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David Cunningham – “Water”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 22.07.1992


DAVID CUNNINGHAM
Water
CD Made To Measure, distri. Contraverso



O principal problema com que a Made to Measure (MTM) se confronta actualmente é a imagem que, ao longo dos anos, criou de si própria. Se a etiqueta de “músicas de circunstância” é suficientemente vasta para incluir uma variedade de estilos e abordagens musicais que garantam a diversidade, verifica-se por vezes na MTM, sobretudo em algumas das suas produções recentes, a tendência para uma certa lassidão, traduzida em bandas sonoras anódinas, que pouco mais são que uma forma sofisticada de “muzak”. “Water”, colecção de instrumentais do ex-mentor dos Flying Lizards, inclui-se nesta categoria de paisagens ambientais que não apontam para lado nenhum, repetindo até ao infinito as lições há muito enunciadas por Brian Eno. Um piano flutua no vazio. Sombras, ritmos hesitantes, esboços de melodias, um tom geral de aguarela semelhante ao dos discos gravados nesta mesma editora por Peter Principle. Há a curiosidade de Robert Fripp tocar num dos temas, se bem que não se note muito na audição. “Laissez faire, laissez passer” parece ser o lema. Não por acaso, as notas da capa, explicam tudo muito explicadinho, com as habituais teorias sobre “continuidade e espaço acústico”, aconselhando finalmente o ouvinte a um “acto de imaginação”, de modo a ter a oportunidade de “explorar um método de audição que não é baseado na natureza usual da forma clássica iu da arte musical europeia”. Quer dizer: o que o músico não faz tem de fazer o ouvinte. Não deixa de ser agradável, sobretudo para quem tem imaginação. (7)

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Amy Denio + President & Wayne Horvitz +Marilyn Crispell + Zahar – “Concertos Da Knitting Factory No Teatro São Luiz, Em Lisboa – Os Viajantes Da Noite”

Cultura >> Quinta-Feira, 18.06.1992


Concertos Da Knitting Factory No Teatro São Luiz, Em Lisboa
Os Viajantes Da Noite


Quatro propostas díspares na sua essência mostraram que os “States” continuam a ser o cadinho de novas formas musicais. No São Luiz, algumas foram não tão novas como isso. As mulheres deram o exemplo e mostraram o rosto multifacetado do futuro. Os Knitting Factory não chegaram a actuar.



O jazz. Essa música fascinante que… não foi jazz? Certo. A “new thing”, a “nova coisa”, essa música fascinante que derruba as fronteiras estilísticas e empurra a arte para horizontes cada vez mais vastos até à libertação final. Era bom, era, que tivesse sido assim, nas segunda e terça-feira, no Teatro São Luiz em Lisboa… O programa apresentava uma selecção sortida de nomes ligados à Knitting Factory, mítica sala de espectáculos em Nova-Iorque, agora tornada editora dos seus meninos. Diga-se a propósito que não pouca das poucas pessoas presentes nas duas noites de concerto tomaram a Knitting Factory por um grupo musical. “Então quando é que tocam os Knitting Factory?”, perguntavam, desorientadas.
A todos quantos não puderam assistir à prestação dessa banda magnífica, o nosso lamento e, à laia de compensação, a sugestão para que compareçam em força no anunciado festival que reunirá em Portugal nomes importantes da música de dança como os Studio 54, CBGB e Hacienda. Bem…
Sexta, foi noite de Pop/jazz ou coisa que o valha. Com Amy Denio, a solo, uma personagem bizarra que canta, toca saxofone alto e guitarra baixo, acompanhada por uma caixa de ritmos chamada “Ernie”. Apareceu em palco com ar de dona de casa alucinada, lançando-se de imediato num solo demente de saxofone. A loucura avançou rapidamente até níveis próximos da apoplexia quando a voz entrou em cena, num desempenho histriónico que deixou o velho “free” a léguas de distância.
Amy aplicou um local de trombone ao sax e chamou-lhe trombonofone. Fez teatro e humor. Imitou, num registo algures entre Meredith Monk e Shelley Hirsch, as vozes de psicopatas, em “Traffic Island psychos”. Mostrou ser capaz do lirismo, num jogo de pergunta-resposta com a reverberação do seu próprio saxofone. E teve piada: “Julio Iglesias é bom. Deve ter sido algo que lhe aconteceu na infância”, em “Julio Iglesias childhood”. “The man who can’t find his wife, outra canção delirante, sobre o marido que perde a mulher, definiu-a Amy como uma “experiência humana universal”.
Amy Denio cantou em espanhol, em italiano e noutras línguas menos identificáveis, no que chamou a “secção internacional” do seu reportório, recorrendo com frequência ao estilo “yodel”, popularizado pelos cantores suiços das montanhas, de pena e calções. Amy foi Pop, à maneira desequilibrada dos Tone Dogs, grupo de que faz parte e a quem Fred Frith deu uma mãozinha. E mandou a sisudez da “vanguarda” às urtigas.
Wayne Horvitz e os President vieram sem o trombonista J. A. Deane, músico que à partida se previa ser um dos maiores atractivos da sua apresentação, substituído por um percussionista que se limitou a fazer figura de corpo presente. Tocaram vários temas de “This New Generation” e “The President”, com virtuosismo q.b. Horvitz solou de forma previsível no sintetizador, ao estilo “demonstrador de stand”. Stew Cutler, muito aplaudido, solou na guitarra, voltado para o Rock. Solaram todos (menos o percussionista). Grande música aconteceu apenas nas prestações, em sax tenor e clarinete, de Doug Wieselman, de longe o melhor músico da noite. Excelente o diálogo de “câmara” que manteve com um Horvitz bastante mais subtil e criativo no piano acústico.
Fulgurante e arrebatadora, Marilyn Crispell, pianista e “compositora” da Creative Music Orchestra, mostrou caminhos por onde o jazz pode avançar sem correr o perigo de se perder. Dos “clusters” vertiginosos e da abordagem gestual do piano com que iniciou as longas improvisações com o percussionista Gerry Hemingway, deslizou por linguagens mais convencionais para voltar à fúria do martelo e à fragmentação rítmica e à destruição sistemática do tempo, sob a égide de Anthony Braxton e Cecil Taylor. A melhor música do festival.
Fecharam os Zahar, sem deixarem saudades. Ritmo e só ritmo. Hassan Hakmoun cantou e dançou com frenesim e incitou o público à festa, sem obter resultados palpáveis. Nos melhores momentos, os Zahar aproximaram-se da banda de Ronald Shannon Jackson. Nos piores, pouco mais foram que um grupo de baile. Salvou-se o percussionista Kewyao Ajyapon, que numa pequena intervenção na “mbira” (ou “kalimba”), o chamado “piano de polegar”) revelou o cristal incandescente que pulsa no coração de África. Vindos da América e da Knitting Factory passarm por Lisboa os viajantes da noite. De muitas noites.

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Matching Mole – “Matching Mole”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 20.05.1992


Matching Mole
Matching Mole
CD, Columbia Japan, import. Contraverso e Bizznizz



Matching Mole é a transcrição fonética aproximada de “machine mole”, tradução francesa de Soft Machine, e o primeiro projecto colectivo de Robert Wyatt após a saída desta banda e antes da queda do 4º andar que o confinaria à cadeira de rodas e à produção regular de obras-primas como “Rock Bottom”, “Old Rottenhat” e o recente “Dondestan”. Com os Matching Mole, viria ainda a gravar o fabuloso “Little Red Record”.
O antecessor directo da orientação musical encetada pelos Matching Mole encontra-se na composição de Wyatt incluída na obra m´xima dos Soft Machine, o duplo “Third” (també há tempos reeditado em CD, agora de novo disponível): “The Moon In June”, longa melopeia vocal “dada”, entre o pueril e a complexidade de arranjos característica dos Soft Machine, aqui transposta para o formato de canção pop, como a entendiam, no final dos anos 60, os cruzados da comunidade de Canterbury (Egg, Caravan, Gong, Hatfield and the North): a linguagem “hippy”, com todo o seu cortejo de alucinações, alimentada por uma educação “arty” no seio do jazz e da música erudita.
Nos Matching Mole, encontrou Wyatt o terreno propício para as suas excentricidades e para exercícios melódicos, que aqui resultaram em duas canções pop à beira da perfeição: “Oh Caroline” e esse prodígio de encenação e expressividade – a letra, cantada com um máximo de emoção, refere-se à estrutura formal de uma canção, com “1st e 2nd verses”, “chorus” e uma mudança de tom final tão intensa como o súbito lampejo de um beijo – que é “Signed Curtaon”. Depois, são as “composições improvisadas” dirigidas pela guitarra inconfundível de Phil Miller e o swing e as explorações tímbricas realizadas nos teclados por outro dos mestres de Canterbury, David Sinclair, bem secundado pelo baixo de Bill McCormick e o piano eléctrico no limite da distorção do convidado David McRae (Nucleus), que tornam “Matching Mole” um álbum indispensável para a compreensão do que foi a margem mágica da cena pop vanguardista britânica, na transição entre duas décadas. (8)

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