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Semana Académica de Lisboa – “Um mosquito pica um exército” – New Model Army + GNR

cultura QUINTA-FEIRA, 30 ABRIL 1998


Semana Académica de Lisboa

Um mosquito pica um exército


nma

OS NEW Model Army (nome dado ao exército revolucionário de Oliver Cromwell que comandou uma fação da guerra civil travada na Grã-Bretanha no séc. XVII) e os GNR atuam esta noite, a partir das 22h30, no Passeio Marítimo de Algés, num concerto integrado na Semana Académica de Lisboa. A força proletária dos ingleses contra a elegância burguesa dos portugueses. Mesmo que os primeiros tenham assinado pela multinacional EMI (que mais tarde abandonaram) e os segundos se tenham empenhado numa luta sem quartel contra a estagnação da sua pop.
Formados em 1982 no Yorkshire, os New Model Army herdaram do punk o nihilismo, a impertinência e o jeito para tocar alto, facetas que aliaram a um certo pendor para coisas mais suaves na linha do folk/rock. Cedo granjearam uma fação de adeptos e a fama de opositores tenazes aos “tories” que nos anos 80 governavam o seu país. Canções como “The Price” e “No rest” subiram nas listas de vendas e uma aparição do grupo no popular programa de televisão “Top of the Pops” provocou alguma celeuma, quando os músicos distribuíram pela audiência T-shirts da dizer “Only stupid bastards use heroin”. Os New Model Army gravaram álbuns como “Vengeance”, “No Rest for the Wicked”, “Ghost of Cain”, Thunder and Consolation” e “Raw Melody Men”.
Os GNR são uma instituição da pop nacional, vivendo da inteligência com que desenham canções sem sentido destinadas a um público adolescente (embora fossem experimentais, quando nas suas fileiras militavam Alexandre Soares, hoje nos Três Tristes Tigres, e Vítor Rua, hoje nos Telectu) e do instinto de palco do seu vocalista, rui Reininho. O último álbum do grupo, intitulado “Mosquito”, faz voo picado sobre uma série de canções de metal e chocolate que reinventam as palavras bom-gosto e contenção.



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Produtor Inglês Mistura Hands On Approach

18.12.1998
Produtor Inglês Mistura Hands On Approach

Encontra-se em fase de mistura final o álbum de estreia dos portugueses Hands On Approach (HOA), estando previsto que o disco saia em fins de Fevereiro, princípios de Março, segundo anunciou um dos responsáveis da Polygram. Na mesa de misturas dos estúdios Exit, está Darren Allison, produtor inglês de renome (The Divine Comedy, Spiritualized, Skunk Anansie, The Orb, Eurythmics, Bootsy Collis, Electronic, Babybird, Propaganda, entre outros) que antes já tomara contacto com o som dos HOA, acompanhando-os durante quase uma semana de ensaios. A gravação, sempre sob a supervisão de Allison, decorreu ao longo dos últimos meses nos estúdios da Régie.
Em definitivo, está já o alinhamento, com um total de dez canções, metade em inglês, metade em português. “Saudade”, “Djembé”, “Um destino”, “tão perto, tão longe” e “Musa” são os títulos cantados em português sendo o inglês utilizado em “Blown”, “My Wonder Moon”, “Insignificance”, “Gift to none” e “Silence”. Demo do mês, com “My wonder moon”, para a FM Radical, maquete do ano para a Super FM, os Hands on Approach prometem estoirar no mercado nacional com um som que poderá tornar-se o sucessor natural dos Silence 4 na conquista dos tops. O grupo, formado em Abril de 1996, para uma actuação “un plugged” em directo na Antena 3 e cujo nome foi escolhido à entrada do estúdio, a partir de um título qualquer lido numa revista, é constituído por Rui David (voz e guitarra, Michael Stipe, dos REM, que se cuide…), João Luís (baixo), Sérgio Mendes (guitarra) e Aníbal Rosado (bateria).
Pedro Barrento, que descobriu os HOA quase por acaso, ao fim de uma noitada num bar de Setúbal, ainda não se refez do efeito que lhe provocou a música do grupo, do qual se tornou entretanto o empresário: “Achei a música genial. É tudo aquilo que as bandas portuguesas, em geral, não são, com uma pop directa, descomprometida, correspondente a um certo som “britânico”. Todos reconhecem nos HOA um “potencial comercial fabuloso”. A Darren Allison cabe neste momento a responsabilidade de transformar a gema em jóia lapidada.

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Folk: Os Ossos De Todos Os Discos

08.05.1998
Folk
Os Ossos De Todos Os Discos
Torna-se cada vez mais difícil criticar todos os álbuns de qualidade, com distribuição nacional. Deixando de fora os “apenas interessantes”, fica, ainda assim, uma lista extensa de discos que foram já objecto de audição, embora ainda não aprofundada, pelo que não lhes foi atribuída, por agora, classificação. Temos então, por grupos temáticos:

Transgressões
“The Bones of all men” é o manifesto de “renaissance rock dance” de Philip Picket, especialista e executante de instrumentos de sopro de música antiga, antigo elemento dos Albion Band e que hoje integra os The New London Consort. A sua estreia a solo, “The Bones of All Men”, com produção de Joe Boyd, retoma, 25 anos depois, a mesma atitude pioneira que Ashley Hutchings veiculou nos clássicos “Morris on” e “The Complete Dancing Master”. Na guitarra está Richard Thompson, sendo a secção rítmica composta por três dos mais antigos elementos dos Fairport Convention, David Pegg, Simon Nicol e Dave Mattacks. Depois dos Burach e dos Shooglenifty, a Greentrax continua a descobrir novos caminhos para a renovação, desta feita através dos Peatbog Feereies, com “Mellowosity”, e dos Tartan Amoebas, mais rockeiros, em “Tartan Amoebas”.

Instrumentistas
“Crossing To Scotland” é uma colecção de arranjos para violoncelo de tradicionais escoceses, assinados por Abby Newton. Aly Bain & Phil Cunningham, um ex-Boys of the Lough, mestre do violino das Shetlands e o acordeonista dos Silly Wizard, ao desafio em “The Pearl”. No duelo entre violinistas notáveis, a Greentrax já encontrou resposta para a Green Linnet: Eilidh Shaw que com “Heepirumbo” pode fazer frente a Eillen Ivers. Outra recém-chegada violinista, Natalie MacMaster, perfila-se no grupo da frente com “No Boundaries”. Kevin Burke, Johnny Cunningham e Christian Lemaître são os Celtic Fiddle Festival, mais três violinistas de excepção que em “Encore” mostram o que vale o virtuosismo. Duas duplas, uma feminina, Jennifer & Hazel Wrigley, com “Huldreland”, e Ian Hardie & Andy Thorburn, com “The Spider’s Web”, fazem dialogar os violinos, respectivamente com a guitarra e os teclados. “Traditional Irish Music”, de Paddy Carty, dirige-se, em exclusivo, aos incondicionais da flauta de madeira, enquanto Fiona Davidson, com “Fonnsheen”, fala ao coração dos que não dispensam navegar nas ondas de uma harpa, instrumento que nas mãos de Savourna Stevenson, em “Calman the Dove”, corta pelas margens do jazz e da experimentação.

Vozes
Andy M. Stewart, vocalista dos Silly Wizard, regressa com “Donegal Rain”. Pausadamente, como de costume. Cathie Ryan estreia-se com “Cathie Ryan”, com inflexões em June Tabor e na folk americana. “Primary Colours” constitui a apresentação dos Chantan, um trio de delicadas fadas em polifonias vocais de renda. Gordeanna McCulloch dá-se a conhecer com “In Freenship’s Name”. Uma voz cuja potência faz lembrar a saudosa Brenda Wootton, com a vantagem de possuir um registo mais largo de “nuances”. Outra grande voz da Escócia pertence à veterana Isla St.Clair, que por fim chega ao nosso país, com “Scenes of Scottland”. Outra veterana, Sheena Wellington, dispensa quaisquer facilidades no canto “a Capella” que preenche a maior parte de “Strong Women”. Embora mais nova, Karan Casey, cantora dos Solàs, prova na sua estreia a solo, “Songlines”, que também ela é digna de figurar na galeria das eleitas. A reedição de “Foliada de Marzo”, álbum de estreia de Uxia, faz a ligação ideal com “Estou Vivindo no Céu”.

Clássicos
“Ten da Chent L’Archet che la Sunada l´`e Longa”, álbum de estreia dos La Ciapa Rusa, foi finalmente reeditado em CD. Este, obviamente, já tem nota: dez. Os Fairport Convention editaram o seu enésimo álbum, “Who Knows Where The Time Goes?”. Além de ser bom, demonstra que o grupo descobriu a eternidade, ao escolher para título um dos clássicos mais antigos de Sandy Denny. “En Concierto”, dos La Musgana, reproduz o registo ao vivo do mesmo espectáculo com convidados ilustres que foi apresentado no último Intercéltico. Acontecimento discográfico é a distribuição de uma boa parte da discografia da instituição basca Oskorri, que já tocaram numa edição dos Encontros e se preparam para regressar na Expo. Cada álbum é totalmente diferente dos outros. Destacamos o iluminado “Adio Kattalina”, mas também “Alemanian Euskaraz”, “Hi Ere Dantzari”, “Katuen Testamentua” e “25 Kantu Urte”, este último assinalando os 25 anos de carreira do grupo, com convidados como Martin Carthy, Liam O’ Flynn, Kepa Junkera, Patrick Vaillant, Gabriel Yacoub e os Gwendal.
Outro grupo-instituição, os escoceses Ossian, ressuscita com “The Carrying Stream”, tão suaves como nunca. Ainda no capítulo das instituições, os Tannahill Weavers recomendam-se, em “Leaving St. Kilda”. Um caso espantoso de longevidade que não conhece falhas de rendimento. Quem mudou bastante foram os The Wolf Stone. Em “This Strange Place”, o seu folk rock ganhou serenidade e um pendor tradicionalista que não se vislumbravam em álbuns anteriores. Com “Colours of Linchen”, os The Cast voltam a intrigar pela sua aliança mágica entre a calma, a devoção e a simplicidade de processos.

Latitudes
Da Escandinávia surge Anders Hagberg, com “Earth Songs”, rituais emulados no mesmo fogo de Mari Boine Persen. Na Itália, os Caramusa apresentam “Canti e Musica Tradiziunali di Lísula di Corsica”, polifonias e instrumentais da Córsega, com sabor medieval. “M’han Presa”, dos La Piva Dal Carner, possui a sofisticação de uns Barabàn, La Rionda ou La Cantarana. Virando para leste, chega-se aos Hradistan, clássicos e compenetrados, em “Chants et Danses de Moravie”. A música cigana da Roménia continua a ser bem representada pelos Taraf de Haidouks, no novo “Dumbala Dumba”. Na Galiza, os Cempés, que estiveram o mês passado no Intercéltico, mostram no seu segundo álbum, “Capitan Ré”, um dos temas mais belos escritos nos últimos tempos nesta região celta, “A loureana”, saído da pena de um grande compositor, Oscar Sanjurjo. Os mais tradicionalistas saberão estar atentos a “No Chao do Souto”, dos Sons do Muino, e “Adicado…”, dos Xistra de Coruxo. Ainda mais puros são “Alborada em Cotobade” do mestre gaiteiro Ricardo Portela e “Xarabal”, da banda de gaitas Xarabal. Numa vertente mais contemporânea, os Pé de Boi, embora mais acústicos, retomam o ambientalismo dos Armeguin, em “Viaxeiro de Pousada”.

Descobertas
Andy Shanks & Jim Russell recuperam a acusticidade da voz e da guitarra em “Diamonds in the Night”, em ambientes próximos de Martin Simpson. Com “Ae Spark o Nature’s Fire” e “Sinergy” os escoceses Deaf Shepherd preparam-se para rivalizar com os irlandeses Dervish, Déanta, Kila e Solas. Quem os viu no Intercéltico, sabe do que estamos a falar. Nas terras altas convém ter em conta os Highland Connection, que em “Gaining Ground” se atrvem a tocar uma longa “suite” de 23 minutos. Outro disco de estrondo é “Fhuair Mi Pog”, de Margaret Stewart & Allan MacDonald, uma grande voz e um grande “piper”. A nota da “new age” não aflora tanto como seria de esperar em “Way out to Hope Street”, dos Skyedance, atendendo a que o violinista Alasdair Fraser e o pianista Paul Machlis fazem parte do grupo.

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