Arquivo da Categoria: Percussão

Rui Júnior – Entrevista: “Na Catedral do Tambor”

Pop Rock

1 de Maio de 1996

Na catedral do tambor

O “Ó” que som tem, quando bate em “Ó Tambor”? Tem o som que tinha há 13 anos no álbum homónimo de estreia, mas mais aberto. O acento reforçou-se. Num maior poder de hipnose, na subtileza dos batimentos, no peso dos convidados. Um “O” de espanto.


rj

Rui Júnior, rosto e alma do projecto, Fernando Molina e José Salgueiro, três dos percussionistas de O Ó Que Som Tem, sentem o ritmo no fundo, mas também à flor da pele. A pele de um tambor. Um instrumento “espiritual” capaz de pôr um homem em transe.

De “O Ó Que Som Tem” para “Ó Tambor” houve alguma mudança na orientação do grupo?
Rui Júnior – Houve, naturalmente. Treze anos de diferença, todos nós amadurecemos. Inclusive, havia temas que não conseguíamos tocar e que hoje tocamos com facilidade.
P. – Referia-me à estética…
R.J. – Digamos que “Ó Tambor” é uma continuação do primeiro disco, no sentido de juntar instrumentos de percussão portugueses com outras culturas. A novidade está na existência de sons sintetizados, ao contrário do primeiro, que era todo acústico. Actualmente, os sons sintetizados fazem parte do universo da música. Embora não goste da maior parte deles, reconheço que os há muito bonitos.
P. – O grupo só pode existir com este núcleo de músicos?
R.J. – Este género de reportório requer muitos meses, até anos, de ensaios. Nada melhor do que pegar nas pessoas que já sabem uma série de temas de cor, em vez de passar novamente três, quatro anos a aperfeiçoá-los com músicos novos. Apesar de neste disco contarmos com percussionistas novos, o João Lobo, o Mário Santos e o João Balão. O curioso é que alguns destes temas já estão a ser tocados por outros percussionistas e bateristas, como “Mody Dick”, que está a ser usado pelo grupo de José Salgueiro.
José Salgueiro – … Um grupo actualmente com mais cinco bateristas, que surgiu a partir de um “workshop” com o Max Roach. Quanto a “Moby Dick”, tem sido transmitido oralmente aos meus alunos mais novos, que por sua vez o tocam. [N.R. Na origem, “Moby Dick” é uma homenagem aos Led Zeppelin e ao tema com este nome.]
P. – Um dos aspectos mais interessantes de “Ó Tambor” é a estrutura da maior parte dos temas, que partindo de uma entrada simples se vão tornando progressivamente mais complexos, segundo uma estratégia de subtil adição.
J.S. – O Rui sempre encarou a percussão como sendo melodia também. Como numa melodia simples, com a percussão as coisas também vão acontecendo aos poucos. Hoje em dia, quando se ouve percussão, ouve-se uma quantidade de instrumentos a tocarem ao mesmo tempo. Não dá para perceber que ritmo é que faz cada um. É uma massa sonora, que até pode ter um balanço incrível. No nosso disco acontece o contrário, os sons vão-se somando e mudando a percepção das pessoas.
P. – Onde foram buscar o estranho poema que José Mário branco declama no título-tema?
R.J. – É um trecho dos textos védicos, uma espécie de corão dos indianos. Há aí pequenos textos que falam de percussão, nomeadamente quando o xamã aparece com o seu tambor, que toca para comunicar com os espíritos e ter as visões para orientar as pessoas. O texto que escolhi é uma invocação à força dos tambores. Há uma lenda africana que diz que o mundo nasceu de um tambor.
P. – “68” é um título um pouco enganador, remetendo de imediato para o mítico Maio desse ano…
R.J. – É o tema com as Fincapé. Uma coisa extraordinária que acontece cá em Portugal, relativa a certas visões da música popular. Sempre disse que muitas pessoas olham para longe sem verem o que está perto. Esse grupo, genuinamente africano, representa a África aqui em Lisboa. Mais concretamente na Buraca, onde os seus elementos residem. Elas é que escolheram o tema, dedicado a Amílcar Cabral.
P. – Em “Moby Dick”, são utilizadas técnicas vocais indianas. De onde lhe veio esse interesse pela Índia? Relaciona-se com alguma necessidade espiritual? As tablas são mais espirituais que um bombo?
R.J. – Mas também sinto as nossas percussões de forma espiritual, como se percebe logo no tema de abertura, “Musti”, no modo como emprego as caixas. Por outro lado, sei que em Taiwan [!] acham bastante piada a este disco. A relação entre determinados instrumentos e a espiritualidade sentimo-la tanto em relação a sons que nos são mais distantes e estranhos como em relação aos nossos.
J.S. – Embora a espiritualidade esteja, de facto, mais ligada à Ásia, à Índia, ao Japão. Eles usam a percussão e a espiritualidade como partes de um todo. Na Europa não temos tanto essa relação.
P. – Outra influência que permanece do primeiro álbum é o cano gregoriano, em “Recolhimento”.
R.J. – São coisas que nos acompanham desde a infância. Sempre gostei de boas vozes, bem cantadas. Os cantos gregorianos comovem-me.
P. – Agora estão na moda, desde os monges de Silos aos Enigma…
R.J. – Já no nosso primeiro disco misturávamos o canto gregoriano com adufes. Dez anos depois surgem os pseudo-gregorianos…
Fernando Molina – Os monges de Silos deram um balúrdio de dinheiro à editora. E são tipos contemplativos, nada virados para os bens materiais… Deram-lhes em troca uma cozinha nova!
P. – Que significam os temas “5ª feira” e “6ª feira”?
R.J. – “5ª feira” é um tema meu, cujo nome parte do compasso, um 5/8 (cinco por oito). “6ª feira” foi composto pelo Fernando Molina.
F.M. – … Numa sexta-feira, 13! Com um “Fostexzinho” [gravador], em casa, pus-me a fazer experiências. Calhou nessa noite. Cheguei fora de horas a casa, vindo de tocar num bar. Estava particularmente inspirado e fiquei até às seis e meia da manhã à volta daquilo.
P. – O disco termina num registo quase paradoxal, não tanto pela primeira parte, com o “sample” das crianças a entoarem a lengalenga, mas pela orquestração final, samplada, julgo que em tom de ironia, pomposa e quase despropositada…
F.M. – Um “the end” à maneira de um filme americano!…
R.J. – A ideia é essa. Vejo este disco como uma viagem. Que, por exemplo passa por África, no tema das Fincapé. Aí fui espectador e aprendiz. Todo o disco segue a sequência de uma viagem. Viagem-filme. Só tenho pena de as imagens não saírem dos olhos directamente para a fita. É a banda sonora de um filme que tenho na cabeça. Acaba como acaba o filme. No fim, vê-se o genérico.
P. – A Amélia Muge está como peixe na água no meio das percussões.
R.J. – A Amélia consegue trazer melodia aonde eu não consigo. Ela sente as percussões muito bem, que ali é para cantar de determinada maneira e não de outra.
P. – Um dos temas mais belos do disco é, precisamente, “6ª feira”, no modo como o violoncelo se ergue a cantar de entre as percussões.
F.M. – É uma composição minha em que dou o mote numa “gato drum”. Compus aquilo num “Octapad” [percussão sintética], por motivos óbvios, à noite. Depois, em estúdio, o Rui não gostou muito do som. Agarrámos no “gato drum” e realmente soava bastante mais quentinho. É um tema obsessivo. Um percussionista adora como ninguém explorar isso. Um gajo chega a Marrocos e vê aqueles tipos durante meia hora a tocarem uma malha.
P. – “Ó Tambor” explora, precisamente, esse lado ritual das percussões…
R.J. – O transe. Um bendir ou um adufe, para mim, é andar à volta de uma mesa, de olhos fechados, a tocar [imita o som]. É um mundo.
F.M. – Num dos ensaios fizemos uma experiência muito gira. Uma coisa é ter os temas estruturados e debitá-los mecanicamente. Outra, é como Rui faz, um exercício em que fechamos todos os olhos, agarramos num padrão mais conseguido, e ficamos ali cinco, dez, quinze minutos, a girar em torno dele, obsessivamente.
Aí é que um gajo começa a sentir a intenção que a técnica não consegue transmitir. Um estado em que se vêem dinâmicas lindíssimas. Já tem acontecido, às tantas, desatarmo-nos a rir com os efeitos que se conseguem. Emocionamo-nos mesmo. Cria-se uma empatia tal entre nós… quase religiosa. De repente, sentimos num determinado tempo que aquilo tem que parar. Fica um silêncio… Um gajo até sustém a respiração…
P. – Ninguém sente necessidade de desbundar, de explodir?
J.S. – Sem dúvida que às vezes apetece! Aí o Rui sempre foi um disciplinador. A desbunda, por muito que apeteça, não nos leva a lado nenhum. Ou leva-nos a alguns sítios, mas nunca com certezas. O melhor, nessas alturas, é andarmos para trás, quando as pessoas se deixam de escutar umas às outras. Olhamos todos para o Rui e lá está ele, com uma cara de mono [risos]. “O.k., vamos lá parar e começar outra vez!”
P. – Nesta nova etapa da sua existência, O Ó Que Som Tem, pode ser encarado como o pólo complementar dos Gaiteiros de Lisboa? Eles a falarem alto, vocês mais em surdina?
J.S. – Complementam-se, em termos de enriquecimento da nossa música tradicional, que tem que evoluir e ser trabalhada. Durante muitos anos muita água correu, mas o barco nunca chegou. Agora o barco chegou e estamos todos a embarcar num que nos pode levar a qualquer sítio.
P. – A música tradicional não passa de um ponto de partida, quase um pretexto, para o vosso projecto, não concordam?
R.J. – As referências existem, simplesmente, nada nos prende aí, nem a nenhum sítio. Nenhum de nós é pesquisador ou estudioso, ou etnólogo, à excepção talvez do Rui Vaz, que tem conhecimentos a esse nível. Já por ocasião do primeiro disco tentaram conotar-nos, com alguma boa vontade, com trabalhos de recolha. Sempre rejeitámos isso.
J.S. – Há uma procura de uma estilização em relação às bases rítmicas portuguesas. Queremos fazer evoluir isso. Sentimos o “tum tum tum- tacatacataca- tum- tum tum tum”. É a chula, que nós temos cá dentro. Só que podemos evoluir, assim como os espanhóis fizeram com o flamenco. É essa a nossa procura, sem nunca perder de vista a estrela.
F.M. – Já no primeiro álbum o Rui provou que se estava a marimbar para as ideias pré-concebidas, que o disco fosse isto ou aquilo, em termos de aproveitamento promocional.
R.J. – Está lá um tema chamado “Marimbando”… [risos]

Nota: Quem quiser saber outros pormenores de O Ó Que Som Tem pode procurar no endereço que o grupo abriu na Internet: http://www.ip.pt/ruijunior.



Share and Enjoy !

0Shares
0 0 0

Kodo & Isao Tomita – “Nasca Fantasy”

Pop Rock

26 de Abril de 1995
álbuns world

TAMBORES NO ESPAÇO

KODO & ISAO TOMITA
Nasca Fantasy (7)

Columbia, distri. Sony Music


kodo

“Kodo” significa “batida cardíaca”, no sentido de batida primordial, mãe de todos os ritmos. O grupo de percussões japonês com o mesmo nome* terá provocado alguns ataques cardíacos na memorável actuação que deu há dois anos nos claustros dos Jerónimos. Os Kodo têm a sua sede na ilha de Sado, onde todos os anos, durante três dias de Verão, se realiza um festival de percussões, “Earth Celebration”, em louvor do planeta, ao qual acorrem artistas oriundos de vários pontos do globo. “Nasca Fantasy” difere um pouco dos anteriores álbuns do grupo, não tanto pela temática abordada – os desenhos de origem desconhecida gravados na paisagem da região com este nome localizada no Peru – mas pelas participações de Isao Tomita, nos sintetizadores e computador, e do grupo tradicional peruano Kusillaqta. Assim, em vez do clamor percussivo, a música resulta em algo bastante mais próximo das contemplações “new age” do que da música tradicional ou da postura “zen” que caracteriza, em condições “normais”, a abordagem sonora dos Kodo. Isao Tomita, um especialista em versões electrónicas de composições clássicas (das quais, “The Planets”, de Holst, e “Firebird”, de Stravinsky, são as mais conseguidas), distingue-se de um Vangelis ou do seu compatriota Kitaro, pelo bom-gosto que coloca nos arranjos, não se limitando a um trabalho decorativo, antes procurando subtis deslocações de perspectiva. Em “Nasca Fantasy”, Tomita apresenta-se mais comedido do que é habitual, funcionando como orquestrador e condutor. Sobre as suas tapeçarias cósmicas, as percussões “cantam” de forma mais disciplinada, com a focagem a deslocar-se do ritmo propriamente dito para a dinâmica de timbres e alturas, valorizada ainda pela qualidade de gravação (com mais um sistema de captação inovador…), que é excelente. Temas de inspiração peruana e espanhola, uma variação sobre as “Bachianas Brasileiras nº2”, de Villa-Lobos ou a interacção das percussões acústicas com os ritmos computorizados e uma emissão de frequências sonoras emitidas por um “pulsar” na constelação de Vela criam um cenário de antecipação científica e misticismo que não desagradará aos apreciadores da música de Steve Roach, Robert Rich ou Kevin Braheny, representantes da nova escola planante californiana. Só que, aqui, o curso das estrelas ajusta-se aos batimentos do coração da Terra. Eric Von Daniken, pelos vistos, continua a estar na moda.

* Em vez de “nome” lia-se “mesmo” no original



Share and Enjoy !

0Shares
0 0 0

Rui Júnior – “O «O Que Som Tem?” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

19 de Abril de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Rui Júnior
O Ó, que som tem?


rj

Como foi

Rui Júnior andou ausente nos últimos anos. Uma ausência determinada por razões bastante traumáticas para si e que se prendem com a destruição, pouco depois da gravação de “O Ó, que Som Tem?”, de toda a sua colecção de percussões, provocada por uma inundação da cave onde se encontrava este material. Nos últimos meses o percussionista regressou, de corpo e alma restaurados, para as sessões de gravação de “Todos os Dias”, de Amélia Muge, e para integrar o projecto “Maio Maduro Maio”.
“O Ó, que Som Tem?”, o seu projecto de percussões, editado em 1983, representa a visão pessoal deste músico, em cujo currículo figuram os nomes de Júlio Pereira, Fausto, José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Janita Salomé, Vitorino, Rão Kyao, Jorge Palma, António Pinho Vargas e a já citada Amélia Muge, ou seja, a nata do que se convencionou chamar “música popular portuguesa”.
Na calha está a gravação do segundo capítulo deste projecto, único na cena musical portuguesa, e de um compacto didáctico sobre percussões. Com os mesmos músicos, entre eles Rui Vaz, Fernando Molina e José Salgueiro – “todos eles agora craques” -, mas um espírito diferente, “de maior acalmia”.
“O Ó, que Som Tem?” resultou, nas palavras do seu mentor, da “necessidade de poder compor e interpretar com instrumentos de percussão”. Na altura, vai fazer doze anos, ninguém tinha muita experiência de estúdio. “ninguém sabia como seria meter percussionistas num estúdio e gravar um disco.” Para Rui Júnior, “o José Fortes [engenheiro de som] foi muito útil em todo o trabalho”, por estar “mentalmente muito disponível”, mas também por ter “disponibilizado o estúdio”.
Rui Júnior recorda que o grupo, na ocasião, encheu o chão com uma quantidade de canas. “Queríamos um som de canas. Fomos a um canavial que havia lá perto, cortámos as canas, levámo-las para o estúdio e fizemos várias experiências, batendo com elas no chão. Depois íamos buscar mais e voltávamos a experimentar. Acabou por ficar tudo sujo.” “Por isso”, acrescenta, “há que louvar também a disponibilidade da senhora que fazia as limpezas!”
A gravação representou para todos “uma descoberta”. “Em estúdio o som tem que ser tratado de outra maneira. Tivemos, em conjunto com o José Fortes, de proceder a experiências ao nível da captação. Onde e como se deviam captar os bombos, por exemplo. Neste caso a ideia foi obter um som mais ou menos de ar livre, através da utilização de uma sala muito grande, na maior parte das vezes com os microfones no ar, por cima de nós e a uma certa distância.”
“O Ó, que Som Tem?” demorou uma semana a ser gravado. Durante esse período, as coisas “correram bem ao nível da gravação, embora menos ao nível da produção”. Rui Júnior refere a este propósito a existência de “algumas faíscas”, entre ele e o produtor da Sassetti. “A ideia deles era diferente da minha. O meu disco resultou de uma aposta da Sassetti, no seguimento do ‘Cavaquinho’, do Júlio Pereira, e do ‘Por Este Rio Acima’, do Fausto, dois discos em que participei.
“Quando lhes falei no novo projecto, pensaram logo em mais uma coisa dentro do mesmo estilo, música popular, tum tum tum, isto vai ser canja. Quando se começaram a aperceber que não ia ter os mesmos ingredientes, com sintetizadores, uns coros, umas coisas bonitas e tal, é que foi pior. A ideia deles era limar, uniformizar, para obter um som que pudesse ser mais vendável. Por isso fiz muita questão que a ‘master’ não fosse tocada por ninguém. O produtor praticamente não teve influência. Tive que me impor para impedir que houvesse mudanças.”
O que, por outras palavras, significa que Rui Júnior sempre se regeu e continua a reger exclusivamente por critérios de ordem estética e nunca de ordem comercial. “Guio-me pelo meu gosto pessoal, como única forma de coerência.” Sobre este aspecto o percussionista cita o tema de abertura do álbum, “Recolhimento”, onde mistura coros gregorianos com adufes. “Hoje já se ouve os mesmos cânticos gregorianos sobre uma batida funk… Eu fiz isso dez anos antes, porque gostava, talvez por influência da minha mãe, que cantava nas igrejas, ‘Avés-Marias’, essas coisas. Achei que não havia ligação mais bonita que a dos cantos com aquele ritmo.”
E, afinal de contas, o ó, que som tem? “É um jogo de sons que me foi sugerido pelo meu pai, a propósito de uma das brincadeiras que tinha, quando era pequenino. Um miúdo voltava-se para outro e perguntava: ‘O ó, que som tem?’ O outro respondia: ‘Ora de ó, ora de u.’ Uma espécie de miniladainha.”

Como é

É sabido que as percussões, na música tradicional portuguesa, não primam pela subtileza. É mais bombos e foguetório, pés bem assentes na terra e gritar muito de baixo para o alto. É certo que no Minho ou nas Beiras há quem bata com mão mais ligeira o adufe, como a já mítica Catarina Chitas, de Penha Garcia. Só que depois ouvimos todas aquelas senhoras da Galiza a manejarem as pandeiretas como se estas tivessem asas, e olhamos desconsolados para o nosso descomunal umbigo em forma de bombo.
Rui Júnior achou que não tinha que ser necessariamente assim. Armou-se de um grupo de amigos – e de percussões – e decidiu inverter o processo. Nas suas mãos e nas dos seus companheiros, as peles, os sinos, os tubos, as madeiras, as pinhas, as canas, até os bombos, transformaram-se em utensílios nobres, para a construção de polirritmias que devem tanto à música portuguesa como a África, ao Brasil e à Índia, quando não a batimentos ainda mais primevos.
“O Ó, que Som Tem?” representa não só a emancipação e dignificação de uma classe de instrumentos, as percussões, como a instauração de uma estética que hoje é cultivada em todo o mundo mas que em Portugal não teve seguidores. Para Rui Júnior, as percussões, do simples tambor às canas que chocam contra o chão, devem cantar uma melodia, ter um discurso próprio para além da simples marcação de tempos. Razão pela qual o músico se veio a especializar anos mais tarde nas “tablas” indianas, instrumento de grande riqueza cromática, capaz de, com as suas alturas variadas, fazer o que ele lhes pede, isto é, cantar.
No disco, que muito em breve e em boa hora terá uma continuação, é visível esta conjugação entre, por um lado, a estilização da linguagem percussiva e, por outro, a ligação aos alicerces rítmicos tradicionais, não só portugueses, como já foi dito. Emblemático desta dialéctica entre o apego às raízes e o desejo de renovação é o tema de abertura, “Recolhimento”, onde a fusão do canto gregoriano e da gaita-de-foles com os adufes, o vibrafone e os sinos lhe confere uma dimensão de religiosidade que hoje é apregoada por muitos e aviltada por alguns.



Share and Enjoy !

0Shares
0 0 0