Arquivo da Categoria: Jazz-Rock

Chick Corea E Elektric Band – “Chick Corea E Elektric Band No Coliseu Em Lisboa – Mistura De Chicória”

Cultura >> Sábado, 16.05.1992


Chick Corea E Elektric Band No Coliseu Em Lisboa
Mistura De Chicória


Chick Corea tem um nome e um passado a defender. Quinta-feira, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, esteve-se nas tintas e presenteou o pouco público assistente com uma mistura requentada dos lugares-comuns mais execráveis do “jazz-rock”. Um sucedâneo de experiências antigas em que a electricidade e o tédio substituíram a subtileza e a imaginação. Chicória, em vez de Chick Corea.



Em frente a uma reprodução da capa do disco recente “Beneath the Mask” projectada por trás do palco, “Chicória” e a sua banda “elektrica” atacaram de imediato o som “jazz rock” que no início dos anos 70 fez as delícias daqueles “apreciadores de jazz” que sempre acharam esta linguagem “demasiado complicada”. Vinte anos depois, a julgar pela reacção entusiástica das centenas de pessoas presentes no Coliseu, a questão mantém toda a sua actualidade.
O “jazz rock” resume-se a solos mais ou menos virtuosos, a corridas instrumentais de velocidade pura e a uma batida sincopada que dá o conveniente tom de “dificuldade” a uma música que, por essência, é a versão “reader’s digest” do outro jazz, com sabor a sangue. Claro que há excepções e bastaria a recordação dos Weather Report para não se deitar de imediato o “jazz rock” para o caixote de lixo da história da música. Mas os Elektric Band não são, manifestamente, os Weather Report.

Gorduroso, Repelente E Pestilento

Logo aos primeiros acordes se tornou visível a omnipresença do tenebroso estilo “GRP” (“Gorduroso, Repelente e Pestilento”), mais a mais, na ocasião, misturada com a não menos tenebrosa “sonoridade caramelo” característica da velhinha sala do Coliseu, sobretudo quando não enche. Nos camarotes, então, o empastelamento atingia as raias de uma açorda indegirível. Na plateia, comia-se.
Que Chicória é um excelente instrumentista, ninguém tem dúvidas. Teria, se apenas o conhecesse do Coliseu, onde dispensou o piano, substituído pelos sintetizadores, nos quais solou quase sempre de forma previsível, ao estilo “passa a mão pelo teclado o mais depressa possível, de preferência com a ajuda do “pitch bender” de maneira a poupar metade do trabalho de ir de uma ponta à outra da escala. Os “habitués” sabem como é…
Mas nem tudo foi mau, longe disso. Eric Marienthal, no momento da verdade dos solos, mostrou ser o exemplo vivo do “saxofonista de jazz”. Posição clássica, aperfeiçoada por anos de prática diante do espelho: joelhos bem flectidos (tremulando ligeiramente nos momentos de maior emoção), o cotovelo esquerdo recuado, o saxofone projectado para diante, a pose inteira evocando a posição do artista arrastado, mas sob controlo, pela sua arte.
Já na pose de Chicória se detectaram uma série de defeitos, a começar pela posição, em pé frente aos teclados, pouco correcta do ponto de vista anatómico, que obrigava a coluna a esforços desnecessários. Chicória corrigiu o desconforto do marreco, quando, num dos poucos momentos do concerto em que concedeu espaço ao silêncio, se entregou a um solo fantasmagórico, imitando um quarteto de cordas, no sintetizador portátil “Yamaha SY-99”, que dedicou à própria máquina.
Nessa altura (ou na pausa de segundos dedicados à contemplação, logo a seguir ao intervalo) respirou-se com outra amplidão e a pessoa que ouviu Chick Corea, anteontem, “couve chicória”, recordou-se estar na presença do autor de “Crystal Silence”. Mas o “jazz rock” tudo afogou na vaga de electricidade e velocidade. Não houve ninguém que desligasse a ficha!…

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Chick Corea – “Banda De Chick Corea Actua Em Lisboa E No Porto – Fusões Eléctricas”

Cultura >> Quinta-Feira, 14.05.1992


Banda De Chick Corea Actua Em Lisboa E No Porto
Fusões Eléctricas


Chick Corea e a Elektric Band regressam a Portugal volvidos dois anos sobre a sua actuação, em Novembro de 1990, nos Festivais de Lisboa. Hoje, às 22h, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e amanhã, à mesma hora, no Coliseu do Porto, o jazz-rock volta a atacar em força, trazido por cinco intérpretes brancos que fizeram subir a voltagem da “grande música negra”.
Por muito que os seus detractores defendam o contrário e o acusem de demasiadas cedências ao rock, Chick Corea é uma referência incontornável no panorama do jazz mundial. Pianista de técnica irrepreensível, o músico de ascendência latina (tem antepassados sicilianos, o seu nome verdadeiro é Armando e o bigodinho aparado rente que exibiu durante anos não enganava ninguém…) caracteriza-se por um percurso estilístico que, ao longo dos anos, se tem desmultiplicado, como compositor e intérprete, por áreas tão diversas como a electrónica, a música erudita, o piano solo ou o formato em duo acústico, de que são exemplos brilhantes os discos gravados de parceria com o vibrafonista Gary Burton, no selo ECM.
Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, ao lado de outras constelações do bebop e do har-hop, integram o leque das suas influências. Mais tarde, Horace Silver ensinou-lhe o calor dos ritmos latino-americanos que Chick jamais deixou de integrar na sua própria música, em temas como “Spain”, “La Fiesta” ou “Armando’s rhumba”.
“Tones for Joan’s Bones” é a estreia discográfica do pianista, na condição de “leader”, em meados dos anos 60, durante os quais actua ao lado de Blue Mitchell e de Sarah Vaughan. No final dessa década ocorre o momento crucial – o encontro com Miles Davis, com quem grava as obras-primas do trompetista, “In A Silent Way” e “Bitches Brew”, esta última antepassado bíblico da galáxia “jazz rock” que viria a formar-se.
Assimilado o discurso da modernidade e as “lições de piano” de Bill Evans, Herbie Hancock e McCoy Tyner, Chick Corea abandona o mestre para formar um trio de improvisação com Dave Holland e Barry Altschull, depois aumentado para quarteto (designado Circle) com a inclusão do saxofonista “free” Anthony Braxton.
Satisfeitos os apetites vanguardistas, cumprida a saudação ao “fre jazz”, faltava a Chick Corea a exploração dos universos electrónicos, consumada que fora também, em 1972, a sua primeira aventura em piano solo. Return to Forever – o nome é todo um programa de síntese entre a tradição e o futuro aberto pela descoberta recente do sintetizador “Moog” – consagra Chick Corea como um dos grandes inovadores da música de fusão. Pelos Return To Forever passaram nomes que também eles viriam a fazer escola: Stanley Clarke, Airto Moreira, Flora Purim, Al Di Meola e Lenny White, entre outros.
A aventura acaba em 1975, altura em que Chick Corea sente necessidade de rasgar novos horizontes. É o período das obras clássicas, da escrita para grandes orquestras, da afirmação como compositor. 1985 assiste ao nascimento da Elektrik Band que assinala o retorno do pianista à electricidade e às explorações fusionistas. Da actual formação fazem parte Eric Marienthal, saxofones, Dave Weckl, bateria, Jimmy Earl, que substitui o menino prodígio John Patitucci no baixo, e Frank Gambale, guitarra.

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John Zorn – “Film Works, 1986-1990” + God – “Possession” + The Carl Stalling Project – “Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.04.1992


A CÂMARA ASSASSINA e outros desenhos animados

JOHN ZORN
Film Works, 1986-1990 (8)
CD, Elektra Nonesuch, import. Contraverso

GOD
Possession (7)
CD, Venture, distri. Edisom

THE CARL STALLING PROJECT
Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958 (7)
CD, Warner Bros., import. Contraverso



A música de John Zorn é por natureza cinematográfica. O saxofonista e compositor inglês disseca os sons, retalha-os e reconstrói-os segundo um processo de montagem em tudo semelhante ao do cinema. Sobretudo desde “Big Gundown”, Zorn tem vindo a entregar-se a um meticuloso reprocessamento sonoro de variadíssimos estilos e “inputs” musicais que, ao invés de tenderem para sínteses aglutinadoras, disparam em vertigem centrífuga, em direcção a uma “micro-música”, chamemos-lhe assim, de ampliação e revalorização de pormenores. Como se a Zorn interessasse estudar o filme, fotograma a fotograma. Estética de fragmentação já presente em obras como o citado “The Big Gundown” (ainda sustentada pelas partituras de Ennio Morricone) e “Spillane” (outra referência explícita ao universo cinematográfico, neste caso ao “filme negro”), na longa dissertação sobre Godard incluída no álbum de homenagem a este cineasta, editado pela Nato, e finalmente levada ao extremo na autodevoração de “Naked City” e “Torture Garden”. “Film Works” reúne as bandas sonoras compostas por Zorn para os filmes “Hite and Lazy”, de Rob Schwebwr, “The Golden Boat”, de Raul Ruiz, e “She Must be Seeing Things”, de Sheila McLaughlin, e uma versão “pastische” de “The Good, the bad and the ugly” para um anúncio da Camel. As imagens sonoras de Zorn são sinónimo de agressão. O desenho da capa – uma câmara que é ao mesmo tempo um revólver (símbolo / ícone já anteriormente presente em “Spillane”, “Deadly Waepons”, com Steve Beresford e David Toop, e “Naked City”) – ilustra bem o modo como o filme roda no cérebro do seu autor. Mais próximo de “Big Gundown” e “Spillane” do que das torturas sónicas dos Naked City, “Film Works” apresenta-se ainda como uma série de exercícios exploratórios sobre linguagens musicais autónomas (blues, country, jazz, ambiental, no caso das composições para Raul Ruiz, reproduzidas sob a forma de “géneros” anedóticos e arquivadas em títulos como “Jazz oboés”, “Horror organ”, “Slow” ou “Rockabilly”), com a diferença de que aqui cada um deles se compartimenta e arruma num tema específico, com tempo e espaço. Suficientes para respirar. Como se desta feita Zorn (acompanhado pela “troupe” do costume: Robert Quine, Arto Lindsay, Carol Emanuel, David Weinstein, Ned Rothenberg, Frissell, Previte, etc.) optasse por escrever o índice completo e detalhado da sua obra, de modo a facilitar ao ouvinte a decifração do labirinto. John Zorn figura como músico convidado em “Possession”, embora em termos sonoros os God não se afastem em demasia do universo estético / terrorista dos Naked City, com quem partilham uma especial preferência pelas virtudes do sadomasoquismo. No folheto interior, entre corações de metal, máscaras e vísceras sortidas, os God deixam clara a imagem que fazem do amor: “Being person who is owned and fucked becoming someone who experiences sensuality in being possessed.” Aqui o filme é de horror e o som abrasivo, feito de massas sonoras em descargas contínuas de ódio e distorção. De “Fucked “ e “Return to hell” a “Soul fire” e “Hate meditation”, os God mostram que são feios, porcos e maus. Registe-se como curiosidade a inclusão no grupo de Tim Hodgkinson, que integrou a formação original dos Henry Cow e agora se vê metido no inferno. Antecedente principal e referência paradigmática das estratégias Zornianas, a obra de Carl Stalling prefigura-se, entre os anos 30 e 50, como uma das mais revolucionárias da época na América. Vinte e poucos anos ao longo dos quais Stalling compôs as bandas sonoras para os desenhos animados de Tex Avery para a Warner. “The Carl Stalling Project” reúne gravações originais dessa era dourada da animação. Cinco anos antes da sua morte, referia-se nestes termos ao cinema de animação actual: “Têm tantos diálogos que a música deixa de ter significado.” Entre as tropelias de Bugs Bunny e Duffy Duck, a música destas pequenas sinfonias delirantes congrega em segundos toda a história da música americana que vai de Ellington a Copland, de Ives a Cage, intercalada pelo “Mickey mousing” – termo técnico que designa os ruídos onomatopaicos que acompanham a acção e os distúrbios das personagens animadas.

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