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José Duarte, Frank Sinatra – “Acordar Para A Realidade” (entrevista a José Duarte sobre Frank Sinatra)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 03.06.1992

ACORDAR PARA A REALIDADE

Em Frank Sinatra, encontrou José Duarte um professor. De inglês e da arte de ser o lobo e o capuchinho vermelho. Até de jazz. Considera-o “o maior cantor deste século”, “um tipo cheio de ‘charme’” e “Stranger in the night” uma canção fraca. No Estádio da Antas, o autor de Outras Músicas vai estar à frente, na zona do “caviar e dos morangos”. Para Sinatra o ver bem.



“Há duas maneiras de ouvir a música de Frank Sinatra” – diz José Duarte -, uma “popular”, outra mais “requintada”, só ao alcance dos “gajos da música”. O autor de Cinco Minutos de Jazz e do actual e aclamado Outras Músicas falou ao PÚBLICO das duas e provou “cientificamente” que Sinatra é “um cantor fabuloso”.
PÚBLICO – Quando e em que condições conheceu a música de Frank Sinatra?
JOSÉ DUARTE – Tinha para aí 15 anos, através de discos.
P. – Que opinião tinha dele nessa altura?
R. – Tenho um padrão para me orientar nesta confusão toda que é o jazz.
P. – Aos 15 anos já tinha esse padrão?
R. – Não, mas estava quase a ter. Vejo tudo em função do jazz. O Sinatra (por acaso descobri-o primeiro que ao jazz, mas foi um trampolim para chegar lá) ensinou-me o inglês. Um inglês que não era o do liceu nem o americano. Ele tem uma dicção fabulosa. É dos raros cantores em que se percebe cada palavra e cada sílaba. Depois conta histórias. E a maneira de ele as recitar… Nunca canta uma canção da mesma maneira, modifica-a, aproximando-se de um conceito de jazz, seguindo as pisadas de dois dos seus influenciadores: Tommy Dorsey, de quem reteve o som “cool”, liso, e Bing Crosby, pai de todos. Sem esquecer a fraseologia de Billie Holliday.
Aos 15 anos conhecia-o sobretudo dos filmes. Depois fui avançando e verifiquei cientificamente que é um cantor fabuloso.
P. – Pelo que um jornalista do “New York Times” afirmou recentemente, parece que hoje em dia Sinatra mal consegue alinhar dois versos seguidos e não sair do tom.
R. – Esse jornalista é capaz de não se da Mafia…
P. – Sinatra vai encher o Estádio das Antas?
R. – De certeza absoluta que não vai esgotar e ainda bem. Se esgotasse, eu começava a repensar Sinatra. É capaz de ir mais gente por causa das críticas, por ser uma figura polémica.
P. – As pessoas vão ver apenas o mito?
R. – Portugal levou uma vida inteira a juntar dinheiro para o ouvir cantar. Disso e não tenho culpa. Fui ver Sinatra a Nova Iorque, em 1975. E mesmo assim já era tarde. Um concerto em que teve como parceiros a orquestra de Count Basie e Ella Fitzgerald. Em pleno PREC, comigo em grandes dúvidas ideológicas. O José Mário Branco berrava-me aos ouvidos: “O Sinatra não pode cantar bem. Um americano não pode cantar bem. “Eu próprio comecei a ter algumas dúvidas”.
P. – Como definiria o cantor?
R. – A carreira de Sinatra é sinusoidal, de “ups and downs”. Há quatro grandes fases que, por acaso, coincidem com as quatro grandes marcas para onde gravou. A RCA, onde grava com Tommy Dorsey, correspondente aos anos 40 – ele estreou-se com o Harry James no fim dos anos 30 -, em que atinge o primeiro pique quando é ainda um cantor jovem, com 20, 30 anos; depois há a fase Columbia, em que amadurece, se torna adolescente (a divisão pode ser feita em termos etários), um tipo cheio de “charme”. Depois passa para a Capital e torna-se adulto. É a fase dourada, com a ajuda dos arranjadores de que se rodeou, com destaque para Nelson Riddle. Finalmente, a fase da Reprise, da idade madura, a mais próxima do jazz. A partir daí é um gajo que se defende graças ao historial e a um grande magnetismo pessoal.
Durante todo o tempo safou-se sempre bem. Por razões diversas, nem todas relacionadas com o canto. No canto tem envelhecido, mas não no sentido ocidental da velhice. Digamos que agora canta de maneira diferente. Saiu de uma fase por política, de outra por causa do cinema (e ganhou um Óscar), de outra ainda porque se aliou aos mais fortes…
P. – Quem são os mais fortes?
R. – Nessa altura não interessava. Ele esteve ao lado dos republicanos e dos democratas. Depois houve os escândalos, dizia-se que era íntimo da Mafia.
P. – Que explicação encontra para a longevidade de Frank Sinatra?
R. – É o maior cantor deste século, na sua área. Um mestre. Qualquer canção, no sentido mais lato de “song”, que tenha sido cantada por Sinatra fica marcada. Fazia com as canções uma coisa fabulosa: metia palavras novas, repetia, truncava, tirava, subvertia-lhes o sentido. Uma riqueza que só “ouvisto”.
P. – A Mafia teve alguma influência no sucesso de Sinatra?
R. – Olhe, outra das coisas que o Sinatra me ensinou foi saber ser igualmente o capuchinho vermelho e o lobo. Depois há o conceito de clã, que para mim tem muito significado: o grupo de amigos, a união, a entreajuda. Partilhar as mesmas verdades e os mesmos conceitos.
P. – Diz constantemente que o Sinatra “o ensinou”. Alguma vez falou com ele?
R. – Nunca falei com ele. E mesmo que falasse não o ficaria a conhecer.
P. – Quer contar alguma história sobre Sinatra?
R. – Há uma muito bonita. O Sinatra tem por hábito fazer digressões com fins beneméritos. Pega no avião, põe o piano e os músicos a bordo e lá vai, normalmente a Itália. Os pais eram da Sicília e convém referir que costuma chamar “Giaccomo Danielli” à sua bebida preferida [“whisky” Jack Daniels]. Nos anos 70, meteu-se no avião e foi até Itália dar um espectáculo de ajuda às crianças cegas. E deu tudo. Noutro spectáculo – esta história impressiona-me – recebeu algumas crianças no camarim, falou com elas, uma grande bagunça à italiana, e houve uma que perguntou: “Sinatra, de que cor é o vento?”, que é uma pergunta do caraças.
Noutra ocasião, no primeiro concerto de Sammy Davis Jr. Em Nova Iorque, que foi um êxito, estava uma data de gente a pedir autógrafos e Sammy não sabia escrever. Chegou ao pé de Sinatra e perguntou-lhe: “Agora o que é que eu faço?” A resposta foi: “Faz um rascunho.”
P. – Vai ao Porto assistir ao concerto?
R. – Claro. Vou para o hotel dele e tudo. E no estádio, para a zona do caviar e dos morangos, a que fica mais próxima do palco. É para ele me ver. (Risos). Fiz uma série de 30 programas sobre o Sinatra para a Rádio Comercial, na promoção do concerto, e não me pagaram nada. Então disse-lhes: “Quero ter um lugar onde ele me veja bem. Olha o José Duarte ali, e tal…”
P. – Não põe sequer a hipótese de não gostar?
R. – Pode desiludir, mas não sou suposto depois confessá-lo.
P. – Pode criticar-se, à partida, o facto de o concerto se realizar num estádio.
R. – É a mania das grandezas. Penso que a organização não está à espera de encher o estádio. Não vai ser nada parecido com os Dire Straits ou os Guns’n Roses.
P. – Os mais novos são sensíveis à música de Sinatra?
R. – Dizem-me que há raparigas novas e bonitas a quem o Sinatra repugna, o que é positivo, porque repugnar é uma maneira de agradar.
P. – Será que a música de Sinatra lhes interessa de facto, ou irão ao estádio por outras razões?
R. – Isso é a filosofia recente dos anos 80. Num concerto do Sinatra não há fumo no palco, nem “lasers”. É um foco em cima dele e a banda a tocar.
P. – É o passado, o mito?
R. – Sim, mas também a música.
P. – Se calhar, para um número restrito de pessoas…
R. – Se calhar sim, só uns 20 ou 30 eleitos. Mas repare que em Londres, capital de um país com profundas raízes musicais, cinco salas encheram-se com sete mil espectadores para o ouvirem, pessoas que não brincam com a música.
P. – Em Portugal é diferente…
R. – Portugal é completamente diferente. A um concerto de estádio vai-se pela confraternização, pelo espectáculo. Hoje o conceito de música é extramusical. O que interessa é estar com os amigos, numa grande excitação, gozar à brava em conjunto, com a drenalina toda a sair. O concerto de Maddona em Barcelona é neste aspecto memorável. Aquilo demonstra uma preparação física do caraças… Sinatra é o oposto. Os arranjos musicais são os mesmos dos anos 50 e ele canta exactamente com as mesmas acentuações. Considera-se o último dos “saloon singers”, em que o importante é a intimidade.
P. – Precisamente. Essa intimidade é impossível num estádio.
R. – Aí é o anti-“saloon singer”. Mas o que ele gosta é de segredar coisas às pessoas, confessar-se, meio grosso, às três da manhã. Estar com o “barman” a cantar um solilóquio, uma balada, e depois bater com a porta e ir-se embora como num daqueles “westerns”, mas sem mulher. Sozinho. Para sofrer.

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Mafalda Veiga – “Mafalda Veiga Edita Terceiro Álbum – ‘Este Disco Fala Imenso De Pessoas'” (entrevista)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 20.05.1992


Mafalda Veiga Edita Terceiro Álbum
“ESTE DISCO FALA IMENSO DE PESSOAS”


Quatro anos depois de “Cantar”, Mafalda Veiga regressa com um novo álbum, “Nada Se Repete”, um disco de histórias sobre pessoas reais, de atenção dada às gentes e às palavras, mesmo quando em espanhol. Nada se repete e tudo se transforma?



Mafalda Veiga fala com entusiasmo do novo disco, um disco que retoma a “verve” encontrada com “Pássaros do Sul” e perdida em “Cantar”. Um reencontro, então, consigo própria, com o gozo de tocar e com a “força das imagens”.
PÚBLICO – Embora menos que os anteriores “Pássaros do Sul” e “Cantar”, este “Nada se Repete” não deixa de recordar ao nível dos arranjos e de certas inflexões vocais, os Trovante…
MAFALDA VEIGA – Não concordo. Primeiro, porque sei que isso foi e é uma das preocupações do Manuel [Manuel Faria, dos Trovante], conseguir distância do grupo. Uma das coisas que fizemos agora precisamente para evitar a comparação foi chamar outros músicos para fazer os arranjos: o Luís Fernando, o Richard Walton e o José Peixoto, que não têm nada a ver com os Trovante. Em relação aos primeiros álbuns, isso é verdade. Acontece que outra pessoa agarra no tema, dá-lhe determinado som, tira-lhe características e acrescenta outras. Às vezes, a balança pesa de mais para um só lado. Ao nível de estúdio, então, eu era perfeitamente inexperiente, de maneira que aquilo que fiz foi discutido e não sei quê porque eu não sabia exactamente o que queria.
P. – Por falar em nomes, o de Mário Resende, dos Duplex Longa, no violino, é inesperado…
R. – Eu queria imenso que houvesse um violino. Tinha-o imaginado a improvisar. Falei com o Carlos Zíngaro, só que ele não podia porque estava em viagem. Foi ele que me aconselhou o Mário Resende.
P. – O título do álbum sugere mudança, evolução. Essa mudança estende-se ao seu próprio estilo?
R. – Foi um título muito pensado. Um título que, por um lado, significa que há uma evolução, que as coisas não são iguais e nada se repete, e que, por outro, tudo se repete. O título fala precisamente do que vem, que não tem a ver com o passado, mas sim com o futuro. A capa mostra duas crianças de um lado e duas criaças do outro, a fazer a mesma coisa: empurrar-se dentro de água. Foi por isso que a fotografia foi escolhida. Poque aquele momento não se repete mas a imagem sim – é esse o paradoxo que acho interessante.
P. – Acabou por não responder à questão. Houve evolução em termos pessoais?
R. – Estou a cantar de uma maneira diferente, ligada a uma aproximação á linguagem, à maneira como comecei a perceber a força das palavras. Cantar, pelo menos na área em que me situo, tem muito a ver com dizer. As letras são super-importantes.
P. – Uma evolução solitária, já que não tem actuado muito ao vivo, no súltimos tempos…
R. – Estive três anos sem fazer nada, dois sem tocar. Não estava a gostar, não me dava gozo nenhum. Foi uma fase um bocado negativa, a seguir ao segundo disco. Primeiro, porque o disco não correu como eu estava à espera – foi muito precipitado – e depois porque me ressenti disso. O primeiro álbum foi um sucesso súbito e no segundo disco teria que haver uma continuidade. Senti que, neste aspecto, algo correra mal, que não tinha chegado às pessoas.
P. – O que é que correu mal?
R. – Foi um disco feito sem muita energia, por uma equipa cansada. Tinha sido um ano de estrada e entrámos em estúdio sem conseguir criar distância em relação ao que se havia de passar – um erro perfeitamente assumido, que aconteceu. Por isso, durante um ano decidi não tocar. Não me sentia bem comigo mesma.
P. – Um trauma?
R. – Não foi trauma nenhum. Simplesmente, quando não se está a gostar do que se faz, tem que se optar por outras coisas. Nessa altura estudei pintura e música, compus… Andei a preparar a composição do novo disco durante dois anos.
P. – “Nada se Repete” dá grande importância aos textos. A tal “aproximação à linguagem” de que falava há pouco?
R. – Para quem conhece os meus primeiros trabalhos, a diferença entre as letras dessa altura e as de agora é evidente. A princípio compunha de uma maneira intuitiva. Era mais o prazer de tocar, de dizer coisas. A dada altura, se calhar, eram só imagens correspondentes a sensações de gozo, o gozo de tocar, de criar melodias e juntá-las às palavras. Mas depois comecei a ganhar consciência da força dessas imagens, da força que essas imagens podem ter na descrição de sensações. Essa consciência permitiu-me uma linguagem mais directa.
P. – Mais directa em que aspecto?
R. – Este disco fala imenso de pessoas. Cada tema conta histórias reais de pessoas. Só que, em certos casos, como no “Saltimbanco Louco”, a história acaba por ter pouco ou nada a ver com a pessoa, que se transforma numa imagem, numa personagem. Mas as bases são sempre reais. O disco está cheio de gente que fui conhecendo durante este período e que foi importante para mim.
P. – A história de “O bêbado pintor” é “sui generis”…
R. – A canção foi inspirada num fado do Alfredo Marceneiro com o mesmo título. Aqui a história tornou-se irreal, aquela visão do personagem quando diz que é o “rei do mundo” e de repente surgem por detrás um monte de coisinhas, de irrealidades, de frustrações.
P. – Considera-se então uma “escritora de canções”, à maneira de um Sérgio Godinho?
R. – Se o Sérgio Godinho não se importar que eu use o termo… Sim, considero-me uma escritora de canções, mais até do que músico.
P. – Mais até do que cantora?
R. – Não, porque uma das coisas que acho importante na maneira como componho é a maneira como depois vou cantar.
P. – Conte como surgiu “Prisão”, um tema bastante pesado, com toda aquela electrónica sombria no início…
R. – Fui tocar uma vez a uma prisão, numa festa de Natal, e conheci uma rapariga espanhola que estava presa e escrevia. Tinah consigo imensos textos. Era uma pessoa supersensível, a festa tinha sido feita por ela, os cartazes, tudo. Vi um texto seu numa parede e achei-o muito bonito, embora estivesse escrito em espanhol. Mas fiquei ligada ás palavras. Acabei por pedir ao Luís [Luís Represas] para fazer uma letra inspirada no texto.
P. – “Por tu amor” é cantada em espanhol…
R. – Componho ocasionalmente em espanhol por causa da musicalidade das palavras. Falo espanhol tão bem como português. Por vezes sai assim. Se o tema fosse escrito em português diria decerto coisas diferentes.
P. – Alguma vez pensou gravar um álbum só de guitarra e voz, sem rede?
R. – Era giro. Tens que ir lá falar com a editora. Gostava de o fazer, de facto, só que normalmente quando imagino as composições, tecnicamente não as sei tocar depois na guitarra. Prefiro chamar outro músico. Num disco desse tipo teria de compor de uma maneira mais simplificada.
P. – Como se sentiu quando Herman José fez aquela paródia, na passagem do ano, sobre os “Pássaros do Sul”?
R. – Acho sempre piada ao Herman José. Também lhe achei piada nessa ocasião. Estive com ele dois dias depois. Ele perguntou-me se eu tinha ficado chateada e eu disse-lhe que não.

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Buffy St.-Marie – “Buffy St.-Marie, Que Esteve Em Portugal A Promover O Seu Álbum Mais Recente, Ao PÚBLICO – ‘Que Havemos De Fazer Com A Verdade?'” (entrevista)

Cultura >> Quarta-Feira, 06.05.1992


Buffy St.-Marie, Que Esteve Em Portugal A Promover O Seu Álbum Mais Recente, Ao PÚBLICO
“Que Havemos De Fazer Com A Verdade?”


Nos anos 60 lutava-se por ideais e defendiam-se as minorias. Buffy St.-Marie, 51 anos de idade, índia de nascimento, da tribo dos Cree, esteve sempre nas fileiras da frente. Hoje, como nos tempos de “Soldier Blue” e “Universal Soldier” continua a lutar por soluções concretas para problemas actuais. Os índios, diz, são a consciência viva do planeta. E os “hippies” uma geração nutrida a café. Durante 15 anos não gravou qualquer disco, para se dedicar à educação de um filho. “Coincidence and Other Likely Stories” assinala o seu regresso.



Sente-se no discurso e na obra de Buffy St.-Marie o orgulho das origens índias e a vontade de pôr o dedo nas feridas da sociedade. De forma subtil, não-violenta, no álbum recente “Coincidence and Other Likely Stories”, ou não tivesse ela feito parte do movimento “flower-power” dos anos 60. É coerente no que diz e no que faz. Sofreu os efeitos da censura, por se ter recusado a alinhar nos esquemas da indústria musical. Hoje vive como quer, no Hawai, viaja pelo mundo e continua a defender a causa índia. De mini-saia justa e flor amarela no cabelo, parece ter vencido a derradeira batalha – contra o tempo.
PÚBLICO – “Soldier Blue” foi a canção que há 21 anos lançou a sua carreira em Portugal…
BUFFY ST.-MARIE – A sério? É a primeira pessoa em Portugal que menciona essa canção. Voltei a regrava-la há duias semanas.
P. – Para inclusão num novo álbum?
R. – Não sei. É provável que apareça no lado B de um single.
P. – À distância de todos estes anos “Soldier Blue” continua a ser pertinente?
R. – É uma boa canção para os dias de hoje. Quando a escrevi, as pessoas não faziam ideia do que se tratava. Não estavam conscientes dos problemas do meio ambiente. “Soldier Blue” dizia qualquer coisa como “este é o meu país”, não no sentido de “este é o meu estado público” ”as de “esta é a minha terra-mãe”. Hoje, volvidos 25 anos, as pessoas compreendem o conceito e a maneira de ver índia.
P. – Em que altura tomou consciência da situação concreta dos índios na América do Norte?
R. – Nasci no Canadá, no seio do povo Cree. Depois fui adoptada e cresci nos Estados Unidos. Na escola disseram-me que não havia índios, que tinham morrido todos e estavam em museus, ao lado dos dinossauros. A minha mãe, que era meia-índia explicou-me que não era assim e que o que se via nos filmes e lia nos livros não era verdadeiro. Nos últimos anos da minha adolescência voltei a juntar-me à minha família Cree no Canadá.
P. – Quais são os resultados palpáveis, concretos da sua luta. Encontraram-se algumas soluções?
R. – Houve coisas que melhoraram e outras que pioraram. Foi mau o facto de o movimento dos índios americanos ter sido “assassinado”. Mas houve coisas muito positivas. Por exemplo: o dinheiro ganho no início de carreira serviu para a criação de fundações escolares que permitiram ao povo índio a frequência de estudos superiores. Hoje há na América advogados, médicos, professores índios que atingiram o topo das respectivas profissões e que são muito bons no que fazem. Antes era difícil encontrar um índio com um curso superior, saído da reserva para a Universidade. Há quem trabalhe em planos de ordenamento do território ou na Cadillac sem que isso implique perder o contacto com a reserva. São pessoas verdadeiramente biculturais.
P. – Hoje fala-se dos curdos, dos palestinianos e dos croatas. Ninguém fala dos índios…
R. – No Canadá fala-se. Para mim é mais importante resolver um problema do que dar-lhe apenas publicidade. O povo branco, que tem nas mãos o poder industrial, está a tomar consciência da questão ambiental. Se os brancos não se consciencializarem deste problema o meio-ambiente morrerá. Aos índios não basta saber que o planeta está a morrer. Na América do Sul, se os brancos estiverem do nosso lado ainda há “chances”.

Protectores Da Terra

P. – Em duas canções do seu último álbum refere-se à extracção de urânio em território índio e aos seus efeitos nocivos. Pode pormenorizar?
R. – É o mesmo problema que o de há cem anos, com a corrida ao ouro”. Só que desta vez é o urânio. O problema está em que o urânio se encontra em terra índia – como então o ouro – e as companhias de Energia instalam-se perto destas terras, transformam o minério e atiram as sobras para o solo e para os rios. Os próprios brancos que vivem junto à foz desconhecem que as águas estão contaminadas. Mas nós índios somos testemunhas e sentimos a responsabilidade de avisar. As companhias procuram manter as pessoas desinformadas mas nós, nós sabemos. Nos últimos dois, três anos, tem sido importante o trabalho de gente como Sting a alertar sobre as florestas de chuva na Amazónia, ou Peter Gabriel, capaz de alertar a opinião pública. É necessário que se compreenda que os índios não são apenas personagens poéticas, engraçadas. Nós estamos de facto a proteger a Terra. Nos anos 60 os turistas tiravam-nos fotografias, diziam “não têm tanta graça?” e faziam “wuhwuhwuhwuh” com a boca. Éramos uma atracção turística.
P. – “The Priests of the Golden Bull” é quase um manifesto, composto de forma subtil, quase hipnótica…
R. – Há nele inocência. A canção poderia ter sido escrita de outra maneira, com raiva. Mas não era esse o meu estado de espírito quando sussurrei as palavras ao microfone do computador, em casa – o disco foitodo gravado em minha casa. Nesse momento sentia-me quase como uma secretária que nunca tivesse ouvido falar antes de todos estes problemas. Uma pessoa totalmente “naif”.
P. – Considera-se uma cantora de protesto, como Dylan ou Joan Baez, nos anos 60?
R. – Considero-me um escritora de canções. Joan Baez – que era uma cantora folk – e Dylan cantavam sobre condições desumanas. Foram um bom exemplo para mim. Ensinaram-me a ter a coragem de cantar e dizer as coisas exactamente como eu as via. As canções folk são canções de amor sobre pessoas que se apartam ou que se encontram. Permanecem durante centenas de anos. Mas continuam a ser relevantes as canções de protesto político, do estilo “os senhores da guerra estão a destruir as nossas vidas”.

“Hippies” De Cafeína

P. – Toda a sua postura – vejo-a à minha frente com uma flor no cabelo -, todo o seu discurso, recordam a geração “hippy”. Sente-se ainda parte dela?
R. – A flor é do Hawai [risos]. Penso que foi uma geração mal retratada…
P. – … o sonho acabou em pesadelo, com o concerto dos Stones em Altamont, com violência…
R. – Acabou antes. Isso é a história popular. Eu vi o que aconteceu.
P. – Conte-nos então o que se passou…
R. – Penso que não houve sequer uma geração “hippy” mas uma “geração dos cafés”. Tudo evoluiu a partir da diferença entre a cafeína, o álcool e as drogas duras. Uma diferença de drogas determinou todo o processo. O início dos anos 60, quando a música era realmente criativa, foi um verdadeiro movimento estudantil centrado em volta dos cafés. Com cafeína. De pessoas que falavam e sabiam ouvir as outras. Entretanto John e Robert Kennedy foram mortos, Malcolm X e Luther King foram mortos. Os cafés passaram de súbito a ser sobrecarregados com taxas e a terem de fechar. Quando reabriram tiveram de obter licença de venda de álcool se queriam sobreviver. A partir desse momento a cafeína foi substituída pelo álcool. O álcool anestesiou o movimento estudantil.
P. – De quem é a culpa, além do álcool?
R. – Da administração de Lyndon Johnson, que tinha terror de não conseguir controlar a mente dos estudantes.
P. – Durante o mandato do presidente Johnson chegou a ter problema com a censura.
R. – Os homens da rádio disseram-me que sim. Receberam cartas da Casa Branca a encorajá-los a suprimir a minha música nas suas estações. Nessa época não cheguei a ter conhecimento do facto. Houve quem, na rádio, me tivesse contado o episódio somente 10 anos depois…
P. – Entretanto as coisas mudaram para si? Ou continua a considerar-se uma “outsider” do sistema?
R. – Sim… mas não posso culpar Lyndon Johnson por isso [risos]. Fui ou era considerada uma “outsider” em primeiro lugar porque era mulher, em segundo porque não tinha um empresário influente e em terceiro porque não bebia. A maior parte dos contratos, nessa época, eram assinados nos bares, com um copo na mão. Sempre levei um estilo de vida diferente. Nunca pensei que conseguiria integrar-me no “show business”. Limitava-me a actuar em Nova Iorque e não passava semanas a vaguear pelas “parties” na casa de um e de outro. Preferi sempre gozar a vida à minha maneira. Se estava na Austrália, actuava em Sidney e depois ia tocar para os aborígenes. Na Escandinávia, a mesma coisa. Ia a Oslo ou Estocolmo e depois desaparecia para Norte, entre os “sammi”.
P. – Mas vive da indústria. É ela que lhe dá dinheiro…
R. – Sim, mas não tenho propriamente o mesmo estilo de vida de Madonna ou de Debbie Harry… Não quero com isto dizer que elas não são boas no que fazem, mas sim que não levam a mesma vida dupla que eu, que vivo no Hawai e no mundo do espectáculo ao mesmo tempo. Sou índia e nunca deixei de actuar nas reservas, mesmo durante os quinze anos que estive sem gravar, para me dedicar à educação do meu filho Paul, nascido em 76. Também nunca deixei de dar concertos em todo o mundo para a UNICEF, em Tóquio, Amesterdão, Paris, Roma, etc. Ao lado de pessoas como o Marlon Brando, o Peter Ustinov ou o Danny Kaye, e de “troupes” de dançarinos africanos, do Bali, de Burma… Estou entre o étnico e a pop. É assim que eu gosto.

Os Verdadeiros Culpados

P. – Porque motivo ofereceu uma canção “Up Where We Belong”, de enormes potencialidades comerciais, a Joe Cocker e Jennifer Warnes em vez de a cantar?
R. – Estou no “show business” apenas porque sou uma escritora de canções. Quando comecei a cantar não o fazia muito bem. Então só tinha as canções que achava que diziam alguma coisa e contentava-me que outros as cantassem. Não vim de LA ou de Nova Iorque, não era como a Judy Collins cujo pai era músico, ou a Joan Baez que era professora de liceu. O meu pai era mecânico. Eu vim de lado nenhum, não conhecia ninguém, nenhum músico. Não tinha quaisquer ligações com os colégios ou com o mundo da música. Era uma virgem especada num salão de baile, a tocar guitarra, à espera que alguém quisesse cantar as minhas canções. Acabei por ter sucesso. Foi só por alturas do meu quinto ou sexto álbum que comecei a cantar melhor e a ouvir-me a mim própria.
P. – O que a mantém acordada?
R. – O café [risos]. E as canções. Às vezes, quando alguma coisa me intriga, acordo a meio da noite, acendo a luz, ligo o gravador e desato a cantar. Isso acorda-me. Encontrar soluções mantém-me acordada.
P. – Como definiria na generalidade “Coincidence and Other Likely Stories”?
R. – É um disco com três tipos de canções: um primeiro grupo sobre estar-se apaixonado, como “Emma Lee”, um segundo grupo, de canções nativas, como “Starwalker”, triunfantes e jubilosas à maneira da cultura que retratam, e um terceiro, de canções que trazem informação nova, como “The Big Ones Get Away”, “Fallen Angels” ou “Desinformation” em que no fundo tento fazer o mesmo que nos anos 60 com “Soldier Blue” ou “The Universal Soldier” – sintetizar aquilo que toda a gente sente quando caminha pelas ruas, seja em que lugar for, mas ninguém se atreve a dizer. Em “The Universal Soldier” perguntava: “Quem é o responsável pela guerra?”. Vi no aeroporto soldados de uniforme regressarem feridos e as autoridades dizerem que não havia guerra nenhuma no Vietname. Dirigi-me aos soldados e fiz-lhes a mesma pergunta: “Quem é o responsável pela guerra”? Os soldados são os culpados? De certo modo, sim. Os generais que os comandam? Até certo ponto, sim. Mas quem é o verdadeiro culpado que põe alguém atrás ou à frente de uma espingarda? São os políticos. E quem é que vota nos políticos? Percebe o que quero dizer?… Tudo começa com a responsabilidade individual de cada um. Vivemos de novo um tempo em que se discute e se fala dos problemas. E a pergunta principal é: “Que havemos de fazer com a verdade, quando o sistema está corrupto”?

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