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Peter Hammill – O Jogador de Xadrez (concerto em Portugal)

Pop Rock

27 MAIO 1992

O JOGADOR DE XADREZ

Para muitos considerado quase um deus, Peter Hammill tem sido o companheiro de muitas vidas, de odisseias interiores, uma espécie de tradutor do que nos vai cá dentro de mais profundo e secreto.

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Desde sempre as palavras constituíram o centro, o ponto de partida e de chegada do universo deste autor e compositor. Há mesmo quem queira ver nele um dos maiores poetas ingleses vivos. Dispensem-se os sons, que mesmo assim as palavras de Hammill vibram e explodem-nos na cara, nas colectâneas de poemas “Killers, Angels, Refugees” e “Mirrors, Dreams & Miracles”.
Mas falar de Peter Hammill é falar dos Van Der Graaf Generator, expoente mámixo, na década de 70, do rock progressivo, designação neste caso insuficiente para definir um som original que foi capaz de erguer a música popular à altura dos grandes épicos. Três álbuns (descontando a estreia incipiente “The Aerosol Grey Machine”) definiram numa primeira fase da banda todo um mundo exploratório de sons – entre o free-jazz, a electrónica e o rock – e dos fantasmas que sempre assombraram o se líder, pianista, guitarrista e vocalista, Peter Hammill: “The Least We Can Do Is Wave to each Other”, “H to He, who Am the only One” e “Pawn Hearts”, este último talvez uma das maiores obras de sempre da música popular, levando às últimas consequências o jogo de xadrez travado entre um coração aprisionado e o absoluto, entre as trevas e a luz.
Neles, a poesia de Hammill é o fio condutor que permite avançar por entre um quadro de horror e paranóia onde anjos e demónios de digladiam e tecem o destino do indivíduo à deriva nas suas próprias emoções. O amor eclode como um intruso neste universo que se diria encenado por H. P. Lovecraft, mas sempre parasitado por uma lucidez exacerbada que impede o mínimo gesto de espontaneidade.
A segunda fase dos Van Der Graaf é mais violenta, a energia mais directa, as palavras, tão complexas como sempre, demandam a impossível totalidade: “Godbluff”, “Still Life” e “World Record”, trilogia do psiquismo humano em combustão, colorida a fogo pelos saxofones em fúria de David Jackson, o órgão litúrgico de Hugh Banton e as deflagrações de dinamite de Guy Evans , na bateria. “The Quiet Zone/The Pleasure Dome” é igual à vertigem da capa, onde uma mulher suspensa num baloiço sobre a Terra é empurrada pelos ventos do cosmos.
A solo, Hammill construiu uma obra longa e diversificada, em registos sempre servidos por vocalizações únicas, entre o grito e o gemido ou massacradas pelo ácido da electrónica do inferno, como na câmara de tortura de “Magog (In Bromine Chambers)”, em “In Camera”, monumento mais alto e acabado da sua obra, ponto limite e coincidente do humano com o transcendente, o grito de desespero final, a súplica e o orgulho do último herdeiro dos grandes românticos do século XX.
Em Peter Hammill cruzam-se múltiplas experiências e caminhos de procura dessa modalidade difícil que é o ser humano, registados numa discografia que deixou marcas e cicatrizes: “Fool’s mate” e a procura da juventude perdida, “Chameleon in the Shadow of the Night” e “The Silent Corner and the Empty Stage”, sangue e alucinações, o artista devorado pela sua visão, jogos de poder, “Nadir’s Big Chance”, avô de todos os “punks”, “Over” e o amor, o amor inteiro desbaratado em desencontros, “The Future now”, “Ph7” e “A Black Box”, a obra modernista a preto e branco, a janela aberta desta feita para o mundo de fora, viagens aéreas, metáforas sobre o homem algébrico, prisioneiro dourado do admirável mundo novo.
Depois, infelizmente, tem sido a queda progressiva, esse “longo adeus” já antes anunciado pelos seus companheiros de aventura – de “Sitting Targets” ao recente “Fireships”, passando pela manipulação de computadores de “Spur of the Moment” (com Guy Evans) e a ópera “The Fall of the House of Usher”, inspirada no conto homónimo de Edgar Allan Poe, em gestação durante mais de 20 anos e que, finalmente, se revelou aquém das expectativas. Seja como for, valerá decerto a pena assistir ao vivo, nos dias 17 e 18 de Junho no São Luiz, em Lisboa, a este teatro da crueldade centrado numa só figura e nas suas infinitas máscaras.

Dias 17 e 18 Junho, às 22h00, São Luiz



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Kraftwerk – O Admirável Mundo Novo

BLITZ

3.4.90

KRAFTWERK

«I Sing the Body Electric»
Ray Bradbury

Bip Bip Bip. Boing Boom Tschak. A beleza da música dos alemães Kraftwerk é a beleza da electricidade em estado puro. A harmonia da informação circulando livremente através dos chips de circuitos integrados. O classicismo digitalizado. A herança elegante de uma Europa crepuscular rendida à imagem requintada da despersonalização e da indiferença. Ralf Hutter, Florian Schneider, Wolfgang Flur e Klaus Roeder são as quatro máscaras humanas para um rosto que deixou de o ser. Manequins de gesto suspenso sobre a imobilidade gelada do Tempo aprisionado. Save. Enter. Return.

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

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É costume considerar os Kraftwerk como os precursores de quase todas as principais inovações relativas às técnicas de estúdio. O «Disco Sound» ou o «Rap» proclamam-se devedores das manipulações sonoras levadas a cabo pelos quatro homens de Dusseldorf. Estes não confirmam nem desmentem, limitando-se a gravar discos, sem fazer grandes ondas e alargando com cada um deles as fronteiras do que se convencionou na generalidade designar por «música electrónica».
Hutter e Schneider, os fundadores da banda, encontraram-se em 1970 no Conservatório de Música de Dusseldorf, uma das cidades mais industrializadas da Alemanha, e formaram os Organisation. Sob esta designação foi editado o álbum «Tone Float», gravado e produzido por Conny Plank numa refinaria de petróleo da cidade. No mesmo ano nascem os Kraftwerk que gravam no ano seguinte o álbum estreia «High Rail», com o selo Philips. No ano seguinte a Vertigo reúne estes dois discos num duplo intitulado simplesmente «Kraftwerk», infelizmente há já alguns anos fora do mercado. Na sua fase inicial a música do grupo conciliava as explosões de metal, o minimalismo e a música concreta com um lirismo exacerbado tão caro ao Romantismo alemão. Grupos como os Einstuerzende Neubauten, Test Dept., ou os primeiros SPK deverto que ouviram e aprenderam muito com este disco seminal.
O álbum seguinte, «Ralf and Florian», de 83, prossegue a mesma via, com temas fabulosos como «Eletrisches Roulette», à beira da esquizofrenia, a dança metálica de «Tanzmusik» e os catorze minutos planantes, cristalinos e tropicais de «Ananas Symphonie».
Em 74 os Kraftwerk passam a quarteto, com a inclusão de Klaus Roeder e Wolfgang Flur, respectivamente no violino e guitarra e nas percussões electrónicas. É com esta formação que gravam, no mesmo ano, a obra-prima «Autobahn», um dos melhores discos de sempre de música electrónica. O primeiro lado é ocupado na totalidade pela faixa do mesmo nome, uma «trip» psicadélica-automobilística, só ao alcance das auto-estradas e das cabeças teutónicas. Sem despistes e com as mudanças engatadas sempre na altura exacta. Nunca os sintetizadores, «Vocoders« e «sequencers» tinham andado a tanta velocidade. O Futuro tinha começado. Do outro lado do disco o fogo-de-artifício sonoro em duas deslumbrantes versões de «Kometenmelodie». Surpreendentemente as rádios americanas e inglesa tocam uma versão mais curta de «Autobahn». O single e o álbum alcançam todos os Tops abrindo caminho para a vaga do «Eurodisco», com Giorgio Moroder à frente. «I Feel Love» é a voz de Donna Summer aobre um plágio grotestco dos ritmos robóticos dos alemães. Curiosamente este tema tem sido «samplado» pelas novas bandas até à exaustão. O Tempo é cada vez mais uma ilusão.
Em Outubro de 75 Karl Bartos (percussão electrónica) substitui Roeder, ficando assim constituída a formação que até à data se mantém inalterável. No mesmo mês os Kraftwerk abandonam a Philips/Vertigo e formam a sua própria editora a Kling Klang, distribuída pela EMI. Ainda em 75 é publicado o LP «Rádio Aktivitaet», versão original alemã de «Radio Activity» que sai em Inglaterra no ano seguinte. «Radio Activity» é o álbum mais fraco da banda, versão turístico-infantil da estética futurista. A simplicidade de meios, propositada ou não, e letras pueris à beira do imbecil tornam a audição do disco apenas divertida. Destaque mesmo assim para o título-tema «Radio Activity» e «Airwaves», dançáveis e irremediavelmente coláveis aos ouvidos.
1977 é o ano de «Trans Europe Express», dos manequins-réplicas em palco e do retorno à boa forma. «Trans Europe Express», «Metal on Metal» ou «Franz Schubert», metálicos, gelados e repetitivos são paradigmáticos e proféticos da «Cold Wave» que se avizinhava. Mais uma vez os Kraftwerk ditavam as leis, escrupulosamente seguidas pelas gerações futuras.
«The Man Machine» aparece no ano seguinte levando ás últimas consequências todas as anteriores premissas estéticas e ideológicas do grupo. O factor humano cede definitivamente ao factor máquina. O álbum abre com «The Robots» e fecha com «The Man Machine». «Spacelab», «Metropolis», e «Neon Lights» são imagens de um filme fantasmático sobre cidades percorridas por sonâmbulos, ecos de «slogans» cibernéticos e neons deslumbrantes. O filme pára. A realidade é eléctrica. A luz torna-se branca. E fria.
«Computer World», de 81, é mais humano ou talvez não consoante a perspectiva. Em «Pocket Calculator» os Kraftwerk utilizam o som de uma calculadora electrónica de bolso. «Numbers» é a Torre de Babel do Novo Mundo reduzido a acções de compra e venda, números e mais números soletrados em diversas línguas sobre um ritmo implacável de máquinas em sintonia. A realidade é matemática, rigorosa, previsível e programável. «Computer Love», bits em forma de coração, «I-L-O-V-E-Y-O-U» repete a voz sintetizada enquanto a mensagem vai piscando no monitor. «Home Computer», «It’s More Fun to Compute» e as máquinas continuam a dançar.
«Tour de France», como o nome indica, é dedicado à célebre prova velocipédica e aparece no filme «Breakdance» (!).
Finalmente, em 86, a EMI edita «Electric Cafe». Os Kraftwerk atingem com este disco o ponto de plenitude em que a superficialidade e o desprendimento se confundem com o sublime. O humor surge radioso no fim e do alto da tragédia há sempre um sorriso irónico e distante. «Techno Pop» é o estado actual da música Pop massificada, reduzida a sons empacotados e prontos a vender em supermercados. «The Telephone Call», a conversa telefónica unilateral com uma gravação que insiste em dizer que aquele número foi definitivamente desligado. «Sex Object», de novo os bonecos-fétiche de carne e osso. Palavras vazias, repetidas, destroçadas. Séc. XX ou XXI, já nada faz sentido ou tudo faz simultaneamente todos os sentidos. Todas as coisas, todos os sons, Electricidade, «Electric Cafe», sintético, sonoro, nuclear, infinito, finito, circular, sintético, sonoro, «Musique Non Stop» – «Techno Pop».

The Mix, aqui



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No Secrets In The Family – “Play Strange And Laughter”

BLITZ

6.3.90
ESCAPARATE

NO SECRETS IN THE FAMILY

«PLAY AND STRANGE LAUGHTER»

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Raros são os discos da Recommended Records que não alcançam a classificação de pelo menos «Muito Bom». A explicação para tal facto é simples: os critérios prevalecentes na estratégia editorial (desde a feitura da capa até aos últimos retoques de produção) regem-se exclusivamente pela qualidade e originalidade genuínas, ou seja, não há cedências de qualquer espécie. Parece fácil? Até é. Quando os objectivos não se resumem à obtenção de lucros a todo o custo.
A Rec Rec é uma editora suíça, subsidiária da sua congénere britânica e cuja totalidade do catálogo não foge à regra, isto é, vale a pena comprar todos os seus discos. Nomes importantes não faltam: os britânicos Camberwell Now (de Charles Hayward) e Skeleton Crew (de Fred Frith e Chris Cutler); o próprio Frith a solo, os franceses Etron Fou Leloublan (mais álbuns a solo dos seus membros Ferdinand Richard e Guigou Chenevier) e Nimal, os suíços Débile Menthol, os americanos Orthotonics, Negativland e Red Crayola ou os nipónicos After Dinner (cujo último álbum, aqui criticado, é de 89 e não 84, como por gralha saiu publicado), incluem-se no catálogo de luxo da editora.
Os alemães, ou suíços, ou austríacos No Secrets in the Family fazem parte da última fornada, juntamente com o mais recente dos germano-suíços Unknownmix («Whaba»), o já citado dos After Dinner («Paradise of Replica») e a estreia dos No Safety («This lost leg», com Zeena Parkins e Pippin Barnett).
Com os No Secrets salta imediatamente à vista (ou ao ouvido) aquilo que constitui regra de ouro em todos os «produtos» Recommended: a excelência técnica de todos os músicos envolvidos. Claro que não basta, mas também (regra n.º 2) só grava na casa quem, para além de saber tocar impecavelmente, seja ainda melhor compositor e arranjador e consiga ainda por cima ser original. É o caso destes No Secrets in the Family, liderados pela família Schonholzer: Annette (voz, sintetizador, órgão de pedais e melódica) e Markus (voz, guitarra e melódica). Os dois restantes membros são Daniel Meienberger (baixo, ukelele e voz) e Martin Gantenbein (bateria, flautas, saxofone, acordeão e voz).
Presentes ainda alguns convidados em violino, violoncelo, fagote, tuba e oboé.
Um dos trunfos da banda é possuir nas suas fileiras duas excelentes vozes, as de Annette e Markus, filiados nas escolas de Dagmar Krause e David Thomas (o gordo), respectivamente. Um dos outros vocalistas lembra outro excêntrico: David Garland (de «Control Songs» e «Worlds of Love»).
Mas é ao nível das composições que levantam voo: canções simultaneamente complexas e acessíveis, arranjadas com um bom-gosto inexcedível. Ao todo são dez, incluindo uma versão surrealista de «Que Sera Sera» e uma letra inspirada num texto de Chesterton («The Ballad of Suicide»).
«Play and Strange Laughter» é um disco a não perder. Quando por esse mundo fora se vão publicando dezenas de óptimos discos como este, porquê perder ainda tempo com o lixo que, metodicamente e com a cumplicidade dos «media», vai saturando e envenenando o mercado?
O rótulo «Música alternativa» serve, neste como noutros casos, para lembrar que vale a pena fazer desvios e arriscar no menos óbvio.
O portal Rec Rec é uma das entradas possíveis no imenso e luxuoso palácio da Recommended. Franqueá-lo é ter acesso ao paraíso.
(LP Rec Rec, Import. Contraverso, 89)

aqui



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