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Vários – “Realidade Virtual”

Pop-Rock Quarta-Feira, 06.11.1991


VÁRIOS
Realidade Virtual
LP, Fast Forward, distri. Ananana & Messerschmitt



A música portuguesa alternativa continua á procura de novos rumos. A presente colectãnea inclui temas originais dos portugueses Popper W2, Hesskhé Yadalanah, Rafael Toral, God Speed My Aeroplane, Nuno Rebelo, Adolfo Luxúria Canibal & Humpty Dumpty e Matrix Run, dos ingleses Somewhere In Europe, Zone e Pornosect, dos franceses Margaret Freeman, dos alemães Strafe Für Rebellion e do espanhol Miguel A. Ruiz.
Músicas rituais mais ou menos negras e electrónica ambiental / industrial constituem o prato forte, ilustrativo das sombras que procuram descer sobre o mundo e da influência exercida por certos magos (ou pretensos magos) negros sobre uma determinada camada dos nossos jovens músicos, de que são exemplo os temas dos Popper W2, um decalque razoavelmente credível dos Throbbing Gristle da primeira fase e dos Hesskhé Yadalanah, à procura do estatuto de Hafler Trio nacional. Menos preocupados com os ardis do demónio, Adolfo Luxúria e os Humpty Dumpty optam pelo rock industrial operário e os God Speed pela acidez das guitarras. Ao contrário dos Matrix Run, que preferem dançar ao som da “house” ambiental. Destaque para as vagas de energia sexual sintetizadas pela guitarra de Rafael Toral, aprendidas à luz da “estrela da tarde” de Fripp & Eno, e para os deliciosos 16 segundos de Nuno Rebelo aos comandos do computador. Quanto aos estrangeiros, exceptuando as colisões de metal (ressoando a Asmus Tietchens) de Miguel Ruiz, é a descida ao inferno, no fundo essa “realidade virtual” a que o título alude. Disponível por via postal, apartado 5204, 1706 Lisboa códex. (7)

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Robert Fripp – “Concerto da ‘Liga Dos Guitarristas Habilidosos’ – Robert Fripp Actua Em Lisboa”

Secção Cultura Sexta-Feira, 01.03.1991


Concerto da “Liga Dos Guitarristas Habilidosos”
Robert Fripp Actua Em Lisboa


Robert Fripp actua em Lisboa no próximo dia 15 de Abril, em local ainda por confirmar, num espectáculo único organizado por Hernâni Miguel / Contraverso. Acompanham o antigo guitarrista dos King Crimson, a League of Crafty Guitarists, constituída por onze executantes do instrumento, seus discípulos e antigos alunos de seminário.
Fripp é unanimemente considerado, depois de Hendrix, um dos grandes inovadores da guitarra eléctrica e nomeadamente da técnica por si inventada a que chamou “Frippertronics” – um sistema de interface entre a guitarra e uma série de gravadores e controladores de som que permite a criação de ciclos repetitivos e estruturas tonais susceptíveis de múltiplas manipulações.
Fundador de uma das bandas mais importantes do denominado “rock progressivo” dos anos Setenta, os King Crimson, (actuação memorável, em Agosto de 1982, no estádio do Restelo, antes dos Roxy Music) com os quais assina obras capitais como “In The Wake Of Poseidon”, “Lizard” ou, em fases posteriores, “Larks’ Tongues In Aspic”, “Red” e “Discipline”, Robert Fripp gravaria posteriormente a solo uma trilogia em que profetizava mudanças radicais para a sociedade ocidental na década de Oitenta (“Exposure”, “God Save The Queen / Under Heavy Manners” e “Let The Power Fall”).
Associa-se a Brian Eno na feitura de dois discos experimentais e obscuros: “No Pussyfootin’” – primeiro em que utiliza as frippertronics – e “Evening Star”. Com Andy Summers, dos Police, grava “I Advance Masked” e “Bewitched”. Participa como músico convidado em discos de Peter Hammill, Peter Gabriel, David Bowie, Talking Heads, Blondie e Toyah Wilcox (com quem viria a casar).

Práticas Tântricas

A meio da década de 80 retira-se para um mosteiro em Inglaterra, dedicando-se a meditação e a práticas tântricas de autodisciplina inspiradas nas doutrinas de J. G. Bennett, discípulo de Gurdjieff. A partir de 1985 dá aulas de guitarra e realiza seminários sobre novas técnicas para o instrumento. Escolhe alguns dos seus melhores alunos e forma a League of Crafty Guitarists, grupo que a partir de então o tem regularmente acompanhado em actuações ao vivo. “Robert Fripp and the League of Crafty Guitarists”, de 1986, é até agora o único registo discográfico desta formação.
Desenvolvendo-se segundo combinações instrumentais que vão desde o simples dueto até complexas polirritmias e explorações tímbricas praticadas pela totalidade dos doze intérpretes, a música da “Liga dos guitarristas habilidosos” é o contraponto estético e estilístico da visão “brutista” e totalitária das orquestrações para guitarra eléctrica, de Glenn Branca. Abril, em Lisboa, as guitarras vão cantar.

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Bernardo Devlin – “Circa 1999 – 9 Implosões”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
5 Dezembro 2003


BERNARDO DEVLIN
Circa 1999 – 9 Implosões
Ed. e distri. Extremocidente
8|10



Devlin é um músico estranho, habitante de constelações geladas e com os olhos demasiadamente abertos para a noite. “Circa 1999” faz em absoluto jus ao complemento “Nove implosões”. A voz deste antigo elemento dos Osso Exótico situa-se algures entre o romantismo sombrio de Scott Walker e o tom operático de Peter Hammill, neste caso num registo próximo do de “The Fall of the House of Usher”. Entre a declamação, o lamento e a litania, Devlin fala da “Hora morta e outros segundos”, “À altura dos olhos” e de um “Novo alvor”, segundo uma gramática de secretas cifras interiores na qual “olhos” e “luz” são termos recorrentes. É dessa visão, alucinada (mas não é a alucinação a visão do invisível?) que nos fala e que nos esconde, sobre impenetráveis paisagens electrónicas que devem tanto à música industrial como à toca sem entrada nem saída de “Tilt”. Não é psicadelismo, porque a evasão onírica não é permitida, antes o desvario de poder de uma estranha cerimónia de sado-maso astral, em que a música – pianos tumulares, saxofones febris e eletrónica fabril, percussões dos abismos, naipes de cordas fúnebres – determina o mais pequeno gesto na encenação desta paixão infernal em forma de estátua.

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