Arquivo da Categoria: Piano

Harold Budd – “O Pianista Harold Budd Actua Hoje Em Lisboa – O Verbo Em Movimento”

Secção Cultura Sexta-Feira, 01.11.1991


O Pianista Harold Budd Actua Hoje Em Lisboa
O Verbo Em Movimento


Música e poesia confundem-se na obra de Harold Budd, compositor / pianista que hoje actua em Lisboa. Não é todos os dias que se assiste ao espectáculo do verbo em movimento.



Harold Budd, que hoje actua, às 22h30, na Aula Magna, em Lisboa, acompanhado pelo guitarrista Bill Nelson, aprendeu o ritmo e a circularidade do tempo com os minimalistas americanos, integrado na cena “avant gard” californiana dos anos 60, essa época de todos os possíveis.
Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley inventavam então a música sem fim. Vagas cósmicas que ainda hoje afluem à praia, a que chamaram “minimalismo” e “repetitivas”, por insuficiência da razão. Mais longe foi o papa do movimento, LaMonte Young, no seu “Teatro da música eterna” seguindo pelas ondas até ao oceano do Silêncio. Com ele Harold Budd compreendeu o valor da distensão temporal, da hipnose. Gravou uma peça para gongo chinês solo “The candy-apple revision” que ressoava ininterruptamente por 24 horas. “Madrigals of the Rose Angel”, escrito para um coro feminino em “topless”, mostra que o humor nunca deixou de estar presente na sua música.
O mundo só percebeu que existia Harold Budd quando um aristocrata chamado Brian Eno resolveu iluminar, de forma discreta como é seu timbre, as bizarrias dos então “outsiders” Gavin Bryars, Michael Nyman, David Toop e Penguin Café Orchestra, entre outros, na editora “Obscure”. “The Pavillion of Dreams”, editado nessa série, dava a conhecer um Harold Budd dividido entre a interiorização extática e um estilo pianístico próximos de Erik Satie e as liberdades jazzísticas concedidas ao saxofone de Marion Brown.

O Som Das Palavras

“The Plateaux of Mirror”, o álbum seguinte, viria a mostrar a via escolhida para o futuro: a viagem até à nascente, ao “não-ser” que serve de alavanca e motor do mundo. A descoberta da força das palavras, além dos significados. E de que a poesia começa pelo som. Música das palavras, por natureza livres, mágicas, antes de enformarem o conceito. Antes mesmo de se mitificar no símbolo, o Verbo é esse Som que rasga as trevas, permitindo a organização harmónica a que chamamos Vida.
“Lovely Thunder”, “The moon and the Melodies” (com os Cocteau Twins), “The Pearl” (com Brian Eno), “The Serpent in the Quicksilver” (música para instalações), “The White Arcades”. Que América se desvela nessas melodias que as palavras libertam? A revelação deu-se, curiosamente, com a visão de uma obra do artista italiano Sandro Chia, reunindo pintura e poesia. “Uma luz desceu sobre a minha cabeça”, afirma o compositor quando se refere à génese poética do seu novo álbum, “By the Dawn’s Early Light”, primeiro em que o texto irrompe através da voz humana, na introdução e conclusão declamadas.
A outro nível, a música e os títulos referem-se a uma geografia específica, a lugares habitados pela imaginação e gravados no marfim das teclas dopiano, qual estrada de Santiago, onde as estrelas se erguem no eixo vertical aos veios da terra, delimitando o caminho a seguir até a catedral. Imagine-se então e habite-se essa catedral de luz erigida nos grandes espaços de uma Califórnia mítica, de contornos indefinidos ao ponto de se evolar, miragem, nos grandes calores do deserto em Victorville que o pianista aprendeu a decifrar. Chame-se a Harold Budd “ambiental”, “minimal”, “impressionista” ou, seguindo a moda, “Pós-moderno”. Qualquer das definições se lhe aplica. Nenhuma é suficiente para exprimir a serenidade admirável de uma música que, gerada pelo génio humano, se eleva a outras esferas. Acima de tudo, uma música que ensina a escutar.

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Wim Mertens – “Minimalista Wim Mertens Lança Obra Em Sete CD – A Eternidade Em Cinco Horas”

Secção Cultura Sexta-Feira, 05.04.1991


Minimalista Wim Mertens Lança Obra Em Sete CD
A Eternidade Em Cinco Horas



Minimalista, monárquico, pós-moderno, genial e louco são alguns dos adjectivos aplicáveis ao compositor belga Wim Mertens. Sobretudo os dois últimos, se levarmos em conta o seu mais recente trabalho, “Alle Dinghe”, com mais de cinco horas de duração, só ao alcance dos iniciados.
“Alle Dinghe” cumpre uma promessa antiga. Desde o ano passado, quando o músico, monárquico e tradicionalista convicto (tocou em particular para o rei de Espanha…), actuou a solo no Teatro S. Luiz em Lisboa, que a ideia germinava no seu cérebro fervilhante. Ao ritmo dos passos e das vibrações da serra de Sintra, Wim Mertens discorria, num monólogo interminável, sobre aquela que seria a obra-chave, solução definitiva para os mistérios que a sua música encerra, vitória sobre o tempo, a eternidade, em suma.
Mertens considera-se um enviado dos deuses, portador de uma missão a cumprir – transmitir aos homens a verdade última – dos sons, da melodia e harmonia absolutas, ocultas na estrutura pitagórica do verbo composicional, estrutura já manifestamente evidente, aliás, nos dezassete minutos finais de harpa algébrica, para muitos insuportáveis, de “Educes Me”. Toda a sua obra anterior a “Alle Dinghe” (de que “Vergessen”, “Maximizing The Audience”, “Struggle For Pleasure” ou “After Virtue” constituem fases cruciais) avança por aproximações progressivas a essa essência. Para quem não conhece nem seguiu, passo a passo, nota a nota, esse percurso em direcção ao segredo, torna-se incompreensível, senão mesmo penosa, a audição integral deste trabalho, só comparável, em depuração formal e duração, a “The Well Tempered Piano”, do profeta LaMont Young.

O Tempo Imóvel

Dividida em três núcleos fundamentais, distribuídos por sete (!) discos compactos arrumados em três caixas, Alle Dinghe” (gravado na editora “Les Disques du Crépuscule”, distribuída em Portugal pela Contraverso) dura exactamente cinco horas, cinquenta e cinco minutos, dezassete segundos. “Sources of Sleepness” constitui a matéria dos dois primeiros CDs – “Meinleib ist mude” e “Venerandam” num, “Sub Rosa” e “Le Bref” no outro. “Vita Brevis” estende-se, em sete partes, por mais dois compactos. Finalmente, “Alle Dinghe”, dividido em dez partes, preenche os restantes três.
Para a escuta contínua e integral da obra, torna-se necessário cumprir certos requisitos, a saber: jejum prévio durante os cinco dias (tantos quantas as horas de “Alle Dinghe”) anteriores à audição, depois do qual, no caso de se ter sobrevivido à fominha, se deverá dedicar cinco horas à meditação transcendental, de modo a evitar ao máximo possíveis acessos de impaciência, que, nestas circunstâncias, poderão ser fatais.
“Sources of Sleepness” recupera o formato instrumental dos Soft Veredict. Oito músicos dão corpo a este “perpetuum mobile”, através de uma combinação característica da música de câmara (tuba, clarinete, flauta, violino, violeta, violoncelo e contrabaixo) e de desenvolvimentos melódico-harmónicos que retomam o minimalismo na sua vertente mais radical.
“Vita Brevis” aponta para uma concepção temporal própria do Zen – sucessão cíclica de infinitos instantes, como um filme observado ao fotograma, micro-espirais de fogo desenroladas, ao longo de mais de uma hora, pelo fagote, em solo absoluto de Luc Verdonck, à semelhança do que acontece nas “Instrumental songs” interpretadas, também em solo-absoluto, pelo saxofone soprano de Dirk Descheemaeker, no álbum do mesmo nome.
Os três últimos CDs correspondem ao desfecho em forma de odisseia extática, “Alle Dinghe”, síntese operatória e manifesto teórico das premissas subjacentes à música e concepções existenciais do seu autor – ultrapassagem da linguagem e do pensamento conceptuais, considerados prisões que obstam à pura contemplação da vida e do perpétuo e imprevisível movimento que, por essência, ela é. O “tal-qualismo” de que falavam os mestres Zen, visão das coisas “tal qual são” e não como as pensamos. Cada parte de “Alle Dinghe” recorre a fonemas destituídos de sentido (“zo”, “al”, “ook”, “et”, “tt”, “en”…), para descobrir o vazio que corrói a carne das palavras e ao mesmo tempo apontar o silêncio incomensurável do Todo, do Nada que é o tudo da realidade manifestada.
A música, enfim, liberta de grilhetas do significado. Reduzida a um trio instrumental violino / violoncelo / contrabaixo, a sequência final (e anti-apoteótica) de “Alle Dinghe” derruba todas as concepções, teoria e modos de percepção sonora que a construção fictícia do Ego geralmente implicam. Wim Mertens dá voz e espaço à liberdade anteriormente enunciada por LaMont Young, na vertigem silenciosa do “teatro da música eterna”. Não são diferentes, a Eternidade e o Instante.

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Rubén González – “Morreu O Pianista De ‘Buena Vista Social Club’ – Aos 84 Anos” (obituário / artigo de opinião)

(público >> cultura >> pop/rock >> artigo de opinião)
quarta-feira, 10 Dezembro 2003
obituário


Morreu o pianista de “Buena Vista Social Club”

AOS 84 ANOS

Rubén González, pianista cubano que o álbum e documentário “Buena Vista Social Club” popularizaram, morreu anteontem. Os hotéis e cabarés de Havana ficaram mais vazios



Rubén González fotografado em Abril deste ano em Havana

“Um cruzamento entre Thelonious Monk e o Gato Félix” foi como Ry Cooder descreveu Rubén Gonzaléz, lendário pianista cubano que anteontem morreu na sua casa, em Santiago de Cuba, aos 84 anos. Depois do desaparecimento, em Julho, de Compay Segundo, aos 95 anos, a música cubana perde num curto espaço de tempo dois dos seus principais embaixadores, representantes de uma época de ouro em que o cha cha cha e os guarachas eram ouvidos todas as noites nos bares dos principais hotéis e bares de Havana.
Ry Cooder, guitarrista americano a quem se deve a autoria da banda sonora de “Paris-Texas”, de Wim Wenders, e produtor do álbum “Buena Vista Social Club” (principal passaporte da música cubana para o resto do mundo), transposto para cinema pelo realizador alemão, considerou ainda Gonzaléz como “o maior solista de piano” que alguma vez conheceu. Misto de inovação e tradição, jazz e a euforia dos ritmos latinos. Mestre do “son”. Monk e o Gato Félix, na comparação feliz de Ry Cooder.
Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo, dois dos participantes de “Buena Vista Social Club”, prestaram ontem homenagem ao seu antigo companheiro, recolhendo-se diante da urna, coberta por uma bandeira de Cuba, antes do corpo do pianista ir a enterrar, ao final do dia, no cemitério de Colon, em Havana.
Rubén Gonzaléz nasceu em Abril de 1919, em Santa Clara. Entrou cedo para a música (iniciou os estudos de piano aos 7 anos) mas teve que esperar pela velhice até a fama lhe bater à porta. Quis ser médico de dia e pianista de noite. Abdicou do dia, optando pelos remédios da noite. Aos 22 anos, tornou-se músico profissional, após estudos clássicos no Conservatório de Cienfuego.
Ao longo dos anos 40, Rubén Gonzaléz percorreu os “halls” de hotéis como o Hotel Inglaterra ou o cabaré Tropicana, numa época em que o talento era tão importante como o trabalho árduo e os músicos funcionavam como variantes de “barmen”, com a função de criar bom ambiente entre os hóspedes ou simples visitantes que bebericavam mojitos e daiquiris. “Música de hotel”, “cocktail jazz” ou “piano bar”, termos que hoje voltam a estar em voga na sua versão revivalista.
Gonzaléz foi, no entanto, mais longe, fazendo questão de que o seu piano, um misto de jazz cubano e inovação, mais do que simples instrumento de acompanhamento, se afirmasse como instrumento solista, embora sem abdicar da forte componente rítmica que caracteriza a música latino-americana.
Fora dos bares de hotéis Gonzaléz brilhou nas várias orquestras e grupos em que participou, como a Orquestra Paulina, o Conjunto Camayo, Los Hermanos, ao lado de músicos como Raul Planas, Mongo Santamaria e Arsénio Rodriguez, com quem gravou o seu primeiro disco. Viajou pelo Panamá e pela Argentina onde tocou com músicos de tango e, já nos anos 60, entrou para a orquestra de Enrique Jorrin, considerado o criador do cha cha cha, aí permanecendo 25 anos, até à morte do seu líder. A meio da década de 80, porém, quando já assumia as funções de chefe da orquestra, a artrite levou Rubén Gonzaléz a retirar-se.
Foi preciso esperar até 1996 para o seu nome voltar a ser falado, ao entrar para os Afro-Cuban All Stars, com os quais gravou, no ano seguinte, o álbum “A Todo Cuba le Gusta”. Chegara o tempo do resto do mundo começar a reparar na música cubana. Todos os olhares e ouvidos se voltaram em 1998 para o Novo Testamento da música cubana, “Buena Vista Social Club”, com participantes do calibre de Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Compay Segundo, Eliades Ochoa e, claro, Rubén Gonzaléz, convidado a participar por Nick Gold, dono da editora World Circuit, a mesma de Ry Cooder.
Rubén Gonzaléz sonhava no seu universo pessoal. O afastamento por doença levara a que nessa época não tivesse piano, obrigando-o a utilizar o existente no estúdio. Mas diz quem o viu que os seus olhos irradiavam felicidade quando, todas as manhãs, esperava em frente ao edifício que as portas se abrissem.
Na sequência desse disco, aclamado pelo público e pela crítica e vencedor de um Grammy, Gold convenceu de imediato o pianista a gravar aquele que seria o seu primeiro trabalho a solo em nome próprio, “Introducing Rubén Gonzaléz”. A gravação durou dois dias. Gonzaléz tinha nessa altura 78 anos e só então se tornou uma estrela.
A esse disco de estreia seguiram-se “Indestructible” (ed. Egrem, 1998) e “Chanchullo” (Nonesuch, 2000). Pelo meio, em 1999, a World Circuit reeditou a seminal sessão de “cuban descarga” (a “jam session” cubana) de 1979, do projecto Estrellas de Areito, a nata do jazz cubano, personificada por solistas como Arturo Sandoval e Paquito D’Rivera. Ainda uma colaboração com Raul Planas e a sua orquestra. Em todos eles Gonzaléz revela a sua mestria e personalidade no “son” que funde o jazz com os ritmos latinos.

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