Arquivo da Categoria: Editora

Audeo, Rec Rec, Materiali Sonori – “Audioestetas”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


AUDIOESTETAS



Audeo-Audiovisuais, Publicações e Moda é uma nova empresa portuguesa “dirigida à importação, promoção e comercialização de música com novas tendências estéticas e material afim” – ou, pelo menos, assim a definem os seus responsáveis. E definem bem. Com sede no Porto, a jovem firma assegurou desde já a “importação oficial” dos catálogos Rec Rec e Materiali Sonori. Quanto ao “material afim”, também há resultados palpáveis, através da edição recente de “Tristesse”, do compositor e guitarrista argentino Luis Rizzo Cuarteto, um álbum de tangos e “milongas”, ou da renovação, na linha de Astor Piazzola. “Tristesse” aborda temas tristes e poéticos, como “um casamento falhado” ou “a chegada dos ventos frios de Outouno”. A formação é composta, para além de Luis Rizzo, por César Stroscio (bandoneão), Adrian Politi (guitarra) e Carlos Carlsen (violoncelo e baixo), contando ainda com a participação da cantora Susanna Rizzi.
Depois é todo o catálogo Rec Rec e as suas inúmeras jóias, que volta a estar à nossa disposição (a Contraverso há muito que importa discos desta editora, bem como da Materiali Sonori), com destaque par algumas das mais brilhantes: “Paradise of Replica”, dos After Dinner, “Gravity” e “Speechless”, de Fred Frith, e “Dropera”, deste músico com Derdinand Richard, “Escape From Noise”, dos Negativland, “Voix de Surface”, dos Normal, “Learn to Talk / The Country of Blinds”, dos Skeleton Crew.
No capítulo das novidades já editadas ou a editar proximamente, encontram-se “Differently Desperate”, dos Hat Shoes, “In a Certain Light We All Appear Green”, dos No Secrets in the Family”, “Helter Skelter”, dos Que D’La Gueule, “Death of the Prophet”, de Sabreen, “Tier der Nacht”, do grupo homónimo, “Domina Dea”, dos Unknown Mix, e “The Principle of Moments”, dos Romeo Vendrame.
Da Materiali Sonori – editora italiana que, para além dos seus próprio lançamentos, faz a prensagem local de selos como Les Disques du Crepuscule e de alguns nomes pouco conhecidos da cena experimental italiana -, também há muitos e bons discos por onde escolher. Nas edições próprias, estão “Half Out”, de Steven Brown e Blaine Reininger, “Waterplay”, dos Cudu, “Dry”, dos Durutti Column, “Greetings 9 + Premonition 11”, dos Legendary Pink Dots, “Tem Years in one Night Live”, dos Tuxedomoon, e “Piano Piano”, de Hans-Joachim Roedelius. Muito especiais são “Live Ghosts” e “Magic Music”, dos Third Ear Band – banda inglesa dos anos 60 e 70, pioneira do que, anos mais tarde, se viria a chamar “world music” – e a diversão pop de um dos seus elementos, Glen Sweeney, com o título de “Prophecies”.
No segundo grupo, incluem-se “East on Fire”, dos Foreign Affair, e parte da discografia de Wim Mertens (2Maximizing The Audience”, “Struggle For Pleasure”, “Vergessen” e os recentes “Motives for Writing” e “Strategie de la Rupture”). Do terceiro naipe fazem parte, entre outros, “Port Faunine”, dos Il Gran Teatro Amaro, “Dunarobba”, dos Militia (com Blaine Reininger e o ex-violinista dos Amon Düü II, Chris Karrer) e “Syriarise”, de Alturo Stalteri.
A Audeo não tenciona ficar por aqui e diz-se pronta a negociar com outras companhias discográficas. Para já, não está mal.

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Vários – “Criadores, Jornalistas E Radialistas Discutem Produção Nacional Em Lisboa – ‘O Império Sem Pátria’ Da Música”

Cultura >> Domingo, 02.02.1992

Criadores, Jornalistas E Radialistas Discutem Produção Nacional Em Lisboa
“O Império Sem Pátria” Da Música

Música portuguesa: “confecção, costura e corte”. O tema foi debatido no clube de Jornalistas, em Lisboa. Que há crise, ninguém duvida. Multinacionais, corrupção nos “media” e estratégias de distribuição pouco límpidas foram apontados como principais culpados. Acusações a que as multinacionais, que se recusaram a comparecer, terão de dar resposta.



“Nos anos 70, a seguir ao 25 de Abril, 65 por cento dos discos vendidos no nosso país eram fabricados em Portugal. Em 1989 a percentagem baixou para 8 por cento”. Para José Mário Branco, músico e sócio da UPAV – União Portuguesa de Artistas de variedades, tais estatísticas revestem-se de “um significado, não só económico como cultural, assustador”. A música portuguesa, e em especial a de teor mais intervencionista, sofre por tabela.
Conta José Mário Branco, logo no início deste debate levado a cabo sexta-feira à noite pelo Clube dos Jornalistas e com a promessa de continuação, que no final de um concerto seu, realizado há pouco tempo nos jardins da Guarda, dois jovens exaltados, “com as lágrimas a escorrer pela cara abaixo”, o abordaram com a seguinte pergunta: “quem são os cabrões que nos impediram até hoje de conhecer estas coisas?” Uma boa pergunta. “O público quer ouvir a nossa música, há artistas que querem dar a ouvir a sua música ao público e há uma coisa, um pesadelo ali no meio, que impede a circulação” – diz José Mário Branco, segundo o qual as multinacionais são as principais responsáveis por este estado de coisas: “Somos um país pequeno onde as multinacionais entraram totalmente à balda, sem quaisquer regras que limitassem e condicionassem a sua actuação no mercado. As chamadas ‘editoras portuguesas’ não passam de escritórios em Lisboa de empresas estrangeiras. Quem manda na música em Portugal não é Lisboa nem o Porto, mas Londres, Nova Iorque, Amesterdão…” José Mário Branco segue o raciocínio das multinacionais: “Na lógica da Sony ou da EMI, o nosso mercado não passa de um quintal para onde se torna fácil escoar os restos de armazém. É esta a lógica do sistema”.

Editoras / Distribuidoras

Citam-se casos relativos a determinados processos seguidos, neste caso pelas “distribuidoras” que, na quase totalidade dos casos, são ao mesmo tempo editoras. Uma conversa de negócios entre o representante de uma “distribuidora” e um retalhista não andará longe dos seguintes termos: o retalhista pretende por exemplo comprar para a sua loja 200 discos de Michael Jackson, cuja venda lhe garantirá sem dificuldade os 48 por cento de margem de lucro que a lei lhe faculta sobre o preço de revenda. O distribuidor (e editor…) argumentará então: “Queres o Michael Jackson? Por acaso tenho aqui uma outra coisa que estávamos também interessados em vender (os tais restos)”. Se o retalhista insiste que essa ‘outra coisa’ não lhe interessa, receberá um franzir ofendido de sobrancelhas acompanhado da tirada: “Pois é, mas esses 200 discos do Michael Jackson não sei se lhos vou poder arranjar, sabe, há umas dificuldades no armazém…”. O infeliz retalhista, que apenas pretende enriquecer de forma honesta e de preferência rápida, percebe e resigna-se à continuação: “… mas se me comprar 50 destes tenho a impressão que afinal talvez lhe consiga arranjar os tais 200 do Michael Jackson!”.
Os “media”, alguns “media”, também não são poupados. Mesmo sem ter provas concretas (“sei de saber”) – diz José Mário Branco) o autor de “Ser Solidário” não duvida que o sistema esteja “profundamente corrompido, com cheques mensais passados por debaixo da mesa, com operações que significam dinheiro e chantagem ao lucro”. Na televisão – “o meio dos meios de comunicação” – “paga-se em escudos para se passar a faixa tal de um disco, segundo as imposições de programação vindas de Londres ou Amsterdão”.
O poder fecha os olhos e deixa andar. “Os canais de informação têm muitas relações com o poder político e com o poder económico. Há muitos interesses no meio disto tudo. Interessa é adormecer as pessoas e não levantar problemas” – diz Pedro Pyrrait, crítico de música, radialista e um dos convidados do debate, para quem este facto “teve influência no afastamento de uma larga faixa de música da nossa rádio”. “Há uma censura indirecta no sentido de não passar artistas como o Fausto, os Vai de Roda, o José Afonso, sob o pretexto de não ser música para FM”. Censura que nalguns casos pode passar por um “telefonema de algum secretário de Estado ou de um ministro, a protestar contra a passagem de ‘música revolucionária’, música ‘revolucionária’ que até pode ser uma canção perfeitamente inocente, mas que só por ser cantada pelo José Mário Branco ou pelo Sérgio Godinho pode prejudicar a ascensão de pessoas como o João David Nunes ou o Jaime Fernandes, que se calhar ambicionam chegar um dia a ministros. É bom o João David Nunes vir à televisão [em edição recente de “Conversa Afiada”] dizer que gosta de música portuguesa e do José Afonso. Difícil era ouvir essa música na Rádio Comercial, quando ele era director.

O Capital Contra O Capitalismo

Na opinião de José Mário Branco, todo este panorama muito pouco claro que parece minar por dentro a “costura” e “corte” da música portuguesa insere-se numa perspectiva mais vasta, de permissividade e “decadência” de “uma classe dominante pirosa e sectária (por insegurança, por ser muito recente e por nunca ter podido exercer nem exercer-se)” e, como consequência, “de uma classe política impreparada e altamente corrupta”. Corrupção que vinda das cúpulas terá por força que se reflectir nos “vários níveis da vida nacional, passando pelas diversas estruturas do Estado, pelos meios de comunicação e pelo próprio meio empresarial”.
Viriato Teles, outro representante da facção do “corte” presente no debate, que teve Eduardo Guerra Carneiro, da Direcção do Clube de Jornalistas, como moderador, tem razão quando afirma que “sem se conhecer as coisas não se pode gostar delas”. De facto, algo não bate certo quando o tal jovem da Guarda grita contra os “cabrões” que lhe dificultam e impedem o acesso ao produto musical. São as próprias leis da oferta e da procura que são impedidas de funcionar. “Há aqui qualquer coisa que não tem sequer já a ver com a economia keinesyana e com o capitalismo – a perversão do próprio capitalismo”. Quando os meios de produção artística se rendem aos “trusts”, o assunto ultrapassa os limites da “nacionalidade” para constituir “uma questão de dinheiro, de um império sem pátria”. Não deixa de ser perturbante que hoje se acuse o comunista José Mário Branco de “subversivo no sistema” apenas por defender o cumprimento da lei de oferta e procura, afinal um dos princípios básicos do “catecismo capitalista”.

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Vários – “Criadores, Jornalistas E Radialistas Discutem Produção Nacional Em Lisboa – ‘O Império Sem Pátria’ Da Música” (debate)

Cultura >> Domingo, 02.02.1992


Criadores, Jornalistas E Radialistas Discutem Produção Nacional Em Lisboa
“O Império Sem Pátria” Da Música


Música portuguesa: “confecção, costura e corte”. O tema foi debatido no clube de Jornalistas, em Lisboa. Que há crise, ninguém duvida. Multinacionais, corrupção nos “media” e estratégias de distribuição pouco límpidas foram apontados como principais culpados. Acusações a que as multinacionais, que se recusaram a comparecer, terão de dar resposta.



“Nos anos 70, a seguir ao 25 de Abril, 65 por cento dos discos vendidos no nosso país eram fabricados em Portugal. Em 1989 a percentagem baixou para 8 por cento”. Para José Mário Branco, músico e sócio da UPAV – União Portuguesa de Artistas de variedades, tais estatísticas revestem-se de “um significado, não só económico como cultural, assustador”. A música portuguesa, e em especial a de teor mais intervencionista, sofre por tabela.
Conta José Mário Branco, logo no início deste debate levado a cabo sexta-feira à noite pelo Clube dos Jornalistas e com a promessa de continuação, que no final de um concerto seu, realizado há pouco tempo nos jardins da Guarda, dois jovens exaltados, “com as lágrimas a escorrer pela cara abaixo”, o abordaram com a seguinte pergunta: “quem são os cabrões que nos impediram até hoje de conhecer estas coisas?” Uma boa pergunta. “O público quer ouvir a nossa música, há artistas que querem dar a ouvir a sua música ao público e há uma coisa, um pesadelo ali no meio, que impede a circulação” – diz José Mário Branco, segundo o qual as multinacionais são as principais responsáveis por este estado de coisas: “Somos um país pequeno onde as multinacionais entraram totalmente à balda, sem quaisquer regras que limitassem e condicionassem a sua actuação no mercado. As chamadas ‘editoras portuguesas’ não passam de escritórios em Lisboa de empresas estrangeiras. Quem manda na música em Portugal não é Lisboa nem o Porto, mas Londres, Nova Iorque, Amesterdão…” José Mário Branco segue o raciocínio das multinacionais: “Na lógica da Sony ou da EMI, o nosso mercado não passa de um quintal para onde se torna fácil escoar os restos de armazém. É esta a lógica do sistema”.

Editoras / Distribuidoras

Citam-se casos relativos a determinados processos seguidos, neste caso pelas “distribuidoras” que, na quase totalidade dos casos, são ao mesmo tempo editoras. Uma conversa de negócios entre o representante de uma “distribuidora” e um retalhista não andará longe dos seguintes termos: o retalhista pretende por exemplo comprar para a sua loja 200 discos de Michael Jackson, cuja venda lhe garantirá sem dificuldade os 48 por cento de margem de lucro que a lei lhe faculta sobre o preço de revenda. O distribuidor (e editor…) argumentará então: “Queres o Michael Jackson? Por acaso tenho aqui uma outra coisa que estávamos também interessados em vender (os tais restos)”. Se o retalhista insiste que essa ‘outra coisa’ não lhe interessa, receberá um franzir ofendido de sobrancelhas acompanhado da tirada: “Pois é, mas esses 200 discos do Michael Jackson não sei se lhos vou poder arranjar, sabe, há umas dificuldades no armazém…”. O infeliz retalhista, que apenas pretende enriquecer de forma honesta e de preferência rápida, percebe e resigna-se à continuação: “… mas se me comprar 50 destes tenho a impressão que afinal talvez lhe consiga arranjar os tais 200 do Michael Jackson!”.
Os “media”, alguns “media”, também não são poupados. Mesmo sem ter provas concretas (“sei de saber”) – diz José Mário Branco) o autor de “Ser Solidário” não duvida que o sistema esteja “profundamente corrompido, com cheques mensais passados por debaixo da mesa, com operações que significam dinheiro e chantagem ao lucro”. Na televisão – “o meio dos meios de comunicação” – “paga-se em escudos para se passar a faixa tal de um disco, segundo as imposições de programação vindas de Londres ou Amsterdão”.
O poder fecha os olhos e deixa andar. “Os canais de informação têm muitas relações com o poder político e com o poder económico. Há muitos interesses no meio disto tudo. Interessa é adormecer as pessoas e não levantar problemas” – diz Pedro Pyrrait, crítico de música, radialista e um dos convidados do debate, para quem este facto “teve influência no afastamento de uma larga faixa de música da nossa rádio”. “Há uma censura indirecta no sentido de não passar artistas como o Fausto, os Vai de Roda, o José Afonso, sob o pretexto de não ser música para FM”. Censura que nalguns casos pode passar por um “telefonema de algum secretário de Estado ou de um ministro, a protestar contra a passagem de ‘música revolucionária’, música ‘revolucionária’ que até pode ser uma canção perfeitamente inocente, mas que só por ser cantada pelo José Mário Branco ou pelo Sérgio Godinho pode prejudicar a ascensão de pessoas como o João David Nunes ou o Jaime Fernandes, que se calhar ambicionam chegar um dia a ministros. É bom o João David Nunes vir à televisão [em edição recente de “Conversa Afiada”] dizer que gosta de música portuguesa e do José Afonso. Difícil era ouvir essa música na Rádio Comercial, quando ele era director.

O Capital Contra O Capitalismo

Na opinião de José Mário Branco, todo este panorama muito pouco claro que parece minar por dentro a “costura” e “corte” da música portuguesa insere-se numa perspectiva mais vasta, de permissividade e “decadência” de “uma classe dominante pirosa e sectária (por insegurança, por ser muito recente e por nunca ter podido exercer nem exercer-se)” e, como consequência, “de uma classe política impreparada e altamente corrupta”. Corrupção que vinda das cúpulas terá por força que se reflectir nos “vários níveis da vida nacional, passando pelas diversas estruturas do Estado, pelos meios de comunicação e pelo próprio meio empresarial”.
Viriato Teles, outro representante da facção do “corte” presente no debate, que teve Eduardo Guerra Carneiro, da Direcção do Clube de Jornalistas, como moderador, tem razão quando afirma que “sem se conhecer as coisas não se pode gostar delas”. De facto, algo não bate certo quando o tal jovem da Guarda grita contra os “cabrões” que lhe dificultam e impedem o acesso ao produto musical. São as próprias leis da oferta e da procura que são impedidas de funcionar. “Há aqui qualquer coisa que não tem sequer já a ver com a economia keinesyana e com o capitalismo – a perversão do próprio capitalismo”. Quando os meios de produção artística se rendem aos “trusts”, o assunto ultrapassa os limites da “nacionalidade” para constituir “uma questão de dinheiro, de um império sem pátria”. Não deixa de ser perturbante que hoje se acuse o comunista José Mário Branco de “subversivo no sistema” apenas por defender o cumprimento da lei de oferta e procura, afinal um dos princípios básicos do “catecismo capitalista”.

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