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Timbuk 3 – “Big Shot In The Dark”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 30.10.1991


Timbuk 3
Big shot in the dark
LP / MC / CD, I.R.S., distri. EMI-VC



Pat e Barbara MacDonald continuam a inventar uma América de sonho. Mesmo se, na relação ambígua com o título, a capa mostra o ataque cerrado de uma legião de espermatozoides à fortaleza do óvulo. Terceiro álbum de originais, a seguir a “Greetings from Timbuk 3” e “Edge of Allegiance”, o novo disco envereda por um registo difícil de definir: vias aparentemente bem demarcadas, como o “funky” ou a “pop de guitarras”, adquirem, por força de uma subtil operação de desfocagem, contornos imprevisíveis. Os Timbuk 3 observam a Pop com os olhos de alienígena. Verdadeiros cowboys espirituais (o som da harmónica evoca, ao longe, os espectro dos Wall of Voodoo) levitam sobre uma Disneylândia abandonada e estradas ao crepúsculo. O frenesim de “Two medicines” e “Big shot in the dark” dissemina-se por sombras e paisagens nocturnas, à custa de arranjos atmosféricos e das estranhas inflexões vocais da dupla. Ecos dos Dire Straits, em “Mudflap girl”, as entoações dylanianas de “Dis***land” (was made for you & me)”, a fantasmagoria de “Wake up little darlin”, digna de Tim Buckley, ou o incenso psicadélico de “49 Plymouth” aumentam ainda mais o ambiente geral de estranheza. Belo, diferente e bizarro. (8)

Robyn Hitchcock & The Egypcians – “Perspex Island”

Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991


ROBYN HITCHCOCK & THE EGYPCIANS
Perspex Island
LP / MC / CD, A&M, distri. Polygram



Decididamente, a pop resignou-se ao papel de discípula da tradição. Mas se Hitchcock não hesita um momento em firmar-se nessa tradição, tal não implica a inexistência de um discurso personalizado e original. Pelo contrário, partindo de modelos tão sólidos como os Pink Floyd, da época Syd Barrett, os Beatles psicadélicos das “sitars” e gurus, ou os Byrds (comparação inevitável se levarmos em conta que Peter Buck, dos R.E.M., toca guitarra em oito temas, num deles, “So you think you’re in love”, retomando sem vergonha a chave melódica de “Turn Turn Turn”), consegue traduzi-los numa linguagem autónoma, reveladora de um compositor / intérprete suficientemente amadurecido para não recear o confronto com o passado.
“Parspex Island” é misterioso e nocturno, vogando por sonoridades aquáticas e sombrias (“Vegetation and dimes” ou “She doesn’t exist” são dois bons exemplos deste lado lunar), em contraste com o tom extrovertido de “Oceanside” e “Child of the universe” que abrem respectivamente o lado 1 e 2 do disco. A cada audição revelam-se novos pormenores: a textura íntima dos arranjos, os insuspeitados recantos emocionais que a voz vai desvelando.
Desaconselha-se pois o mergulho de cabeça. Convirá antes emergir lentamente, de modo a permitir a observação cuidada de cada nível de profundidade. Por debaixo da superfície espelhada de guitarras surge do fundo submarino um mundo de melodias insinuantes que aos poucos dá a conhecer o mistério. Michael Stipe e o trompetista Mark Isham contribuem para o adensar das brumas. (8)

Marc Almond – “Tenement Symphony”

Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991


MÁRC ALMOND
Tenement Symphony
LP / CD Some Bizarre, distri. Warner port.



A capa só por si vale o disco: uma glosa do grafismo da série barata “Classics For Pleasure”, onde Almond assume o “smoking” e a pose de batuta em punho de Simon Rattle (um dos maiores maestros ingleses da actualidade), mas com um ramo espinhado no lugar da dita batuta e um maço de notas turcas a saírem-lhe do punho, preparo rematado pelo adereço de uma flor de plástico a enfeitar um metrónomo. Truncagem tipicamente “camp” do visual pop da música clássica na idade de Pavarotti e Nigel Kennedy, complemento de um recheio pop de recorte sinfónico, que incluiu um extracto de “Trois Chansons de Bilitis” (Debussy). “Flirt” jocoso com a música clássica, mas também com os clássicos da música popular.
O zénite do álbum é sem dúvida a versão radical de “La Chanson de Jacky”, sátira em tom marcial ao binómio beleza / vacuidade da autoria de Jacques Brel, que Márc (o acento no “a” é outro pormenor da nova decoração) revisita em tintas eurodisco. O álbum assenta na combinação dessas variáveis: a pop electrónica (produto da associação de Dave Ball, ex-companheiro de Almond nos Soft Cell, com Richard Norris sob a sigla The Grid) e a tendência para o fausto sinfónico de Trevor Horn (o maestro da ZTT), reforçada pelos arranjos de cordas de Ann Dudley, dos Art Of Noise. “Desta confusão, declara o autor na contracapa, sonhei uma grande ilusão: a ‘Tenement Symphony’”, um álbum onde as convenções e conveniências da actual ligação da pop à música clássica não sofrem uma subversão terrorista, mas o género de revisão agridoce, misto de romantismo e crueldade extremados que transformam a sua seriedade pequeno burguesa em delírio faustoso. (8)