
![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() |
![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() |
![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() |
![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() |
![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() | ![]() |
| By N2H | ||||||




Posting tweet...
Powered by Twitter Tools
|
|
|




10.10.1997
Carlos Martins & Vasco Martins
Outras Índias (8)
Nortesul, distri. Valentim de Carvalho

Carlos Martins, saxofonista de jazz e conceptualista atento à fusão dos sons do universo, cruzou-se com Vasco Martins, navegante solitário do Mindelo, Cabo Verde, dos sintetizadores e das miragens “new age”, autor de uma trilogia intitulada “Southbound Music”. Decidiram gravar juntos, numa ponte entre duas solidões – a do Alentejo e a do Mindelo. Em busca de “Outras Índias”, lugar imaginário apenas para quem não se consegue libertar das amarras da estagnação, da intolerância e da cegueira. “Outras Índias” é um lugar – esse lugar “onde mora a beleza”, nas palavras do saxofonista – que não se encontra no jazz nem na música tradicional de Cabo Verde. Paisagem contemplativa e intimista, espaço amplo de diálogo entre os saxofones tenor e soprano de Carlos Martins com os sintetizadores e guitarra acústica de Vasco Martins (não se procurem neles outro parentesco senão o da cumplicidade musical…), “Outras Índias” avança devagar, saboreando cada nota e cada pausa. O estado de alma pode estar próximo do de um Rão Kyao só que aqui se parte para uma aventura maior. Meditativo, caloroso, exótico, deve ouvir-se com a mesma liberdade de espírito com que foi criado. O saxofone de Carlos Martins deixa-se inebriar pelas delícias mais subtis do tonalismo (Karl Jenkins, dos Soft Machine, convertido a Canterbury…), enquanto Vasco Martins sonha contrapontos de guitarra ou tece discretas tapeçarias electrónicas. Uma geografia a descobrir.
18.02.2005
Rui Azul
À Bolina
Registos Autónomos, distri. MC – Mundo da Canção
7/10
Eis um disco agradável, imaginativo, sugestivo e razoavelmente original no panorama das “novas músicas”, tendência suave, da música portuguesa. Rui Azul, músico do Porto, realizou sozinho “À Bolina”, um álbum de viagens, tema estafado quando os itinerários repetem as rotas do turismo. Não é o caso de “À Bolina”, Azul, além de produzir e arranjar, toca saxofone tenor, sax MIDI, flautas, rhaita, zummara, didgeridoo, darbuka, percussões étnicas, voz, teclados, samplers, sequenciadores, programação e “loops”. Ah, sim, também foi ele que gravou, misturou, masterixzou, fez o desenho gráfico, a BD e os textos. “À Bolina” é um álbum de boa fusão, entre jazz, “world” imaginária e electrónica sequenciada. Vozes deslocadas no espaço e no tempo, sons híbridos, batidas entre o computacional e o ritual. A escola é óbvia: Musci/Vennosta, Benjamin Lew, Steve Shehan. Mas Azul é bom colorista e sabe combinar os tons, dando de facto pistas para uma viagem interior que é afinal cinema da imaginação. As ilustrações de BD têm algo da “Garagem Hermética” de Moebius. Um passo à frente de Rão Kyao, Ficções e Carlos Maria Trindade/Nuno Canavarro na elaboração de fusões oníricas com âncora, mais ou menos funda, em Portugal.
10.10.1997
Pop Huzik
Lida Husik
Fly Stereophonic (8)
Alias, distri. MVM
A música pop, por mais ínvios que sejam os seus caminhos, possui os seus arquétipos. Nos anos 60 os Beatles e os Kinks, em Inglaterra, e os Beach Boys e os Zombies (toda a gente deveria ser obrigada a fazer um doutoramento em torno dessa verdadeira enciclopédia da arte pop que é o álbum “Odessey & Oracle”), nos Estados Unidos, estabeleceram as regras pelas quais uma canção pop digna desse nome se deve reger. Claro que as regras foram feitas para serem quebradas e, neste campo, não têm faltado exemplos, ao longo das últimas três décadas de produção pop, de David Bowie a Robert Wyatt, de Brian Eno (dos primeiros álbuns) aos Residents. Em Inglaterra existiu sempre algo mais, a tal “englishness”, uma combinação, com percentagens incertas, de excentricidade, maneirismo e uma atracção fatal pela melodia perfeita, carregaram este espírito da afectação “mod” até à “Brit Pop” dos nossos dias. Nos anos 80, um grupo, sintetizou em si tudo o que a pop inglesa tem de melhor: Os Monochrome Set. E falamos deles porque os Lida Husik, ou Lida Husik, a vocalista do grupo, são os Monochrome Set dos anos 90. “Fly Stereophonic”, da estética da capa ao “design” sonoro de todas as faixas, recupera as linhas de sinuosa e decadente elegância do grupo de Bid e Lester Square, ao qual se devem, pelo menos, três obras capitais, “Strange Boutique”, “Love Zombies” e “Eligible Bachelors”. Lida Husik não esconde a devoção pelos Monochrome Set, incluindo no alinhamento de “Fly Stereophonic” uma versão surreal de “Ein Symphonie Des Grauens”. Na ficha de agradecimentos também não se esqueceu de mencionar Bid, o único, o incomparável vocalista de ascendência indiana dos Monochrome Set. A fórmula usada em “Fly Stereophonic”, que faz dele um brinquedo verdadeiramente atraente, passa pela ênfase posta na melodia, mas seguindo uma das tais regras de ouro da clássica pop irreverente, a imprevisibilidade aliada à doçura, a perturbação e a escuridão disfaçadas sob um vestuário colorido. Em suma: a diletância do “dandy” que vive o maior dos desastres com a fleuma de um alheamento sobrehumano. Os temas de “Fly Stereophonic” remetem para a mitologia e iconografia da adolescência, mas numa perspectiva que junta o terror cósmico com a ingestão de um copo de café com leite e a morte com os prazeres de uma cidade de chocolate. Mas a verdade dos factos diz-nos ainda outra coisa, é que Lida Husik e o seu grupo são americanos, o que acrescenta uma dimensão ainda mais oblíqua á sua música, surgindo então a segunda fonte de inspiração de “Fly Stereophonic”, os B-52’s. Ouça-se, a este propósito, uma faixa como “Soundman”, onde as linhas de guitarra e uma rítmica tipicamente Monochrome Set andam a par de uma vocalização com óbvias conotações com aquele grupo americano. “Fly Stereophonic”
(…) Faltam-me 3 ou 4 linhas. Estão no “Autodiktater” dos Mouse on Mars, que o Fernando Martins tem.
25.03.2005
Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado
LINK (“Sensus”)
Chegou a causar polémica a questão de se saber se Cristina Branco é fadista, cantora de fado ou nem uma coisa nem outra mas simplesmente uma cantora que também gosta de cantar fados. O imbróglio iniciou-se com os primeiros discos, como “Post-Scriptum”, quando Cristina tinha sede exclusiva da sua carreira na Holanda. Era então uma “fadista” exilada que no seu próprio país era encarada com certa estranheza.
Os últimos trabalhos, porém, baralharam a questão. “Corpo Iluminado” e, sobretudo, “Sensus”, inspirado na poesia erótica, mostravam já uma voz e uma sensibilidade adultas que de modo algum se confinavam ao universo do fado. “Ulisses”, o novo álbum, que apresenta amanhã no S. Luiz, em Lisboa (esta semana, ainda, quinta-feira em Aveiro), consuma a ruptura. Apenas um fado, “gaivota”. Todo o restante alinhamento respeita um outro roteiro de referências que passam pela música popular urbana. Em “Ulisses” Cristina Branco recusa terminantemente o epíteto de “fadista”. Não é um álbum de fados nem de fado mas um alinhamento, cuja lógica secreta apenas a sua intérprete detém, que inclui as assinaturas de Fausto, Vitorino, José Afonso e… Joni Mitchell. Custódio Castelo, como é hábito, completa musicalmente a maior parte do disco, com a sua guitarra portuguesa e uma inspiração que vai buscar inspiração ao fado, a Paredes, à música árabe e a outras tradições algumas delas existentes apenas dentro da sua cabeça. Cristina Branco dá voz e alento a visões poéticas construídas com as palavras de Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís gordo, Júlio Pomar, David Mourão-Ferreira e Paul Éluard.
Os velhos do Restelo ficam com os cabelos em pé, perante tanta e tamanha diversidade. A esses Cristina Branco faz ouvidos de mercador, prosseguindo um caminho que ela própria não sabe onde desembocará mas que forçosamente será da sua inteira e exclusiva responsabilidade. “Ulisses” é o disco das “vontades” e dos “desejos” da cantora, quase mimando os caprichos da mulher grávida, situação que viveu de facto e foi determinante na economia emotiva de “Ulisses”. “Ulisses” é o filho de uma cantora que não quer ver barreiras na linha de horizonte mas cujos pontos de exclamação são, ao mesmo tempo, pontos de interrogação. São vários os sentidos. Os sentidos que sentem, os sentidos que são setas, os sentidos que são dor. Os sentidos que também são línguas. Além do português, o sotaque brasileiro, o castelhano, o francês (na “Liberté” de Paul Éluard) e o inglês (em “A Case of You” de Joni Mitchell) são os idiomas usados em “Ulisses”, como ferramentas de um trabalho de exploração e descoberta. Poderiam parecer sinais de inquietação (e também são…) mas, mais do que sinais, são a carne e o espírito de canções provenientes de muitos mundos que Cristina Branco quer experimentar e transforma em verbos conjugados na primeira pessoa. Experiências alheias que se tornam suas. E no palco, a experiência amor e mais arriscada: a recusa de máscaras e a exposição nua no quadro da sua própria interioridade. Cristina Branco, por mais longe que a sua personalidade vá em busca de novas vivências, é sempre Cristina Branco. A exploradora. Que às vezes, quando o seu coração passa por lá, até canta o fado.
Cristina Branco
Sábado | 26
Lisboa | Teatro Municipal de S. Luiz
R. Antº Maria Cardoso, 38-58. Às 21h00. Tel.: 213257650. Bilhetes: €19,5 a €25,5. Na sala principal.
Quinta | 3
Aveiro | Teatro Aveirense
Pç. República. Às 21h30. Tel.: 234400920. Bilhetes: €17,5 (plateia); €15 (balcão)
10.10.1997
World – Suécia
Cinco Violinos
A editora Xxource/Resource continua a fazer o seu trabalho de repescagem de clássicos, a par da edição de novos nomes da música da Suécia, na área tradicional mas também do progressivo (bo Hansson, Sammla Mannas Mama) ou de autores contemporâneos, como Lars Hollmer e o desconhecido Dan Gisen Malmqvist. Acabou de chegar mais um pacote de lançamentos. Cinco, uma equipa à base de viloinos.
Faz sentido começar pelo grupo mais antigo,, e também mais clássico, do pacote, os J P Nystroms, um quinteto oriundo da zona mineira que rodeia a cidade de Gallivare, onde, desde há séculos, está estabelecida uma comunidade de lapões. “Stockholm 1313 km” é uma colectânea de temas dos três ábuns de originais do grupo, gravados em 1979, 1980 e 1987, e de uma cassete editada em 1986. Joan Olafsson, dos Nörrlatar, refere-se aos J P Nystroms de forma entusiástica, insistindo no seu pioneirismo e na frescura das interpretações. Com base numa combinação de quatro violinos – tradição fortemente implantada em toda a Escandinávia – o som dos J P Nystroms não tem o poder de ruptura de alguns dos grupos suecos mais recentes, sendo antes uma abordagem calorosa e séria do folclore de uma região específica, equivalente ao que os Dubliners, por exemplo, fazem na Irlanda. (Resource, 6).
No capítulo das bandas novas, surgem pela primeira vez no mercado português os Trio Patrekatt, com “Adam”. A sua proposta é original, embora não propriamente destinada a impressionar uma quantidade grande de ouvidos: juntar duas “nyckelharpas” (violino arcaico munido de teclas, cuja sonoridade faz a ponte entre a rabeca e a sanfona) com um violoncelo. O som daqui resultante, não primando pela variedade, aposta necessariamente na expresiividade, aspecto em que o trio revela todas as suas capacidades. O reportório de “Adam” é constituído, além de originais do grupo, por “polskas”, ora de sabor clássico, ora de colorido mais popular e rural, que, se outro mérito não tivessem, constituem material de dança de primeira água. Depois, como acontece com frequência nesta região da Europa, a Escandinávia, a música popular está intimamente ligada às tradições mais antigas, da Idade Média e do Renascimento, o que lhe confere um sabor e poder evocativo muito especiais. Escute-se a este propósito, um tema como “Prefektens Favoriter”. A não perder, sobretudo para os apreciadores da escola violinística escandinava, que sabem apreciar as delícias de um grupo de referência como os JPP. (Xxource, 7).
Alegrem-se os furiosos do ritmo, que esperam a “next big thing” depois dos Hedningarna, Den Fule, Hoven Droven e Garmarna. Os Vasen têm tudo para corresponder a estas expectativas. O seu novo álbum, “Varldens Vasen”, assenta numa poderosa secção rítmica propulsionada pelas percussões do novo elemento do grupo, André Ferrari (um autêntico Fórmula Um…), sobre as quais os restantes três músicos, Olav Johansson, na “nyckelharpa”, Roger Tallroth, na guitarra, e Mikael Marin, na viola de arco, elaboram uma complexa tapeçaria de compassos e arranjos que, uma vez mais, estão fortemente enraizados na tradição, mas insistem na sua modernização. Reforçam a componente rítmica e – lá teremos que utilizar novamente o termo… – progressiva (“Börjar du fatta”, “Nitti pomfriti”, “Tartulingen”…) de uma música que se desenvolve em constantes alterações de andamento e soluções tímbricas, o que é notável se nos lembrarmos de que o grupo apenas dispõe de três instrumentos solistas. Curiosa a fusão Suécia-Indía em “Shapons vindaloo”. Esqueçam os preconceitos e saboreiem esta música de infinitos matizes. Bolas, os Vasen, conseguem ser tanto ou mais complexos que os Gentle Giant!… (Xxource,
Dan Gisen Malmqvist é um compositor e clarinetista que andou nos anos 70 a tocar “jazz” com Ale Möller (actualmente um dos mais reputados músicos suecos, presença indispensável nos discos de Lena Willemark), quando travou conhecimento com o grupo Arbete & Fritid (já reeditado num dos primeiros álbuns da xxource), através dos quais descobriu uma nova forma de improvisação, intrinsecamente ligada à música tradicional. “Nattljus”, gravado já este ano, é o seu segundo álbum, após “Vattenringar”, de 1990. Nele encontramos uma música, quase sempre calma, que junta o lado mais introspectivo de Lars Hollmer com uma admiração pelo “bal musette” e a canção do “vaudeville” (“Motvals”, vocalizada por Karin Parrot) franceses e os folclores da Grécia e dos Balcãs, alternando com marchas mais próximas da fluidez de um Bo Hansson (“Glasskapet”) doq ue das lúgrubes fanfarras dos Arbete & Fritid. Se me é permitido escolher um tema, optaria pelo encantamento solena de “Sorg”, onde Malmqvist toca uma taragota (clarinete grego) a pensar na música de Charlie Haden. (Xxource, 7)
Para finalizar, e só para chatear, mais violinos, incluindo o típico “hardingfela” sueco, mais viola de arco, lira, violoncelo e órgaõ de vozes, gravados noutra editora sueca, a Drone, pelos Höök!. Se os J P Nystroms representam o lado maispopular deste instrumento, os “Höök!” representam a sua vertente erudita. “Höök!”, o disco, subintitulado “Musik Ur Svenska Handskrifter Fran 1600 – Och 1700-Talen”, incide no reportório do século XVII, constituindo, sem sombra de dúvida, matéria de regozijo para um melómano e música clássica, mas deixando o adepto mais intransigente da “folk” de mãos a abanar. Para este, sobra a voz de Susanne Raosenberg, cujas escassas aparições fazem lembrar as liturgias de Agnes Buen Barnas. (Drone, 7; todos os discos distri. MC – Mundo da Canção).
10.10.1997
Reedições
Fantasmas No Ar
Os coleccionadores da discografia progressiva dos anos 70 continuam a não ter mãos a medir, mesmo levando em conta que os mais ferrenhos não desistem de procurar furiosamente as edições originais em vinilo, tarefa por vezes difícil e bastante dispendiosa. Alheias a este tipo de purismo, as editoras continuam a retirar dos respectivos fundos de catálogo algumas referências que, à época da primeira edição, passaram praticamente despercebidas. Algumas destas novas reedições em compacto procuram revalorizar o produto de origem, quer através de uma apresentação e embalagem mais apelativas e contendo informação adicional, quer através da remasterização das fitas originais, de modo a melhorar significativamente as “perfomances” sonoras.
Os Curved Air viram, por fim, passar para o formato digital a sua obra-prima de 1972, “Phantasmagoria”. Com uma reprodução condigna da capa – uma deliciosa figura inspirada no imaginário de Lewis Carroll – e a inserção, no livrete, das letras de todas as canções. Em termos de informação, é tudo. Mas a qualidade e originalidade da música supera qualquer deficiência noutros aspectos. “Phantasmagoria” é o ponto culminante e, em simultâneo, o limite de uma música que nunca parou de evoluir nos três primeiros álbuns, começando por “Aircondittioning”, mais rock e imediatista, com passagem pela delicadeza sombria de “Second Album”. Em “Phantasmagoria” há, sobretudo, uma colecção de canções perfeitas que aliavam o pendor classicista do violinista Darryl Way (“Marie Antoinette”, “Cheetah” ou a aceleração electrónica de “Ultra-Vivaldi”, prolongamento do tema “Vivaldi”, incluído em “Aircondittioning”) com o experimentalismo do teclista Francios Monkman (explorado de forma magnífica no instrumental “Whose shoulder are you looking over anyway?”, um dos primeiros temas gravados por um grupo pop a utilizar um computador). Mas o que verdadeiramente projectava a identidade dos Curved Air eram as vocalizações de Sonja Kristina, cujas inclinações variavam entre dosi extremos, da visceralidade de uma Grace Slick à suavidade das cantoras folk. Uma voz que tanto era capaz de demonstrar a intensidade dramática de “Marie Antoinette”, o tropicalismo de “Once a ghost, always a ghost” e o encantamento mágico de “Melinda (more or less)”, como de segredar, com a maior candura, os prazeres da masturbação feminina. Um clássico. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 10)
Os Yes foram um dos pilares da música progressiva, odiados por uns e amados por outros. No centro do conflito esteve sempre a voz andrógina de Jon Anderson, para alguns insuportável mas para outros a incarnação do canto dos anjos. “Olias Of Sunhillow”, anteriormente apenas disponível em CD em edição japonesa (que incluía uma miniaturização do autêntico livro de gravuras que era a capa da edição inglesa original, na Atlantic), é o primeiro álbum a solo do cantor e, sem sombra de dúvida, o seu melhor. Em termos formais, é um conceptual – a história da ruína e salvação de um povo estelar, salvo por um profeta que os conduz pelo espaço-tempo até outro planeta – onde Jon Anderson tocava todos os instrumentos, incluindo a harpa, que aprendeu para o efeito, e os sintetizadores. A música oscila entre estranhas invocações vocais e sequências electrónicas que antecipavam as posteriores colaborações do cantor com Vangelis. É um álbum completamente à margem da grandiloquência dos yes, no qual Jon Anderson explanou da melhor forma a sua veia mística. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 8).
Hesitantes entre a grandiloquência, o jazz-rock, o progressivo e o comercialismo, estiveram sempre os Greenslade, projecto de dois ex-Colosseum, o teclista Dave Greenslade e o baixista Tony Reeves (que viria a integrar a formação derradeira dos Curved Air…). “Beside Manners Are Extra” apresenta progressos em relação ao álbum de estreia, na forma como equilibra boas canções pop com instrumentais entre o jaz-rock e o “rock sinfónico” (gulp!), que servia para mostrar as capacidades virtuosíticas de todos os elementos do grupo. Um aviso: a gravação não é famosa. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 7)
Poucos deviam conhecer, em 1970, a música dos Titus Groan, no único álbum gravado por esta simpática banda na sua curta carreira, aqui aumentado por três temas extra, incluindo os lados A e B de um “single”. Os Titus Groan faziam parte de um pacote de bandas progressivas lançadas pela editora Dawn, que incluía os Comus, Heron e Demon Fuzz, com quem realizaram digressões conjuntas. “Titus Groan” é um álbum que raramente consegue ser mais do que uma sequência de clichés do progressivo de segunda linha, tendo, porém, a seu favor a diversidade das canções, que vão da pop quase comercial ao puro psicadelismo e às muito curiosas divagações do saxofonista do grupo, cujas intervenções levavam a música para áreas invariavelmente mais criativas e tonalmente interessantes. (See For Miles, import. Torpedo, 6)
Referência ainda para a edição da totalidade da obra gravada por duas bandas folk-rock com estilos e “pedigree” diferentes. Os Tudor Lodge, um dos primeiros grupos a assinar pela Vertigo (a capa de “Tudor Lodge”, multidesdobrável, era um desperdício de cartão…), eram tipicamente progressivos, usando a “folk” como mero pretexto para alinharem a sua visão sonhadora, criada pela voz de rosas de Ann Stewart, e as guitarras acústicas de John Stannard e Lyndon Green com esporádicas inclusões de outros instrumentos e arranjos para naipes de corda e metais. A arrumar ao lado dos Magna Carta, Trader Horne e Mellow Candle. (Si Wan, import. Torpedo, 7)
Os Mr. Fox, pelo contrário, nasceram nos clubes “folk” ingleses, mas as concepções que sobre esta tipologia musical tinha o seu líder, Bob Pegg, eram de molde a marginalizar o grupo, mas capazes de agradar aos apreciadores de música progressiva e do folk-rock electrificado. A presente reedição reproduz a edição dupla em vinilo, “The Complete Mr. Fox”, lançada pela Transatlantic, que acoplava os dois únicos álbuns gravados pelos Mr. Fox, “Mr. Fox” e “The Gipsy” (um dos temas deste álbum, “Mendle”, foi retirado desta reedição por falta de espaço). O primeiro, mais declaradamente folk, continha originais harmonizações vocais de Bob com a sua então mulher Carolanne Pegg (também violinista, de parcos recursos, mas possuidora de indesmentível carisma) e uma concepção sinistra (ouça-se o título-tema, para se perceber como são os papões da “folk”) da rítmica “morris” e da “folk” inglesa em geral. “The Gipsy” é uma obra com outras ambições que integrava uma instrumentação mais vasta e eléctrica (incluindo a participação de dois antigos elementos dos Trees), cujo auge é atingido na “suite” “The Gipsy”, dividida em vários movimentos que contam a história e a viagem de um homem que persegue até ao desgosto final a sua apaixonada cigana. Trata-se de uma obra imprescindível do “folk-rock”, nas suas franjas mais obscuras. (See For Miles, import. Torpedo, 8).
03.10.1997
Arcana
Cantar de Procella (5)
Cold Meat Industry, import. Symbiose
Um organista louco martela as notas do inferno num órgão de um templo em louvor a estranhas ruindades pagãs. Da fogueira eleva-se um cântico grandioso, evocativo de… Klaus Blasquiz… quem? Klaus Blasquiz, o Pavarotti endemoinhado dos Magma, quando este grupo francês ainda profetizava a vinda do império de Kobaia. É assim o ambiente do primeiro tema de “Cantar de Procella”, segundo álbum dos Arcana, uma banda de gótico com uma carga de sombras e danações impressionante.
É uma missa negra que traz para os domínios do gótico a solenidade infernal celebrada como música de câmara pelos Univers Zero, em “Ceux du Dehors”. Os Arcana fazem ainda coro com os Dead Can Dance (ou com Bernard Lustmord, num registo mais fundo e perturbador) e os In The Nursery. A mesma praga que os primeiros lançaram no cemitério e os segundos no campo de batalha. Claro que tudo isto pode ser tanto uma música que acredita verdadeiramente no seu poder de sugestão, como uma brincadeira capaz de provocar sorrisos de troça nas mentes menos impressionáveis. Já houve um tempo em que se chamava a este tipo de operações “música ritual”. Rituais das trevas, marcados por uma religiosidade profana. Só que o terror tem hoje cores bastante menos escuras, o diabo aprendeu a vestir-se de branco para melhor enganar, com elegância, as almas tresmalhadas.
04.03.2005
M83
Before The Dawn Heals Us
Gloom, distri. EMI Music Portugal
7/10
Guitarras, bateria, electrónica misturadas com uma batedeira inconfundivelmente francesa. Os M83 são um projecto de Anthony Gonzalez e “Before the Dawn Heals Us” é o seu terceiro trabalho, depois de “M83” e “Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts”. O som é épico, progressivo, evocando paisagens vastas. As referências com que vêm aureolados vão desde os Mogwai aos My Bloody Valentine, passando por Mussorgsky, Can e Tangerine Dream. A referência aos My Bloody Valentine tem a ver com o lado hipnótico das guitarras enquanto o paisagismo épico, vagamente pós-rock, convoca os Mogwai. Quanto aos Can não se percebe bem a chamada, muito menos a dos Tangerine Dream, por mais pioneiros de tudo que estes dois grupos tenham sido ainda que numa faixa como “Farewell/Godbye” os sintetizadores possam recordar a banda alemã, com os sintetizadores um bocadinho enferrujados pela humidade. Em relação a Mussorgsky, deixai o homem descansar em paz. O progressivo dos M83 tem a ver com o ambiente geral, com a construção dos temas e a constante mudança de registo. E “Fields, shorelines and hunters” até que podia ter sido gravada nos anos 70, mas “I guess I’m floating” passaria com facilidade por qualquer coisa dos Trans AM cruzados com os My Bloody Valentine. Pós-quê?
03.10.1997
Psicocabaré
Portishead
Portishead (8)
Go! Beat, distri. Polygram
Façam favor de deitar fora os Smoke City e a sua visão turística de tintas Robbialac de um mundo sem fronteiras. Cerrem os dentes e fileiras. O verdadeiro “safari” pelas crostas mentais e mais cinematográficas do trip hop continua a ser comandado pelos Portishead ou, para darmos o seu a seu dono, pelas estratégias de reconversão de Geoff Barrow e a voz de diva virtual de Beth Gibbons, coadjuvados pelos dotes de composição do terceiro elemento, Adrian Utley.
A nova película, a preto e branco, dos Portishead é um “thriller” bastante mais assustador do que o sedativo prescrito pela banda em “Dummy”. Onze temas de duração curta e de extraordinária densidade sonora que a cada momento investem na desconstrução e procura de novas coordenadas para a jádemasiado tipificada componente rítmica associada ao trip hop. Mais do que nunca, Barrow recorre a um trabalho exaustivo de samplagem dos sons que percorrem o seu imaginário, de fragmentos sinfónicos e ambientais, a música de filmes dos anos 60 e excertos de “fake jazz”. Mas o que distingue verdadeiramente este processo das vulgares apropriações de James Brown e de todo o arsenal soul dos anos 60 disponível para este tipo de “roubo” é o modo como o grupo personaliza estes materiais.
Na verdade, a maior parte das samplagens de “Portishead” deriva de um processo de autofagia, em que o grupo toca e grava primeiro em tempo real para um suporte em vinilo, usando depois as gravações para processamento, seja ele de sequenciação, decalque ou simplesmente de “scratch”. O resultado é um universo globular e esfrangalhado, de canções residuais amparadas pelas vocalizações – entre um “western” de Salem, a balada jazz clássica em processo de decomposição, um carnaval macabro de New Orleans, a soul petrificada e o cabaré de almas penadas – de Beth Gibbons, também elas saturadas por camadas sucessivas de filtragem, raspagem e polimento.
Não admira que no meio desta respiração pesada e do ambiente de claustrofobia os Portishead desenhem, mesmo que esta seja ainda uma derradeira ilusão, janelas abertas para o ar livre e para o silêncio, como acontece em “Humming”, onde um “Theremin” sideral faz vibrar o ar, precisamente, num “requiem” electrónico pela morte das “boas vibrações”.
04.03.2005
Genesis
Rael Na Real Em Cascais
The Lamb Lies Down On Broadway foi o concerto certo na altura certa. A revolução de Abril, e o seu banho de realidade, era ainda uma criança mas o onirismo do rock Progressivo já declinava. Os Genesis acertaram precisamente no meio. Um DVD editado puxa pelas memórias.
Para os que estiveram presentes no Dramático de Cascais nas noites de 5 e 6 de Março, de 1975, foi o concerto das suas vidas. Tão importante que, 30 anos depois, um grupo de carolas resolveu juntar-se para comemorar e promover iniciativas alusivas ao concerto: um almoço-encontro (amanhã, no Centro Cultural da Gandarinha, às 13h30, com entrada a 30 euros), um número da revista Cais dedicado ao concerto e a edição de um DVD-documentário [ver texto nesta páginas].
1975 foi um ano estranho em Portugal. A ebulição provocada pelo 25 de Abril estava longe de se considerar extinta e saborear o gosto da liberdade era ainda estonteante. Viviam-se os tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), espantava-se o medo que a reacção erguesse de novo o rosto monstruoso. Tão monstruoso como a máscara que Gabriel vestiu nessas noites, durante a apresentação do tema “The colony of the slippermen”, com as suas bolhas-balões…
O concerto dos Genesis, mítico porque catalisador de uma corrente estética – o rock progressivo – e centrado no espírito da época, foi um sonho tornado realidade para os que lá estiveram. Duas noites de escape feito visão, com o COPCON (Comendo Operacional do Continente) a tentar controlar no exterior do Dramático de Cascais aquilo que é impossível de controlar, a imaginação. No segundo dia houve mesmo tiroteio (para o ar) a causar o pandemónio geral. Ambiente fervilhante. Lá dentro, ainda mais quente, estaria delirante.
Foram 20 mil os que assistiram à apresentação de “The Lamb Lies Down on Broadway”. Para o grupo era o pico de uma carreira que abraçara o rock progressivo mas que neste álbum prenunciava já a ruptura com um imaginário que o punk arrasaria e formataria em canções de dois minutos de ódio e a ainda menor número de acordes. As tensões eram imensas mas a obra revelou-se capital. Peter Gabriel, Rael (anagrama de “Real”), na iconografia de “The Lamb…”, trazia já embrulhada nas suas histórias o dia-a-dia a preto e branco (como a capa do álbum, a contrariar a profusão cromática das anteriores).
A fantasia dos Genesis deixara de ser a “trip” de “Supper’s Ready” (“Foxtrot”, 1972), a surrealidade de “Nursery Crime” (1971) ou a Inglaterra paradoxal de “Selling England by the Pound” (1973). Agora era a luta de Rael, um porto-riquenho de casaco de cabedal. De certa forma “The Lamb…” antecipa o fim do rock progressivo, num ano, 1974, que coincide com a agonia desta corrente musical. As “suites” de 20 minutos desapareceram, dando lugar a canções curtas que revelam o desejo de Gabriel de chegar a outro público, mais próximo da pop e menos elitista. Não por acaso o grupo teria a sua primeira cisão já no ano do concerto, 1975, sendo “The Lamb…” por muitos considerado não um álbum dos Genesis mas uma obra de Gabriel. Gabriel que encetaria a partir daí carreira a solo que não fez mais do que confirmar o abandono do rock progressivo. Quanto aos Genesis, depois de breve período de transição, sinalizado por “Trick of the Tail” (1976) e “Wind and Wuthering” (1976), tinham o caminho aberto para se tornarem num grupo “mainstream”, de estádio, para multidões.
1975 foi pois o último ano de glória do Progressivo. O ano seguinte seria o voltar da página mas “The Lamb…” ainda é considerado a obra-prima do grupo. O teatro e a inovação que nessas noites em Cascais fizeram revirar os olhos à assistência representaram o expoente da estética do grupo. Fumos, máscaras, “slides”, ilusões de óptica transformaram o concerto num ritual de metamorfoses. Mas Peter Gabriel/Rael que escrevera sozinho toda a peça (duplo álbum em disco, mais de duas horas de espectáculo ao vivo) estava de saída. Os Genesis nunca mais voltariam a ser os mesmos. Os elementos da assistência também.
Não foi o primeiro concerto de rock progressivo em Portugal. Antes já por cá tinham passado os alemães Embryo (curiosamente, a estreia, gratuita, de um concerto deste tipo, aconteceu com um representante do krautrock), os If, os Beggars Opera e – primeiros a actuarem no Dramático – os Procol Harum. Mas os Genesis vieram na altura exacta, no apogeu. Ao contrário de outros concertos, em que o mais excitante foi de ordem não-musical, os Genesis trouxeram a perfeição.
No caso dos Procol Harum, foi ver parte do público a saltar para o interior do pavilhão a partir do telhado, ao mesmo tempo que, numa tentativa para acalmar os ânimos, a organização anunciava pelos altifalantes que já faltava pouco e que os músicos estavam nesse momento a entrar para o avião que os traria de Londres para Lisboa… Com os Beggars Opera a excitação aconteceu quando um dos assistentes, culminando um “strip tease” improvisado, pontapeou um dos sapatos para a plateia. O esmagamento contra a parede da entrada do Monumental, no concerto dos String Driven Thing, não conta. O concerto dos Atomic Rooster em Almada, com o tropel do público a espezinhar o porteiro e este, pisado e espalmado no chão, continuando, num delirante excesso de zelo, a pedir que lhe fossem mostrados os bilhetes, também não… Era o rock em Portugal nos anos conturbados do pós-revolução.
Casos extremos foram o tiroteio da polícia no concerto dos Can no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa e, no registo oposto, a beatitude ordeira dos que se deslocaram a Cascais para ver e ouvir os Pulsar. Com os Genesis foi tudo em grande: o público em excesso (houve quem, no interior do pavilhão, não visse peva do espectáculo), o visual desmesurado do grupo, a dimensão inflacionada da própria obra, escrupulosamente recriada em moldes artísticos e técnicos a que Portugal nunca antes assistira.
Genesis
Metralhadoras e Charros
As recordações seguintes pertencem a quem esteve lá e se lembra. Com histórias para contar daqueles dois dias de apertos, tiros, mas, sobrelevando tudo, um dos maiores espectáculos de rock ao vivo em Portugal.
Miguel Ângelo – Delfins
Tinha 8 anos quase 9, e um dos discos que tinha ouvido no ano anterior era o “Selling England by the Pound”, em casa de umas primas que passavam férias em Inglaterra e traziam alguns vinis que por cá não se encontravam. Assim rumei a Cascais, acompanhado pelas referidas primas, irmão e pais. Lembro-me do ambiente de celebração, era o primeiro dia de concerto e a revolução ainda estava fresca. De qualquer modo, não houve grande confusão lá dentro (ao contrário do segundo dia, onde o COPCON também actuou!). Antes do concerto, as pessoas aplaudiam aqueles que conseguiam entrar à borla através de uma abertura na bancada que dava para o hipódromo! Quando as luzes se apagaram toda a gente se pôs em pé em cima das cadeiras, e fiquei em desvantagem. Nisto, um freak simpático ao meu lado pôs-me às cavalitas, de onde vi a maior parte do concerto! Nunca lhe agradeci o suficiente por isso… A memória fotográfica resistiu mais ao tempo que a auditiva, embora a interpretação de Gabriel e os teclados de [Tony] Banks fossem a marca de água das canções, juntamente com a guitarra de [Steve] Hackett, o único músico que tocando sentado contrastava com a exuberância de Gabriel. Mas tenho presentes, mais ou menos desfocadas, as imagens do manto negro a abrir o seu patchwork colorido em “The Light Lies Down…”, do efeito do cone de luz rodando sobre o cantor, da simulação da “cage”, da ilusão, através de um manequim, de Gabriel estar nos dois lados do palco ao mesmo tempo, daquela banda de imagem dividida por três ecrãs – inovadora para a altura! – e daquele balão rebentado no fato de estranhas protuberâncias que tinha sido usado como imagem promocional do concerto. Este concerto terá cimentado a minha ligação eterna à música pop e apontado uma via profissional alternativa, num país ainda muito atrasado nesse aspecto. Mas era aquilo que quereria fazer “quando fosse grande…”
David Ferreira – Director da EMI-VC
Estava tão cheio que dava a sensação de que não havia lotação limite. Estávamos todos permanentemente ao colo de alguém ou com alguém ao nosso colo. Há cerca de três anos, eu estava no estúdio do Peter Gabriel para ouvir o último disco dele. Não o conhecia pessoalmente. Almoçámos no estúdio da Real World e o Peter Gabriel apareceu estávamos nós a começar a almoçar. Ia cumprimentando as pessoas e na altura em que chegou a minha vez disse-lhe: “olhe, não nos conhecemos, mas a primeira vez que o vi foi há vinte e muitos anos”. Ele ficou assim a olhar para mim. Até que exclamou: “Portugal… Portugal… ah, com as metralhadoras!” Lembrava-se perfeitamente, nunca tinha actuado ao lado de soldados com metralhadoras. Ficou encantado o resto do tempo a contar histórias desse concerto. Também me lembro que apareciam dois Peter Gabriels. Mais tarde quando vejo o Phil Collins a assumir as rédeas como cantor parti do princípio que o clone do Peter Gabriel seria ele. E lembro-me que estávamos todos vagamente charrados, com o que o tipo do lado fumava. A proximidade das pessoas era tão grande que era impossível deixar de sentir o fumo. Foi uma mistura curiosa de uma sobrelotação terceiro-mundista, metralhadoras e charros.
Zé Pedro – Xutos e Pontapés
Para a minha geração foi o grande concerto rock. Estava fascinadíssimo. Fui para lá com três dias de antecedência, só tinha dinheiro para o bilhete de um dia, para o segundo dia falsifiquei, fiz um bilhete à mão. Só o ambiente já era excepcional, podemos comparar, à nossa dimensão, a um Woodstock.
Manuel Cardoso – Tantra
Fui aos dois dias. Aquilo foi um aperto desgraçado, inacreditável, mas os espectáculos foram memoráveis. Impressionou-me sempre a obra em si, “The Lamb Lies Down On Broadway”, embora não seja o meu trabalho preferido dos Genesis. Gosto mais dos dois primeiros álbuns, a seguir vem esse e o “Trick of the Tail”. Impressionou-me o espectáculo, mas o concerto não marcou nada os Tantra. Cresci com os Genesis mas não, essa questão [da influência] foi sempre[ posta] por causa das máscaras, as pessoas colam pelo óbvio. A nossa música não tinha nada a ver com os Genesis, aliás era das bandas progressivas, eles e os Pink Floyd, as que menos nos influenciaram.
Lena D’Agua – Cantora
Fui no dia em que houve tiros lá fora. Estava tanta gente, tanta gente que ficou impossível. Eu estava pendurada, agarrada a uma grade, como não sou alta, só assim é que dava para ver. Fui com dois amigos, um era o meu namorado, futuro marido, e mais um outro da banda, os Beatnicks. Quando chegámos a Cascais, de comboio, estava tanta gente, havia filas que davam a volta ao quarteirão. Mas passámos ao pé de um porteiro a perguntar quanto tempo é que ele achava que ia demorar. Eu estava muito apaixonada, com uma tunicazinha e ele achou que eu estava grávida. “A senhora está à espera de bebé, pode entrar!”. E entrámos. O mais incrível é que eu não estava grávida mas engravidei mesmo nesse mês, também já andava a pedi-las. O concerto foi um espectáculo de luzes, aquele Peter Gabriel maravilhoso, o que ele fazia no palco… desaparecia de um lado, aparecia do outro… Lembro-me de um túnel por onde ele entrava… Era tudo fantástico para nós, na altura o que tínhamos por cá eram os festivais de jazz de Cascais. E a gente não faltava. Não éramos do jazz, mas era uma maneira de vermos bons músicos a tocar.
Manuel Mouzos – Realizador
Fui ao segundo dia, com bilhete, embora depois soubesse pelos meus amigos que houve gente que entrou sem rasgar o seu, por causa da confusão à porta. Lembro-me de ver na entrada militares e isso marcou-me logo, além do facto de ser a banda, na altura, minha preferida. Todo o frenesim, não só meu, e depois aquela confusão que se gerou… até que um dos militares, sem querer, começou a disparar o que gerou ainda maior confusão. A imagem que tenho é da entrada ficar de repente um deserto cheio de sapatos e sacolas. Depois de nova tentativa de entrada, quase ia morrendo, espezinhado, caiu uma pessoa à minha frente, depois outra, caíram não sei quantas para cima de mim, foi turbulento. Mas o facto de nos conseguirmos desembaraçar da situação e conseguirmos entrar, lá dentro lá animámos e realmente foi um concerto magnífico, quase mágico. Quando saímos só queríamos é que aquilo continuasse por mais tempo.
Encore
30 Anos Depois
Genesis
Encore Cascais 75
DVD distri. Bazar do Vídeo
7/10
Há 30 anos, o cordeiro deixou a Broadway para vir, mais do que descansar, desatinar Cascais e o público português. O DVD “Genesis Encore Cascais 75” relembra como tudo se passou, para gáudio dos que pretenderem reavivar a memória do mítico concerto de 6 de Março de 1975.
Intercalados com os vários depoimentos, surgem imagens da época que recuperam o ambiente político do país até se chegar ao próprio pavilhão Dramático de Cascais e, por fim, a imagens do concerto, captadas por elementos do público.
Os entrevistados vão desfiando memórias, nem sempre coincidentes com a realidade. Eram os tempos, diz alguém, em que os discos chegavam cá com meses de atraso. Não é verdade. As novidades, muitas delas álbuns obscuros, chegavam por via de importação com relativa celeridade a discotecas como a Melodia, Universal, Valentim de Carvalho, Sassetti e Sinfonia. Eram tempos, diz outro entrevistado, em que apenas havia publicações de música em francês (presumivelmente estaria a pensar na Rock & Folk” e na “Best”) e em alemão (“Bravo”9. Errado. Os jornais britânicos “Melody Maker” e “New Musical Express” há anos que ocupavam semanalmente os escaparates de algumas livrarias e papelarias de Lisboa.
Politicamente vivia-se o tempo do PREC (“Processo Revolucionário em Curso”), saltam imagens de comícios e manifestações de rua. O concerto dos Genesis era visto como algo difuso, “uma coisa colada à direita”. A voz “off” de José Mário Branco canta versos como “abaixo a burguesia e a exploração”. O 11 de Março não tardaria nessa “semana completamente louca” em que o jornal A Capital anunciava que a “CIA planeia golpe de estado em Portugal antes do fim de Março”. 20 liceus estavam em greve, era “vulgaríssimo haver cenas de pancadaria”. No meio de tudo isto o concerto dos Genesis era uma “coisa extra-terrestre”.
Chegado o dia, e para não destoar do contexto, “foi a balbúrdia total”. O DVD, realizado por João Dias a partir de um conceito idealizado por Mário Caeiro, mostra recortes de jornal. Num deles pode ler-se “Genesis em Cascais: Um novo processo de tortura voluntária”. As imagens paradisíacas do jardim anexo ao pavilhão escondem a violência e a incomodidade dos que conseguiram entrar, pagando ou não o bilhete de 80 escudos. São mostradas imagens do pavilhão, ainda em construção. 10 mil, 11 mil pessoas em cada um dos dias transformaram o Dramático de Cascais num barril de pólvora.
Mas quando o espectáculo começou finalmente, todo o sofrimento desaparece como por magia. Os rostos ficam “histéricos”. Alguém fala no chuto que sentiu quando o som irrompeu de repente das colunas. Ninguém esqueceu o aparato cénico. Peter Gabriel que aparece em dois locais do palco simultaneamente. “Uma projecção”. Um deles era um “boneco”. “Jogo de espelhos”. Ainda hoje o mistério permanece. Também é recordada a parte em que o vocalista dos Genesis passeia dentro de um tubo iluminado. Um “preservativo gigante” onde Gabriel fazia de “espermatozóide”. Só no fim do DVD, sobre as imagens do grupo em palco captadas por um amador, se ouve a música de “The Lamb Lies Down On Braodway”.
Os extras incluem material fotográfico abundante, desde imagens registadas durante os dois dias de concertos a uma fotoreportagem com fotos do grupo antes e depois dos concertos, em poses descontraídas na vila e na baía de Cascais.
Há ainda um apanhado de reacções da imprensa da época, reproduções das páginas da próxima edição da revista Cais (CasCAIS 75…) inteiramente preenchida pelo acontecimento de 1975 e excertos do espectáculo “The Lamb Lies Down On Broadway” que o grupo canadiano The Musical Box, clone dos Genesis, apresentará em Lisboa, na Aula Magna, em Maio, comemorando os 30 anos da edição original do álbum. Os The Musical Box, depois de já terem mimado álbuns anteriores do grupo original, como “Foxtrot” e “Selling England By The Pound”, foram desta vez ao ponto de reproduzir os modelos de instrumentos originais usados pelos Genesis em “The Lamb Lies Down On Broadway” e vão socorrer-se igualmente de todos os truques de encenação que a banda britânica usou em Cascais.
30 anos é muito tempo para ser concedido um “encore”. Mas ao ver-se este DVD parece que foi ontem.