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Brigada Victor Jara – “Da Raiz Aos Frutos” (concerto | antevisão)
pop rock >> quarta-feira >> 13.12.1995
DA RAIZ AOS FRUTOS

1995 é o ano de comemoração do 20º aniversário da Brigada Victor Jara. Depois de um período de prolongada letargia, apenas quebrado pela edição da colectãnea, na extinta UPAV, de “15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa”, aquele que é um dos grupos de maior longevidade da música popular portuguesa regressou em força, este ano, com um novo álbum, “Danças e Folias”. Justamente louvado pela crítica, unânime em considera-lo um dos melhores do ano, “Danças e Folias” faz pela via correcta a renovação da música tradicional.
Interessante é compará-lo com duas reedições recentes, em compacto, de obras anteriores do grupo, a estreia “Eito Fora”, de 1977, subintitulado “Cantares Regionais”, um lançamento da Farol, e “Contraluz”, de 1984, com o selo Sony Music. Se o primeiro defende a preservação e, na medida do possível, a não-adulteração do património tradicional, ao serviço de um propósito que passva por “mostrar que a música popular portuguesa tem uma qualidade e dignidade que avantaja a sobranceria vesga com que a ideologia dominante a presenteou”, já o segundo ousa reescrever esse mesmo património segundo novas regras, que são as do próprio grupo.
Curiosamente, “Danças e Folias” ocupa um lugar intermédio nesta dialéctica. É o álbum da maturidade no qual a Brigada expõe e desenvolve as suas próprias ideias de harmonia e modalismo, em detrimento de uma sobreexposição dos aspectos rítmicos. Um álbum que avança novas pistas, não só em relação ao próprio passado do grupo coimbrão como também da música portuguesa de raiz tradicional em geral. Com a serenidade e a sobriedade dos clássicos, ou seja, no domínio pleno do Tempo e com a noção clara dos seus ciclos. É que uma coisa é crescer como uma árvore, tronco a tronco, ramo a ramo, folha a folha, até chegar às flores e aos frutos, e outra, muito diferente, medrar desordenadamente como uma erva daninha. Nesta perspectiva, a Brigada Victor Jara ocupa hoje um lugar de charneira entre a ruptura, quase total, testado pelos Gaiteiros de Lisboa nas suas recentes “Invasões Bárbaras”, e a instalação num espaço mais intimista, até agora pertença exclusiva dos agrupamentos de música de cãmara e música antiga, dos Realejo, no ainda mais recente “Sanfonia”.
Serão pois todo um percurso e as marcas de uma evolução que irão desfilar no espectáculo lisboeta de hoje à noite. Com a presença de convidados entre os quais não estranharíamos encontrar Né Ladeiras, também ela com uma carreira inseparável da Brigada, da qual fez parte precisamente em “Eito Fora”, antes de se entregar a lógicas bastante pouco lineares que culminariam, de forma exuberante, no álbum de irresistíveis paradoxos que é “Traz os Montes”.
Este espectáculo significa tanto uma consagração como um exemplo a seguir de uma banda que nunca desistiu nem se perdeu, na travessia, para muitos exasperante e desmotivante, de tempos não muito longínquos onde era quase vergonha tocar e defender os valores da tradição. Danças e folias, pois, para a Brigada, que bem as merece.
BRIGADA VICTOR JARA
Teatro S. Luiz, Lisboa, hoje, 22h
Vitorino – “Vitorino Derrete Gelo No Centro Cultural De Belém – Por Este Frio Acima”
cultura >> sábado, 09.12.1995
Vitorino Derrete Gelo No Centro Cultural De Belém
Por Este Frio Acima
Nove meses depois das “Vozes do Sul”, Vitorino regressou ao CCB, a “sala assassina”. Mas se a frieza e as dimensões do recinto de Belém, sobretudo quando não enche, e foi o caso, são de meter medo a muita gente, desta vez a vitória pertenceu ao cantor do Redondo. Com a “Canção do Bandido” e alguns percalços à mistura.

O Grande Auditório de Belém é demasiado grande e frio. Fica longe das emoções, o público. Quinta-feira à noite, no primeiro de dois concertos em dias seguidos nesta sala, Vitorino começou por não responder da melhor maneira ao ambiente, capaz de enregelar o próprio diabo. Dez dos 13 temas de “A Canção do Bandido”, o novo álbum, preencheram a actuação de Vitorino até ao intervalo. As canções são excelentes, o registo vocal explodiu para alturas mais vibrantes, por vezes a roçar i épico – como “Cruel Vento”, um dos grandes momentos da noite -, do que as que por norma povoam o universo intimista do cantor alentejano. Este alto nível do reportório foi todavia ensombrado, nalguns casos, pela ainda deficiente memorização das letras que, à semelhança de “Eu Que Me Comovo Por Tudo e Por Nada”, voltam a levar a assinatura de António Lobo Antunes.
Vitorino está em grande forma, este concerto provou-o, mas o facto de ter que se socorrer de cábulas, afectou o seu desempenho. Aconteceu por isso, uma ou outra vez, um desfasamento entre o ritmo das palavras e o ritmo das emoções. As segundas andaram a reboque das primeiras. As guitarras de Ricardo Rocha e Mário Delgado, o baixo de Paulo Jorge Ferreira, a bateria de Rui Alves e o piano de Vasco Gil supriram na perfeição esta ocasional discrepância entre o vigor e expressividade da interpretação e o suporte da gramática. O som, muito bom, ajudou.
A temperatura subiu uma mão cheia de graus no último tema antes do intervalo, com as vozes de Filipa Pais, Mísia e Janita Salomé juntando-se à de Vitorino no “Rigoroso do Pescador da Marginal”, um fado de palavras fundas e negras, para as quais o cantor chamou, aliás, a atenção: “Meu rio tão negro e tão fundo / bacia do Mar da Palha / quero lá saber do mundo / quero lá saber do peixe / quem me ame que me deixe / ficar aqui na muralha.
O Vermelho Da Comoção
Depois do intervalo, as paredes do CCB coloriram-se com o vermelho da comoção. E, já agora, dos metais. Após nova citação à “Canção do Bandido”, com “Fado Triste” e “Sul”, já no domínio pleno dos textos, de canções mais antigas, Vitorino contou com a valiosa contribuição de um naipe de metais – Tomás Pimentel, trompete, Edgar Caramelo, sax alto, Jacinto Ramos, tuba, Daniel Salomé, clarinete e sax tenor, Sérgio Mestre, flauta – que metamorfoseou clássicos como “Negro Fado”, “Ana II”, “Laurinda” e “Queda do Império” em quadros de vida ora calorosos ora incandescentes. Em “Ó Rama ó que Linda Rama”, tradicional alentejano, a plateia, bem afinada, acompanhou Vitorino, em cumplicidade total. “Queda do Império”, a fechar, deu aso a um equívoco. Vitorino voltou a chamar ao palco os três cantores convidados mas apenas o seu irmão Janita compareceu à chamada, ambos na expectativa das senhoras irem aparecer ou não. Não apareceram. Já nos bastidores, Filipa Pais garantia que não ouvira ninguém chamá-la. Estava numa sala dos fundos a trocar de sapatos.
Nada de grave. Aplaudido de pé, Vitorino regressou para dois merecidos “encores”, “Tocador de Concertina”, derradeira “canção do bandido”, com Vasco Gil no acordeão e Carlos Salomé no piano, e o inevitável “Menina Estás à Janela”, aqui sim na companhia dos convidados todos. Entre estes, salientava-se Paula Guedes que, chamada à pressa, apenas teve tempo para vestir um “blaser” sobre o que, observado da plateia, parecia nada. Mal abriu a boca, mas fez um dos sucessos da noite. E foi neste ambiente de apoteose e alguns olhos em bico que Vitorino deu a volta ao círculo polar do CCB. Para tanto bastou-lhe cantar a “canção do bandido”.
The Beatles – “Anthology, vol. 1”
pop rock >> quarta-feira >> 06.12.1995
reedições
The Beatles
Anthology, vol. 1
2XCD APPLE, DISTRI. EMI-VC

O que dirão os miúdos de doze, treze anos, que apenas ouviram os pais falar com devoção do grupo, não conhecem os discos antigos mas lá condescenderam, instigados pelo “bruá” mediático, em deitar um ouvido a esta antologia? O mais certo é exclamarem: “Ganda banhada!” E t~em razão. “Anthology, vol. 1” banaliza a imagem que deveria ter permanecido intocável dos “fabulous four”. Teria sido talvez aconselhável fazer uma edição limitada para colecionadores, a um preço exorbitante, como quem diz: “Objecto raro, só para fanáticos.” Mas não, quis-se facturar, ainda por cima à custa de um morto, John Lennon, que assim voltou a cantar com os seus antigos companheiros, no célebre tema inédito, “Free as a bird”, único motivo relevante num apanhado monstruoso do que, basicamente, não passa de lixo, por mais reciclado que seja. Mas “Free as a bird” é fraco. Pior, é banal. Lá se ouve Lennon a cantar com os outros três, ao empurrão sobre uma harmonia imediatamente identificável como “beatliana”, e uma banda tão, tão primária, de Ringo que até faz corar de vergonha. E pronto, as restantes 59 faixas ouvem-se com esforço e o respeito devido à memória do grupo, entre discursos de várias das personalidades em questão e faixas “raras” recolhidas de diversos contentores. São “takes” alternativos, gravações da sessão com Tony Sheridan, pedaços inacabados de canções célebres e algumas desafinações que têm o condão de transformar os deuses em músicos de carne e osso, sujeitos às armadilhas do ouvido. Enfim, não é que nada disto seja capaz de travar a romaria às discotecas, das turbas enfurecidas que se excitam à simples menção do nome mágico, ainda para mais espicaçadas por uma operação de “marketing” que soube mexer bem os cordelinhos. Os admiradores, que guardam com fervor religioso discos como “Rubber Soul”, “Revolver”, “Sgt. Peppers…” e o “álbum branco”, encolhem os ombros e passam ao lado. Os putos gozam à brava e fazem pouco dos pais. Os tais colecionadores ferrenhos espumam de raiva e acotovelam os broncos que os estirvam na fila de espera. Os Beatles vivos estão-se nas tintas e embolsam mais algum. John Lennon só pede que dêem descanso à sua alma. (4)




















