Arquivo da Categoria: Críticas 2005

Genesis – Encore Cascais 75 (DVD)

Encore
30 Anos Depois
Genesis
Encore Cascais 75
DVD distri. Bazar do Vídeo
7/10

Há 30 anos, o cordeiro deixou a Broadway para vir, mais do que descansar, desatinar Cascais e o público português. O DVD “Genesis Encore Cascais 75” relembra como tudo se passou, para gáudio dos que pretenderem reavivar a memória do mítico concerto de 6 de Março de 1975.
Intercalados com os vários depoimentos, surgem imagens da época que recuperam o ambiente político do país até se chegar ao próprio pavilhão Dramático de Cascais e, por fim, a imagens do concerto, captadas por elementos do público.
Os entrevistados vão desfiando memórias, nem sempre coincidentes com a realidade. Eram os tempos, diz alguém, em que os discos chegavam cá com meses de atraso. Não é verdade. As novidades, muitas delas álbuns obscuros, chegavam por via de importação com relativa celeridade a discotecas como a Melodia, Universal, Valentim de Carvalho, Sassetti e Sinfonia. Eram tempos, diz outro entrevistado, em que apenas havia publicações de música em francês (presumivelmente estaria a pensar na Rock & Folk” e na “Best”) e em alemão (“Bravo”9. Errado. Os jornais britânicos “Melody Maker” e “New Musical Express” há anos que ocupavam semanalmente os escaparates de algumas livrarias e papelarias de Lisboa.
Politicamente vivia-se o tempo do PREC (“Processo Revolucionário em Curso”), saltam imagens de comícios e manifestações de rua. O concerto dos Genesis era visto como algo difuso, “uma coisa colada à direita”. A voz “off” de José Mário Branco canta versos como “abaixo a burguesia e a exploração”. O 11 de Março não tardaria nessa “semana completamente louca” em que o jornal A Capital anunciava que a “CIA planeia golpe de estado em Portugal antes do fim de Março”. 20 liceus estavam em greve, era “vulgaríssimo haver cenas de pancadaria”. No meio de tudo isto o concerto dos Genesis era uma “coisa extra-terrestre”.

Chegado o dia, e para não destoar do contexto, “foi a balbúrdia total”. O DVD, realizado por João Dias a partir de um conceito idealizado por Mário Caeiro, mostra recortes de jornal. Num deles pode ler-se “Genesis em Cascais: Um novo processo de tortura voluntária”. As imagens paradisíacas do jardim anexo ao pavilhão escondem a violência e a incomodidade dos que conseguiram entrar, pagando ou não o bilhete de 80 escudos. São mostradas imagens do pavilhão, ainda em construção. 10 mil, 11 mil pessoas em cada um dos dias transformaram o Dramático de Cascais num barril de pólvora.
Mas quando o espectáculo começou finalmente, todo o sofrimento desaparece como por magia. Os rostos ficam “histéricos”. Alguém fala no chuto que sentiu quando o som irrompeu de repente das colunas. Ninguém esqueceu o aparato cénico. Peter Gabriel que aparece em dois locais do palco simultaneamente. “Uma projecção”. Um deles era um “boneco”. “Jogo de espelhos”. Ainda hoje o mistério permanece. Também é recordada a parte em que o vocalista dos Genesis passeia dentro de um tubo iluminado. Um “preservativo gigante” onde Gabriel fazia de “espermatozóide”. Só no fim do DVD, sobre as imagens do grupo em palco captadas por um amador, se ouve a música de “The Lamb Lies Down On Braodway”.
Os extras incluem material fotográfico abundante, desde imagens registadas durante os dois dias de concertos a uma fotoreportagem com fotos do grupo antes e depois dos concertos, em poses descontraídas na vila e na baía de Cascais.
Há ainda um apanhado de reacções da imprensa da época, reproduções das páginas da próxima edição da revista Cais (CasCAIS 75…) inteiramente preenchida pelo acontecimento de 1975 e excertos do espectáculo “The Lamb Lies Down On Broadway” que o grupo canadiano The Musical Box, clone dos Genesis, apresentará em Lisboa, na Aula Magna, em Maio, comemorando os 30 anos da edição original do álbum. Os The Musical Box, depois de já terem mimado álbuns anteriores do grupo original, como “Foxtrot” e “Selling England By The Pound”, foram desta vez ao ponto de reproduzir os modelos de instrumentos originais usados pelos Genesis em “The Lamb Lies Down On Broadway” e vão socorrer-se igualmente de todos os truques de encenação que a banda britânica usou em Cascais.
30 anos é muito tempo para ser concedido um “encore”. Mas ao ver-se este DVD parece que foi ontem.

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Cristina Branco – Ulisses

21.01.2005
As Viagens de Cristina Branco
Cristina Branco
Ulisses
SACD ed. e distri. Universal
8/10

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Pronto, ela decidiu, está decidido. Para Cristina Branco o fado já faz parte do passado. Ela já tinha, aliás, avisado antes. Que não era uma fadista, mas uma cantora. “Tout court”. “Ulisses” sela a transição, já encetada no anterior “Sensus”, do fado para a canção popular urbana. Não vale a pena sequer congeminar-se, ao nível do substrato emocional, esta é ainda uma música marcada pelo fado. Não é. A emoção que atravessa “Ulisses”, um álbum de viagens, não é exclusiva do fado mas a emoção que desde o início de uma carreira milimetricamente talhada, Cristina e os eu companheiro Custódio Castelo foram aos poucos e metodicamente abrindo e burilando. “Ulisses” confirma a excelência de uma voz e um ecletismo de estilo que já se adivinhavam. Num panorama de vozes femininas que já albergava nomes como o de Amélia Muge, Filipa Pais e Né Ladeiras veio agora juntar-se o de Cristina Branco, com uma música cujas raízes mergulham na tradição, seja esta tradição o da música folclórica, de cantautores como José Afonso, Vitorino, Fausto e Joni Mitchell, ou da veia modernizadora das composições originais assinadas por Castelo. Em qualquer dos casos a versatilidade e plasticidade vocal de Cristina Branco são notáveis, a par da riqueza do timbre, acentuada ainda mais nesta edição em super áudio CD.
Depois de ensaiar de início com o sotaque brasileiro e com a língua castelhana, a cantora atinge um “Redondo vocábulo” o primeiro pico de “Ulisses”, naquela que será uma das melhores versões de sempre deste tema de José Afonso. Logo a seguir, a operação de risco que é pegar numa canção de Joni Mitchell, revela-se totalmente conseguida. Cada canção da compositora canadiana é, por si só, uma viagem e “A Case of You”, do álbum “Blue”, não é excepção. Cristina Branco entra de coração aberto no coração deste novo universo. “Navio Triste”, de Vitorino, e “Porque me olhas assim”, de Fausto são outras interpretações sem falhas e “Choro (ai barco que me levasse”) exala o discreto odor da nostalgia das gerações mais antigas da música popular portuguesa. Custódio Castelo assegura até ao final que “Ulisses” continue a viajar sobre as nuvens, seja sobre os versos de Paul Éluard (com a língua francesa a exigir uma abordagem mais física e rasgada que Cristina por enquanto não lhe consegue arrancar), de David Mourão-Ferreira, em “E por vezes”, uma das mais sentidas vocalizações de “Ulisses”, ou num “Cristal” em registo “neo folk” (Pentangle à portuguesa?) onde, uma vez mais, se revela fundamental o piano de Ricardo Dias. Sobram “Gaivota”, único momento de fado num álbum que perscruta mais do que as vielas e becos da tradição, e “Fundos”, a inspirar algumas dúvidas quanto ao uso de uma batida “drum ‘n’ bass”. Tal não seria necessário para assegurar a modernidade de “Ulisses”.

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Autistic Daughters – Jealousy and Diamond

11.02.2005
Autistic Daughters
Jealousy and Diamond
Kranky, distri. Sabotage
5/10

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pwd: isis29

De novo o território dos sonhos e das palavras semi-ditas. “estas são canções criadas com o intuito de permanecerem mais tempo do que o ambiente sugerido pelas palavras”. Tal propósito é, sem dúvida, bom, e até fácil de atingir porque as palavras são ditas de tal maneira que mal se ouvem. Estamos no campo da música que se esvai na tristeza e no esbanjamento de energia. Dean Roberts, o australiano mentor destas Irmãs Autistas, renunciou ao “laptop” com que costuma compor em privado, para se munir de uma guitarra, um órgão de pedias, uma harmónica e percussões. Outros quatro músicos contribuem com bateria, vibrafone, electrónica, contrabaixo, “loops”, etc. mas o som prevalecente é o da guitarra tocada com cuidado, uma ou duas notas de cada vez e espraiadas em “delay”. Há, é espantoso, no meio deste sonhar acordado uma versão de um tema dos Kinks, “Rainy Day in June”, mas se o objectivo era fazer mesmo um álbum de canções, falta-lhe chama, mesmo quando as vozes, num esforço, se erguem para provar que estão vivas. Mas pronto, a pop está cada vez mais sofrida.

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