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Filipe La Féria e João Paulo Soares + Vários: “As Maiores Vozes Do Teatro Português” (dossier / teatro / revista / compilação))

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.11.1992


AS MAIORES VOZES DO TEATRO PORTUGUÊS

Filipe La Féria e João Paulo Soares não têm falsas modéstias. Para eles, “Passa por mim no Rossio” é mesmo um marco do teatro português. E o disco acabado de ser lançado no mercado, uma “peça rara” que ficará para a eternidade. O êxito desta “banda sonora” do teatro das nossas nostalgias está, à partida, assegurado.



“Passa por Mim no Rossio” foi um dos grandes êxitos de sempre do teatro português. Quase dois anos em cena, filas de quilómetro, desde a madrugada, à porta do D. Maria, na esperança de arranjar bilhete, foram sinais de um fenómeno tornado raro em Portugal – o sucesso popular. A revista portuguesa revista e actualizada por Filipe La Féria jogou com as recordações de uma Lisboa mítica e ganhou. De “enfant terrible”, La Féria passou a “menino de ouro” do patriarcado de Santana Lopes. Agora segue-se o disco, um duplo-álbum composto, arranjado e organizado por João Paulo Soares e com textos escritos por La Féria. Simone de Oliveira e Luís Madureira são os principais cantores. A festa passa, assim, do palco para as colunas de uma aparelhagem. A magia não é a mesma, mas o efeito de Pavlov permanece, talvez até mais eficaz. Lá estão as vozes, bem simuladas, que aprendemos a venerar: Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Ribeirinho, Vasco Santana, António Silva, Milu, Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Laura Alves, Raul Solnado, José Viana e tantos outros que fizeram da revista portuguesa o espelho das ânsias e alegrias do zé-povinho. Passemos por eles. Sempre e em qualquer lugar.



João Paulo Soares e Filpe La Féria são os autores, respectivamente da música e dos textos, de “Passa por Mim no Rossio”, o álbum duplo que ficará como testemunho sonoro da revista do mesmo nome. O PÚBLICO conversou com ambos, nos bastiadores do teatro Variedades, onde se ultimam os pormenores da “Grande Noite” encenada por La Féria, série sobre a revista portuguesa que a RTP apresentará a partir da noite de fim de ano. Antes ainda de “Maldita Cocaína”, ópera-rock que o autor vai levar à cena em 1993 no remodelado Politeama.
PÚBLICO – O ambiente do disco reproduz bastante bem o tom festivo da peça…
JOÃO PAULO SOARES – Foi gravado como se fosse um espectáculo ao vivo. Tem uma ambiência de “ao vivo”. Apesar de ser gravado em estúdio, não tem qualquer tipo de frieza. Houve a intenção de não perder o calor do espectáculo.
P. – Como se processou a composição das canções? Partiu de temas antigos como base?
J.P.S. – O espectáculo é uma viagem, uma história da revista que começa no final do século XIX. Houve uma recolha das canções já existentes e textos escritos propositadamente pelo Filipe La Féria. Eu compus à medida que as canções foram sendo englobadas numa determinada época. Digamos que compus ao estilo da época.
P. – Os textos foram trabalhados da mesma maneira?
FILIPE LA FÉRIA – Foram recolhidos e adaptados. Tivemos o cuidado de resumir e dar às pessoas que não viram o espectáculo uma visão global. Alguns textos foram encurtados e adaptados de maneira a formarem um todo.
P. – Até que ponto o a´lbum vale pela música e não como objecto-fetiche da peça?
F.L.F. – Acho que o disco vale por si só. É o registo de um espectáculo que se tornou histórico e numa referência, a partir de agora, de todo o teatro português. Houve milhares e milhares de pessoas que não viram o “Passa por Mim no Rossio”. A peça esteve um ano e meio no Nacional, como podia ter estado dois, três ou quatro, tal como acontece em Londres. Neste caso, provocou uma enorme polémica por estar a ocupar um espaço do Teatro Nacional que deveria ser para o teatro de reportório. Isso foi a razão principal de, precipitadamente, se tirar de cena um espectáculo que esgotava e esgotaria ainda as lotações. Mas pronto, em Portugal as coisas são muito originais – O Teatro Nacional tem agora vinte ou trinta espectadores por noite, está tudo muito contente e feliz.
P. – O álbum não deveria ter saído há mais tempo, enquanto a peça estava ainda em cena?
F.L.F. – Acho que este disco já podia ser de prata, de ouro, de platina, de cobre… Espero que na nossa próxima produção, “Maldita Cocaína”, no dia da estreia estejam o CD, o disco e a cassete à venda.
P. – Assim é mais uma recordação…
J.P.S. – O disco é um objecto completo que funciona por si próprio. Acho que não estou a ser imodesto se disser isto.
P. – O disco reproduziu a totalidade da música do espectáculo?
J.P.S. – Só metade. Ainda faltam bastantes coisas.
F.L.F. – Isso não é muito comercial dizer… Este disco, antes de ser lançado, já é uma peça rara porque, pela primeira vez, vai haver um registo das vozes dos maiores actores do teatro português. Como sabe, devido ao incêndio da Valentim de Carvalho no Chiado, perderam-se muitos dos registos históricos da revista: Vasco Santana, discos da Beatriz… todos os grandes nomes. Neste disco ficaram registadas as vozes já imoratais de Eunice Munoz, Ruy de Carvalho, Lurdes Norberto, Fernanda Borsatti, Varela Silva, São José Lapa, Maria Amélia Matta, Manuel Coelho, Henriqueta Maya, Simone de Oliveira, são tantos…
Daqui a 20 ou 30 anos, as pessoas vão dizer deles o mesmo que eu dizia quando ouvia a minha avó falar da Satanela e do Amarante. O melhor é comprarem o disco já porque vale dinheiro e é uma peça rara que vai ficar em casa!
P. – Qual o papel de Alexandre Soares na produção?
J.P.S. – Foi a pessoa que conseguiu reunir esforços, que deu o pontapé de saída nas negociações e serviu de intermediário com o David Ferreira. O Luís Madureira tomou mais conta da parte artística e da qualidade vocal em particular.
P. – Em que ponto se encontra a ópera-rock “Maldita Cocaína”?
F.L.F. – Estamos só à espera das obras do teatro Politeama. Há uns papéis do Tribunal de Contas que ainda não vieram e as obras ainda não se iniciaram. Por mim, é um projecto que acalento com mais emoção. Com “Passa por Mim no Rossio” e a próxima série de televisão, A Grande Noite, espero fechar o ciclo da revista.
P. – Nota-se em si a preocupação de estar em todos os aspectos ligados à produção de um espectáculo, desde a parte artística até à promoção…
F.L.F. – Acho que sim. Hoje em dia tudo tem que ter o seu “marketing”, não é? Ainda noutro dia fui escolhido por um grupo de alunas (isto é uma coisa anedótica) que estão a estudar “marketing” como a personalidade ideal para ilustrar a sua tese. Talvez seja um jeito natural em mim, porque nunca tirei nenhum curso de “marketing”.
P. – Afirmou uma vez que o apaixonavam as coisas efémeras…
F.L.F – Em Portugal temos uma visão muito viciada, muito “demodée”, da arte. A arte não tem nada que modificar totalmente as pessoas. Se criar uma pequenina mancha no seu cérebro já é muito bom. Ou se lhes der felicidade, ou alegria. É tão difícil, numa vida tão triste como nós temos, numa sociedade tão opressiva, numa cidade tão triste como Lisboa – que tem todos os vícios e defeitos das grandes cidades sem ter talvez as suas virtudes -, haver a festa, o lado festivo que temos obrigação de procurar na vida… Como se explica que o público esteja tão esfomeado que vá às quatro horas da manhã para uma bicha só para ver um espectáculo, como aconteceu com o “Passa por Mim no Rossio”? Como é possível que nós os intelectuais, os artistas, nos tenhamos fechado tanto em nós próprios, até ao extremo egoísmo de não olharmos para o nosso semelhante?
P. – Não receia que o público mais jovem não seja sensível ao disco?
F.L.F. – Você e eu ainda tivemos a felicidade de ouvir o Vasco Santana dizer: “Ó Evaristo, tens cá disto?” Isso foi tudo cortado. Há tempos, estava aqui a ensaiar uns jovens que queriam entrar na “Grande Noite” e tive que lhes ensinar as marchas de Lisboa! Veja a vergonha: liga-se a televisão e vê-se tudo a desfilar em Copacabana! Houve pessoas que convidei que não sabiam onde era o Parque Mayer! Embora seja preciso dizer que os jovens acorreram a ver “Passa por Mim no Rossio”.
P. – Não terão vindo atraídos pelo “kitsch”, agora muito na moda? Hoje os putos são capazes de achar piada ouvir a Simone…
J.P.S. – Eu não fui buscar o “kitsch” à Simone. De todo. Aproveitei antes o seu lado físico, visceral. A Simone é uma mulher com uma força brutal a cantar. Os números musicais dela são os mais difíceis e equilibrados de todo o disco.
P. – Simone de Oliveira será então uma presença aglutinadora no disco?
J.P.S. – A Simone de Oliveira funciona como Simone de Oliveira. O número principal do espectáculo, “Cabaré”, foi escrito de propósito para a Simone. Ele é a Simone.
P. – O álbum surge numa altura em que estão muito em voga os discos de versões de canções antigas. Por outro lado, não existe neste caso quelaquer espécie de reconversão. Os arranjos são o mais clássico possível.
F.L.F. – O João Paulo Soares teve o bom-gosto de não modernizar, no mau sentido, os temas. Deu-lhes sim um carácter de época, mas que passou pelo interior dele.
J.P.S. – Não gosto nada das pessoas que aparecem por aí com grandes orquestras e tudo em ritmo de 2disco” a cantar ”hits”. Acho uma coisa arrepiante. Por outro lado, acho que não seria útil, só por questões de fidelidade, trazer uma típica orquestra de revista do Parque Mayer que fosse má. É uma questão de bom-gosto.





O PESO DO EFÉMERO
VÁRIOS
Passa Por Mim No Rossio
2xLP, MC, CD EMI-VC



Como encarar um objecto deste tipo? Como um “budget”, uma lembrança, um complemento da peça teatral? Ou, pelo contrário, como uma obra autónoma com vida própria, independente dos alicerces do teatro? “Passa por Mim no Rossio”, o disco, é um pouco as duas coisas. Agora que a peça saiu de cena, o disco, um duplo com a chancela de João Paulo Soares na composição, arranjso e orquestração, e do próprio Filipe La Féria, nos textos, funcionará para quem viu a revista como uma espécie de testemunho póstumo, um eco remanescente do acontecimento original.
Depois, para quem, ao longo de meses e meses não esteve para se levantar às cinco da manhã para conseguir um hipotético ingresso no D. Maria II, o disco pode ser um substituto, um prémio de consolação de mais cómodo acesso. Faltam as imagens, a presença física dos actores e dos cenários, mas afinal as vozes e as canções continuam a exercer todo o seu fascínio. Curiosamente, um dos aspectos de que “Passa por Mim no Rossio” se poderia ressentir – a falta de ambiente da representação ao vivo – acaba por não se notar, pese embora tratar-se de uma gravação de estúdio. Aplausos, aqui, para João Paulo Soares, cuja inspirada partitura conseguiu fazer esquecer o colorido e a excitação do espectáculo “in loco”. O compositor optou, e bem, por uma escrita ostensivamente “passadista”, fugindo à tentação de modernização que poderia comprometer todo o projecto. Os textos de La Féria acaompanham a música no mesmo processo.
“Passa por Mim no Rossio” alterna as canções com pequenos apontamentos de diálogos, temas popularuchos com momentos de forte carga dramática, estes últimos quase sempre invocados por Simone de Oliveira de quem João Paulo Soares soube aproveitar ao máximo as potencialidades. Onde outros poderiam ter cedido à facilidade de valorizar o “kitsch”, o compositor ignorou as modas, preferindo antes firmar-se na tradição. O recerso da medalha está em que o disco poderá passar ao lado das prioridades de escuta das gerações mais novas, a quem os nomes dos grandes actores da revista portuguesa das décadas douradas de 30, 40, 50 e 60 pouco ou nada dirão.
Trata-se então de um disco destinado a alimentar a nostalgia dos mais velhos? Em parte sim. Será essa, provavelmente, a faixa de consumidores mais alargada. Por outro lado tal facto poderá ser compensado por um certo efeito “perverso” decorrente da simples existência do disco, a cujos autores não poderão ser imputadas responsabilidades. É que, se como já se disse, a redução ao “kitsch” é cuidadosamente evitada, nem por isso certa fatia de público deixará de ver nele o artefacto por excelência do mau-gosto tornado objecto de luxo, ainda nates de qualquer audição. Poder-se-á inferir que os autores se estarão nas tintas para isso e que apenas lhe importará que o disco atinja índices de êxito, senão maiores, pelo menos semelhantes aos da peça teatral. Não é um problema do foro artístico propriamente dito mas dá que pensar.
Estamos afinal perante a ambiguidade total e há que reconhecer a João Paulo Soares e Filipe La Féria o terem sabido fazer, na altura certa e com o sentido de oportunidade, uma jogada de mestre. Mas não era, no fim de contas, já “Passa por Mim no Rossio”, enquanto encenação e reconstrução da memória, esse jogo de remet~encias para ambiguidades de vária ordem. Entre o assumir-se como uma revista “à antiga portuguesa” e, na prática, como uma estilização e redução a esboços e caricaturas de todos os ingredientes que no passado eram a essência dessa mesma revista? Eis o cerne da arte de La Féria, esta capacidade de trocar as voltas e os olhos a quem anda e olha para onde os seus sonhos apontam. Mesmo que ele, com a insustentável leveza do artista, se autoproclame apóstolo do efémero. (7)

Howard Shore, C/ Ornette Coleman (Sol.) E The London Philharmonic Orchestra BSO – “Naked Lunch” (banda sonora / soundtrack)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 30.09.1992


HOWARD SHORE, C/ ORNETTE COLEMAN (SOL.) E THE LONDON PHILHARMONIC ORCHESTRA
BSO – Naked Lunch
CD, Milan, import. Contraverso



A chave de “Naked Lunch”, a partitura, encontra-se, segundo Ornette Coleman, no minuto mágico de “Misterioso”, de Thelonius Monk. Um minuto onde o piano, o sax alto e a orquestra apresentam formas distintas que “não existiam antes da sua relação mútua”. Coleman vai mais longe ao afirmar que esta mesma relação é visível nos diálogos do filme de Cronenberg. Ainda segundo o saxofonista, tudo é “hamolódico” neste “festim nu”, isto é, numa definição simplista que “todas as partes são iguais”: da escrita musical ao “script”, diálogos, objectos e cores do filme. Só que há partes mais iguais que outras. Sem as baratas, as máquinas de escrever falantes e outras monstruosidades do filme, “Naked Lunch” tem a consistência de uma manta de retalhos orquestrais, perfurada ocasionalmente por parasitagens étnicas e cujo sentido apenas se autonomiza nas ocasiões em que o saxofone de Ornette Coleman lhes concede o sustentáculo do seu discurso, ora reminiscente do “free jazz”, ora transbordante de lirismo trágico, como em “Intersong”. “Interzone suite” é o tema mais harmolódico e dá uma boa ideia da confusão que reina na cabeça do personagem principal do filme, o escritor William Lee. O problema está em que, sem as imagens que provoquem o vómito, “Naked Lunch” não é tanto um festim mas um “lanche nu”. (6)

Wim Wenders – “Banda Sonora Antecipa Novo Filme De Wim Wenders – Enquanto O Fim Do Mundo Não Chega”

Secção Cultura Sexta-Feira, 13.12.1991


Banda Sonora Antecipa Novo Filme De Wim Wenders
Enquanto O Fim Do Mundo Não Chega


Em “Until the End of the World”, o realizador alemão rodeou-se de nomes sonantes da música actual, entre eles os Talking Heads, R.E.M., Nick Cave, Lou Reed, U2, Elvis Costello e Depeche Mode. Sob a aparência sombria, as canções – como o cinema de Wenders – perseguem a luz.



Conhece-se, viajando. Mas conhece-se apenas enquanto esse movimento de deslocação corresponder a uma dupla transformação: do sujeito que evolui e, como consequência, do território percorrido, já que a visão da realidade está condicionada pelo “lugar de onde se olha”. Uma questão de perspectiva. O cinema de Wenders dá a ver as várias fases de um percurso, o que está “antes da curva da estrada”. Viagem iniciática, de procura e descoberta em espiral.
Cineasta da viagem, Wim Wenders, analisa-a nos seus múltiplos registos. “Alice nas Cidades”, “Ao Correr do Tempo” (obra-prima sobre os infinitos da comunicação, da permuta de sentidos, do silêncio para-gramatical que nos habita e, no limiar do território, nos transcende), “Paris, Texas” (demanda do amor e da linguagem, de certa forma inversa à de “Ao Correr do Tempo”) “Luz sobre a Água” (viagem terminal até ao derradeiro limite – ritual de transformação / decomposição do corpo e do cinema, e da redenção pela voz dos personagens que à deriva sobre as águas, dissertam sobre o que é, ou foi, a vida e o cinema, tema recorrente em “O Estado das Coisas”) e o novo “Until the End of the World” perseguem a transfiguração, a luz (da luz e dos jogos de iluminação nos fala ainda Wenders em “As Asas do Desejo”), o real nas suas duas vertentes: a das imagens cinematográficas e aquela que julgamos mais consistente, do “mundo material”. Em qualquer dos casos, projecções.

A Lei Do Movimento

Para compreender o que o termo “road movie” significa na economia do autor, é preciso compreender primeiro o preceito Zen (caro ao cineasta), segundo o qual o sujeito que observa e a realidade “observável” constituem uma realidade única, decorrendo a pseudo separação da subjectividade da razão analítica.
Pode definir-se o cinema de Wim Wenders em termos de geografia: humana, planetária e metafísica. Mesmo quando o movimento, circular, anti-iniciático e luciferino (como entende Abellio), não leva a lado nenhum – “Movimento em Falso”, presente apenas no alinhamento temporal das palavras, da fala destituída de sentido (isto é de direcção) por forma a permitir a ilusão. O “realismo” confunde-se aqui com o não-movimento existencial de “Para Além do Paraíso”, de Jim Jarmusch). David Byrne define na perfeição esse lugar de morte: “O paraíso é um lugar onde nunca acontece nada.”
“Until the End of the World” almeja a totalidade, a visão global do planeta. Viagem culminante, de síntese apocalíptica que, a partir da Europa e seu lastro cultural, acaba por fixar-se e centrar-se nessa terra de ninguém que é o continente australiano, lugar paralelo, alternativo, de início, que se presume ser o único capaz de sobreviver à catástrofe nuclear.

Canções De Luz E Desespero

A banda sonora chegou até nós primeiro do que as imagens. É-nos concedido algum tempo de prazer antes do “juízo final”. Muito do sortilégio que anima o cinema de Wim Wenders vive do contraponto sonoro. “Until the end of the world” não foge à regra. O realizador escolheu a dedo os músicos e estes corresponderam de forma exemplar, dando às respectivas composições a toada sombria, derradeira, que o ambiente das imagens sugere. Não por acaso, o papel de “pivot” do projecto foi entregue a Graeme Revell, compositor e teórico australiano, fundador dos SPK, dado a obscuras manipulações sonoras, entre o classicismo gótico, a música industrial e as experimentações electrónicas com computadores.
“Opening Titles”, “Claire’s Theme”, “Love Theme” e “Finale” são peças instrumentais de recorte clássico, parasitadas por sons samplados e acrescidas do violoncelo solo de David Darling, escolhidas para enquadrar as canções propriamente ditas, à excepção da dos U2, compostas de propósito para a banda sonora. O CD não integra os temas de Peter Gabriel e Robbie Robertson que constam do duplo álbum.
“Sax and Violins”, dos Talking Heads, introduz o registo “down” que prevalece ao longo do disco, dando a ouvir um David Byrne menos frenético mas mais desolado do que é costume. Julee Cruise traz consigo resíduos das trevas fluorescentes de David Lynch e Angelo Badalamenti, no pesadelo cor-de-rosa “Summer Kisses, Winter Tears”, de Elvis Presley. De base rítmica hipnótica, os temas dos Can (que já haviam colaborado em “Alice nas Cidades”) e, em versão “dub”, de Neneh Cherry, adensam o mistério. Não soam menos fantasmagóricos o minimalismo poético de Patti e Fred Smith, a “country” etérea de Jane Siberry com K. D. Laing e de Daniel Lanois, e os “blues” espectrais de T-Bone Burnett. Os Crime & The City Solution e Nick Cave, amigos de Berlim, transitam das “Asas do Desejo” com a mesma força e negritude. Cave cada vez mais empenhado em tornar-se uma espécie de Leonard Cohen cavernoso. Lou Reed sinuoso como sempre sobre uma guitarra saturada de electricidade, Elvis Costello com uma versão de “Days”, dos Kinks, os Depeche Mode e os R.E.M. apresentam canções tristes de acordo com o tom de desespero do enredo.
É preciso esperar até ao título-tema dos U2, extraído de “Achtung Baby” e editado em versão especial para a banda sonora, para que o fogo se reacenda. Enquanto o fim não chega.