Arquivo da Categoria: Avant-Gard

Wim Mertens – “Retrospectives, Volume 1”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 29.07.1992


Wim Mertens
Retrospectives, Volume 1
CD, Les Disques du Crépuscule, distri. Edisom



Este primeiro volume de uma retrospectiva da obra do compositor belga, que a si próprio se considera um génio portador de uma mensagem redentora, apresenta a sua faceta melódica e acessível, bastante mais próxima do romantismo (sobretudo nas peças para piano) do que da escola minimalista que caracterizava as suas obras iniciais com os Soft Veredict (aqui representadas por três temas extraídos de “Struggle for Pleasure”, “Maximizing the Audience” e “Vergessen”).
São aquelas melodias eternamente recorrentes que, disco a disco, faixa a faixa, parecem descobrir novas formas de construção e adaptação. É aquela voz de “falsetto”, às vezes tão próxima do “castrato”. São as mãozinhas de veludo que tão bem sabem elaborar no piano as tais melodias que não se consegue deixar de trautear. Mas antes isto que os solos de sopro intermináveis de “Instrumental Songs” ou o megapesadelo conceptual de “Alle Dinghe”. Fora estes desvios de grande criador (demasiado grande, em “Alle Dinghe”, são quase sete horas de genialidade pura, do tipo, a ideia é magnífica, a audição uma tortura), Wim Mertens é o Clayderman dos intelectuais. Fica-lhe bem um “napperon” e uma jarra de flores sobre o piano e, em fundo, imagens de um bosque ou de um céu azul com passarinhos. Mas, lá está, as melodias não nos saem da cabeça… (8)

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Michael Brook -“Cobalt Blue”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 01.07.1992


MICHAEL BROOK
Cobalt Blue
CD 4AD, distri. MVM



Aluno da escola “Eno”, ao lado de nomes como Jon Hassell e Harold Budd, Michael Brook difere destes no descomprometimento que mantém em relação a “estilos” ou orientações estéticas particulares: a ligação ao “étnico” no caso de Hassell, a refer~encia ao minimalismo expressionista de Erik Satie, no caso de Budd. Inserido de forma natural na imensa catedral das “músicas de fusão”, Michael Brook recolhe elementos de um e de outro, deles diferindo na maneira como privilegia a diversidade em detrimento da unidade. Na prática, “Cobalt Blue” prolonga por áreas mais directamente conotáveis à “world music”, expressas de resto de forma directa em títulos como “Andean”, “Lakbossa” ou “Hawaii”, o universo electrónico do anterior “Hybrid”. A “infinite guitar” de Brook paira sobre as percussões que ora insistem na hipnose de uma “raga” indiana ora levitam nas cintilações de um vibrafone. Música ambiental de mundos imaginários, “Cobalt Blue” conta com a colaboração dos irmãos Eno e de Daniel Lanois, companheiros do guitarrista nesta incursão sem fim pels esferas do onírico. (8)

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Amy Denio + President & Wayne Horvitz +Marilyn Crispell + Zahar – “Concertos Da Knitting Factory No Teatro São Luiz, Em Lisboa – Os Viajantes Da Noite”

Cultura >> Quinta-Feira, 18.06.1992


Concertos Da Knitting Factory No Teatro São Luiz, Em Lisboa
Os Viajantes Da Noite


Quatro propostas díspares na sua essência mostraram que os “States” continuam a ser o cadinho de novas formas musicais. No São Luiz, algumas foram não tão novas como isso. As mulheres deram o exemplo e mostraram o rosto multifacetado do futuro. Os Knitting Factory não chegaram a actuar.



O jazz. Essa música fascinante que… não foi jazz? Certo. A “new thing”, a “nova coisa”, essa música fascinante que derruba as fronteiras estilísticas e empurra a arte para horizontes cada vez mais vastos até à libertação final. Era bom, era, que tivesse sido assim, nas segunda e terça-feira, no Teatro São Luiz em Lisboa… O programa apresentava uma selecção sortida de nomes ligados à Knitting Factory, mítica sala de espectáculos em Nova-Iorque, agora tornada editora dos seus meninos. Diga-se a propósito que não pouca das poucas pessoas presentes nas duas noites de concerto tomaram a Knitting Factory por um grupo musical. “Então quando é que tocam os Knitting Factory?”, perguntavam, desorientadas.
A todos quantos não puderam assistir à prestação dessa banda magnífica, o nosso lamento e, à laia de compensação, a sugestão para que compareçam em força no anunciado festival que reunirá em Portugal nomes importantes da música de dança como os Studio 54, CBGB e Hacienda. Bem…
Sexta, foi noite de Pop/jazz ou coisa que o valha. Com Amy Denio, a solo, uma personagem bizarra que canta, toca saxofone alto e guitarra baixo, acompanhada por uma caixa de ritmos chamada “Ernie”. Apareceu em palco com ar de dona de casa alucinada, lançando-se de imediato num solo demente de saxofone. A loucura avançou rapidamente até níveis próximos da apoplexia quando a voz entrou em cena, num desempenho histriónico que deixou o velho “free” a léguas de distância.
Amy aplicou um local de trombone ao sax e chamou-lhe trombonofone. Fez teatro e humor. Imitou, num registo algures entre Meredith Monk e Shelley Hirsch, as vozes de psicopatas, em “Traffic Island psychos”. Mostrou ser capaz do lirismo, num jogo de pergunta-resposta com a reverberação do seu próprio saxofone. E teve piada: “Julio Iglesias é bom. Deve ter sido algo que lhe aconteceu na infância”, em “Julio Iglesias childhood”. “The man who can’t find his wife, outra canção delirante, sobre o marido que perde a mulher, definiu-a Amy como uma “experiência humana universal”.
Amy Denio cantou em espanhol, em italiano e noutras línguas menos identificáveis, no que chamou a “secção internacional” do seu reportório, recorrendo com frequência ao estilo “yodel”, popularizado pelos cantores suiços das montanhas, de pena e calções. Amy foi Pop, à maneira desequilibrada dos Tone Dogs, grupo de que faz parte e a quem Fred Frith deu uma mãozinha. E mandou a sisudez da “vanguarda” às urtigas.
Wayne Horvitz e os President vieram sem o trombonista J. A. Deane, músico que à partida se previa ser um dos maiores atractivos da sua apresentação, substituído por um percussionista que se limitou a fazer figura de corpo presente. Tocaram vários temas de “This New Generation” e “The President”, com virtuosismo q.b. Horvitz solou de forma previsível no sintetizador, ao estilo “demonstrador de stand”. Stew Cutler, muito aplaudido, solou na guitarra, voltado para o Rock. Solaram todos (menos o percussionista). Grande música aconteceu apenas nas prestações, em sax tenor e clarinete, de Doug Wieselman, de longe o melhor músico da noite. Excelente o diálogo de “câmara” que manteve com um Horvitz bastante mais subtil e criativo no piano acústico.
Fulgurante e arrebatadora, Marilyn Crispell, pianista e “compositora” da Creative Music Orchestra, mostrou caminhos por onde o jazz pode avançar sem correr o perigo de se perder. Dos “clusters” vertiginosos e da abordagem gestual do piano com que iniciou as longas improvisações com o percussionista Gerry Hemingway, deslizou por linguagens mais convencionais para voltar à fúria do martelo e à fragmentação rítmica e à destruição sistemática do tempo, sob a égide de Anthony Braxton e Cecil Taylor. A melhor música do festival.
Fecharam os Zahar, sem deixarem saudades. Ritmo e só ritmo. Hassan Hakmoun cantou e dançou com frenesim e incitou o público à festa, sem obter resultados palpáveis. Nos melhores momentos, os Zahar aproximaram-se da banda de Ronald Shannon Jackson. Nos piores, pouco mais foram que um grupo de baile. Salvou-se o percussionista Kewyao Ajyapon, que numa pequena intervenção na “mbira” (ou “kalimba”), o chamado “piano de polegar”) revelou o cristal incandescente que pulsa no coração de África. Vindos da América e da Knitting Factory passarm por Lisboa os viajantes da noite. De muitas noites.

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