rmaneira, ou de uma maneira com a qual poderíamos não concordar. Assim, tomámos nós a iniciativa e apresentámos nós próprios esse material. Foi uma questão de controlo.
FM – Enter “Nonsuch” e o novo álbum há um intervalo de sete anos. Foi preciso todo este tempo para encontrarem inspiração?
COLLIN MOULDING – A questão é que, depois de 20 anos a gravarmos para a Virgin, não queríamos voltar a gravar para esta editora. É um assunto já batido, o contrato, que achamos injusto, que existia entre nós e a Virgin. Não quisemos desperdiçar, ou não ter qualquer compensação monetária, o material que tínhamos composto. Por isso estivemos todo este tempo sem trabalhar para o grupo, embora nos envolvêssemos em projectos com outras pessoas. No mesu caso trabalhei com uma banda francesa, Láffair Louie Triel [NR: Ou assim nos soou o nome, atavés do telefone...]. Também toquei e produzi um tema de um álbum da mulhar de T-Bone Burnett, Sam Philips, “Martinis & Bikinis”.
FM – Além dos Beatles, evidentemente, os Kinks sobrevoam como uma nuvem “Apple & Venus”. “I’d Like That”, por exemplo, é um tema tão marcado por Ray Davies que até esconde na letra uma tal “Victoria”…
COLLIN MOULDING – Sim, Ray Davies anda sempre por aí… É, sem dúvida, o artista que mais influencia o Andy. Mas há também os Beach Boys, Burt Bacharach e autores de musicais como a dupla Rodgers & Hammerstein. Uma das “críticas”, ou opiniões, que mais temos ouvido nos últimos tempos é que muitas das canções do álbum parecem ter sido retiradas de peças musicais. a mim isso agrada-me. Tanto eu como Andy adoramos bandas sonoras. É um género musical que está hoje mais ou menos morto e que gostaríamos de poder reavivar. Hoje em dia o que se faz é enfiar à força numa banda sonora um êxito pop qualquer. Não se escreve nada com qualidade de propósito para o filme. Gostaríamos de compor um dia algo tão bom como “What’s New, Pussycat”, por exemplo.
FM – “Apple Venus” é o “Sgt. Pepper’s” dos XTC?
COLLIN MOULDING – Não sei. Só sei que é um dos meus discos preferidos dos XTC. E a resposta tem sido boa em toda a parte. As pessoas parecem gostar. O facto de usarmos uma orquestra também afastou algumas pessoas. O facto de haver texturas orquestrais em vez de texturas mais tradicionais, de guitarra. Mas continuam a ser, apenas, canções pop…
FM – “Knights in shining karma” é um tema misterioso, dos mais misteriosos do disco. Fala de quê?
COLLIN MOULDING – Isso também eu gostaria de saber! (risos). não fui eu que escrevi o tema, por isso é difícil avaliá-lo.
FM – Já houve quem dissesse que muita gente acha a música dos XTC brilhante, mas não faz a mínima ideia de que é que tratam as letras. Acha isso?
COLLIN MOULDING – No meu caso, penso que escrevo de uma forma bastante literal. Uma escrita muito clássica. Gosto de coisas directas, de estabelecer uma relação directa com os ouvintes. As pessoas vivem as canções, por isso gosto de escrever sobre sentimentos simples com que as pessoas se possam relacionar. Uma das minhas canções deste álbum, “Frivolous tonight”, provoca esse efeito, torna o coração de quem a ouve leve. Já ninguém quer escrever este tipo de canções, como “Big spender”, de Shirley Bassey, canções ligeiras. As novas bandas, especialmente as mais novas, escrevem todas sobre assuntos escuros e pesados, pensando que é a única maneira de serem levados a sério e isso não é verdade. A escrita de Andy é mais complexa. Tenm sentidos ocultos, há sempre um lado que não é revelado e que exige um trabalho difícil de decifração. “Knights in shining karma” é um desses temas. não sei o que significa mas sei que é para ser ouvido em momentos de solidão.
FM – Por falar em letras, é a primeira vez, se não estou em erro, que não aparecem impressas na capa, não é?
COLLIN MOULDING – Boa pergunta! Pessoalmente, preferia que as letras aparecessem, mas o Andy insistiu que, desta vez, não. Não percebi bem porquê, devo confessar. Um livrete não ficaria nada mal. O Andy achou que as pessoas deveriam ficar mais entregues a si próprias. Mas se houver pânico e gritos a pedir ajuda, com certeza que as incluiremos numa próxima impressão [risos].
FM – Quem teve a ideia para a capa?
COLLIN MOULDING – Foi tirada de um livro de arte editado nos anos 50, onde aparecia esta figura da pena de um pavão, fotografada em folha de alumínio muito brilhante. Visualmente, resulta muito forte. Se olhar bem para o centro da pena, há-de reparar numa forma, uma sombra, muito ambígua, que tanto pode ser interpretada como uma maçã como uma vulva de uma mulher, daí o título “Apple Venus”. Uma conotação sexual. Muita da música do disco está associada a esta ambiguidade.
FM – Presumo que, a seguir, sairá um “Apple Venus, Volume Two”?
COLLIN MOULDING – Incluímos este grupo de canções num volume 1 porque era este o som que nos apetecia fazer, deixando de lado as guitarras eléctricas. Mas a verdade é que ficaram de fora canções com guitarra eléctrica e vamos ter de as gravar. Por isso vamos começar a trabalhar, daqui a alguns meses, num volume 2, que será um álbum cheio de material à base de guitarra, a sair, talvez, em Fevereiro do próximo ano.
16.04.1999
Trans AM Citam Radiohead Em “Futureworld”
O.K. Computador
Depois de três álbuns “escuros” e de uma fecunda pescaria nos anos 70, os Trans AM pintaram-se de branco e foram buscar alimento à década seguinte, num novo trabalho, “Futureworld”, em que, apesar da herança incontornável dos Kraftwerk, puseram um pé no funk e outro no electropop. Enquanto se preparam para entrar no ano 2000 como uma banda de guitarras.
Trans Am – Futureworld live from Thrill Jockey Records on Vimeo.
Um anos depois de “The Surveillance”, a banda de Chicago regressou mais poderosa do que nunca, com um álbum carregado de electricidade e distorção, mas também de melodias para dançar. Phil Manley falou ao PÚBLICO dos preparativos para a entrada no novo milénio.
FM – O tema de abertura de “Futureworld” tem por título “a999”. É alguma declaração sobre o ano em curso, ou sobre o final do milénio?
PHIL MANLEY – É um tema com um som muito “cool”, com saxofone e um naipe de cordas. Faz lembrar um pouco uma canção dos Funkadelic, “Megaprint”, com um solo que parece interminável. Escolhemos o título empurrados por toda esta febre do final do milénio, mas também por ser uma espécie de homenagem a Prince e à sua canção com este mesmo nome.
FM – Qual a sua opinião sobre a música que se tem feito nestes últimos anos?
PHIL MANLEY – Não sei… Tenho de admitir que ando um bocado fora de tudo. Normalmente a música que ouço é mais antiga. Acabei de ouvir, por exemplo, um álbum dos Black Sabbath, “Masters of Reality”. Adorei.
FM – No tema seguinte utilizam um Vocoder. Penso que pela primeira vez. Tentaram criar uma voz de robô, como a dos Menmachine dos Kraftwerk?
PHIL MANLEY – Exactamente. Cantar é uma coisa algo difícil para nós. Por isso refugiámo-nos atrás da máquina.
FM – Este tema usa uma melodia que parece decalcada dos Tubeway Army, de Gary Numan. foi propositado?
PHIL MANLEY – Acha? Adoramos Gary Numan, é capaz de criar melodias fantásticas e de extrema simplicidade. Mas não foi intencional, embora não me surpreenda que ache o tema parecido com os Tubeway Army…
FM – Depois do “krautrock” dos anos 70, dá a impressão de que as bandas conotadas com o pós-rock estão a assimilar influências dos anos 80, Human League, Cabaret Voltaire, Clock DVA. Isto também acontece com os Trans AM?
PHIL MANLEY – A maior parte das pessoas, ao referir-se aos anos 80, só fala de Madonna ou de Michael Jackson, quando na verdade houve muita música underground que passou totalmente despercebida. Como os Chrome, uma das minhas bandas favoritas, que têm álbuns fantásticos como “Red Exposure” ou “No Humans Allowed”. Ou os Throbbing Gristle, os Suicide, os P.I.L., a fase inicial dos New Order, tudo bandas que as pessoas não ouviam na altura.
FM – Em “Futureworld”, há uma óbvia colagem a “Radioland”, do álbum “Radio Activity”, dos Kraftwerk. Até usam a mesma palavra, “radio”…
PHIL MANLEY – Sim, é fácil para nós “roubarmos” coisas dos Kraftwerk [risod]. O problema é como é que sepode evitar isso? É como perguntar a uma banda pop de foram influenciados pelos Beatles.
FM – “Futureworld” corresponde a uma visão sobre o futuro do mundo?
PHIL MANLEY – Não sei. Gostamos de estar muito atentos ao que se passa e tentamos ser optimistas. Mas não pensamos muito no futuro. Escolhemos “Futureworld” como título porque nos pareceu um termo apelativo. Como “computer World” [dos Kraftwerk] ou “Future Days” [dos Can].
FM – No tema seguinte, “City In Flames”, pode ouvir-se uma voz ameaçadora. Corresponde a alguma personagem específica?
PHIL MANLEY – É interessante que fale numa personagem. O nosso baterista, Sebastian, interessa-se por toda a espécie de jogos de personagens [“role games”], como “Dungeons & Dragons”, que gira em torno de um ambiente com dragões e acavaleiros, aventura e fantasia. A partir daqui ele inventou uma nova personagem, com uma linguagem própria, meio humana meio lobo, gravada num registo muito grave. É assustador. Como alguém a falar-nos por cima do ombro.
FM – “AM Rhein” apresenta um ritmo e riffs de guitarra completamente rock. Os Trans AM preparam-se para ser uma “guitar band” no ano 2000?
PHIL MANLEY – Espero que sim [risos]. A guitarra continua a ser o meu principal instrumento e o Nathan é, sem dúvida, um baixista tradicional. Não tencionamos mudar. As pessoas, neste final dos anos 90, já estão fartas de cena tecno. Um destes dias vai haver de certeza um revivalismo da guitarra. Talvez só aconteça daqui a 20 anos, seja como for, poderei dizer que a toquei sempre durante este tempo todo.
FM – “Cocaine Computer” é um título bizarro para um tema delicioso. Os Trans AM renderam-se ao funk?
PHIL MANLEY – O título é uma homenagem a “O.K. Computer”, dos Radiohead. Mas é também uma espécie de desabafo numa altura em que nos estávamos a sentir chateados no estúdio. É quase uma “jam session”.
FM – O computador envia-nos alguma mensagem?
PHIL MANLEY – Não. Nenhuma. Somos bastante amadores no que respeita aos computadores. Temos um computador já antigo. Todo o trabalho de electrónica mais difícil do álbum foi feito pelo Sebastian, num velho Atari que ele programou em Basic.
FM – Depois de “Futureworld”, surge um “Futureworld II”. Trata-se de algum futuro alternativo?
PHIL MANLEY -Fizemos um “Futureworld II” porque não tínhamos mais nenhum título para essa canção… Também nos agradou fazer algo semelhente ao que fizeram os Police, em “Synchronicity”, um e dois. Mas também é possível, de facto, encarar o tema como essa tal alternativa, já que uma das versões tem letra enquanto a outra é muito mais abstracta. E assustadora, na maneira como começa, com o som em chuva…
FM – Como em “Blade Runner”?
PHIL MANLEY – Exactamente.
FM – “Sad and Young” parece quase ter sido feito por uma banda diferente. Não soa a nada que apareça paea trás no álbum… É uma despedida ou um lamento?
PHIL MANLEY – É um lamento. Percebo o que quer dizer, soa de facto a algo produzido numa sessão de gravação diferente. Está cheio de guitarras e do som de órgão. É um tema orgânico…
FM – Jonas, uma personagem de Alain Resnais, fará 20 anos no ano 2000. O que poderá esperar um jovem de 20 anos do próximo milénio?
PHIL MANLEY – Toda a gente está a ficar apanhada pela ideia de que tudo mudará radicalmente no próximo milénio, mas penso que não haverá assim tantas mudanças, embora eu esteja convencido de que a economia global do planeta irá entrar em colapso e que a pobreza aumentará.
FM – A capa de “Futureworld” mostra um horizonte virtual completamente branco e vazio…
PHIL MANLEY – Certo. Gostamos dessa imagem. Mas, por outro lado, a capa é branca e verde por outra razão. Queríamos uma imagem com brilho…
FM – Como um monitor de computador?
PHIL MANLEY – Sim, algo que desse uma ideia mais positiva, até porque os nossos três primeiros álbuns são todos bastante escuros.
FM – A ideia final que “Futureworld” me sugere é a de uma viagem puramente mental, através de um computador, como se se tivesse perdido a ligação com o mundo exterior. É lícito concluir que o tema principal é a ilusão?
PHIL MANLEY – Sim, suponho que sim. Ou a fuga. Na tentativa de encontrar alguma esperança.
FM – Os Trans AM estão prontos para entrar no novo milénio?
PHIL MANLEY – Absolutamente. construímos um abrigo antibombas e enchemo-nos de comida enlatada [risos]. Pessoalmente, estou preparado para fazer uma enorme festa, provavelmente em Nova Iorque. É lá que costuma fazer as passagens de ano. Acontece sempre algo de louco.
19.02.1999
“Sexto Sentido” Muda Sonoridade Do Grupo
Legião Estrangeira
Seis anos depois de “O Fogo”, os Sétima Legião voltaram a reunir-se para gravar um novo álbum, “Sexto Sentido”, um trabalho marcado pela tecnologia e pelo tratamento de samples que funde a alma da Sétima numa alface virtual. Música menos física e mais mental, nas palavras do grupo. E muito mais internacional.
Tão ou mais surpreendente do que a mudança radical nos métodos de trabalho e gravação deste novo álbum da Sétima é o facto de, passado um interregno de seis anos, os intervenientes serem os memso e, ainda por cima, estarem sintonizados na mesma onda musical. Um caso de fé inabalável num projecto e num conceito que passou a ter forma exclusiva nas máquinas e nas mentes dos músicos. “Sexto Sentido” existe apenas enquanto utopia sonora e espaço convergente de diversas sensibilidades unidas pelo propósito da descoberta e reconversão. Daquilo a que, com boa vontade, ainda poderemos chamar tradição, mas agora já transmutada num mutante abstracto que se alimenta do imaginário planetário. O PÚBLICO samplou as ideias de três dos alquimistas, Gabriel Gomes, Pedro Oliveira e Paulo Abelho.
FM – Ao escutar-se “Sexto Sentido” tem-se a impressão de que a música se esgota numa dimensão exterior, não só à anterior realidade do grupo, como à própria fisicalidade do som. Como conceitos a pairarem num mundo de imponderabilidade…
GABRIEL GOMES – Isso deve-se ao diferente método de produção que utilizámos. Nem toda a gente estava disposta a ir para uma garagem passar quatro meses a ensaiar. Foi muito mais fácil agarrar nos compositores e respectivas composições e juntá-los consoante a disponibilidade de cada um.
PAULO ABELHO – Além do facto de cada um de nós ter desenvolvido, entretanto, diferentes métodos de trabalho.
FM – As composições deixaram de ser assinadas pelo colectivo para passarem a ser assinadas pelos nomes próprios dos músicos, em diversas combinações.
GABRIEL GOMES – O que não quer dizer que não haja um intercâmbio e uma comunhão.
FM – Querem dizer que, embora tivessem seguido carreiras separadas, acabaram todos por convergir ao mesmo tempo numa estética comum?
PAULO ABELHO – O que acontece é que, desde o início, há 15 anos, que somos amigos. Continuámos todos a andar juntos, a sairmos à noite, com negócios comuns…
GABRIEL GOMES – O Pedro, sobretudo, serviu de elo entre todos. Mas o que uniu tudo foi a matéria musical. E isso é que foi o mais engraçado. Embora separados, quando nos juntámos para estúdio, estávamos todos no mesmo sítio.
FM – Como é que surgiu a ideia de erguer toda a arquitectura de “Sexto Sentido” com alicerces nos samplers? É um mundo alheio à Sétima Legião antiga…
PAULO ABELHO – É verdade que operámos com base em samples e nos sintetizadores, mas sem qualquer sentido arquivista.
PEDRO OLIVEIRA – Deixámos de respeitar as regras de um grupo pop. Este disco é um disco de vários compositores com um elo comum.
FM – Mas não acham que álbum soa um pouco a produto de laboratório?
GABRIEL GOMES – Usámos métodos diferentes para trabalhar o som. É evidente que, quando se trabalha com tecnologia, tem que se utilizar métodos laboratoriais. Mas acho que, por exemplo, nas figuras da gaita-de-foles ou do acordeão, tentámos criar “takes” o mais espontâneos possível, gravados á primeira. Inclusive, deixámos algumas coisas que não quisemos corrigir. A grande inovação deste disco é, de facto, o som.
FM – No caso das vocalizações sobre vozes sampladas, de que forma é que esta interacção modifica a interpretação em tempo real? Esta questão dirige-se, como é óbvio, ao Pedro.
PEDRO OLIVEIRA – É intuitivo. Quando sentes que alguém está a cantar ao teu lado, de uma maneira não física, isso molda a nossa maneira de cantar. Se não houvesse a voz de uma senhora do campo a cantar, eu cantaria, de certeza, e outra maneira.
FM – Até que ponto “Sexto Sentido” foi composto, não só no, mas com o próprio estúdio?
PAULO ABELHO – Sobretudo na fase final, nos últimos meses, começámos a simplificar as coisas. Sem dúvida que houve pormenores que só apareceram no estúdio.
FM – Concordam que, com este disco, a Sétima respira já alguns ares de música de dança?
GABRIEL GOMES – Há uma sonoridade mais contemporânea, mais próxima de algumas correntes actuais. Mas não se trata de um “beat” de música de dança. Mas, se reparar, todos os concertos da Sétima Legião eram de dança, as pessoas dançavam do princípio ao fim…
FM – “Sexto Sentido” é um disco de fusão. Em que sentido é que aceitam, se é que aceitam, este termo?
GABRIEL GOMES – Não se tratou de agarrar em tudo e meter numa panela, mas de fundir as sonoridades, os instrumentos acústicos com os electrónicos.
FM – Mas naõ concordam que a sonoridade global do disco se insere numa vertente internacional bastante identificável?
PEDRO OLIVEIRA – Não foi propositado. Mas o que é isso de ser ou não português? Os Gaiteiros de Lisboa, por exemplo, estão cada vez menos portugueses.
GABRIEL GOMES – Tem a ver com a produção, com a forma de tratar os om. E aí, concordo, é um som mais interbnacional do que português. Outro exemplo: ouvi no outro dia os DNA, têm um som exactamente igual aos U2… Incrível. Mas são portugueses. O som de uma banda de recolha?
PEDRO OLIVEIRA – Desde o início tivemos sempre a preocupação de não ter como objectivo estético o aproveitamento da portucalidade, da tradição, etc… Há 15 anos usávamos uma gaita-de-foles apenas porque ficava bem. Nunca quisemos fazer qualquer transposição da tradição para música pop.
Alfaces e Fractais
FM – Existem facções diferentes na Sétima, uma mais tecnológica e outra mais acústica? Referimo-nos ao Paulo Marinho…
PEDRO OLIVEIRA – Não, embora não exerça muito, também tem o fascínio pelos computadores. Aliás, o papel dele, neste disco, foi o mais ingrato, por ser o único músico cem por cento acústico. Ingrato, por não poder repetir neste caso o que sempre fez. No passado havia algumas coisas prvisíveis, sabia-se sempre onde é que entrava um solo de gaita. Neste disco ele fez um esforço de não ser previsível, no sentido de produzir um som muito menos trabalhado. É uma contradição com alguma graça, inclusive há algumas “gralhas” que optámos, ou optou ele, por aproveitar. Muitas vezes esperávamos que ele fizesse de determinada maneira e ele fazia exactamente o oposto.
FM – A capa do álbum insiste na tecla tecnológica. É um fractal?
PAULO ABELHO – Não. É uma alface. Com filtros.
GABRIEL GOMES – reflecte a dualidade da terra e da tecnologia. Ema simbisose biológica.
FM – Têm opinião sobre o actual retorno aos sintetizadores analógicos?
PAULO ABELHO – Houve uma altura em que se passou do analógico para sistemas como o “PCM”, com pequenas amostras de som pré-programados no sintetizador. Acabou por acontecer uma certa saturação disso. Eram aqueles sons e só aqueles. Agora, construir algo a partir do zero, que é o que acontece no analógico, é muito mais fascinante, em termos de criatividade.
FM – Usaram sintetizadores analógicos neste disco?
GABRIEL GOMES – Sim, como um JP 8000, dos anos 80, que recupera todos os analógicos da Roland antigos, sintetizados na mesma máquina.
FM – Nada de Moogs nem A.R.P.?
PAULO ABELHO – Eu tenho um Korg MS-10 onde é possível criar qualquer coisa de raiz. Posso partir do ruído branco e daí construir um novo som em tempo real. O que vai acontecer na próxima fase é o aparecimento de uma nova tecnologia que utiliza estes métodos de síntese, mas já em conjunto com samplersd. Todas as marcas estão a lançar analógicos, mas mesmo isso vai chegar a um limite. É preciso inventar novos métodos de síntese, como já acontece com a Yamaha, com síntese FM, que recorre a algoritmos. Mas nunca vou samplar uma gaita-de-foles (a não ser que pretenda desmontar ou manipular o seu som), se puder usar o instrumento real.
14.01.2005
The Dead Texan – Uma Estrela Caiu Do Texas
The Dead Texan é um projecto de Adam Wiltzie, elemento dos Stars of the Lid, grupo ao qual se deve a música mais ambiental que a primeira geração do pós-rock ofereceu. Anunciado como um som “mais agressivo”, o álbum “The Dead Texan” sedimenta as propostas dos Stars of the Lid, acrescentando-lhes vozes e quase, quase, a estrutura de canções. Um segundo disco apresenta em DVD as imagens vídeo criadas por Christina Vantzos, que também estará presente nas duas actuações em Portugal, hoje em Lisboa e amanhã no Porto.
FM – O título e a capa – quase um “cartoon” – deste trabalho parecem não se adequar ao teor da música. Como foram concebidas?
Adam Wiltzie – Sem querer fazer “statement”, suponho que têm um significado especial para mim e para Christina. A capa surgiu como consequência do que tenho observado na arte gráfica de outros álbuns do género. O termo “expressionismo abstracto” continua a ser a referência principal. Mas o facto de lidar com estruturas musicais ambientais, obriga-me a fazer arte gráfica ambiental também? Talvez esteja a divagar, mas olhando para o catálogo antigo da Kranky, optei por algo mais simbólico, no sentido clássico, que é simplesmente uma representação minha e de Christina. Tenho pensado em dois artistas famosos, Peter Paul Reubens (o pintor barroco) e Pablo Picasso (o clássico expressionista abstracto). Picasso, aparentemente, criou 40 mil obras durante a sua vida, enquanto Reubens se quedou pelas 400. Quando ouço as pessoas referirem-se a Picasso como génio, não posso concordar, as pessoas usam este termo levianamente. E se ele não o fosse de fato? Picasso lembra-me Lou Reed, um idiota que apenas estava no lugar certo, na altura certa (Warhol/Factory/Nova Iorque…). Reubens era mais como Mark Hollis. São anos e anos de vida a marcar acda pintura. Quando se olha para uma delas consegue-se perceber o sofrimento mental, a angústia, é algo maciço.
Quanto ao título significa apenas que vivi antes no Texas, um sítio morto…
FM – Houve quem achasse que esta música era “demasiado agressiva” para um disco dos Stars of the Lid.
Adam Wiltzie – Quando trabalhei como engenheiro de som dos Flaming Lips, o Wayne Coyne costumava dizer-me que a minha música era “chata”, que nada acontecia. Sugeriu-me que fizesse algo mais agressivo. O álbum é um pouco uma piada privada em resposta ao Wayne.
FM – É uma música que flutua entre a ambiental pura de Eno e a ambiental industrial, em que os sons nem sempre são apelativos. De que forma tenta afectar a percepção musical dos ouvintes?
Adam Wiltzie – Não tento. Apenas faço a música que gosto de escutar. Será que deveria divagar poeticamente sobre a forma como a minha música afecta o mundo? Creio que os vossos leitores se preocupam mais com o jardineiro do [treinador do Chelsea] José Mourinho do que comigo! De facto, sou levado a pensar que a minha música é incrivelmente imperfeita. Tenho um problema com músicos com grandes egos, que pensam que a sua música é perfeita. Como é que se pode evoluir se se tem uma atitude de reverência para com o que se fez no passado?
FM – Há uma vertente de música de câmara que faz lembrar Gavin Bryars…
Adam Wiltzie – É uma grande influência. Qualquer comparação com ele, positiva ou negativa, é um elogio.
FM – “Avec Laudenum” dos Stars of the Lid foi agora reeditado pela Kranky. A versão anterior, na Sub Rosa, não estava capaz?
Adam Wiltzie – Não, apenas estava descontente com a editora. A Sub Rosa fez um trabalho horrível e devem-me uma quantidade de dinheiro. É inegável que editaram uma série de bons discos mas as suas práticas financeiras deixam muito a desejar. Trabalhar com a Kranky é um prazer. São incrivelmente organizados e recebo pagamentos duas vezes por ano.
FM – Trabalhou em estreita colaboração nos vídeos com Christina Vantzos?
Adam Wiltzie – Nalguns casos a música já estava escrita, noutros aconteceu o contrário. Embora Christina tenha feito a maior parte da montagem, fui que fiz, por exemplo, a animação das mãos a tocarem piano, em “Aegina airlines”. Funcionou melhor assim do que se fossem dois músicos ou dois artistas de vídeo, cada um tem um bom conhecimento da especialidade do outro. Foi fácil, demorámos apenas nove meses a criar todas as imagens.
The Dead Texan + Phoebius
Lisboa | Galeria Zé dos Bois, R. Da Barroca, 59. Hoje, às 23h. Tel. 213430205. Bilhetes a €7,5.
Porto | Teatro Passos Manuel, Sáb., às 24h. Bilhetes a €7,5.
29.01.1999
Maria Ana Bobone Lança “Senhora Da Lapa”
De Noite, Na Igreja
Em “Luz Destino”, Maria Ana Bobone fazia flutuar a sua voz entre o cravo e as entoações barrocas de João Paulo Esteves da Silva e a guitarra portuguesa de Ricardo Rocha, na nave de uma igreja abandonada. Os três voltaram ao mesmo local, trocaram de posições e o resultado é “Senhora da Lapa”, verdadeiramente o álbum de estreia da cantora. Clássico, ideal para meditar, assombrado pelos ecos da noite.
Maria Ana Bobone vem do fado, sente como enraizadamente portuguesa a música que canta e não esconde o desejo de, um dia, gravar um disco inteiro com reportório clássico. “Senhora da Lapa”, editado com o selo M.A. (uma espécie de variante, mais romântica, da ECM), leva mais longe o gosto pelo intimismo e pela religiosidade que já despontava em “Luz Destino”. A par da voz, brilham as palavras de Fernando Pessoa e de Sebastião da Gama. O PÚBLICO conversou com a cantora.
FM – Em “Senhora da Lapa” os intervenientes são os mesmos, mas a hierarquia mudou…
MARIA ANA BOBONE – Resolvemos, desta vez, fazer um disco meu. Era suposto ser um disco de “lullabies” [canções de embalar], mas acabaram por ir surgindo outras músicas diferentes. Tudo isto porque o Tod [director da editora] achava que a minha voz era a ideal para cantar esse tipo de canções. Podia ter alguma graça fazer um disco desses… Mesmo assim há algumas semelhanças em canções como “Jesus embala o Menino” e “Luar”, que parece uma música infantil e depois se complica, à maneira do seu autor, o João Paulo…
FM – Está a cantar cada vez mais próximo de um certo registo clássico…
MARIA ANA BOBONE – Se tivesse de catalogar o meu estilo era, sem dúvida, mais para o clássico, embora entre aspas, entre muitas aspas…
FM – O fado ficou definitivamente para trás?
MARIA ANA BOBONE – Acho que não. A música deste disco é muito portuguesa, tem algumas raízes no fado. Mas é verdade que quis sempre explorar outros caminhos. As canções deste disco não são, de todo, fados, mas sinto nelas essa portugalidade. Deve lá haver qualquer coisa na estrutura…
FM – A quem se deve a escolha dos poemas, entre os quais sobressaiem dois de Sebastião da Gama, incluindo as duas versões do título-tema?
MARIA ANA BOBONE – Andámos, o João Paulo e eu, a vasculhar em alguma material que ele já tinha feito. “Senhora da Lapa” foi feita de propósito para o disco, assim como o outro poema de Sebastião da Gama, usado em “ABC”.
FM – Sentiu particular prazer em cantar algum dos poetas que aparecem no disco?
MARIA ANA BOBONE – Talvez o Fernando Pessoa, em “Flux”, bem como a Maria Pimentel Montenegro, em “Dos teus olhos”.
FM – Como se processou a transição de uma posição secundária, em “Luz Destino”, para o protagonismo de “Senhora da Lapa”?
MARIA ANA BOBONE – O outro disco não era um disco meu! Eles já tinham feito o disco todo e chamaram-me à última hora para cantar. Fui apenas mais um instrumento. Neste disco, pelo contrário, foi tudo moldado a mim. Eles compuseram e tocaram para mim. Daí as tais canções de embalar que eles também achavam muito paropriadas para a minha voz.
FM – Quer dizer que, pelo menos nesta primeira fase da sua carreira, ainda não detém o controle sobre a orientação estética a seguir?
MARIA ANA BOBONE – Não tenho muito, não! Se fosse eu a escolher exactamente o que queria, seria eu sozinha a fazer o disco! Não tenho controle no sentido em que respeito a personalidade e opções dos outros músicos. É um bocado: ‘Olhem, eu sou isto, o que é que queres, o braço, a perna, o joelho ou o pé?’ Posso perfeitamente não escolher o pé!… Quer dizer que não canto tudo o que me puseram à frente. Aliás havia, à partida, algumas canções com que não me identificava. Daí que o disco tivesse demorado algum tempo a sair [um ano e meio]. Porque quis acrescentar-lhe mais duas ou três músicas mais mexidas: “Hortelã-mourisca”, “Ternura” e “Espelho quebrado”, que é um fado. Achava o alinhamento original todo muito igual, lento, embora, claro, este não seja um disco para dançar, mas, pelo contra´rio, um convite à reflexão, à interiorização.
FM – A presença, no disco, de um saxofonista, Peter Epstein, não deixa de fazer lembrar outra colaboração, muito antiga, entre uma fadista e um saxofonista: Amália Rodrigues e Don Byas…
MARIA ANA BOBONE – É uma mera coincidência. O saxofonista aparece porque já tinha gravado com o João Paulo num disco dele, instrumental, chamado “Mergulho”. O Tod Garfinkle, da editora, resolveu misturar no meu disco o saxofone, até porque o Peter já manifestara antes o seu apreço pela minha música. Adaptou-se lindamente ao “feeling” do disco.
FM – Prefere ouvir-se a si própria a cantar fado, acompanhada por guitarras e violas, ou neste tipo de reportório, acompanhada por piano?
MARIA ANA BOBONE – Ouço-me a mim própria de uma maneira que só eu conheço. Ninguém mais sabe. Sinto-me bem das duas maneiras. Mas, muito mais do que uma casa de fados, gosto do ambiente de uma igeja, como aquela onde gravei este disco, onde as condições acústicas são fabulosas.
FM – Em que altura e em que condições é que foi gravado o álbum?
MARIA ANA BOBONE – Foi espectacular! Já com o “Luz Destino” senti a mesma sensação, de estar numa igreja grande e vazia, à noite, à uma da manhã, com tudo fechado, silêncio lá fora, só com umas luzinhas acesas. Eu cantava mesmo de frente para o altar, com o gravador em cima do altar. É uma sensação única, poder cantar à vontade, soltar tudo! Fabulos!
FM – Ainda canta em casas de fado?
MARIA ANA BOBONE – Nunca cantei, por sistema, em casas de fado. Tenho algumas saudades, mas a verdade é que o meu actual estilo de vida – tenho aulas de canto de manhã e dou aulas de música, à tarde, num colégio particular – não mo permite. Com o tempo que me sobra, trato da minha carreira.
FM – Emancipou-se, então, em definitivo, do grupo de fadistas de que fazia parte com outros jovens fadistas, o Alma Nova?
MARIA ANA BOBONE – Isso já é, completamente, história. Claro que, se o João Braga me convidar para um espectáculo, eu vou com todo o gosto e alinho. Eu já gravei, já fiz, já andei mais do que os outros, mas há sempre uma relação.
FM – O contrato com a M.A. prevê a edição de mais discos?
MARIA ANA BOBONE – Vou dizer uma coisa fantástica: não existe nenhum contrato! [Risos.] É tudo feito na base da boa-fé. O Tod gosta da kinha música, a editora paga-nos, tem sido tudo impecável. Nunca vi isto em mais lado nenhum. E não há exclusividade. A qualquer momento posso decidir outra coisa qualquer. É um bom recado para as editoras. Acho que é a maneir amais honesta de trabalhar. Se não estiver satisfeita, ou a editora não estiver satisfeita, acabamos a relação. O que obriga ambas as partes e esforçarem-se para se aproximarem.
FM – Já pensou alguma vez em gravar um disco só com reportório clássico?
MARIA ANA BOBONE – Sim, já me passou pela cabeça. Mas ainda não estou preparada, nem conheço reportório suficiente. Era mais por achar graça, não como estilo de vida. Tenho uma personalidade um bocado instável. Gosto de fazer várias coisas, de não me prender a uma só.
18.12.1998
Produtor Inglês Mistura Hands On Approach
Encontra-se em fase de mistura final o álbum de estreia dos portugueses Hands On Approach (HOA), estando previsto que o disco saia em fins de Fevereiro, princípios de Março, segundo anunciou um dos responsáveis da Polygram. Na mesa de misturas dos estúdios Exit, está Darren Allison, produtor inglês de renome (The Divine Comedy, Spiritualized, Skunk Anansie, The Orb, Eurythmics, Bootsy Collis, Electronic, Babybird, Propaganda, entre outros) que antes já tomara contacto com o som dos HOA, acompanhando-os durante quase uma semana de ensaios. A gravação, sempre sob a supervisão de Allison, decorreu ao longo dos últimos meses nos estúdios da Régie.
Em definitivo, está já o alinhamento, com um total de dez canções, metade em inglês, metade em português. “Saudade”, “Djembé”, “Um destino”, “tão perto, tão longe” e “Musa” são os títulos cantados em português sendo o inglês utilizado em “Blown”, “My Wonder Moon”, “Insignificance”, “Gift to none” e “Silence”. Demo do mês, com “My wonder moon”, para a FM Radical, maquete do ano para a Super FM, os Hands on Approach prometem estoirar no mercado nacional com um som que poderá tornar-se o sucessor natural dos Silence 4 na conquista dos tops. O grupo, formado em Abril de 1996, para uma actuação “un plugged” em directo na Antena 3 e cujo nome foi escolhido à entrada do estúdio, a partir de um título qualquer lido numa revista, é constituído por Rui David (voz e guitarra, Michael Stipe, dos REM, que se cuide…), João Luís (baixo), Sérgio Mendes (guitarra) e Aníbal Rosado (bateria).
Pedro Barrento, que descobriu os HOA quase por acaso, ao fim de uma noitada num bar de Setúbal, ainda não se refez do efeito que lhe provocou a música do grupo, do qual se tornou entretanto o empresário: “Achei a música genial. É tudo aquilo que as bandas portuguesas, em geral, não são, com uma pop directa, descomprometida, correspondente a um certo som “britânico”. Todos reconhecem nos HOA um “potencial comercial fabuloso”. A Darren Allison cabe neste momento a responsabilidade de transformar a gema em jóia lapidada.