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Vários – “Discotecas Recusam Vender Discos da UPAV – Boicote À Cooperativa ‘Marginal'” (artigo / reportagem / entrevista / portugueses)

Secção Cultura Terça-Feira, 02.04.1991


Discotecas Recusam Vender Discos da UPAV
Boicote À Cooperativa “Marginal”



Uma cooperativa cultural UPAV queixa-se que algumas discotecas do país não compram os seus discos. Fala-se mesmo de boicote. Noutras lojas, os discos da UPAV vendem-se bem. Prontos a sair, com o selo “Play On”, vocacionado para as áreas da música alternativa, estão discos de José Peixoto (“El Fad”), Cal Viva e do compositor cabo-verdiano Vasco Martins. Resultados encorajadores de uma ideia peregrina.

Nem tudo é límpido no negócio dos discos. Em Fevereiro último, a UPAV, União Portuguesa de Artistas de Variedades, lançou no mercado uma série de álbuns de música portuguesa. Alguns retalhistas recusam-se a comprá-los, alegando terem sido gravados numa editora “marginal”.
O conceito de “marginalidade” prende-se aqui a uma nova maneira de encarar a edição discográfica da música portuguesa e a protecção aos seus artistas, segundo estratégias inovadoras que escapam aos tentáculos das multinacionais (ver PÚBLICO de 18 de Fevereiro).
Para José Mário Branco, músico e sócio fundador da UPAV, a questão reveste-se de alguma gravidade – “tem havido discotecas, algumas bastante importantes, não só em Lisboa, que pura e simplesmente não compram os nossos discos. Só por si, isso não teria grande importância, embora pensemos que deveria haver um esforço para acarinhar a música portuguesa, muito desfavorecida em termos de mercado.

Interesses Ocultos

Admito até que haja discotecas especializadas que entendem haver determinados tipos de música que não lhes interessa vender. Mas não é o caso. Muitas vezes, algumas lojas grandes, não só não compram os discos como têm atitudes que achamos desonestas. Mais grave ainda é o facto de muitas dessas discotecas não terem os discos à venda e induzirem em erro o cliente, dizendo que ainda não saíram ou pura e simplesmente que estão esgotados”.
Recorde-se que os discos entretanto lançados pela UPAV, “Correspondências”, de José Mário Branco, “Fado – Histórias, Baladas e Lendas”, de Rodrigo, “Aqui e Agora”, de Dina, “Maria Guinot”, de Maria Guinot, “Poemas de Bibe”, de Mário Viegas e Manuel ade Freitas, “Jorge Lomba”, de Jorge Lomba e “Terreiro das Bruxas”, dos Vai de Roda, são distribuídos pela Mundo da Canção, do Porto. José Mário Branco assegura que tanto a UPAV como a distribuidora “visitaram todas as discotecas do país, solicitando-lhes que pusessem os nossos discos à venda”.
Não se citam nomes, para evitar que a situação se torne “ainda pior”, já que para aquele músico, “existem interesses ocultos e má vontade da parte de alguns negociantes”.

Sons De Hoje

Mas na UPAV a palavra de ordem é “acção”. Assim, já depois de amanhã, às seis e meia da tarde, vão ser apresentados no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores, dois novos discos de música portuguesa, gravados para a etiqueta subsidiária da União. “Play On”, vocacionada para a música contemporânea, jazzística, aquela que mais foge dos esquemas comerciais e que todos na UPAV designam pelo lema “sons de hoje”.
“El Fad”, de José Peixoto e um álbum homónimo dos Cal Viva (constituído por Peixoto, Carlos Bica, José Salgueiro e Martin Fredebeul) são as primeiras realizações da “Play On” na área do jazz. Prevista ainda a edição, em Maio próximo, de dois CDs do compositor cabo-verdiano Vasco Martins.

Circuitos Alternativos

Outra das preocupações dos membros da UPAV é o circuito das actuações ao vivo. “Dentro daquela ideia geral que é a gestão integrada da carreira artística, estamos a tentar fazer um trabalho de fundo que consiste em criar circuitos regulares de “tournées” no nosso país. Coisa que não existe…”. A ideia consiste em criar uma espécie de rede de espectáculos, previamente negociados com mas Câmaras Municipais das diversas localidades, a percorrer posteriormente pelos músicos. Noites musicais, com dois artistas (sócios ou não da UPAV) destinadas a públicos específicos. O “cachet”, negociado para toda a “tournée” é sponsorizado ou mesmo pago em regime de mecenato.
Às Câmaras cabe cobrir as despesas relativas à estadia da caravana, fornecer a sala (com lotações médias de 800 espectadores) e comprometer-se a comprar os bilhetes não vendidos, o que na prática significa que à partida estão asseguradas sempre lotações esgotadas. Aqui reside o aspecto mais revolucionário do sistema, já que esse dinheiro se destina a pagar todas as despesas de produção (técnicos, luzes, viagens, cartazes), libertando assim os artistas deste encargo.
Compreende-se que as Câmaras tenham todo o interesse em que os espectáculos sejam um êxito. “Quanto mais bilhetes venderem, menos pagam e podem até não gastar nada se trabalharem bem, em termos de promoção, através da difusão, apoio, sponsorização local ou regional, publicidade na imprensa e rádios locais, em empresas da região, etc.

A Regra Dos Três Terços

As Câmaras começam a perceber que lhes convém lidar directamente com os artistas”. Em princípio, o protocolo assinado com as entidades camarárias prevê sempre a realização de pelo menos seis espectáculos. Só neste ano a UPAV tem agendados, a nível nacional, cerca de 180 espectáculos.
Mas, se nos espectáculos ao vivo, o artista tem direito a receber dez por cento do “cachet” líquido (“ao contrário do praticado no mercado, em que essa percentagem incide sobre o “cachet” bruto, cabendo normalmente ao artista pagar as despesas de produção…”) já em relação aos lucros provenientes da venda de discos o pagamento se processa de maneira diferente, de acordo com a chamada “regra dos três terços”. O princípio é de que a mais valia de um disco pertence ao seu autor. A regra que escolhemos ‘obriga-o’, porém, a oferecer um terço dos resultados líquidos à cooperativa. No fundo beneficia disso porque ele próprio é sócio. O segundo terço vai para o bolso do artista e ninguém tem nada com isso. O terceiro terço continua a ser propriedade do artista, mas terá que ser obrigatoriamente investido num fundo editorial gerido pela UPAV, destinado a financiar novas produções”.
Em relação aos discos já lançados no mercado, há casos (como os de Mário Viegas / Manuela de Freitas e de Rodrigo) em que, mesmo antes de serem gravados, já estavam a dar lucro, tendo em conta as vendas antecipadas (na ordem dos três mil exemplares, para cada um dos sete discos editados). Mas se as produções mais baratas rentabilizam rapidamente, outras como as “Correspondências” de José Mário Branco levam mais tempo a recuperar os investimentos – “são muitas horas de estúdio, muitos músicos, capa dispendiosa” – como faz questão de afirmar o seu autor -, “portanto não espanta que o saldo continue negativo”.

Novos Valores

A UPAV não os esquece os novos valores. Se por um lado as portas permanecem sempre abertas à admissão de novos sócios (Paulo de Carvalho aderiu recentemente), nem por isso os novos nomes são deixados de lado. Para José Mário Branco um dos objectivos prioritários da cooperativa passa mesmo pelo lançamento, todos os anos, de “dois ou três músicos desconhecidos que aparecem com as primeiras obras”.
Assim, para além da edição próxima dos dois trabalhos de José Peixoto, preparam-se já as estreias discográficas de Amélia Muge ou, numa veia mais comercial, de Adriano. Se a deixarem, a UPAV há-de continuar saudável, a crescer.

Fausto – “Viagens Na Nossa Terra” (televisão / rtp)

21.03.1991
Sábado, Local, Televisão


Viagens Na Nossa Terra



Acabaram os desentendimentos entre Fausto e a RTP, ou pelo menos assim parece. O cantor exigia que a si próprio e aos artistas portugueses em geral fossem dadas importância e condições idênticas às dos estrangeiros. Tal aconteceu com “Grande, Grande É A Viagem”, espectáculo gravado a partir dos dois concertos efectuados em Dezembro último no Teatro S. Luiz, em Lisboa, pelo autor de “Madrugada dos Trapeiros” e “Por Este Rio Acima”. Produzido por Carlos Machado e com realização de Carlos Barradas, “Grande, Grande É A Viagem” apresenta, em grande forma, o autor de clássicos da música popular portuguesa dos últimos anos como “Rosalinda” ou “Navegar, Navegar”.
Fausto concilia na sua música os aspectos mais universalistas da cultura portuguesa, juntando, como em “Por Este Rio Acima”, sonoridades e ritmos do nosso folclore com vibrações africanas e especiosos exotismos do Oriente, sem perder de vista o sonho europeu que se pretende “em construção” – preocupação evidente no álbum de 89, “Para Além Das Cordilheiras”, onde canta essa outra incursão das nossas gentes pela Europa dentro, ao som dos bombos e cheiro a sardinhadas. “A Preto e Branco”, o seu disco mais recente, assinala a viagem de retorno à raízes e memórias africanas. Viagem pela poesia negra e pelos sons de guitarra do angolano Mário Rui, também presente no espectáculo ao vivo. Sobre o palco do S. Luiz, estiveram ainda os músicos: André Sousa Machado (bateria), Fernando Molina (percussão e voz), António Pinto (guitarra e voz), Ciro Bettini (piano eléctrico) e João Parreira (sintetizadores e voz). Viagens pelo Portugal imaginário.
Canal 1, às 22h10

Vários – “Cooperativa Cultural Lança Novos Discos De Música Portuguesa – A União Faz A Força”

Secção Cultura Segunda-Feira, 18.02.1991


Cooperativa Cultural Lança Novos Discos De Música Portuguesa
A União Faz A Força



Hoje, às 18h30, na sala ogival do castelo de S. Jorge, em Lisboa, a UPAV apresenta sete discos editados no selo do mesmo nome e autoproduzidos pelos próprios artistas e sócios da cooperativa.

Provenientes de áreas tão diferentes como a “canção de autor”, o fado, a música ligeira, o jazz, a poesia ou a música tradicional, os discos, agora editados, representam o culminar de um esforço e de uma aposta da UPAV, (União Portuguesa de Artistas de Variedades, fundada em 1983 por um grupo de dez artistas portugueses), no sentido de furar os esquemas habituais de produção e distribuição (a cargo da Mundo da Canção) do mercado discográfico nacional e evitar, a todo o custo, aquilo que consideram como a “morte próxima da música portuguesa”. Para isso, recorrem a meios e estratégias editoriais à margem doo sistema, desde os aspectos ligados à produção até à própria gestão das carreiras artísticas, sem descurar a parte técnica ou o lançamento e divulgação de novos valores.
Do núcleo fundador da UPAV permaneceram até hoje José Mário Branco, Rodrigo, Carlos do Carmo, Dina e Alexandra. Fazem ainda parte da cooperativa os artistas Maria Guinot, Jorge Lomba, a Brigada Vítor Jara, Manuel Tentúgal (dos Vai de Roda), Luísa Basto, Amélia Muge, José David (Almanaque), Vasco Martins, Manuela de Freitas e Mário Viegas, um produtor (Orlando Laranjeiro) dois técnicos (António Mileu e Alfredo Almeida).
Em termos discográficos, o resultado das múltiplas actividades do grupo poderá a partir de hoje ser apreciado através da tal fornada de sete discos, a saber: “Correspondências” de José Mário Branco, “Fado – Histórias, Baladas e Lendas” de Rodrigo, “Aqui e Agora” de Dina, “Maria Guinot” de Maria Guinot, Poemas de Bibe” de Mário Viegas e Manuela de Freitas, “Jorge Lombas” do estreante do mesmo nome e “Terreiro das Bruxas” dos Vai de Roda (entretanto editado e já criticado nas páginas do PÚBLICO).
“Correspondências”, de José Mário Branco (gravado há já ano e meio e recusado por todas as grandes editoras…), assinala o regresso em disco do autor de “Margem de Certa Maneira” e “Ser Solidário”, após um interregno de seis anos e da gravação, em 85, da obra-prima “A Noite”. Canções, cartas e curtas, por oposição ao tom épicos-dramático da longa e magistral peça que dava nome ao álbum anterior.
Quanto ao disco de Rodrigo, subintitulado “Histórias, Baladas e Lendas”, o seu autor procura juntar o fado tradicional com histórias e tradições mais antigas. Para além dos inéditos inclui ainda uma homenagem a João Villaret e simultaneamente à revista portuguesa. “É também um disco que pretende de certo modo celebrar os vinte anos de carreira do Rodrigo” – como José Mário Branco faz questão de frisar.
De Dina pouco se ouviu falar desde o Festival da Canção de 82. O seu disco, ainda segundo José Mário Branco, “é exemplar de uma música mais jovem e de uma rapariga que teve um início de carreira quase retumbante e que está inexplicavelmente há oito anos sem gravar, tendo embora contrato com uma editora”. Dina está de volta, “Aqui e Agora”.
Outro regresso é o de Maria Guinot, depois de há quatro anos ter autoproduzido “Essa Palavra Mulher”. “Silêncio e Tanta Gente” foi das melhores canções que alguma vez passaram por um Festival da Canção.
Mário Viegas, depois (ou ao lado) de Villaret, é o melhor declamador de sempre da poesia portuguesa. Para ele, “Palavras ditas são palavras vivas”. Fabuloso actor e “entertainer”, surrealista na maneira de representar a vida, veste actualmente a pele de Mário “Gin Tónico” Henrique Leiria. Chame-se-lhe apenas Artista, com “A” grande. Acompanhado em “Poemas de Bibe”, (uma colectânea de cerca de 80 poemas, escritos por poetas portugueses, escolhidos especialmente para crianças) a actriz Manuela de Freitas, uma das principais impulsionadoras do teatro independente em Portugal e que participou em filmes como “O Passado e o Presente” e “Francisca”, de Manoel de Oliveira, ou os recentes “Recordações da Casa Amarela”, de João César Monteiro, e “Ninguém Duas Vezes”, de Jorge Silva Melo.
Jorge Lomba estreia-se como cantor num disco homónimo de canções firmemente enraizadas na música popular portuguesa. Dos Vai de Roda já se disse da sua excelência. Resta esperar pela resposta do grande público ao desafio lançado pelos membros da UPAV.