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O Senhor Dos Anéis (“O Regresso Do Rei”) – “Ninguém Escapa Ao Poder De ‘O Meu Precioso’”

(público >> cultura >> cinema)
terça-feira, 16 Dezembro 2003


Ninguém escapa ao poder de “o meu precioso”

“O Regresso do Rei”, terceira e última parte da trilogia “O Senhor dos Anéis”, estreia-se hoje numa maratona de 12 horas, em conjunto com os dois capítulos anteriores. Frodo e Sam salvam o mundo das garras de Sauron e Aragorn é coroado rei dos homens. Antes de ser destruído, o anel brilha num festival de efeitos especiais. “My precious!”


Começa hoje o fim da jornada de Frodo e Sam para salvar a Terra Média. O “Anel Um” é destruído, o rei dos homens sobe ao trono, o amor triunfa sobre o mal e os efeitos especiais do filme arrasam tudo o resto, transformando a batalha final, em Gondor, contra as forças de Sauron, num festim para os sentidos. “O Regresso do Rei”, terceira e última parte da trilogia de Peter Jackson inspirada na obra-prima “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien, estreia-se hoje, à meia-noite, em duas salas do complexo de cinemas Alvaláxia, a culminar uma maratona de 12 horas que terá início às 14h, com a projeção da primeira parte, “A Irmandade do Anel”, na versão alargada, à qual se seguirá a continuação da saga, “As Duas Torres”, também na versão extensa. Entre cada filme haverá um intervalo de 45 minutos.
Porém e para grande infelicidade dos fãs que não conseguiram comprar bilhete (12 euros, para a maratona completa), esta sessão especial está já esgotada nas duas salas, depois de, nos últimos dez dias, as “extended versions” de “A Irmandade do Anel” e “As Duas Torres” terem sido exibidas no Alvaláxia.
Alda Ribeiro, 20 anos, estudantes, teve que se resignar. Comprou bilhete para uma das sessões normais de amanhã. Viu os dois primeiros filmes no dia de estreia, “tal a ansiedade”, e confessa ter ficado “bastante surpreendida porque a tendência normal é o filme ficar sempre bastante aquém do livro”. Gostou de “ver o modo como as personagens” que idealizara “foram concretizadas no filme”. A sua preferida é Logolas, o elfo: “É lindo, ainda mais bonito do que eu imaginava.”

O rosto dos heróis
“O Regresso do Rei” não fica atrás de “A Irmandade do Anel” e “As Duas Torres” em espectacularidade. Para quem não leu o livro, é um deslumbramento. A investida dos gigantescos olifantes na batalha de Minas Tirith, capital do reino de Gondor, a luta corpo-a-corpo de Sam contra a aranha Shelob ou o desabamento da cidadela de Sauron são cenas de cortar a respiração. Mas alguns admiradores incondicionais do romance de Tolkien condenam algumas “traições” à verdade do texto original. É o caso de Pedro Silva, 18 anos, estudante, que leu os livros e viu os filmes, preferindo, “de longe”, os primeiros: “O livro é muito melhor. Nos filmes, por causa do ‘marketing’, tenderam a romantizar muito a coisa.”
Opinião idêntica tem Tiago Granja, 25 anos, neste momento a “fazer investigação na Faculdade de Farmácia”, também ele conformado por não assistir à maratona, até por não ter visto as versões “director’s cut”, as longas, dos dois primeiros capítulos. Mas tenciona ir ver “O Regresso do Rei”, “o mais rapidamente possível”. Urgência explicada pelo gosto em “comentar com outras pessoas que vão ver mais tarde”. Tiago leu o livro, daí considerar “As Duas Torres” “um bocado deslocado”: “Tem partes que no livro não acontecem. Está romanceado. Há personagens que não se conhecem nos livros que aqui se conhecem logo desde o início do filme.” Elege Gandalf como personagem favorita.
Críticas ou adesão sem reservas são afinal consequência do enorme fascínio que o filme exerce sobre todos. Tenham ou não lido o livro. Os primeiros entram na aventura, passam para outro mundo, deixam-se encantar pela desmesura dos cenários, pelo desenrolar da história ou, simplesmente, pelo aparato visual. Os segundos comparam, apontando a ausência de pormenores ou mesmo de segmentos inteiros da narrativa, até nas versões alargadas, como a de Tom Bombadil (no primeiro filme), considerado imprescindível pelos tolkenianos da linha dura. Mas mesmo esses reconhecem que o desenho dos ambientes, dos lugares e das personagens faz jus às criações do escritor. Depois de vermos o filme nunca mais voltaremos a ler o livro (sim os verdadeiros fanáticos não se contentam em lê-lo apenas uma vez…) com os mesmos olhos.
Gandalf, Frodo, Sam, Merry e Pippin, Gimli, Legolas, Aragorn, Saruman e Gollum, protagonistas de um vasto painel de personagens que fazem de “O Senhor dos Anéis” um universo, física e psicologicamente completo e complexo, passaram a ter um rosto. Homens, elfos e anões, representantes de uma humanidade impregnada de ideais, em luta contra o seu contrapeso bestial, duendes, gnomos e “trolls”, caricaturas grotescas arrancadas às profundezas da Terra, entes telúricos desvirtuados e sujeitos a terríficas manipulações pelos senhores do mal, adquiriram igualmente forma cinematográfica convincente. E Gollum, assombrosa personificação da tragédia condição humana, exemplo da linha ténue que separa o homem da besta, cuja metamorfose é determinada pela dependência do anel, o seu “precious”, como é mostrado na cena inicial de “O Regresso do Rei”.
Outras criaturas, boas, más ou fora de qualquer moral, como o Balrog, o monstro do lago, os “ents”, Shelob, os dragões montados pelos Nazgul, antigos reis, também eles subjugados pelo poder do “Anel Um” e tornados nos mais temíveis servidores de Sauron, os descomunais olifantes, mesmo os minúsculos insectos-fada, mensageiros de Gandalf, adquirem uma consistência física que parece estar desde o início latente na trama construída por Tolkien. Só Sauron continua representado pelo olho de fogo que tudo vê, símbolo do poder e da vontade da mente luciferina.

Gigantes
Excluindo todos os defeitos que se lhe possam apontar, a trilogia de Peter Jackson compreendeu um dos aspectos essenciais da obra de Tolkien: que o que separa o nosso mundo, pretensamente real, do mundo por ele idealizado, pretensamente imaginário, é uma diferença de escalas. Em “O Senhor dos Anéis” o mundo e os seres que o habitam são maiores (descontando, obviamente, os hobbits, e mesmo esses, no final do livro, regressam ao Shire fisicamente alterados, mais altos do que do início da aventura, e não apenas em virtude da beberagem mágica oferecida pelos “ents”…). As águias, os olifantes (aberração gigantesca dos elefantes), as árvores que sustentam a cidade élfica de Lothlorien, os palácios, fortificações e estátuas de homens e anões, têm dimensões gigantescas. A dimensão dos mitos. Mas mais importante do que essa arquitetura erguida à escala dos gigantes (presente, de resto, nos nossos mitos históricos) é a grandeza dos sentimentos. O heroísmo. Frodo, Sam, Gandalf, Aragorn, Gimli, Arwen, Legolas, Elrond, Theoden ou Faramir personificam o sacrifício por uma causa, a amizade, a generosidade, a coragem, a sabedoria. Ao nível do ideal mais puro: o amor.
É isso que em “O Senhor dos Anéis”, o livro, toca mais fundo em quem o lê e em que, Jackson, no filme, toca apenas ao de leve. Mesmo assim com intensidade suficiente para nos fazer ter vontade (e força, e coragem, e pureza e…) de viajar do Shire do nosso conformismo até ao Monte da Condenação, para aí renunciarmos ao poder e ao orgulho que foram causas da Queda. E voltar a casa, na curva acima do destino. A narrativa de “O Senhor dos Anéis” (o livro continua por mais umas eras…) termina com um suspiro de Sam, infinito e pueril como um “Aleph” – onde a eternidade e o instante são o mesmo e um só. Foi pena – no meio de tantos e grandes feitos – que Peter Jackson não tenha reparado.

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Nico – “Requiem Pela Dama De Negro” (cinema)

(público >> y >> cinema)
13 Junho 2003


requiem pela dama de negro


Warhol viu nela o escândalo. Garrel a beleza da tragédia. Nico passou pela vida e pela obra de ambos da mesma maneira que a sua música marcou os Velvet Underground e deixou cicatrizes dentro de cada um de nós. Não se adora a lua impunemente. Para adorar, na Cinemateca, este mês.

Nico, cantora e atriz – diz o mini-ciclo na Cinemateca Portuguesa. Nico, mulher fatal. Philippe Garrel, cineasta. Ele afirmou um dia que fazia filmes para não se suicidar. Ela tomava comprimidos para dormir, comprimidos para acordar e comprimidos para viver. Costumava desfalecer sem razão aparente. Estavam destinados a encontrar-se e a viver um com o outro. Assim aconteceu até ao dia em que ela morreu, a 18 de Julho de 1988, às oito horas da noite, no hospital de Nisto, em Cannes, aos 50 anos, vítima de uma hemorragia cerebral provocada por uma queda de bicicleta, ao esbarrar contra uma árvore quando dava um passeio por Ibiza.
Ele nunca se conseguiu libertar do fantasma e continua a filmar como se ela continuasse presente – a esfinge. A deusa da lua, como lhe chamavam. Nico e Philippe Garrel. Como antes tinham sido Nico e Fellini, Nico e Brian Jones, Nico e Alain Delon, Nico e Bob Dylan, Nico e Andy Warhol, Nico e Lou Reed e John Cale, Nico e Jackson Browne. Nico e Warhol é igual a Chelsea Girls (vai ser exibido no dia 18, às 21h30). Nico e Garrel é igual a La Cicatrice Intérieure (dia 25, às 21h30) e a Les Hautes Solitudes (dia 26, às 21h30).
Nico e a morte. Morte que cada um podia ver a brilhar nos seus olhos azuis de cristal, na sua voz de mármore, na sua música de orgasmos gelados. Nico foi a lápide erigida ao rock dos anos 60 que sobreviveu pela década seguinte como uma máscara de cera mantida viva artificialmente por alguns dos homens que a veneraram como se venera a noite. John Cale, produtor de álbuns como “The End” e “Drama of Exile”, que fez dela a diva petrificada da new wave, do gótico e da eletrónica zombie. E Garrel, claro, que com ela viveu, com ela enlouqueceu e com ela filmou “La Cicatrice Intérieure” (1972), “Athanor” (1972), “Les Hautes Solitudes” (1974), “Un Ange Passe” (1975), “Le Berceau de Cristal” (1976), “Voyage au Jardin des Morts” (1978), “Le Bleu des Origines” (1979) e, já como presença fantasmática, post-mortem, “J’Entends plus la Guitarre” (1991) ou “Sauvage Innocence” (2001).

serei o teu espelho. E, no entanto, Nico era outra. Quem, não se sabe. Não se soube nunca. Apenas que era loura mas que ficou imortalizada como morena, cor mais adequada às feiticeiras. Ou “another cooler Dietrich for another cooler generation”, como alguém a caracterizou, adivinhando-lhe o carisma de mulher fatal, sem saber até que ponto este “fatal” seria levado à letra. Apenas que não se chamava Nico mas Christa Päffgen (foi um fotógrafo que, aos 15 anos, em Ibiza, lhe pôs este nome, em homenagem a uma namorada morta, Nico Papatakis, a morte, sempre a morte). Apenas que não era cantora mas que a sua voz, vinda sabe-se lá de que abismos do ser, não teve paralelo em nenhuma outra intérprete da música popular. Apenas que não era música mas que a música que nos deixou, composta embora por outros, nos arrepia. Como um romance de Lovecraft em que uma personagem louca desenterra o “Necronomicon” para insuflar vida aos mortos.
Nico foi, acima de tudo, uma personagem. Um molde. Um silêncio adequado à construção do mito. Com “Bitter dreams are made of this” afixado em cartaz.
Garrel fez dela uma presença (ou uma ausência) de luz negra, personificação daquela eternidade que os poetas românticos Holderlin e Novalis encaravam como a dissolução final nas trevas, na grande noite universal, mãe dos sonhos e das quimeras. Em “Le Bercaeu de Cristal” a única voz que se ouve é a dela, declamando um poema, sobre a música do guitarrista Manuel Gottsching, dos Ash Ra Tempel (a BSO está disponível em CD numa belíssima edição da Spalax), designação então já encurtada para Ashra, de cuja formação fazia parte, precisamente, Lutz Ulbricht, amigo e empresário da cantora e antigo elemento do grupo de “krautrock”, Agitation Free.
Podemos encadear algumas peças soltas. O que Gottsching/Ashra compõe é um mantra de sonoridades cósmicas que, progressivamente, coloca o espectador em transe, num cume mental a que o final do filme põe termo de forma abrupta, como uma ressaca instantânea.
São as “altas solidões” de que Nietzsche fala na sua obra poético-filosófica e são deste filme as imagens que ilustram a capa de “The End…”, álbum de 1974, com produção de John Cale, de cujo alinhamento faz parte uma versão, ainda mais agonizante que o original, de “The end”, de Jim Morrison que, por sua vez, travou conhecimento com a germânica em moldes que a câmara de Oliver Stone filmou – em “The Doors- O Mito de uma Geração”, biografia ficcionada dos The Doors – de forma pouco católica, elipse que subentende uma sessão de sexo oral entre os dois, num elevador. Dificilmente representável como ícone sexual ou erótico, independentemente das sugestões de necrofilia que a sua figura pode induzir (há quem jure ter visto o seu rosto transformar-se numa caveira, durante um concerto realizado numa catedral em França nos anos 70) restava, ainda neste caso, a representação pela ausência ou pela redução à sexualidade despojada de qualquer sentimento. Nico, ainda e sempre, a pedra tumular sob a qual se escondem segredos insondáveis.

a vida amarga. Christina Päffgen, ou Päfgens, ou Pfäffen, nasceu em Budapeste, em 1938, filha de mãe espanhola e pai jugoslavo (morto num campo de concentração nazi). Começou por ser costureira e, aos 13 anos, vendeu “lingerie”. Um ano mais tarde já trabalhava como modelo em Berlim. Participou pela primeira vez como atriz numa cena, filmada em Capri, de “For the First Time”, de Rudolph Maté, com Mario Lanza. Conheceu Ibiza e por lá ficou. A lua buscando a proteção do sol.
De férias, em 1959, num “palazzo” em Roma, um amigo convidou-a para figuração em “La Dolce Vita”, de Fellini. Passeou-se no “plateau” com um candelabro nas mãos, numa festa. O realizador reparou nela (quem não repararia?) e convidou-a para participar no filme. Nascia o mito.
Depois de assistir a aulas de representação no Actor’s Studio, de Nova Iorque, na mesma classe de Marilyn, conseguiu um dos principais papéis em “Strip-Tease”, de Jacques Poitrenaud. Gravou com Serge Gainsbourg o título-tema mas o single não foi editado, surgindo em seu lugar uma outra versão, por Juliette Gréco.
Em 1964 conheceu Brian Jones, dos Stones, que a apresentou a Andrew Loog Oldham, então produtor do grupo. Gravou para o selo Immediate o single “I’m not sayin’”, composição de Gordon Lightfoot, com o guitarrista Jimmy Page, que se viria a notabilizar nos Led Zeppelin, e produção de Oldham.
Uma relação amorosa com o ator Alain Delon, da qual nasceu um filho, Ari (há uma canção dedicada a ele, em “The Marble Index”) antecipou outro encontro, desta feita com Bob Dylan, que lhe ofereceu “I’ll keep it with mine” (mais tarde incluída no álbum de estreia da cantora, “Chelsea Girl”) e lhe dedicou “Visions of Johanna”, do álbum “Blonde on Blonde”. É Dylan quem, por intermédio do poeta Gérard Malanga, a conduziu à boca do lobo e da glória, Andy Warhol, que a convocou para participar nos seus filmes experimentais, como “The Chelsea Girls” (1966, mítico jogo de bobines intermutáveis das quais a cantora alemã protagoniza as marcadas com número de série 1, “Nico in kitchen”, e 12, “Nico crying”), “Screen Tests” (1964-66), “The Velvet Underground & Nico (A Symphony of Sound” (1966), “I, a Man” (1967, este com assinatura, na realização, de Paul Morrisey) ou “Imitation of Christ”.
A sua vontade de fazer carreira como cantora, leva Warhol a integrá-la no espetáculo multimédia Exploding Plastic Inevitable e, consequentemente, nas gravações do mítico “álbum da banana” dos Velvet Underground, onde vocaliza três memoráveis composições de Lou Reed, “Femme fatale”, “All tomorrow’s parties” e “I’ll be your mirror”. Ao vivo, canta em clubes como o Blue Angel, acompanhada, além de Reed, Cale e Sterling Morrison, por futuros ilustres como Tim Hardin, Tim Buckley e Jackson Browne, com quem manterá uma curta relação e que lhe oferece as canções “These days” e “The fairest of the seasons”, ambas incluídas no disco solo de estreia.
Mas os Velvet, no meio de disputas entre Cale e Reed provocadas pelo ciúme, não suportam a pressão de se verem ofuscados pelo brilho da estátua e despedem-na. É Cale, porém, quem relança a sua carreira a solo, ao produzir “The End…” (1974), já depois da cantora ter lançado em 1969 o que poderá ser considerado a sua obra-prima, “The Marble Index”, seguido do surreal “Desertshore” (1970), em cuja fotografia da capa se pode ver Nico numa cena do filme de Garrel, “La Cicatrice Intérieure”, que se estrearia dois anos mais tarde.

o abandono. Após um interregno de sete anos, durante os quais assombra os palcos na companhia do seu “harmonium” (a sua imagem, de pé, hirta, atrás deste instrumento, é um dos primeiros paradigmas gráficos do “gótico”), do álcool e da heroína, compondo dedicatórias aos amigos mortos, reaparece com “Drama of Exile” (1981), já aureolada com o estatuto de “punk goddess”, concluindo-se a sua discografia a solo com “Camera Obscura” (1985), tentativa de reciclagem, novamente a cargo de John Cale, destinada a apresentá-la num novo formato eletrónico. Além destes álbuns, circulam no mercado quantidades consideráveis de “bootlegs”, coletâneas e arquivos ao vivo. Faltava esperar pelo fim.
“Ibiza é o meu local favorito, é lá que hei-de morrer”, afirmou numa entrevista. O destino e uma árvore, contra a qual esbarrou durante o tal passeio fatídico de bicicleta, fizeram-lhe a vontade. Ela que também dissera: “Tenho o hábito de abandonar os sítios nas alturas erradas, precisamente quando algo de bom está prestes a acontecer-me”.
O seu corpo repousa ao lado do de sua mãe, num cemitério na floresta de Grunewald, numa das margens do rio Wannsee, em Berlim. Pode lá ir-se, num velho autocarro que parte de hora a hora da estação de metro de Wannsee. De Inverno o cemitério fecha cedo. Conta-se que, durante o enterro, um grupo de amigos tocava “Desertshore” num gravador de cassetes. Quase juraríamos que a faixa final, “Le petit chevalier”. Onde Nico é conduzida pela voz de uma criança.

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Vasco Granja + vários – “Salão De BD Derruba Fronteiras – Salão Lisboa 2003 Abre Hoje” (banda desenhada / salão de BD)

(público >> cultura >> banda desenhada)
quinta- feira, 15 Maio 2003


Salão de BD derruba fronteiras

SALÃO LISBOA 2003 ABRE HOJE

Fronteiras, Alemanha, Leste Europeu e portugueses são os principais blocos do Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada 2003, no Pavilhão de Portugal e na Bedeteca


Viajar de balão, montado nas filacteras de um álbum de banda desenhada, até aos limites da imaginação. Eis um dos fascínios e uma das possibilidades oferecidas pela leitura de um bom álbum de banda desenhada. A partir de hoje e até ao final do mês, o Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada 2003 oferece este e outros roteiros de viagem, através das histórias e das ilustrações de alguns dos autores contemporâneos mais importantes da que se poderá chamar a 8ª Arte.
À semelhança das anteriores edições, apenas interrompidas no ano passado, o Salão, com organização da Bedeteca de Lisboa, segue um tema, sendo o deste ano “As Fronteiras”, depois de “Cidades” (1998), “Visões do Fim do Milénio” (1999), “Corpo” (2000) e “Música” (2001).
Fronteiras de todo o tipo: geográficas, políticas, psicológicas, simbólicas. É o bloco temático principal e, com base nele, o visitante poderá travar conhecimento com “A Banda Desenhada nos Selos”, exposição composta por 1500 selos de correio de todo o mundo, cujo “design” foi feito “para ultrapassar as fronteiras físicas e as fronteiras ideológicas do imperialismo”, como um exemplar da Albânia com uma figura do Rato Mickey; “Stripburek, Bandas Desenhadas da Outra Europa”, coletiva de autores da Europa do Leste com representação de 50 autores de 14 países; “Nós Somos os Mouros”, incidindo na presença árabe na Península Ibérica; e “Conflitos Militares na Banda Desenhada”, coletiva de Zograf, E. Guibert e Joe Sacco. Tudo para ver no Pavilhão de Portugal, em Lisboa.
Outro bloco, também no Pavilhão, é o bloco alemão. Alemanha que desde sempre foi ofuscada pelo brilho da escola de BD franco-belga, mas que agora atrai sobre si as justas atenções. “Travessia”, individual de Anke Feuchtenberger, apresenta a parte inédita da obra “Die Hure H” e “Das Haus”. “Hausbacken Brut” (“A Ninhada Desleixada”) é uma instalação de Atak que enfia numa caixa de brinquedos uma coleção de monstros, carrinhos de lata e outra bonecada arrumados numa mala de viagem.
No “Passeio Aéreo” de CX Huth, o autor brinca com as cores como uma criança a quem ofereceram uma caixa de tintas. “Homens, Fantasmas e Máquinas”, de Henning Wagenbreth, destaca-se por trabalhos na área dos “vírus books”, BD para agendas eletrónicas e uma versão colorida de “O Segredo da Ilha de Santa Helena”, realizada de propósito para o salão.
Há ainda o bloco português: “Cidade em Chamas”, de Pedro Burgos, com quadros urbanos de cariz surrealista, “O Livro dos Dias, Cochquixtia”, de Diniz Conefrey, na América pré-colombiana que, além das pranchas, reúne material de pesquisa recolhido pelo autor, incluindo fotografias tiradas durante uma viagem ao México.
É possível viver numa colher? Aparentemente, sim. Pelo menos segundo a utopia proposta por Miguel Rocha em “A Vida numa Colher”. Já Richard Câmara optou por contar a sua visão pessoal de “Capuchinho Vermelho”, montada sobre uma técnica especial que separa a ação de cada uma das personagens, o Capuchinho propriamente dito, o Lobo Mau, o Caçador e a Avózinha.

Vasco Granja homenageado na Exponor

Mas há muito mais para ver, ler e sentir neste salão de sonhos. “Salut Deleuze”, de Martin Tom Dieck, é uma perspetiva cíclica da BD, equivalente à da música minimal repetitiva, em que a frase “continua no próximo número” é “leitmotiv” para vários périplos de narrativa em espiral. A “Sombra da Noite”, de Ulf K., recria a Alemanha romântica dos roxos e dos bosques sombrios habitados por pensamentos taciturnos. Já Ralf König privilegia a comunidade homossexual nas suas obras, como “O homem desejado” (já transposto para o cinema) e, no Salão Lisboa, “Claras em Castelo”. Uma rainha a preto e branco rodeada de súbditos a cores dá o mote a “A Rainha das Cores”, de Jutta Bauer.
Todos estes blocos estarão patentes entre hoje e 22 de Junho no Pavilhão de Portugal. Para a Bedeteca ficam reservadas a exposição “A Navalha de Pitanga”, de Arlindo Fagundes, “Checkin: Os Próximos Voos da LX Comics”, coletiva alusiva aos cinco anos da coleção da Bedeteca para novos autores, “Banda Desenhada Alemã e a Literatura” e “XS, Estórias sobre Cerâmica”, cujo suporte gráfico é mesmo um serviço de mesa em cerâmica.
Mas o Salão não se faz apenas das exposições permanentes. Há edições de obras e a presença de muitos autores, uma feira de “fanzines”, debates, atividades de animação dirigidas às crianças e visitas guiadas para os alunos do ensino secundário e das escolas superiores de arte. Nos Armazéns do Chiado haverá uma BD CMYK, qualquer coisa relacionada com a divulgação de autores de BD que utilizam as novas tecnologias.
No dia de toda a BD, destaque também para a abertura, hoje, do Salão de Banda Desenhada da Exponor, Matosinhos, que terá como prato principal uma homenagem a Vasco Granja, pioneiro da divulgação do cinema de animação e da BD em Portugal. A homenagem terá lugar amanhã com o lançamento do livro “Vasco Granja, uma Vida… 1000 Imagens” (Asa), uma exposição e a mostra de alguns dos seus programas de televisão. O programa do Salão da Exponor inclui ainda o lançamento de livros de José Carlos Fernandes, Milo Manara e Zep e as exposições “Intuições”, de José Carlos Fernandes, “Contrastes”, de Luís Louro, e “Ilustração infantil de doze ilustradores nacionais”.

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