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Annie Lennox e Dave Stewart – “Eles Os Dois São Ela” (programa de televisão / documentário biográfico)

13.04.1991
Sábado, Local, Televisão


Eles Os Dois São Ela


Ela é Annie Lennox. Ele Dave Stewart. Ele toca, compõe e arranja. Canções, claro. Ela é a voz, o rosto e o corpo dado ao manifesto. Ele é a música, o profissional na sombra que faz mexer os cordelinhos. Ela é teatro, instinto, sedução. Ele – óculos escuros – tocava com Elton John e abusava das drogas. Ela – cabelo louro muito curto – cantava nos Tourists. De tão diferentes, ligam bem um com o outro. São os Eurythmics – fábrica de sonhos prontos a consumir. Ou de espelhos “Sweet dreams are made of this”, afinal de contas.
No início, o frio de um jardim de Colónia: “In The Garden”, gravado nesta cidade, com Holger Czukay e Jaki Liebezeit, dos Can, e os dois D.A.F., Robert Görl e Gabi Delgado. Disco electrónico, distante, fatal. Em 1981, dançava-se ao som das máquinas. Depois, o golpe de magia de “Sweet Dreams (are made of this)”, um milhão de discos vendidos e “top one” nos Estados Unidos. Os tijolos do caminho tornam-se dourados: “Touch” – e a versão mini, para discoteca, “Touch Dance” -, “1984 (for the love of big brother)” – banda sonora do filme inspirado na obra de Orwell -, “Be yourself tonight”, “Revenge”, “Savage” e “We two are one too” desmentem o provérbio – com os Eurythmics, tudo o que luz é ouro.
Canções de êxito, nem se fala: “Love is a Stranger”, “Right by your Side”, “Here Comes the Rain”, “Sex Crime”, “Sisters are Doing it for Themselves” (em dueto com Aretha Franklin), “Beethoven (I love to listen to)”. “There Must be na Angel”, com certeza. Há. Chama-se Annie Lennox. Vamos vê-la e ouvi-la, a propósito de “We two are one too”, ao vivo, no mundo real, e em “clips”, no mundo da ilusão. Os dois são um.
Canal 2, às 00h25

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James Brown & Friends – “James Brown & Friends” (vídeo / vhs)

Pop-Rock 27.02.1991 – VÍDEOS


JAMES BROWN & FRIENDS
James Brown & Friends
Music Club, distri. Anónima, 57 min.



Para os amantes da música “soul” este registo ao vivo das actuações de James Brown e alguns convidados muito especiais, no “Taboo Club” de Detroit, Michigan, em 1987, é uma peça de arquivo fundamental. Para todos os que não se incluem na categoria restrita atrás enunciada, funciona como um entretenimento agradável e apenas isso. Não há quaisquer efeitos especiais, para além daqueles eventualmente provocados pela audição da música. Um apresentador apresenta, como lhe compete. Os instrumentistas tocam, como se lhes pede. Os cantores cantam, como seria de esperar. Boa oportunidade para se recordar clássicos da “soul music” na voz de um dos seus expoentes – “Papa’s Got A Brand New Bag”, “In The Midnight Hour”, “When a Man Loves aWoman”, entre outros.
James Brown apresenta-se com o bom-gosto habitual: “smoking” prateado e reluzente, decotado até ao umbigo, cabelos cimentados de laca, penteados ao estilo Freddy-Mercury-de-peruca. À medida que os convidados vão chegando, a coisa aquece: primeiro Wilson Pickett, outro senhor da “soul”, seguido de Billy Vera e Joe Cocker, este para interpretar “When A Man Loves A Woman”. Robert Palmer (impecável, de barba bem aparada, gravata e fato completo, de corte irrepreensível) interpreta “Sugar & Spice” em dueto com Brown e, a solo, um dos temas que lhe deu fama e proveito, “Addicted to Love”, Aretha Franklin, decotada e dificilmente contendo dentro do vestido os excessos de adiposidade, dança um “slow”, agarradinha ao chefe Brown, e canta como só ela sabe. Por fim, juntam-se todos no palco para, felizes, cantarem em coro “Living in America”. E acabou. Muito para uns, pouco para outros. É como tudo na vida.
**

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

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Cabaret Voltaire – “Cabaret Voltaire” (vídeo / VHS)

Pop-Rock 23.01.1991
Vídeos

CABARET VOLTAIRE
Cabaret Voltaire
Mute, distri. Edisom



“Cabaret Voltaire” é um dos primeiros “long forms” independentes de sempre, reedição do original de 83, editado na Doublevision. Visão do inferno. Porta aberta para o inferno. A música: da primeira fase. A melhor (?), experimental e perigosa – compare-se, por exemplo, “Photophobia”, “Badge of Evil” ou o excerto do filme “Johnny Yesno” com as recentes banalidades dançáveis de “Groovy, Laid Back & Nasty” e veja-se a diferença. Na altura, os Cabaret Voltaire eram “industriais”, insuportáveis, brutais. Técnicas de “cut up” e colagem. Vozes subliminais, curto-circuitadas por ruído branco. Ruído negro. Disformidades acústicas. Stephen Mallinder, Richard H. Kirk e, no início, Chris Watson (mais tarde nos Hafler Trio). Guitarras em esquizo-“feedback”. Sintetizadores tribais. Fitas magnéticas em delírio. O suficiente para orientar a “cold wave” no sentido do mal absoluto.
As imagens: horror. Horror. Horror. Ritual, “slogans” ameaçadores, totalitarismo, tortura, guerra, autoflagelação, pornografia, ruínas, monstruosidades físicas e psíquicas. “Fast/slow motion”. Ruído visual. Formas saturadas. Fanatismo religioso. Manipulação (das imagens, mental, emocional). Sofrimento. “This Is Entertainment, This Is Fun”.
A visão: focada nas capas dos discos (paradigmática, a de “The Crackdown”, com a mira da câmara fotográfica apontada ao receptor, ou os retratos “kirlian” de auras etéreas, em “Mix-up”), nos constantes grandes planos de olhos humanos ou na designação da produtora Doublevision. O olho do poder. Controlo da e pela imagem electrónica.
Interiorização do horror por sobrexposição a esse mesmo horror. Luz filtrada, distorcida e invertida. Duplos. Dupla visão. Os Cabaret Voltaire agradecem à televisão psíquica, de Genesis P. Orridge. Permanece a interrogação: pode a televisão ser perigosa? Outra questão: é lícito separar a ética da estética? Dito de outro modo: está a arte acima de todas as morais? Por detrás da música e imagens dos Cabaret Voltaire existe uma atitude e uma ideologia (partilhadas actualmente por dezenas de outros “músicos”) com objectivos muito precisos. Alguns mais conscientemente do que outros, todos trabalham para fazer subir à Terra um novo poder.
São diversas a tácticas e estratégias utilizadas. Actuam por fases: em curso, a inversão de todos os valores e sentidos.
Destruídas as anteriores referências (imputem-se responsabilidades aos primeiros dadaístas do princípio do século, que por sinal afaziam do Cabaret Voltaire lugar privilegiado para as suas conspirações), cabe agora aos técnicos proceder à sua substituição por novos valores de sinal contrário. A propaganda nazi sabia como proceder. Também o sexo desempenha um papel de relevo nestas operações: desligado do amor, levado ao extremo da pornografia, serve, por meio de mecanismos tântricos, como meio de libertação de energia que poderá ser desviada para outros fins. Sade. Masoch. Wilhelm Reich.
“Cabaret Voltaire”, o vídeo constitui importante documento de uma das fases iniciais do processo. Como no início se escreveu, poderá ser visto como uma descida aos infernos. Imagens que ensinam a sofrer e a fazer sofrer. Imagens que se aceitam ou renegam. Imagens a que é impossível ficar indiferente. Sem classificação.

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