Arquivo da Categoria: em Portugal

Throw That Beat – “Throw That Beat Em Portugal – ‘Pop E Tostas De Carneiro'”

pop rock >> quarta-feira >> 21.04.1993


Throw That Beat Em Portugal

POP E TOSTAS DE CARNEIRO


A banda alemã Throw That Beat in the Garbagecan, que podemos traduzir por “atirem este ritmo para o caixote do lixo”, tem agendados três concertos em Portugal, em finais de Abril.
Klaus Cornfield é o guitarrista e mentor deste projecto, que mistura pop, rock e country, do qual também fazem parte Polli Pollunder, em voz e guitarra, Lotsi Lapislazuli, baixo e guitarra, Alex, bateria, e Iwie Candy X07, órgão.
De acordo com as opiniões de quem os conhece e a folha promocional, os Throw That Beat são dados à excentricidade, provocando nos espectáculos em que participam autênticas ondas de loucura. Entre as predilecções dos seus membros contam-se Pipi das Meias Altas, Pee Wee Herman, os Beach Boys, viagens intermináveis de moto (sic), tostas de carneiro com queijo (sic, puah!), limonada, Sonic Youth, plasticina, piadas foleiras (ah, ah, suspiro), cerveja em lata, telenovelas, uma boa noite de sono (bocejo), Edith Piaf e banda desenhada. “Por estranho que pareça”, adianta a promoção, “as pessoas que se identificam com tudo isto gostam muitíssimo dos Throw That Beat.” É possível, se bem que seja difícil de acreditar que haja alguém que goste de tostas de carneiro com queijo.
Não sendo por enquanto muito conhecidos, os Throw That Beat já gravaram até à data três álbuns: “Tweng”, “Large Marge Sent Us” e “Cool”. São capazes de ser divertidos, estes alemães danados para a brincadeira.
23 de Abril, Porto, Galeria Norte
24 de Abril, Odemira
25 de Abril, Setúbal, discoteca Fábrica

Vários (Chieftains, Barabàn, …) – “Chieftains Fecham Em Apoteose O Festival Intercéltico – Eram Os Deuses Irlandeses?”

cultura >> segunda-feira, 05.04.1993


Chieftains Fecham Em Apoteose O Festival Intercéltico
Eram Os Deuses Irlandeses?


Os deuses eram de certeza irlandeses. E devem ter ensinado tudo o que sabiam das artes musicais aos Chieftains. A banda liderada por Paddy Moloney deu um espectáculo que perdurará na memória da cidade do Porto. Como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Pouca sorte para os Barabàn, que na primeira parte rubricaram uma actuação brilhante, das melhores entre todas as edições do festival. Mas os Chieftains abriram as portas do Olimpo.



Não vale a pena tentar descrever tudo o que se passou durante o espectáculo dos irlandeses Chieftains, no sábado à noite, terceiro e último dia do Festival Intercéltico, no Teatro Rivoli. Prestes a celebrarem o 30º ano de carreira, atingiram a perfeição. Festa, seriedade, religiosidade, humor ora desbragado, ora subtil, solos assombrosos, combinações instrumentais inusitadas, ritmo impressionante, histórias, anedotas, diálogos com o público e em circuito interno, mímica, música, mais música, música divina, irlandesa do espírito às tripas, música de copos, música da China, da Galiza, da América, combinaram-se na proporção exacta por forma a criar um ritual de magia e comunicação com o público. Até quando Paddy Moloney começou por se dirigir à assistência, que mais uma vez voltou a esgotar a lotação, num gaélico cerrado. Depois entrou-se no carrossel. No fim sobrou uma tontura, uma sensação de deslumbramento, de se ter assistido a algo que dificilmente se voltará a repetir, embora com os Chiftains nunca se saiba!
Em noite de mil prodígios, não houve outra solução senão a rendição. Perante um “Heartbreak Hotel” de ir às lágrimas ou da sucessão de “reels”, “jigs” e “hornpipes” acelerados, e ainda mais acelerados. Como é possível acelerar tanto e não perder o controlo da condução? De repente uma travagem em “souplesse”, cascata de harpa despenhando-se de um tema do mítico Turlough O’Carolan, por Derek Bell, que “ameaçou” abandonar o palco, despeitado por o seu companheiro o colocar atrás do harpista cego. Kevin O’Conneff em canto “a capella”, intimista ou num brinde efusivo ao pessoal dos copos em “Here’s to the company”, depois num gongo chinês (“os chineses eram celtas? É possível”, atirou de imediato Paddy Moloney), mestre do “bodhran”, mostrou por que razão se impôs como figura proeminente nos Chieftains. E Paddy Moloney, Sean Keáne e Matt Molloy, os magos das “uillean pipes”, violino e flauta, respectivamente. Dizer que tocaram como deuses não chega. Martin Fay, o segundo violinista, mais circunspecto, baluarte da vertente mais classicista do grupo, silenciou numa prestação de veludo de um tema de mestre ‘O Riada, incluído na banda sonora de “Barry Lyndon”.
Numa sequência absolutamente inacreditável de solos de todos os músicos, Paddy Moloney fingiu que se impacientava, olhou para o relógio, sem conseguir encetar o seu solo de “tin whistle”, meteu apartes delirantes e para cúmulo Derek Bell acabou ao piano em ritmo “ragtime”. A celebração incluiu ainda uma dançarina, Denise Flannery, loura e esbelta, de partir corações (a propósito, Derek Bell, com o seu ar de mestre escola engravatado, atirou-se a tudo o que vestia saias no Porto – um autêntico sátiro) e sabe-se lá que mais, que rodopiou pelo palco naquele estilo característico da dança irlandesa, braços inertes tombados ao longo do corpo, pernas e pés animados por asas sobrenaturais, embora já se tivesse visto, mesmo por cá, mais velocidade de resposta ao acompanhamento instrumental. Não faltou a surpresa, com a entrada em cena do galego Carlos Nunes, (esteve presente o ano passado no Intercéltico, com os Matto Congrio) em três temas onde cometeu verdadeiros prodígios na sua “gaita”, dialogando com agilidade quase insolente com as “pipes” de Moloney. Já na “jam session” final, juntaram-se à companhia Uxia, na pandeireta, e o bandolinista dos Jig, Alfredo Teixeira. O público rendeu-se, esmagado. Fez-se História, no Intercéltico.

Revelação

E os Barabàn, afinal, são ou não bons? São óptimos. Ao nível dos La Ciapa Rusa. Excelentes executantes, partem de um profundíssimo trabalho de investigação e recolha de temas da Lombardia e do Piemonte, aos quais acrescentam a sofisticação de arranjos próximos da estética renascentista e pré-barroca. Impressionaram as polifonias vocais (“la Merla”, “la Brunetta”, um “Stornelli”, “Le pute egie”, entre outras) e as vocalizações a solo de Aurellio Citelli – sublimes em “Lena” e “La fia rubada”, este um dos temas mais belos do último álbum da banda, “Naquane” – que se desdobrou nos teclados e sanfona. Giuliano Grasso e Guido Montaldo brilharam respectivamente no violino e no “piffero”/flautas. Paolo e Diego Ronzio construíram o suporte harmónico e ambiental, em guitarra, gaita-de-foles, sopros e percussões várias.
Aptos manipuladores da veia humorística, os Barabàn souberam alternar a ortodoxia com o divertimento e a crítica, por vezes verrinosa – “Será que a mulher de Andreotti andava na vida?”, comentaram a propósito de “La Brunetta”, “agora vamos tocar em instrumentos tradicionais italianos e (referindo-se ao sintetizador DX-7) num instrumento tradicional do Japão”. Divertida e original, uma “conversa” a quatro ocarinas sobre fundo de realejo. Já em tempo de “encore”, os Barabán soltaram-se numa polka fulgurante que serviu para mostrar a técnica superlativa do violinista e uma deliciosa utilização de colheres, em percussão, por Guido Montaldi. Os Barabán foram, como se esperava, a grande revelação do festival. Os Chieftains foram de outra galáxia.
Uma palavra de apreço final para as duas principais entidades ligadas à organização do Festival: a MC-Mundo da Canção e o Pelouro de Animação da Cidade, da Câmara Municipal do Porto, que, à semelhança das duas bandas da noite, foram exemplares. A partir de agora, o Intercéltico tem o infinito à sua frente.

Vários (Barzaz, Battlefield Band, …) – “Começou O Festival Intercéltico Do Porto – Artífices Do Mar”

cultura >> sábado, 03.04.1993


Começou O Festival Intercéltico Do Porto
Artífices Do Mar


Duas notas distintas marcaram o início da 4ª edição do Intercéltico. Ao registo mais interiorizado dos bretões Barzaz responderam os escoceses da Battlefield Band com a apresentação festiva de temas do seu último álbum, “Quiet Days”. O Intercéltico arrancou em beleza, em ano de consagração.



Coube ao grupo da Bretanha Barzaz esculpir em rochas, vento e sal a primeira curva da tríplice espiral céltica “na triskell”, na 4ª edição do Festival Intercéltico do Porto. Principais artíficies, o flautista Jean-Michel Veillon e o percussionista de origem irlandesa David Hopkins, este o discreto tecelão das texturas ambientais que caracterizam a estética do grupo, ao vivo, e no álbum “Na Den Kozh Dall”. Paisagens marítimas em constante mutação, espelho salgado que reflecte a natureza profunda da brumosa e ancestral Bretanha. Músico ligado à “new age”, Hopkins rubricou, já no último “encore” um excelente solo de “bodhran”.
Paradoxalmente a música dos Barzaz “quebrou” pelo seu elo mais forte, nas vocalizações de Yann Fanch Kemener, voz profundamente enraizada na tradição vocal bretã mas que em dois ou três temas cantou ligeiramente acima do tom. Por culpa do frio, queixava-se ele nos bastidores, depois de ter surgido em palco envolto num pesado sobretudo. Entre suites de danças “plinn” e “fisel”, entrou para o quadro de honra do Intercéltico uma fabulosa adaptação de um “endro” profundo e diluviano que fez estremecer as fundações do Rivoli.

“Ainda Temos Uma Canção!”

Seguiu-se a festa imparável dos Battlefield Band, grupo amado por uns e odiado por outros, mas ao qual não se pode recusar uma coerência absoluta, na proposta que adoptaram desde o início de carreira. Alan Reid é hoje o maestro de uma formação renovada onde pontificam o virtuosismo e o poder das “highland pipes” de Iain McDonald e o violino desse prodígio de apenas 18 anos de idade que é John McCusker, bem secundados pelo sóbrio acompanhamento de Alistair Russell, na guitarra.
Se algumas reservas podem ser colocadas a uma certa “normalização” das vocalizações (faceta onde se faz sentir com maior acuidade a ausência de Brian McNeill), o mesmo não se pode dizer da maestria instrumental revelada pelo grupo, autêntica máquina de fazer música que pôs a assistência do Rivoli em delírio.
Num concerto que privilegiou os temas do álbum novo “Quiet Days”, “strathspeys”, marchas, “reels” e “jigs” alternaram com baladas de cariz politizado (“The hoodie craw” ou “Hold back the tide”, sobre a decadência da indústria naval na Escócia) e momentos de pura loucura, como o “celtic country bayou rock & roll” de “Six days on the road” ou o clássico “Afterhours”, exemplo da mais pura “celtic twilight poetry”, segundo a definição irónica da banda. O público exigiu dois “encores” – “pode ser, ainda temos uma canção!” – acabando o concerto em ambiente de loucura, com as “pipes” de Iain McDonald no comando das operações.
Já pela noite dentro, num bar da Ribeira, entre fumos, (mais) copos e música de dança, Robin Morton, o “papa” da Temple Records revelou ao PÚBLICO o lançamento próximo de um álbum conjunto de Edith MacKenzie, Christine Primrose, Arthur Cormack e Alison Kinnaird, resposta inteligente à actual superbanda escocesa Clan Alba, enquanto o líder dos Battlefield Band, Alan Reid, anunciava o seu primeiro projecto a solo. Debaixo dos holofotes e da batida frenética, escoceses e bretões perdiam-se no meio da confusão. Todos querem voltar.