Arquivo da Categoria: Contemporânea

Idéfix – “Ao Vivo No Hot Clube De Portugal”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 22.07.1992


IDÉFIX
Ao Vivo No Hot Clube De Portugal
CD Miso Records



No caso dos Idéfix, a gravação ao vivo não terá sido a melhor solução. A banda liderada por Sérgio Pelágio, praticante de uma música fluida e subtil, encontraria decerto um terreno mais propício ao seu discurso no recolhimento e sofisticação do estúdio. Mesmo assim, não se pode falar de uma falsa partida. Num agrupamento onde prima a coesão entre todos os membros, destaca-se Paulo Curado, um saxofonista que soube compreender o sentido da modernidade, em temas como “Mechanics” e “Núcleos” ou nos blues traficados de “Jhumra blues”. Bruno Pedroso brilha nas percussões, em “Bumerangue”, num imaginativo suporte para o diálogo guitarra-baixo, mantido entre Sérgio Pelágio e Yuri Daniel. Alexandre Manaia é o criador de paisagens misteriosas no sintetizador. Pena que a voz de Bárbara Lagido destoe um pouco do resto do colectivo. O tom declamatório e empertigado de “Olhos” e estalactites” soa deslocado e à beira do ridículo dentro do contexto instrumental do tema. Uma estreia interessante. (7)

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Pierre Henry – “Mantra Progressiva” (artigo de opinião – reedição de parte da obra)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 17.06.1992


MANTRA PROGRESSIVA

Dos compactos da editora francesa Mantra chegados a Portugal, com distribuição Megamúsica, obras superlativas alternam com objectos apenas representativos de uma época fervilhante de ideais – os anos 70 – ou ainda com músicas que o tempo veio a confirmar como definitivas. A música progressiva, cada vez mais actual.



Compositor francês ligado à música contemporânea erudita, discípulo e amigo de Pierre Schaeffer, Pierre Henry vê reeditada no formato compacto uma pequena parte da sua vasta discografia, em três discos correspondentes a fases bastante afastadas no tempo: “Messe de Liverpool / Pierre Réfléchies” (1967), “Le Livre des Morts Egyptien” (1987) e “Ceremony – Na Electronic Mass” (1968), este de parceria com o grupo Rock Spooky Tooth.
Pierre Henry, autor da obra-prima “L’Apocalypse de Jean” e de uma “sinfonia para uma porta e um suspiro”, bem como de música produzida em directo a partir dos centros nervosos do cérebro (“Corticalart”, 1971, graças a uma maquineta da qual nunca mais se ouviu falar), junta na sua música a electrónica dos sintetizadores, muito em voga nos anos 70, com a música concreta. A estrutura narrativa e teatral de algumas peças com uma concepção espacial e tímbrica que, anos mais tarde, viria a ser recuperada pela facção “industrial”. “Ceremony” é uma curiosidade histórica e o encontro possível entre o futuro discurso pop psicadélico, com todo o seu cortejo de lugares-comuns, de Gary Wright, organista dos Spooky Tooth.
Electrónico mas bem integrado no espítrito da época, Tim Blake abandonou os Gong, onde foi um dos grandes responsáveis pela voluptuosidade sonora da trilogia “Radio Gnome Invisible”, para provar que era capaz de fazer tão bem como Klaus Schulze e com menos sintetizadores. O que, diga-se em abono da verdade, não é muito difícil. “Magick”, gravado em directo no seu moinho da Bretanha, é um bocado aborrecido, sobretudo quando Tim se põe a cantar. “Crystal Machine” é bem mais interessante, apresentando o som típico dos sintetizadores dos Gong, despojados do delírio surrealista de Daevid Allen e da loucura dos restantes. Recorda o minimalismo de seda de Manuel Gottsching e, nas piores alturas, as piruetas de Jean-Michel Jarre.
Muito bom é “Wolf City” (1972), de longe o melhor trabalho dos Amon Düül II, que aqui encontraram o equilíbrio exacto entre as investidas das guitarras psico-alucinogénicas dos primeiros discos (“Yeti”, “Dance of the Lemmings”, ambos disponíveis em Portugal), a estranheza vocal de Renate Kanupkrotenschwanz e um experimentalismo à época inovador.
Ainda melhor é “1984”, primeiro álbum a solo do baixista dos Soft Machine, Hugh Hopper, gravado em 1972, na companhia de ilustres como Pye Hastings, Lol Coxhill e Gary Windo, pouco tempo depois da sua saída da banda. Muita água correu sob os moinhos, o ano de Orwell passou entretanto, mas o tempo mostrou estar do lado de Hopper, já que “1984” continua tão actual como nunca e não menos perturbante. Obra angustiante, sombria, entre o aproveitamento dos efeitos de estúdio, o “jazz” à beira do colapso e a extraordinária capacidade de Hugh Hopper em arrancar sonoridades de pesadelo ao seu baixo eléctrico. Indispensável.

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David Behrman – “Leapday Night”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 20.05.1992


David Behrman
Leapday Night
CD, Lovely Music, ltd., import. Contraverso


A música de computadores pode ter coração. E, neste caso, ouvidos “Leapday Night” e “Interspecies Smalltalk” (encomenda de John Cage e Merce Cunningham para a peça de bailado “Pictures”), duas das três composições que preenchem o álbum, baseiam-se na interacção, determinada por programação prévia, entre computador e músicos, contendo o primeiro sensores auditivos, “ouvidos”, que detectam, reproduzem e alteram a altura dos instrumentos tocados em tempo real, no primeiro caso os trompetes de Bem Neill (autor do fabuloso “Mainspring” para electrónica e trompete traficado) e Rhys catham, no segundo o violino de Takehisa Kosugi. Num e noutro caso o produto sonoro evolui ao longo de “drones” electrónicas, com imperceptíveis flutuações na altura e no timbre, num jogo de espelhos de infinitas mutações que se inscreve ao lado de “Poppy nogood and the phantom band”, do álbum “Rainbow in Curved Air”, de Terry Riley.
“A Traveller’s dream jornal” resulta das manipulações de estúdio de Behrman com Walter Bechauer, auxiliados por Clara Mondshine (“Memory Metropolis” e “Visions of Audio”, este disponível em Portugal), que cria uma miríade de efeitos electrónicos percussivos, algures entre “The Return of the Comet” de Morton Subotnick e o calor de uma “world music” virtual. O que distingue Behrman de muitos dos seus amigos vanguardistas é a sensualidade dos timbres, a sua textura aquática (Redolfi também não anda longe), a arte de manipular e combinar diferentes fontes sonoras. E, acima de tudo, o prazer que resulta da audição. (9)

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