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Filipe La Féria e João Paulo Soares + Vários: “As Maiores Vozes Do Teatro Português” (dossier / teatro / revista / compilação))

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.11.1992


AS MAIORES VOZES DO TEATRO PORTUGUÊS

Filipe La Féria e João Paulo Soares não têm falsas modéstias. Para eles, “Passa por mim no Rossio” é mesmo um marco do teatro português. E o disco acabado de ser lançado no mercado, uma “peça rara” que ficará para a eternidade. O êxito desta “banda sonora” do teatro das nossas nostalgias está, à partida, assegurado.



“Passa por Mim no Rossio” foi um dos grandes êxitos de sempre do teatro português. Quase dois anos em cena, filas de quilómetro, desde a madrugada, à porta do D. Maria, na esperança de arranjar bilhete, foram sinais de um fenómeno tornado raro em Portugal – o sucesso popular. A revista portuguesa revista e actualizada por Filipe La Féria jogou com as recordações de uma Lisboa mítica e ganhou. De “enfant terrible”, La Féria passou a “menino de ouro” do patriarcado de Santana Lopes. Agora segue-se o disco, um duplo-álbum composto, arranjado e organizado por João Paulo Soares e com textos escritos por La Féria. Simone de Oliveira e Luís Madureira são os principais cantores. A festa passa, assim, do palco para as colunas de uma aparelhagem. A magia não é a mesma, mas o efeito de Pavlov permanece, talvez até mais eficaz. Lá estão as vozes, bem simuladas, que aprendemos a venerar: Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Ribeirinho, Vasco Santana, António Silva, Milu, Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Laura Alves, Raul Solnado, José Viana e tantos outros que fizeram da revista portuguesa o espelho das ânsias e alegrias do zé-povinho. Passemos por eles. Sempre e em qualquer lugar.



João Paulo Soares e Filpe La Féria são os autores, respectivamente da música e dos textos, de “Passa por Mim no Rossio”, o álbum duplo que ficará como testemunho sonoro da revista do mesmo nome. O PÚBLICO conversou com ambos, nos bastiadores do teatro Variedades, onde se ultimam os pormenores da “Grande Noite” encenada por La Féria, série sobre a revista portuguesa que a RTP apresentará a partir da noite de fim de ano. Antes ainda de “Maldita Cocaína”, ópera-rock que o autor vai levar à cena em 1993 no remodelado Politeama.
PÚBLICO – O ambiente do disco reproduz bastante bem o tom festivo da peça…
JOÃO PAULO SOARES – Foi gravado como se fosse um espectáculo ao vivo. Tem uma ambiência de “ao vivo”. Apesar de ser gravado em estúdio, não tem qualquer tipo de frieza. Houve a intenção de não perder o calor do espectáculo.
P. – Como se processou a composição das canções? Partiu de temas antigos como base?
J.P.S. – O espectáculo é uma viagem, uma história da revista que começa no final do século XIX. Houve uma recolha das canções já existentes e textos escritos propositadamente pelo Filipe La Féria. Eu compus à medida que as canções foram sendo englobadas numa determinada época. Digamos que compus ao estilo da época.
P. – Os textos foram trabalhados da mesma maneira?
FILIPE LA FÉRIA – Foram recolhidos e adaptados. Tivemos o cuidado de resumir e dar às pessoas que não viram o espectáculo uma visão global. Alguns textos foram encurtados e adaptados de maneira a formarem um todo.
P. – Até que ponto o a´lbum vale pela música e não como objecto-fetiche da peça?
F.L.F. – Acho que o disco vale por si só. É o registo de um espectáculo que se tornou histórico e numa referência, a partir de agora, de todo o teatro português. Houve milhares e milhares de pessoas que não viram o “Passa por Mim no Rossio”. A peça esteve um ano e meio no Nacional, como podia ter estado dois, três ou quatro, tal como acontece em Londres. Neste caso, provocou uma enorme polémica por estar a ocupar um espaço do Teatro Nacional que deveria ser para o teatro de reportório. Isso foi a razão principal de, precipitadamente, se tirar de cena um espectáculo que esgotava e esgotaria ainda as lotações. Mas pronto, em Portugal as coisas são muito originais – O Teatro Nacional tem agora vinte ou trinta espectadores por noite, está tudo muito contente e feliz.
P. – O álbum não deveria ter saído há mais tempo, enquanto a peça estava ainda em cena?
F.L.F. – Acho que este disco já podia ser de prata, de ouro, de platina, de cobre… Espero que na nossa próxima produção, “Maldita Cocaína”, no dia da estreia estejam o CD, o disco e a cassete à venda.
P. – Assim é mais uma recordação…
J.P.S. – O disco é um objecto completo que funciona por si próprio. Acho que não estou a ser imodesto se disser isto.
P. – O disco reproduziu a totalidade da música do espectáculo?
J.P.S. – Só metade. Ainda faltam bastantes coisas.
F.L.F. – Isso não é muito comercial dizer… Este disco, antes de ser lançado, já é uma peça rara porque, pela primeira vez, vai haver um registo das vozes dos maiores actores do teatro português. Como sabe, devido ao incêndio da Valentim de Carvalho no Chiado, perderam-se muitos dos registos históricos da revista: Vasco Santana, discos da Beatriz… todos os grandes nomes. Neste disco ficaram registadas as vozes já imoratais de Eunice Munoz, Ruy de Carvalho, Lurdes Norberto, Fernanda Borsatti, Varela Silva, São José Lapa, Maria Amélia Matta, Manuel Coelho, Henriqueta Maya, Simone de Oliveira, são tantos…
Daqui a 20 ou 30 anos, as pessoas vão dizer deles o mesmo que eu dizia quando ouvia a minha avó falar da Satanela e do Amarante. O melhor é comprarem o disco já porque vale dinheiro e é uma peça rara que vai ficar em casa!
P. – Qual o papel de Alexandre Soares na produção?
J.P.S. – Foi a pessoa que conseguiu reunir esforços, que deu o pontapé de saída nas negociações e serviu de intermediário com o David Ferreira. O Luís Madureira tomou mais conta da parte artística e da qualidade vocal em particular.
P. – Em que ponto se encontra a ópera-rock “Maldita Cocaína”?
F.L.F. – Estamos só à espera das obras do teatro Politeama. Há uns papéis do Tribunal de Contas que ainda não vieram e as obras ainda não se iniciaram. Por mim, é um projecto que acalento com mais emoção. Com “Passa por Mim no Rossio” e a próxima série de televisão, A Grande Noite, espero fechar o ciclo da revista.
P. – Nota-se em si a preocupação de estar em todos os aspectos ligados à produção de um espectáculo, desde a parte artística até à promoção…
F.L.F. – Acho que sim. Hoje em dia tudo tem que ter o seu “marketing”, não é? Ainda noutro dia fui escolhido por um grupo de alunas (isto é uma coisa anedótica) que estão a estudar “marketing” como a personalidade ideal para ilustrar a sua tese. Talvez seja um jeito natural em mim, porque nunca tirei nenhum curso de “marketing”.
P. – Afirmou uma vez que o apaixonavam as coisas efémeras…
F.L.F – Em Portugal temos uma visão muito viciada, muito “demodée”, da arte. A arte não tem nada que modificar totalmente as pessoas. Se criar uma pequenina mancha no seu cérebro já é muito bom. Ou se lhes der felicidade, ou alegria. É tão difícil, numa vida tão triste como nós temos, numa sociedade tão opressiva, numa cidade tão triste como Lisboa – que tem todos os vícios e defeitos das grandes cidades sem ter talvez as suas virtudes -, haver a festa, o lado festivo que temos obrigação de procurar na vida… Como se explica que o público esteja tão esfomeado que vá às quatro horas da manhã para uma bicha só para ver um espectáculo, como aconteceu com o “Passa por Mim no Rossio”? Como é possível que nós os intelectuais, os artistas, nos tenhamos fechado tanto em nós próprios, até ao extremo egoísmo de não olharmos para o nosso semelhante?
P. – Não receia que o público mais jovem não seja sensível ao disco?
F.L.F. – Você e eu ainda tivemos a felicidade de ouvir o Vasco Santana dizer: “Ó Evaristo, tens cá disto?” Isso foi tudo cortado. Há tempos, estava aqui a ensaiar uns jovens que queriam entrar na “Grande Noite” e tive que lhes ensinar as marchas de Lisboa! Veja a vergonha: liga-se a televisão e vê-se tudo a desfilar em Copacabana! Houve pessoas que convidei que não sabiam onde era o Parque Mayer! Embora seja preciso dizer que os jovens acorreram a ver “Passa por Mim no Rossio”.
P. – Não terão vindo atraídos pelo “kitsch”, agora muito na moda? Hoje os putos são capazes de achar piada ouvir a Simone…
J.P.S. – Eu não fui buscar o “kitsch” à Simone. De todo. Aproveitei antes o seu lado físico, visceral. A Simone é uma mulher com uma força brutal a cantar. Os números musicais dela são os mais difíceis e equilibrados de todo o disco.
P. – Simone de Oliveira será então uma presença aglutinadora no disco?
J.P.S. – A Simone de Oliveira funciona como Simone de Oliveira. O número principal do espectáculo, “Cabaré”, foi escrito de propósito para a Simone. Ele é a Simone.
P. – O álbum surge numa altura em que estão muito em voga os discos de versões de canções antigas. Por outro lado, não existe neste caso quelaquer espécie de reconversão. Os arranjos são o mais clássico possível.
F.L.F. – O João Paulo Soares teve o bom-gosto de não modernizar, no mau sentido, os temas. Deu-lhes sim um carácter de época, mas que passou pelo interior dele.
J.P.S. – Não gosto nada das pessoas que aparecem por aí com grandes orquestras e tudo em ritmo de 2disco” a cantar ”hits”. Acho uma coisa arrepiante. Por outro lado, acho que não seria útil, só por questões de fidelidade, trazer uma típica orquestra de revista do Parque Mayer que fosse má. É uma questão de bom-gosto.





O PESO DO EFÉMERO
VÁRIOS
Passa Por Mim No Rossio
2xLP, MC, CD EMI-VC



Como encarar um objecto deste tipo? Como um “budget”, uma lembrança, um complemento da peça teatral? Ou, pelo contrário, como uma obra autónoma com vida própria, independente dos alicerces do teatro? “Passa por Mim no Rossio”, o disco, é um pouco as duas coisas. Agora que a peça saiu de cena, o disco, um duplo com a chancela de João Paulo Soares na composição, arranjso e orquestração, e do próprio Filipe La Féria, nos textos, funcionará para quem viu a revista como uma espécie de testemunho póstumo, um eco remanescente do acontecimento original.
Depois, para quem, ao longo de meses e meses não esteve para se levantar às cinco da manhã para conseguir um hipotético ingresso no D. Maria II, o disco pode ser um substituto, um prémio de consolação de mais cómodo acesso. Faltam as imagens, a presença física dos actores e dos cenários, mas afinal as vozes e as canções continuam a exercer todo o seu fascínio. Curiosamente, um dos aspectos de que “Passa por Mim no Rossio” se poderia ressentir – a falta de ambiente da representação ao vivo – acaba por não se notar, pese embora tratar-se de uma gravação de estúdio. Aplausos, aqui, para João Paulo Soares, cuja inspirada partitura conseguiu fazer esquecer o colorido e a excitação do espectáculo “in loco”. O compositor optou, e bem, por uma escrita ostensivamente “passadista”, fugindo à tentação de modernização que poderia comprometer todo o projecto. Os textos de La Féria acaompanham a música no mesmo processo.
“Passa por Mim no Rossio” alterna as canções com pequenos apontamentos de diálogos, temas popularuchos com momentos de forte carga dramática, estes últimos quase sempre invocados por Simone de Oliveira de quem João Paulo Soares soube aproveitar ao máximo as potencialidades. Onde outros poderiam ter cedido à facilidade de valorizar o “kitsch”, o compositor ignorou as modas, preferindo antes firmar-se na tradição. O recerso da medalha está em que o disco poderá passar ao lado das prioridades de escuta das gerações mais novas, a quem os nomes dos grandes actores da revista portuguesa das décadas douradas de 30, 40, 50 e 60 pouco ou nada dirão.
Trata-se então de um disco destinado a alimentar a nostalgia dos mais velhos? Em parte sim. Será essa, provavelmente, a faixa de consumidores mais alargada. Por outro lado tal facto poderá ser compensado por um certo efeito “perverso” decorrente da simples existência do disco, a cujos autores não poderão ser imputadas responsabilidades. É que, se como já se disse, a redução ao “kitsch” é cuidadosamente evitada, nem por isso certa fatia de público deixará de ver nele o artefacto por excelência do mau-gosto tornado objecto de luxo, ainda nates de qualquer audição. Poder-se-á inferir que os autores se estarão nas tintas para isso e que apenas lhe importará que o disco atinja índices de êxito, senão maiores, pelo menos semelhantes aos da peça teatral. Não é um problema do foro artístico propriamente dito mas dá que pensar.
Estamos afinal perante a ambiguidade total e há que reconhecer a João Paulo Soares e Filipe La Féria o terem sabido fazer, na altura certa e com o sentido de oportunidade, uma jogada de mestre. Mas não era, no fim de contas, já “Passa por Mim no Rossio”, enquanto encenação e reconstrução da memória, esse jogo de remet~encias para ambiguidades de vária ordem. Entre o assumir-se como uma revista “à antiga portuguesa” e, na prática, como uma estilização e redução a esboços e caricaturas de todos os ingredientes que no passado eram a essência dessa mesma revista? Eis o cerne da arte de La Féria, esta capacidade de trocar as voltas e os olhos a quem anda e olha para onde os seus sonhos apontam. Mesmo que ele, com a insustentável leveza do artista, se autoproclame apóstolo do efémero. (7)

Zachary Richard – “Zachary Richard Lança Novo Álbum – ‘Cajun Around The Clock'” (entrevista)

Cultura >> Quarta-Feira, 14.10.1992


Zachary Richard Lança Novo Álbum
“Cajun Around The Clock”


É americano mas cantou durante anos em francês. Não admira, pois Zachary Richard, embora se declare músico de rock, nunca renegou as suas raízes “cajun”, essa mistura de country com as músicas tradicionais europeias que os colonos franceses trouxeram para a América. O novo álbum, “Snake Bite Love”, conta como alguém se pode perder. De amores. Ou num pântano de Louisiana.



Poucos conhecerão a música “cajun” – um híbrido com variantes como o “zydeco” (dos negros e crioulos, popularizado por Clifton Chenier) ou a “tex mex” (tocada no oeste do Texas) – típica do estado de Louisiana e da região do Quebeque, no Canadá. O “cajun”, cantado inicialmente em francês pelos colonos, foi incorporando, no Sul dos Estados Unidos, os “blues”, a “country”, a música africana e até certos sons das Caraíbas. Zachary Richard foi mais longe e misturou o mistério dos pântanos e do “voodoo” à maior acessibilidade do rock. “Snake Bite Love” é a mordidela da cobra. E de uma bela rapariga crioula.
PÚBLICO – Na primeira fase da sua carreira cantou sempre em francês. O que não acontece nos álbuns mais recentes, incluindo o novo “Snake Bite Love”. Qual a razão da mudança?
ZACHARY RICHARD – Para falar verdade comecei a cantar em inglês, no meu primeiro álbum, gravado me 1972, que nunca chegou a ser editado, na América. Cresci na Louisiana do Sul, os meus pais eram bilingues. Os meus avós não falavam inglês. Sinto-me à vontade em ambas as línguas. Quando fui pela primeira vez a Montréal, em 1974, deparei com a força enorme que tinha aí a cultura francesa. Os franceses do Quebeque são muito nacionalistas. Tal facto seviu-me de inspiração, porque até então não tinha muita consciência das minhas origens “cajun”. Na Louisiana as pessoas tendem a ignorar esta cultura. Associam “cajun” a ignorância e pobreza. Tal deve-se à invasão da cultura americana, nos anos 40. Tudo isto inspirou-me a cantar em francês.
P. – O seu primeiro mercado foi, aliás, a França…
R. – Sim. Era muito excitante para mim. Era o início de uma aventura que durou 10 anos e durante a qual gravei oito álbuns, que tiveram sucesso. Mas a meio dos anos 80 cheguei a um ponto em que senti que tinha de regressar a casa – à Louisiana – o que fiz – e comecei a cantar e a tocar na costa do Golfo (do México), na área de Houston, em ambas as línguas. E a gravar em inglês. Foi uma coisa natural. É óbvio que quando se canta em inglês é possível chegar a uma audiência e a um mercado maiores, mas essa não foi a principal motivação. De facto, tenho uma maior tendência para escrever canções em inglês. Além de que esta é a língua do rock ‘n’ rol.
P. – Mas concorda que a música “cajun” cantada em francês tem outro sabor?…
R. – Absolutamente. O que acontece é que não sou verdadeiramente um músico “cajun” tradicional. O meu estilo está bastante mais próximo do rock ‘n’ rol.
P. – Quando se vem da Louisiana e se toca acordeão as pessoas pensam logo em música tradicional. Mesmo quando comecei a tocar música “cajun”, já lá vão 20 anos, o que pretendia era dar-lhe um cunho contemporâneo, mantê-la viva. A ideia era trazer elementos do “cajun” para um formato rock. Para mim o mais importante é escrever canções e a criação de uma música nova. Neil Young, Bob Dylan ou os Byrds são algumas das minhas influências, juntamente com o “cajun”, o estilo “zydeco” e os “blues” da Louisiana.

Venenos

P. – Em “Snake Bite Love” sente-se deveras o ambiente da Louisiana, em parte devido às letras. Viveu mesmo todas as histórias que narra?
R. – Tento escrever canções que digam qualquer coisa. Conto histórias e neste aspecto tenho a sorte de vir de um lugar onde abundam não só as histórias, como os contadores de histórias. A Louisiana é fértil em culturas, em personagens, em toda a espécie de experiências.
P. – É fácil ou difícil viver na Louisiana, no meio dos jacarés, dos mosquitos e do “voodoo”?…
R. – É bastante fácil. Temos boa comida, mulheres maravilhosas e música excelente. É quase como viver em Portugal…
P. – Mas nas notas do disco escreve coisas como “o perigo é beleza” e “a beleza é perigosa”…
R. – Tem tudo a ver com o tema de “Snake Bite Love”. Quando alguém, na Louisiana, é mordido por uma cobra, isso quer dizer má sorte. Há uma contradição entre o amor e a másorte. Mas, num certo sentido, o amor é como um veneno. Por outro lado é como passear pelos pântanos. Ao mesmo tempo belo e perigoso. Pode-se ser morto lá, pelos jacarés, por cobras venenosas, por mosquitos… É assim que sinto o amor, a paixão. O amor de uma mulher crioula é algo muito excitante mas ao mesmo tempo perigoso… Há sempre o perigo de se enlouquecer. De ser possuído pelos encantamentos do “voodoo” ou do amor. De se perder tudo, até a própria identidade.
P. – Por falar em “voodoo”, como aconteceu a presença, na canção “Down in Congo Square”, de Dr. John, “o viajante da noite”?
R. – Essa alcunhya vem dos tempos em que ele se pintava, a fase “glitter”. Conheci-o por volta de 1972 em Nova-Iorque, onde ele tocava nessa altura. Eu era seu admirador. Tornámo-nos amigos desde então. Nessa canção quis dar-lhe o estilo de New Orleans e Dr. John era a pessoa ideal para o fazer. Ele vive num bairro francês da cidade. Telefonei-lhe e ele apareceu.
P. – Também viveu no Canadá. Quais são as principais diferenças entre as culturas “cajun” de uma e outra região?
R. – Uma das diferenças é que no Canadá faz mais frio. No Canadá existe uma comunidade pequena na Nova Escócia, de canadianos, de onde os acadianos da Louisiana são originários, depois de terem sido deportados em 1755, pelos ingleses. Há semelhanças entre os acadianos da Nova Escócia e os acadianos da Louisiana: a língua e o sotaque, ou a música de violino. Por outro lado na Louisiana há as influências africanas, do jazz, dos “blues”, do “zydeko”, que no Canadá não existem de todo.
P. – A influência irlandesa é comum…
R. – Sim, essa decerto que a partilhamos. Os tocadores de rabeca irlandeses tiveram uma grande influência tanto na Louisiana como no Canadá.

Não À Pop

P. – Antes do seu primeiro álbum em inglês, “Zach Attack”, afirmou que não queria ser um “french pop singer”. O que quer dizer com isso?
R. – Sempre vendi bem em França, mas nunca me estabelecia aí. Nessa época conheci Claude Michel Schoenberg. Em 1980 resolvi voltar para a Louisiana e estive dois anos praticamente sem tocar. Construí uma casa e sentia-me feliz apenas por estar lá. Em 1984 o Claude Michel veio visitar-me e convenceu-me a gravarmos juntos um disco em França. O estilo de produção de Claude Michel é muito voltado para a pop. Escrevemos algumas canções para “Zach Attack”, boas canções mas que tinham, penso eu, umm toque esquizofrénico. Umas totalmente pop e outras muito ao estilo de Louisiana. Havia duas direcções num mesmo álbum. Quando acabei a gravação senti-me confuso. Cheguei por fim à conclusão que tinha de regressar de novo ao Louisiana e gravar dentro do seu estilo. E queria voltar a tocar para audiências americanas.
P. – … e ser uma estrela de rock ‘n’ rol…
R. – O rock sempre fez parte do meu estilo. Apenas passei a definir a minha música de uma forma mais clara.
P. – No entanto nunca renegou as suas origens. Pensa que o trabalho de fusão, digamos assim, a que se tem dedicado, é a melhor forma de divulgação da música “cajun”?
R. – Não sou nem missionário, nem político. Não faço música como forma de propaganda. Faço a música de que gosto. E de uma forma cada vez mais pessoal. Não considero haver uma contradição em ser absolutamente fiel à ideia de preservar a língua francesa e a cultura “cajun” na Louisiana e ser ao mesmo tempo um músico de rock.

Peter Hammill – O Dom Da Palavra” (entrevista a propósito do lançamento do álbum “Fireships”)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 17.06.1992


O DOM DA PALAVRA

Peter Hammill é um mago das palavras. Com elas – e com uma música que desde os Van der Graaf Generator até ao recente álbum a solo, “Fireships”, se afirmou sempre como orgulhosamente diferente -, crious uma obra ímpar na música popular das duas últimas décadas. Sem fazer ondas. Mas ainda aqui, como ele diz, as palavras ocultam o paradoxo.



É o poeta por excelência. Muitos viveram a sua odisseia como se a obra poético-musical deste autor, mais do que uma visão pessoal, pertencesse ao domínio público, partilhado embora por um número restrito de iniciados. Para Peter Hammill, que hoje e amanhã actua em Portugal, no Teatro S. Luiz, integrado nas Festas da Cidade de Lisboa, “Fireships” é o repouso do guerreiro. Canções que acabam por ser sempre de amor. “Neobaladas calmas”, como ele as define. Ultrapassada a violência sonora de revoltas passadas, sobra a voz inconfundível, os poemas que retratam o casamento entre o mundo e o “eu”. O futuro, eternamente por cumprir. E o imperativo, implacável, da consciência e da lucidez extremas.
PÚBLICO – A consciência pode ser dolorosa?
PETER HAMMILL – Decerto que sim. Tanto em termos de culpa como de reconciliação. Em relação a nós próprios e ao mundo. A consciência tem, evidentemente, outras qualidades… Neste aspecto, sou de certa forma um estóico… O sofrimento, seja ele qual for, faz parte da experiência humana.
P. – O casamento entre masculino e feminino. O Sol e a Lua. A razão e a intuição. Pode considerar-se a sua obra como um trabalho de alquimia?
R. – Talvez esteja envolvido numa luta, num trabalho de transformar a minha própria matéria-prima (em termos de experiência, consciência e intuição) num relâmpago de ouro, embora temporário, numa resolução sempre em aberto. Por outro lado, é possível que eu afinal apenas consiga “inventar algumas histórias em dias de sorte”.
P. – Pode dizer-se que desde “A Black Box” abandonou a experimentação. Por um desejo de segurança? Cansaço? Ou por outra razão?
R. – Não acredito na experimentação por si só, como um objectivo ou um fim, mas simplesmente em diferentes fases de interesse. Concordo com a sua avaliação apenas de uma perspectiva exterior. Cada canção é, à sua maneira, uma experiência. A um nível técnico é, hoje em dia, muito mais difícil conseguir essa experimentação, precisamente devido aos meios cada vez mais sofisticados e poderosos postos à nossa disposição. Dito isto, no meu caso a “experimentação” tem incidido, ao longo dos anos, muito mais em aspectos pessoais, interiores, e nunca de uma forma aberta e premeditada. Um bom exemplo do que considero um álbum “experimental” é “And Close as This”, embora na aparência soe bastante normal. Mas não faço ideia do tipo de experiências, ou da ausência delas, que ele possa encerrar…
P. – A famigerada ópera [“The Fall of the House of Usher”, inspirada no conto homónimo de Edgar Allen Poe] demorou cerca de 20 anos a fazer, mas acaba por soar a Meat Loaf…
R. – Meat Loaf? Quer com essa comparação dizer que se parece com uma “ópera rock”? “Pshaw!” [Exclamação de repúdio tipicamente inglesa. Intraduzível.] Desses 20 anos, 12 foram gastos a escrevê-la; seis, nos arranjos e na gravação final; dois, a escolher as vozes finais, nas misturas e na substituição de alguns arranjos.
P. – “Fireships” soa um pouco como uma recapitulação de álbuns anteriores. Quase uma solução de compromisso…
R. – Penso que “Fireships” traz algo de novo, em, em termos de “arranjos”, orquestrações, som e, acima de tudo, coerência de ambiente. É natural que existam semelhanças no estilo de escrita, embora até aqui nunca tivesse alinhado uma sequência de neobaladas tão calmas, como é o caso.
P. – A sua música passou sempre ao lado da aceitação das massas. Tal deve-se a uma atitude voluntária da sua parte? Há ainda uma obra a completar? Uma vida?
R. – A atitude voluntária que refere tem sido sempre a de realizar um trabalho que em primeiro lugar faça sentido para mim, em vez de apelar às massas. Dito isto, gostaria que ele fizesse sentido também para um número cada vez maior de pessoas que acedem à minha música. Mas não quero ser apanhado na armadilha da personalidade auto-fabricada. Não gosto de rebuscar nem de ser avaliado pelos meus trabalhos passados. Prefiro seguir sempre em frente, guiado pelas minhas próprias luzes.
Pela mesma razão, existe, de facto, um trabalho desconhecido e em curso, como sugere. Permanece, além disso, em mim, como escritor, algo que rejeita de forma activa a celebridade. Sei que parece estranho e paradoxal, dito por alguém com uma tal parcela de ego envolvida na vida de “performer”…
P. – Afinal, em última análise, o que é que procura?
R. – Se pudesse traduzir essa procura em palavras, tenho a certeza de que a resposta se pereria algures nos espaços e nos paradoxos que existem entre elas, nas canções.
P. – Vivemos em pleno Apocalipse. “Gaia” [designação do planeta Terra, como entidade viva; título de uma canção de “Fireships”] aproxima-se do fim. Vê alguma solução?
R. – É sempre, tem sido sempre, será sempre o Apocalipse. A diferença é que agora, de forma incómoda, sabemos mais acerca dele. Acredito que a única resposta possível seja afirmar a vida, enquanto ela ainda existe.
P. – Continua a acreditar que “The Least We Can Do Is Wave to Each Other” [título de um álbum dos Van Der Graaf Generator]?
R. – Continua a parecer-me uma ideia aceitável!…