Arquivo mensal: Fevereiro 2009

Maria Ana Bobone – Senhora Da Lapa

05.02.1999
Portugueses
Maria Ana Bobone
Senhora Da Lapa (7)
M.A., distri. Dargil

mabobone

LINK (“Nome de Mar”)
pwd: oneil

Belíssima, a apresentação gráfica desta “Senhora da Lapa”, como é timbre da editora M.A. (uma espécie de ECM mais clássica), ajustando-se perfeitamente à beleza da voz de Maria Ana Bobone e à música composta por João Paulo Esteves da Silva e Ricardo Rocha. Gravado na mesma igreja de “Luz Destino2, onde Bobone era ainda a convidada de um trabalho pautado por ambiências barrocas, “Senhora da Lapa” é um álbum vicadamente contemplativo, aberto às refracções da pedra e à obscuridade do tempo, onde a cantora faz questão de mostrar quão longe está já do registo fadista que marcou a fase inicial da sua carreira.
Sobre poemas de Matilde Rosa Araújo, Sebastião da Gama, Maria Pimentel Montenegro, David Mourão-Ferreira, Arlindo de Carvalho e Fernando Pessoa o piano de João Paulo e a guitarra de Ricardo Rocha (e, em dois temas, o saxofone de Peter Epstein, decerto um admirador de Jan Garbarek) desenham cambiantes classicizantes, dos quais a voz de Bobone tira o máximo partido.
Destaque, num disco onde o equilíbrio e a serenidade predominam, para os sombreados satieanos do piano de João Paulo, em “ABC”, e para as interpretações de Bobone, em “Ar”, carregada de dramatismo, “Os teus olhos”, e “Elegia”, um crepúsculo de tons menores, “jazzy” e introspectivos, também neste caso servido por uma execução de superior contenção por parte de João Paulo Esteves da Silva.

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Vários – The Beat Scene (conj.)

05.02.1999
Reedições
Vários
The Beat Scene (8)
The R&B Scene (8)
The Psychedelic Scene (8)
Deram, distri. Polygram


beat

LINK
pwd: posted_first_at_chocoreve

Os três volumes agora editados, compilando material original da Decca recolhido entre 1963 e 1969, traçam um panorama geral da chamada “swinging London2 dos anos 60, dividindo-se em três correntes distintas que marcaram esses anos de ouro da capital inglesa. As versões originais de todo este material encontram-se dispersas em singles, alguns deles praticamente impossíveis hoje de encontrar.
“The Beat Scene” reúne 25 nomes que entre 1963 e 1966 contribuíram para instituir uma música (e uma moda) que teve nos Beatles os seus principais cultores. Londres, principalmente, mas também Liverpool, Birmingham e Glasgow foram berço de bandas voláteis cuja existência se perdeu nos arquivos do tempo mas onde é possível encontrar vestígios da magia que permeou toda a época.
The Game, The Mighty Avengers, Shel Naylor (a par de Rick & Sandy, um dos nomes que nem sequer vem nas páginas da muito completa enciclopédia de música britânica dos anos 60 e 70, “The Tapestry of Delights”), The Beat Chics, Tierney Fugitives ou The Hi Numbers participam com exemplos dignos de um movimento que misturava o rock’n’roll com a música negra americana, temperada com a excenticidade e os acentos vocais tipicamente britânicos.
Ao lado destes desconhecidos encontram-se Joe Cocker, com um tema de Lennon e McCartney, “I’ll cry instead”, a loura Lulu e os seus Luvvers, The Pete Best Four, formados pelo primeiro baterista dos Beatles, Brian Poole and the Tremeloes e os Rockin’ Berries. Num disco que vale como manifesto de uma sonoridade global, marcada por imitações dos Beatles, guitarras artesanalmente amplificadas e falsetos vocais para todos os gostos, destacam-se, pela diferença, as orquestrações e o violoncelo que ilustram “I was only playing games”, dos Unit 4 + 2.
Engraçado será ainda rebuscar nas formações de algumas destas bandas para encontrar nomes (Jon Anderson, dos Yes, por exemplo…) que viriam a despontar no futuro em contextos musicais completamente diferentes da música beat.
Em paralelo com a cena beat também as sonoridades mais soul do rhythm ‘n’ blues, mistura de rock ‘n’ roll e blues, agitavam então a cena musical londrina. Mais do que os grupos beat, as formações de r&b pautavam-se pela energia e pelo calor interpretativo, introduzindo a harmónica ou os sopros em temas, nalguns casos irresistíveis, como “Don´t gimme no lip, child”, de Dave Berry, ou “Babe I´m Gonna leave you”, dos The Plebs.
Uma vez mais desconhecidos como Cops ‘n’ Robbers, The Frays, The Beazers, Steve Aldo e Paul’s Disciples alinham ao lado de nomes mais fortes como Graham Bond Organisation, David Jones (isto é, David Bowie) & The King Bees, Zoot Money, John Mayall, Rod Stewart. Retire-se de um todo eminentemente dançável o tom “cool” e completamente à margem dos misteriosos The Hipster Image, com um “Can´t let her go” no limite do psicadelismo.
Sobretudo centrado no ano do “Verão do Amor” de 1967, a cena psicadélica infiltrou-se, praticamente, em todas as bandas inglesas da época, através de uma música cujo diletantismo e tom mais literário contastava com a maior violência e desregramento das “acid-jams” praticadas pelos psicadélicos do outro lado do Atlântico (Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, etc.).
Beatles, Rolling Stones, Status Quo, Small Faces, The Who, Pretty Things, Procol Harum, entre muitos outros grupos, tiveram todos o seu “disco psicadélico”. “Psicadélico” era sinónimo da junção da música com o LSD, ou, como se pode ler no Dicionário de Oxford, a “expansão da consciência da mente através do uso de drogas alucinogéneas”, ou a percepção de “cores, padrões, etc., brilhantes, carregados e abstarctos”. Era a época de canções em cujos títulos abundavam termos como “dream” e “mind”. Em “The Psychedelic Scene” encontramos “14 hour technicolor dream”, dos The Syn, “Colour of my mind”, dos The Attack, “Guess I was dreaming”, de The Fairytale, “A day in the mind’s eye”, dos Human Instinct, “Deep inside your mind”, de Keith Shields, e “Dream with me” dos Warm Sounds.
Nomes sonantes, há os Small Faces, com “That man”, e os Moody Blues, com “Love & Beauty”, perdidos numa orgia de guitarras distorcidas, vozes sonambúlicas, percussões orientais e, em geral, toda uma artilharia de estúdio usada para criar a ilusão sonora das alucinações provocadas pelo ácido.
No meio de tantas “trips”, genuínas ou simuladas, e de designações de grupos bizarras – como Curiosity Shoppe, Felius Andromeda ou Garden Odissey Enterprise -, sobressai a valsa espectral de Al Stewart, “Turn into earth”, a inspirada clonagem dos Beatles, via Kaleidoscope/Fairfield Parlour, dos 23rd Turnoff, em “Michaelangelo”, ou o mantra de nostalgia lisérgica dos World of Oz, em “Like a tear”. Num disco que deixou de fora os principais gurus do movimento, como os Pink Floyd de Syd Barrett ou os primeiros Soft Machine, de Daevid Allen e Kevin Ayers, ou raridades como os Mystic Astrologic Crystal Band. Do princípio ao fim, “The Psychedelic” transporta-nos pelas correntes do sonho que Lucy levava colado aos olhos de caleidoscópio no seu cavalo de estrelas.

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Groundhogs – Hogwash (conj.)

22.01.1999
Reedições
Obrigado, Cristo Pela Bomba
Os “blues” e a paranóia, o rock sinfónico e a poesia de um bardo celta – três apontamentos nas margens dos anos 70.

Os Groundhogs nasceram no final dos anos 60, isnpirados pelos “blues” de John Lee Hooker e pela pop dos Beatles e dos Kinks. Mas é no início da década seguinte que o grupo do guitarrista Tony McPhee atinge a maturidade e a popularidade. “Thank Christ For the Bomb”, de 1970 (reedição remasterizada), terceiro álbum da banda, reflecte a nota de estranheza que sempre caracterizou a música do grupo. A temática antibelicista, perspectivada com uma ironia e uma crueza pouco habituais na época, funciona como suporte de uma música assombrada por melodias aveludadas (John Peel tocou até mÀ exaustão o tema “Soldier”, cujas mudanças de tom e “nuances” vocais deixam adivinhar a presença fantasmagórica de Paul McCartney e Ray Davies…) e uma leitura dos “blues” pautada pela suavidade. Uma sonoridade estranha, fora do tempo e das regras de um estilo, “os blues”, que tony McPhee condensa no formato guitarra/baixo/bateria de forma inigualável.
Esta estranheza acentua-se em “Split”, de 1971, com reedição também remasterizada. “Split” disseca a paranóia e a dissociação de personalidade sofridas por McPhee, na consequência de um “flipanço” (seis meses de “bad trip”, incluindo a ressaca…) provocado pela ingestão involuntária (?) de LSD. A guitarra explode literalmente, nas quatro secções que compõem o título-tema, em solos de uma violência, intensidade e experimentação sónica que tocam o génio de Jimi Hendrix. O público britânico vibrou com o sofrimento e fez de “Split” um dos álbuns mais vendidos de toda a carreira dos Groundhogs – chegando ao 5º lugar do top.


gr

LINK

“Hogwash”, de 1972, já com Clive Brooks, ex-Egg, no baixo, em substituição de Pete Cruickshank (que nunca chegou a recuperar a sanidade mental, também ele exagerando na dose de LSD…), introduz pela primeira vez a electrónica na música dos Groundhogs, acentuando ainda mais a dicotomia entre a força e a simplicidade emocional aprendidas com os mestres dos “blues” e um lado mais conceptualista e abstracto que McPhee constrói com o “mellotron” e uma panóplia de sintetizadores. Entre os “blues” psicadélicos e uma mutação aberrante da música cósmico-progressiva, “Hogwash” infecta como uma bactéria demoníaca. (BGO, Distri. Megamúsica, 8, 8, e 8)

Curiosamente, em paralelo com estas três reedições, foi lançado no ano passado um novo álbum dos Groundhogs, “Hogs in Wolf’s Clothing”, que assinala o regresso de Tony McPhee às origens, com uma colecção de versões de temas de outro dos seus heróis, Howlin’ Wolf, “bluesman” do Inferno, do abandono e do desespero absolutos. Uma viagem através da noite e da solidão, com a guitarra eléctrica de McPhee galgando até aos limites da desolação. (HTD, Distri. Megamúsica, 7)

No extremo oposto do espectro da música dos anos 70, estão os Strawbs. “Hero and Heroine” e “Ghosts”, ambos editados em 1974, regressam remasterizados, como exemplo de uma música que nessa altura já deixara para trás a herança folk dos primeiros álbuns e superara o trauma provocado pela saída de Rick Wakeman. Nasciam os grandes instrumentais e as profundas tiradas poéticas típicas do rock sinfónico, na sombra dos Genesis e da herança dos Beatles, para onde Dave Cousins, vocalista de inquestionável carisma, empurrara o grupo. Sem atingir o brilho e a originalidade dos anteriores “From the Witchwood” e “Grave New World”, os Strawbs aproximavam-se aqui do fim de uma carreira, que se foi esvaindo num rasto de teatralidade e elegância. (A&M, import. Lojas Valentim de Carvalho, 6 / 6)

Ao contrário de Dave Cousins, Robin Williamson é um verdadeiro bardo. O cantor e multi-instrumentista dos Incredible String Band, extinta a sua parceria, nesta banda, com Mike Heron, pegou na harpa, viajou para a sua Escócia natal e perdeu-se nas névoas da mitologia e música célticas. Não é bem o caso de “Dream Journals 1966-76”, fragmentos instrumentais e peças declamatórias (exploradas por Williamson nos Merry Band), que o músico recuperou e alterou para criar um novo painel de sonhos onde o surrealismo se cruza com a magia das histórias e lendas que o ex-Incredible String Band narra de forma quase radiofónica. “Dream Journals” devolve-nos o prazer da escuta dapalavra. Da sua música, dos seus desenhos, das suas entoações mágicas. (Pigs Whisker, import. Virgin, 7)

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