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Vários – “Festa Do ‘Avante!’ 91 – A Música Em Comício”

Secção Cultura Segunda-Feira, 09.09.1991


Festa Do “Avante!” 91
A Música Em Comício


Na Festa do “Avante!” é sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, actuações invariavelmente prejudicadas por deficiências e o desconforto inerentes ao gigantismo do evento. Sabe-se que é assim, mas vai-se na mesma. Festa é festa, como se costuma dizer. O contingente “folk” foi refrigério no banho de poeira.

Há duas maneiras de apreciar a Festa do “Avante!. Impressiona, por um lado, a reconhecida capacidade de organização e mobilização dos comunistas portugueses. Montar uma cidade descartável não é fácil e o milagre é alcançado todos os anos. De resto, o partido é especialista em milagres. Por outro lado, essa mesma cidade, erguida com o objectivo de proporcionar a fruição, seja ela estética, ideológica ou gastronómica, ao apostar na massificação acaba por deixar em muitos um sabor a frustração.
Evidentemente, há quem tenha opinião contrária e aprecie. Para os da casa está sempre tudo bem. Festejar é, como no resto, nivelar por baixo. Quem também gosta muito, numa população de circunstância, é aquela camada de “jovens” para quem o paraíso consiste em emborcar quilolitros de seja o que for com álcool na composição, rebolar na terra, sozinho ou às voltas com o parceiro(a) e, com sorte, culminar a aventura no hospital mais próximo. Na Quinta da Atalaia, foi um rodopio de ambulâncias para cá e para lá a transportar os despojos humanos resultantes dos êxtases instantâneos. Em qualquer dos casos, do militante fanático ao “freak” andrajoso, a festa funciona ao nível da alucinação.

O Inferno São Os Outros

Para complicar, o programa das actividades culturais (e em particular as muitas músicas que são o mel da festa) costuma ser aliciante. São as circunstâncias que fazem o inferno. O anjibho incauto atraído pela promessa de boa música sofre a bom sofrer, numa correria de poeira e encontrões, para finalmente ver recompensado o esforço com mais poeira, parasitagens extra-musicais de toda a espécie (deficiências técnicas, atropelos à higiene mais elementar, interferências humanas provocadas por gritos e choros de crianças ou militâncias mais inflamadas, vómitos à tangente, numa massa envolta na bruma poeirenta que transforma o cenário numa variante proletária de “Mad Max…) ou o desespero terminal de não conseguir chegar a tempo ao espectáculo ansiado, devido ao desfasamento e atrasos de horário.
Saíram-se bem os Pop Dell’Arte que na sexta à noite se embrenharam num delírio psicadélico “kitsch” apoiado por um eficaz show de luzes psicoalucinantes de tendência dadaísta. João Peste contorceu-se vocalmente a contento, emitou a Piaf, fez inveja a Vítor “Goodbye Maria Ivone” Peter e embasbacou meio povo presente em mil e uma provocações inteligentes.
Provocantes e inteligentes foram ainda os Telectu que, depois de Elliott Sharp, voltaram a escolher o parceiro certo – desta feita o percussionista Chris Cutler – para mostrar que por cá a vanguarda também mexe. Espaço para a improvisação e para o diálogo entre músicos de diferente formação e sensibilidade. Num instante o caos, no outro a convergência. Jorge Lima Barreto, em tom de contenção, sugeriu ambientes e avançou pistas. Vítor Rua provou até que ponto é bom guitarrista, sobretudo quando se esquece dos botões e pedais de efeitos, como aconteceu no encore final. Chris Cutler construiu, destuiu, brincou, ordenou e explodiu em compasos ora binários ora impossivelmente complexos. Experiência radical.

Uma Fada Entre A Poeira

Quem sofreu mais foram os representantes da “folk”. Prejudicados por investidas sistemáticas de “feedback” e pela indiferença de um público na maioria já em avançado estado de decrepitude física e moral, os Boys of the Lough mostraram no palco grande, com a dignidade que se impunha, os mistérios da música irlandesa, a que poucos terão sido sensíveis, distraídos da hora mágica do pôr-do-sol.
No auditório “1º de Maio” (uma tenda de circo montada sobre a terra) a harpista Savourna Stevenson fez esquecer o mundo exterior e material. Nem o ruído insistente de um baixo tonitruante e monocórdico do grupo de arraial do lado conseguiu vencer a atmosfera intimista criada pela fada. Fada sensual, diga-se de passagem, mini-saia negra recuada em volta da madeira central do instrumento, acrescentando outras divagações ao sonho do espírito. Acompanhada em dois temas pelo violinista dos Boys of the Lough, Aly Bain, Savourna Stevenson alternou temas swingantes com tradicionais do seu mais recente disco “Tweed Journey “ou a revisitação de um tema de Duke Ellington. Brilhante, num barracão ou num palácio.
À noite, os Oyster Band enlouqueceram por completo uma assistência (em parte já recuperada da ressaca vespertina) que não se fartou de dançar e formar rodas ao som da “Punk Folk” da banda britânica. Alheados da agitação geral, dois jovens jogavam às cartas no escuro entre pernas, sentados no chão… Folia somente perturbada pela presença emblemática da vocalista June Tabor que, sem voz, e desfasada do grupo, arrefeceu os entusiasmos e conseguiu assassinar o clássico dos Velvet Underground “All Tomorrow’s parties”, fazendo Nico revolver-se no túmulo. Rainha de outros reinos, June Tabor, ao contrário do que aconteceu no “Folk Tejo”, não deslumbrou.
Do reino da poeira, terra e confusão fica a recordação de umas febras com sabor a plástico rotuladas de “cozinha típica”, as imagens apocalípticas do império das latas de cerveja amontoadas rivalizando com os corpos empilhados e o comentário sabedor de alguém ao passar no palco onde actuava um “ensemble” de contrabaixos: “olha um violino!”. É assim na Festa do “Avante!”, os olhos só vêem aquilo que sabem ou querem ver…

Yello – “Baby”

Pop-Rock Quarta-Feira, 31.07.1991


A MÁQUINA DO PRAZER

YELLO
Baby
LP / CD, Mercury, distri. Polygram




Entre os passatempos preferidos de Dieter Meier, vocalista de olho azul e ar alucinado do suo suíço Yello, contam-se o circuito regular pelos casinos da Europa e a narração de feitos de um antepassado gorila.
Curiosidades que ajudam a explicar um pouco o carácter lúdico e o humor “nonsense” da música e filosofia do grupo. “Baby” é, até à data, o exemplo mais acessível, mas também mais previsível dos seus métodos e estratégias de sabotagem.
Os primeiros exercícios “Solid Pleasure” e “Claro Que Si” não escondem o fascínio dessa época pela lógica do absurdo e pelas desfocagens estruturais, ao mesmo tempo que revelavam já uma das facetas posteriormente exploradas até à exaustão – a colagem de estilos, a mestria absoluta da electrónica, a construção de cada canção como uma curta-metragem experimental, a tendência para o calor e coloridos latinos (Dieter Meier e Boris Blank cedo deixaram crescer o bigode, o último adoptando a pose de “matador” de olhar “macho” e cabelo empastado em brilhantina).
“You Gotta Say Yes to Another Excess”, tribal até ao absurdo, heterodoxo até à loucura e, ainda por cima, dançável, atinge o apogeu eufórico na arte de conjugação dos extremos, bem expresso na imagem do gorila, “pai do excesso”, que desce da floresta amazónica até ao empedrado de Montmatre. Faltava envernizar o produto e apresenta-lo envolto em roupagens “à la page”, destinado ao consumo nas discotecas. “One Second”, “Flag” e este “Baby” limitam-se a polir as arestas mais cortantes e a exagerar a sedução do cabaré intergaláctico entretanto tornado imagem de marca. Em “Baby” são ainda e sempre o apelo fantasmagórico de Carmen Miranda, o calor dos trópicos, o “filme negro” e a “dolce vitta”, segundo as regras do acaso falseado e os ensinamentos rítmicos dos Kraftwerk. Abandonado o obscurantismo experimental da fase inicial, os Yello transformaram-se numa espécie de máquina de prazer que neste disco continua a trabalhar em pleno, ainda que os mecanismos do seu funcionamento já não sejam segredo para ninguém.
****

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

Carlos Santana + Happy Mondays – “Happy Mondays E Santana Não Aquecem Nem Arrefecem Alvalade – Só Canções Conhecidas, O Resto Não” (concertos)

Secção Cultura Segunda-Feira, 29.07.1991


Happy Mondays E Santana Não Aquecem Nem Arrefecem Alvalade
Só Canções Conhecidas, O Resto Não


Desta vez não houve festa em Alvalade. A banda de Manchester chocou em demasia com os preconceitos de um público que vinha para “curtir” boas vibrações. Quanto a Carlos Santana, terá dialogado com a divindade mas a comunicação com a assistência não foi isenta de interferências. Os grandes concertos de estádio vão-se tornando uma rotina.



Nos recentes concertos de estádio realizados no nosso país, aqueles que têm permitido ver em acção os “dinossauros excelentíssimos”, há a registar um fenómeno curioso: as pessoas só têm ouvidos para as canções mais conhecidas, os chamados clássicos, aquelas que fizeram (e parece que continuam a fazer) as delícias das gerações mais velhas. Curioso é verificar que jovens de quinze anos, que na altura nem sequer eram nascidos, vibram com essas mesmas canções, como se desde sempre as conhecessem de cor.
Foi assim no concerto de sábado, com a música dos Santana. Para esses jovens e, em geral, para as 15 ou 20 mil pessoas (é difícil conta-las, ninguém para quieto no mesmo sítio) que encheram a ala Norte do estádio de Alvalade, só “Oye como va”, “Black Magic Woman” ou “Samba pa ti” contam. O resto é tudo porcaria para encher. A atitude é reveladora do modo como a mioria dos portugueses ouve música: mais com o coração e a memória do que com os ouvidos e a sensibilidade.
Para evitar, de futuro, comentários, sempre desagradáveis, como os que se ouviram durante parte (na altura dos solos) da actuação dos Santana – “Parem lá com essa merda” – aconselha-se desde já as organizações dos próximos concertos a limitarem o tempo de actuação dos artistas ao estritamente necessário. Por exemplo, já depois de amanhã, no mesmo estádio, Joe Cocker deveria actuar apenas durante cinco minutos, o tempo preciso para cantar “With a little help from my friends” e ficar toda a gente satisfeita.

As Massas Não Compreendem

Os Happy Mondays, que preencheram a primeira parte não tiveram esse problema. Quase ninguém conhece as suas canções e mesmo que alguém conhecesse, Shaun Ryder e os seus pares, tratariam de as tornar irreconhecíveis. Esperava-se que os mais jovens aderissem mas isso não aconteceu. As gerações mais novas já nascem “caretas”. Não gostam de excessos nem de barulho. Muito menos de se sentirem gozadas. Os Happy Mondays adoptaram em palco a postura que lhes é habitual – o desprezo pelo público, a bandalheira controlada, o as “blasé” de quem ali está a fazer um frete. Shaun cantou quase todo o tempo sentado, lata de cerveja em punho, um cigarro permanentemente mal aceso ao canto da boca, compondo a imagem do artista afogado em drogas e dramas existenciais, votado à incompreensão das massas.
De facto, as massas voltaram a não compreender e desde cedo manifestaram essa incompreensão, através de assobiadelas e insultos variados. Um vocalista sentado é falta de respeito. Uma dançarina de mau ar mas boa perna, também, mas vá lá, ainda se suporta. Mais difícil de suportar foi a agressão dos “flashes” dos holofotes apontados, não se sabe bem porquê, aos olhos do público. Se a intenção era alucinar, o melhor que conseguiram foi irritar (sobretudo a vista).
Quanto à massa sonora que passa por música dos Happy Mondays, encarregou-se de despedaçar o resto da paciência dos presentes que não tiveram outro remédio (os que podiam) senão refugiar-se na parte de trás das bancadas. O encore final foi quase anedótico, do género Serafim Saudade – “querem mais? Então está bem”.

Fazer Render O Peixe

Em contrapartida, os Santana foram acolhidos como heróis portadores da mensagem salvadora. Mas foi sol de pouca dura. Todos estavam à espera das tais canções “conhecidas” e Carlos Santana tardou em fazer-lhes a vontade. Era preciso fazer render o peixe, de maneira a esticar a actuação até às três horas previstas, como modo de tapar o buraco deixado em aberto pela desistência de última hora de Salif Keita. Passou uma hora de exercícios jazz-rockeiros até os Santana satisfazerem as ânsias nostálgicas do costume. “Oye como va”, “Black Magic Woman” e “Samba pa ti” (“um dos ‘slows’ mais compridos que havia” – suspirou alguém ao lado, saudoso dos tempos dos convívios de liceu) conseguiram congregar alguns isqueiros acesos e provocar uns tímidos passos de dança.
Embora ninguém duvidasse da competência técnica dos músicos, os mesmos fizeram questão em demonstrá-lo, estendendo-se por solos intermináveis que, a dada altura, começaram a provocar na assistência reacções de impaciência. As pessoas não queriam música, muito menos virtuosismo, queriam melodias para trautear e ritmos para acompanhar com palmas.

Uma Surpresa

Momentos altos, que , foram infelizmente recebidos quase com indiferença: uma fabulosa sequência rítmica pela dupla de percussionistas Raul Rekow e Karl Perazzo, o solo poderoso em estilo locomotiva do baterista Caylord Birch, e evidentemente, todas as notas arrancadas da guitarra por Carlos Santana, sem sombra de dúvida um mestre do instrumento, não chegaram para transformar o concerto em espectáculo de multidões.
Nas iluminações ascéticas de “Peace on Earth”, de John Coltrane, ou na releitura de sinal invertido das pulsações infernais de Jimi Hendrix, sempre a mesma energia que, percebe-se, vem muito de dentro (ou do alto, como o guitarrista prefere dizer), a respiração sublime, a alegria de tocar. Carlos Santana mostrou por que faz da guitarra a sua religião.
Surpreendente foi a aparição inesperada em palco de Pat Metheny, primeiro a solo e depois num curto mas magistral diálogo mantido com Carlos Santana. Instantes de eternidade, suspensos na euforia de duas guitarras em comunicação com Deus. Depois foi levar a coisa até ao fim, com alguns truques pelo meio (a inserção de uma frase melódica reconhecível, a pausa para uma pequena prédica doutrinal, um compasso binário na bateria a puxar as palmas) e a certeza de que, por enquanto, entre nós, a barreira das duas horas é difícil de passar. Nem sequer houve tempo para fogo de artifício.