Arquivo mensal: Dezembro 2009

Kreidler – Parque de Diversões Electrónicas

04.05.2001
Parque de Diversões Electrónicas

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Brincar ou não brincar, eis a questão que nos últimos anos tem sido colocada no contexto da electrónica alemã. “Funny Electronics”, o “Fun, fun, fun” que os Kraftwerk transformaram em 1974 em “Wahn, wahn, wahn” no álbum “Autobahn, foi a etiqueta “Toys ‘R’ Us! Com que se designou uma música que recuperou para as máquinas o sentido de humor. Os Kreidler, com os To Rococo Rot, Tarwater, Schlammpeitziger, Mouse on Mars, Schneider TM e B. Fleischmann, fazem parte desse contingente que transformou os circuitos electrónicos em rocas de “kindergarten” (jardim infantil).
“Autobahn” dos Kraftwerk foi, de resto, com “Zuckerzeit”, dos Cluster, um dos primeiros álbuns de electrónica com origem na Alemanha a introduzir este conceito de diversão numa música que radicava no estruturalismo de compositores como Stockhausen ou no auto-convencimento do rock progressivo inglês de tendência electrónica, nomeadamente os Pink Floyd, ou projectos mais radicais como Tonto’s Expanding Head Band e Zygoat. A excepção pioneira era “An Electric Storm” (1969), dos White Noise, mas quem os conhecia? É verdade que nos EUA Raymond Scott já publicara nos anos 60 o compêndio de anedotas electrónicas para o século vindouro, mas isso é outra história, só mais tarde conhecida…
Passado um quarto de século sobre a extinção da primeira vaga do “krautrock”, e com a transição dessa electrónica “bonne vivante” assegurada nos anos 80 por Kurt Dahlke (Pyrolator), Der Plan e Holger Hiller, a Alemanha redescobriu na década seguinte o prazer, entretanto desbaratado pela “cold wave” e pela música industrial, da manipulação dos sintetizadores e a assumpção clara da melodia em estreita colaboração com o Groove.
Esta Apropriação só foi possível graças não só à revalorização do krautrock pelas novas gerações, como também pela reutilização dos sintetizadores analógicos. Não é possível brincar-se com um “powerbook” ou com um programa de composição. Possível é, mas não tem graça… O computador é uma máquina fria. Quem assistiu a alguma das actuações que Felix Kubin deu em Portugal, perceberá que o “show” circense que ofereceu, só é possível através do gesto de tocar, da relação directa com as teclas, os botões e os cabos de interligação de relíquias como os sintetizadores Moog, Korg ou A.R.P.
Andreas Reihse, teclista dos Kreidler, confessava, ao Público, a sua admiração, além dos Kraftwerk, Can, Neu!, La Düsseldorf, Cluster, Harmonia e Michael Rother, por Pyrolator, que produziu o seu 12 polegadas, “Fechterin”. E sob a designação de Deux Baleines Blanches os Kreidler gravaram nos próprios estúdios Atatak, sede da electrónica “de sorriso nos lábios” alemã nos anos 80. Nessa entrevista, manifestava ainda a sua antipatia pelos samplers (“barulhentos”, “sujos”) e a vontade de “exprimir sentimentos como a saudade” através de “sons e melodias o mais puros e simples possível”. Pureza e simplicidade apenas ao alcance das crianças, que continuam a tornar emocionalmente irresistível a música dos Kreidler, em álbuns como “Weekend” e “Appearance and the Park”, mesmo se no mais recente “Kreidler”, a saída de Stefan Schneider tenha determinado uma aproximação às correntes ambientais da música de dança. Mas o “chill out” dos Kreidler continua tão carregado de doçura, humor e mistério como dantes.

Kreidler
Porto | Aniki-Bobó
Tel. 22 3324619. Sábado, 5, Às 24h.

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Barbara Manning – 1212

19.09.1997
Barbara Manning
1212 (7)
Matador, distri. MVM

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Pouco conhecida entre nós, Barbara Manning goza, lá fora, do epíteto de “rainha da música alternativa”, conquistada à custa de uma carreira subida a pulso que passou pelos grupos San Francisco Seals (SF Seals) e World Of Pooh e agora se concretiza no seu primeiro álbum em nome próprio para o selo Matador. “1212”, intitulado a partir da data de nascimento da cantora (12 de Dezembro), conta com a participação de Joey Burns e John Convertino, a secção rítmica dos Giant Sand e, em “Trapped”, com a produção de um dos papas do pós-rock, Jim O’Rourke. Estamos perante uma compositora de talento ainda não maculada pelas pressões do “show business”. Barbara define-se como “guardiã” das suas canções. “Considero-me a sua mamã”. Embora a cantora não goste que a comparem a Liz Phair, isso não impede que nos lembremos da autora de “Whip Smart” ao escutarmos um tema como “Evil Craves Attention”, uma das várias partes da longa “suite” de abertura de “1212”, “The arsionist story”, metáfora sobre a inocência e a culpa através das fixações de um adolescente pirómano. É o trabalho de uma sensibilidade inquieta que não descura o pormenor e a originalidade da composição, presente num piano de boneca, numa marimba ou em efeitos electrónicos dispersos, como cacos de vidro entre versos que roçam a loucura (em “the arsionist” tudo termina literalmente em chamas…). A segunda parte de “1212” inclui versões de canções de Richard Thompson (“End of the Rainbow”, uma das mais cruas deste autor), Bevis Frond, The Deviants e… Amon Düül, numa colecção de cromos que, curiosamente, colam bem numa caderneta pop.

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La Düsseldorf – Viva (conj.)

12.09.1997
Krautrock
Do Fundo Da Cornucópia
No seu “romance” pessoal sobre o “krautrock” dos anos 70, “Krautrocksampler”, Julian Cope passou ao largo de grande parte da produção discográfica dos grupos germâncios dessa época, cingindo-se aos nomes que fizeram história, dos Faust aos Amon Düül II, dos Kraftwerk aos Neu!, dos Popol Vuh aos Tangerine Dream. Mas essa história foi feita por muitos mais. Em Portugal está-se a desenterrar os tesouros esquecidos.

A viagem começa, precisamente, por uma das bandas referidas por Cope no seu livro, os Harmonia, confluência dos Cluster, de Dieter Moebius e Joachim Roedelius, com Michael Rother, dos Neu!, e pelo seu segundo álbum, “DeLuxe”, de 1975, que contou ainda com a participação do baterista dos Guru Guru Mani Neumeier. Obra fundamental do “krautrock”, mais acessível do que a estreia “Musik Von Harmonia”, nela a batida metronómica funciona como pista para o expresionismo electrónico de trio, bem ilustrado no kratwerkiano tema de abertura, com os Harmonia rolando na sua própria “autobahn”. “DeLuxe” é um disco fundamental para se compreender a transição da fase inicial, mais cósmica, do “krautrock” para o niilismo mecanicista (exemplificado no vertiginoso andamento do tema “Monza”) que infectaria a alma das grandes metrópoles teutónicas, anunciando o “punk” e o radicalismo de atitude de uma banda posterior, os La Düsseldorf, pilotados pela outra metade dos Neu!, Klaus Dinger. (Brain, import. Torpedo, 9.)

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Seguindo o rasto, encontramos precisamente os La Düsseldorf, também no seu segundo álbum, “Viva”, de 1978, ou seja, no auge do “punk. Numa altura em que, em Inglaterra, os jovens de alfinetes queimavam os sintetizadores, os irmãos Klaus e Thomas Dinger equacionavam o seu uso num contexto derivado do pioneirismo dos Kraftwerk, pondo em ligação a estética do grito “bávaro”, como Cope lhe chama, com os circuitos integrados das máquinas, transformadas em monstros de metal. Também desta banda volta a estar disponível o seu álbum de estreia, “La Düsseldorf”, igualmente na versão japonesa, da qual, como se pode ler no aviso da capa, foi copiada a anterior edição pirata com o “selo” Germanofon. (Captain Tripi, import. Torpedo, 7.)
Avancemos para outro disco clássico, este já sem a chancela de Julian Cope: “Osmose”, com data de edição original de 1970, na Ohr, dos Annexus Quam, outra banda com origem em Düsseldorf. Representativo de uma área explorada, de forma mais sofisticada, por bandas como os Kraan ou Release Music Orchestra, “Osmose” entrelaça, por vezes de forma anárquica, as tendências jazzísticas que viriam a ser sistematicamente desenvolveidas no álbum posterior, “beziehungen”, com a mesma costela cosmico-percussiva de “Atem”, dos Tangerine Dream. (Spalax, import. Torpedo, 7.)
Ash Ra Tempel e Guru Guru são duas das bandas mais representativas do “krautrock”. “Ash Ra Tempel”, a estreia, em 1971, do colectivo liderado pelo guitarrista e sintetista Manuel Göttsching, foi a primeira de muitas “acid jams” que culminariam no encontro, patrocinado pelo esquizoguru da “Kosmische Muzik”, Rolf-Ulrich Kaiser, com o guru do LSD, Timothy Leary, em “Seven Up” e que apenas parecem fazer sentido para uma cabeça igualmente encharcada em ácido lisérgico. Como a de Cope, que inclui este álbum na sua lista de preferências. (Spalax, import. Torpedo, 6.)
Já “Tango Fango”, álbum de 1976 dos Guru Guru, constitui uma amostra pouco representativa do poder implosivo que caracteriza os dois primeiros álbuns desta banda, desde sempre impulsionada pelo barerista Mani Neumeier, “UFO” e “Hinten”. Em “Tango Fango” mistura-se o jazz-rock trazido pelo novo recruta Roland Schaeffer, nos sopros, com tangos, música de variedades, marchas folclóricas, anedotas absurdas e canto “yodelling”. Interessante mas demasiado derivativo. (EFA, import. Torpedo, 6.)
Lado a lado com os grupos cujo som era declaradamente “kraut” (leia-se “cósmico”, “libertário”, “exploratório”, “tripante”…) coexistiram, na Alemanha, muitos outros, apostados em fazer música com menos conotações regionais, que cantavam em inglês e, em geral, cometiam o pecado de dominar tecnicamente os instrumentos que tocavam. Os Grobschnitt incluíam-se nesta categoria. Entre 1972 e 1989, gravaram 13 álbuns, chegando a alcançar níveis elevados depopularidade, no seu país de origem. “Ballerman”, de 1974, um duplo álbum na versão original, em vinil, á marcado por influências díspares e por uma veia “progressiva” bem assimilada, onde avulta a longa “suite” “Solar Music”, com os seus 33 minutos de experimentações variadas em torno de sequenciações electrónicas, psicadelismo tardio e efeitos de produção. Este mesmo tema seria ampliado para mais de 50 minutos numa posterior versão garavada ao vivo e editada em 1978, com o título “Solar Music – Live”.
“Rockpommel’s Land”, de 1977, é um álbum conceptual, mais sereno e inspirado nos Genesis, onde se conta a odisseia do pequeno Ernie, entre a sátira e a preocupação de emular na perfeição os mestres ingleses. Um álbum de pormenores e subtilezas que “trepa” a cada audição. (Brain, import. Planeta Rock, 6 e 7).
Eroc, de seu nome verdadeiro Joachim H. Ehrig, era o percussionista dos Grobschnitt. Mas os álbuns que gravou a solo (onde estende os seus talentos de executante aos teclados, acordeão, vibrafone e percussões várias) não tinham rigorosamente nada a ver com a música do grupo. “Wolkenreise” é uma colectânea de temas gravados entre 1975 e 1982, que vão do “easy listening” alpino, seja lá o que isso for, a neuroses ambientalistas, entre a paródia aos românticos e delírios electrónicos de sintetizadores perdidos nos seus próprios devaneios. Saliência para “Des zauberers traum”, de “Eroc”, uma dos mais estranhos álbun gravados por esta personalidade, arrumada entre Manuel Göttsching e Michael Rother. (Brain, import. Planeta Rock, 6)
Para os Novalis não se punham dúvidas quanto aoa estilo a seguir. Eram românticos declarados, como os Wallenstein, Hoelderlin ou Parzival, não escondendo a sua paixão pelos sons dos progressivos do outro lado da Mancha. “Banished Bridge” (agora em versão remasterizada), com a qual se estrearam em 1973 na Brain, denota a influência descarada dos Pink Floyd, da fase “A Saucerful of Secrets” e “Ummagumma”, no tema conceptual de 17 minutos que dá título ao álbum, com base no “mellotron” e restantes teclados de Lutz Rahn. Apesar disso, desprende-se dele magia e um ambiente de estranheza que cativa. Os restantes três são mais exibicionistas, oscilando entre a pirotecnia dos Emerson, Lake & Palmer e o barroco insuflado dos Procol Harum (Brain/Repertoire, import. Torpedo, 7.).
Guardámos para o fim a maior surpresa. “Full Horn”, dos Cornucopia, é uma pérola que poucos conheceriam. É o único álbum gravado por este septeto – auxiliado ainda por Jochen Petersen, saxofonista e flautista do grupo de Achim Reichel – que teve contra si o facto de estar demasiado avançado no tempo. Na altura ninguém quis saber deles e os Cornucopia não tiveram outra alternativa senão desistir. Mas “Full Horn”, de 1973, faz justiça ao título, mostrando ser uma verdadeira cornucópia de onde jorram a cada instante renovados prazeres. Antes e mais, a banda era constituída por executantes de excepção. Mas ao contrário do que era frequente acontecer, punham as suas capacidades ao serviço de uma música inclassificável, com uma complexidade talvez apenas comparável aos Gentle Giant e um gosto pelo bizarro que, nalguns momentos, traz à memória Frank Zappa. Os 19 minutos de “Day of a Daydream Believer” evoluem de forma imprevisível através de vocalizações arrevesadas, na linha dos Amon Düül II, e constantes mudanças de ritmo e ambiente. “Morning Sun – Version 127 (for the charts)” evoca a subtileza da escola de Canterbury enquanto “And the Madness” mergulha no mesmo universo de alienação iluminada dos Gentle Giant de “In A Glass House” ou dos Gracious. “Spots on You, Kids” faria boa figura num catálogo seleccionado da Recommended. Um clássico. (Brain/Repertoire, import. Torpedo, 8.)
Na Planeta Rock encontram-se ainda disponíveis álbuns dos Faust (“The Faust Tapes”, “71 Minutes of Faust” e o novo “You Know FaUSt”), Jane (“Here We Are”, “Jane III”, “Lady” e “Fire, Water, Earth & Air”), Grobschnitt (“Solar Music – Live”, “Illegal” e “Last Party – Live”) e Nektar, que eram ingleses mas fizeram carreira na Alemanha, acabando por ser adoptados pela grande família do “krautrock” (“Journey to the Center of the Eye”, “A Tab in the Ocean” e “Remember the Future”. Na Torpedo pode encontrar os Agitation Free (“Last”), os Cluster (“Cluster III”), Guru Guru (“UFO e “Hinten”), Faust (“Rien”), Harmonia (“Musik von Harmonia”), La! Neu? (“Düsseldorf”) e Moebius & Plank (Rastakraut/Material”)

Nota: Os Harmonia voltaram ao activo. Ao trio Moebius, Roedelius e Rother juntou-se um quarto elemento, nada mais nada menos do que Brian Eno, que, de resto, já gravara com a dupla dos Cluster os álbuns “Cluster & Eno” e “After the Heat”. O novo álbum dos Harmonia, a sair em breve, tem como título “Tracks & Traces”.

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