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Vários – “Encontros Da Tradição Europeia Arrancam Hoje Em Famalicão – O Baile Vai Começar” (concertos / festivais / etno / céltica / world)

Secção Cultura Quarta-Feira, 03.07.1991


Encontros Da Tradição Europeia Arrancam Hoje Em Famalicão
O Baile Vai Começar




Da Occitânia à Catalunha, do Piemonte à Irlanda e Escócia, sem esquecer o Portugal de ressonâncias celtas, a aposta na divulgação de uma herança musical que, fluindo embora por diferentes leitos, nasceu e desagua em águas comuns. Europa de novo confluente no seu extremo geográfico e anímico mais ocidental.

Em Famalicão têm hoje início os 2ºs Encontros da Tradição Europeia, que também decorrerão em Oeiras, Évora e Guimarães. Como no ano passado, são organizados pela Cooperativa Cultural Etnia. Durante treze dias, a música tradicional ocupa o centro das atenções. De Norte a Sul, desenhando um quadrilátero (ou uma cruz) arquitectado com a energia animada, dizia Pascoais, pela “saudade do Futuro”. Compreender esta expressão é compreender o sentido do tempo e a maneira como a cultura se estratificou na Europa, varrida nos primórdios por ventos e ideais do Oriente.
Dos brâmanes hindus e bardos celtas aos novos trovadores que, entre o cimento das grandes metrópoles, de novo erguem o bordão e a “estela”, são ainda e sempre os eternos peregrinos do novo mundo, a calcorrear estradas e eras de São Tiago, entre pedras e estrelas, até Compostela, a buscar o infinito.

Oito Descobertas

Oito caminhos, outras tantas descobertas: Altan (Irlanda), Robin Williamson (Escócia), Whippersnapper (Inglaterra), Perlinpinpin Folc (Occitânia, França), La Grande Bande des Cornemuses (França), La Ciapa Rusa (Piemonte, Itália), Rosa Zaragoza (Catalunha, Espanha), Vai de Roda e Romanças (Portugal).
Com três álbuns gravados, “Altan”, “Horse with no heart” e o recente “The red crow”, os Altan constituem uma das grandes revelações da “Folk” irlandesa dos últimos anos, da estirpe de grupos lendários como os Bothy Band ou Planxty. Mairead Ni Mhaonaigh (violino e voz), Frankie Kennedy (flauta), Ciaran Curran (bouzouki), Mark Kelly (guitarra), Paul O’ Shaughnessy (violino) e Ciaran Tourish (violino) dão corpo e voz a um ritmo endiabrado e a melodias inspiradas no gaélico, que, no cruzamento entre o antigo e o novo, recuperam a jovialidade e o ritual de encontro com a terra.
A Oriente da “terra da ira”, os Whippersnapper fazem dos instrumentos de corda reis da festa. São três (Dave Swarbrick, violinista louco dos seminais Fairport Convention, abandonou recentemente): Martin Jenkins e Kevin Dempsey (antigos membros de uma das bandas mais interessantes da “Progressive Folk” dos anos 70, os Dando Shaft) e Chris Leslie. Juntam o “mandocello”, o bandolim, as guitarras e a flauta aos sintetizadores, aliando a doçura dos “airs” à electrónica e a um discurso por vezes próximo do “jazz”.
O terceiro representante das Ilhas Britânicas é Robin Williamson, novo bardo escocês, harpista como mandam as regras do segredo. Integrou, ao lado de Mike Heron, uma das bandas mais estranhas de sempre, os Incredible String Band, mistura exótica de mil e um instrumentos, mantras hipnóticos e mitologia celta, com o rock e o “senhor doa néis” de permeio. A dada altura optou pelo que julgou ser o essencial: a harpa, o mundo antigo, as lendas e histórias para crianças. A solo ou com os Merry Band. Vinte e seis álbuns gravados e uma recusa sistemática em se entregar aos esquemas da indústria, conferiram-lhe o estatuto de referência obrigatória no capítulo dos grandes músicos populares do nosso tempo.

A Vassoura Também Toca

Perlinpinpin Folc e La Ciapa Rusa repetem a presença nos Encontros. Regresso inteiramente justificado, já que constituíram dois dos melhores momentos da edição do ano passado. Ambos recuperam, de forma deslumbrante, a música popular das respectivas regiões (Occitânia e Piemonte), enriquecendo-a com um bom gosto e uma mestria técnica notáveis, servidos por arranjos inovadores. Fabulosos, no caso dos italianos, a voz divinal de Donatta Pinti e o modo como manejam as sanfonas, de fazer corar o espalhafato supérfluo das “estrelas do rock ‘n’ roll”. Quanto aos franceses não espanta vê-los tocar um saxofone feito de um cabo de vassoura ou uma espécie de realejo de vidro, enquanto as vozes se vão ocupando de intricadas polifonias.
Momento especial será decerto aquele proporcionado pela Grande Bande de Cornemuses, grupo de 10 tocadores de gaitas-de-foles, oriundo de Lyon, dirigido por Jean Blanchard (membro fundador dos La Bamboche), preparado para, logo no primeiro dia, animar as ruas de Algés, contando para tal com a encenação de Laurent Figuière, baseada na relação ancestral entre o homem e a Natureza.
Em Rosa Zaragoza encontram os judeus sefarditas do Sul de Espanha uma das suas vozes mais empenhadas, em álbuns como “Cançons de noces dels jueus catalans” ou “Cançons de Bressol del Mediterrani”. No mais recente, “Les nenes bonés van al cel, les dolents, a tot arreu”, (as meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado…) manifesto a favor das tais que “vão para todo o lado”, defende esta e outras minorias, como a cigana e a índia. Rosa vem acompanhada de quatro músicos, mas só o timbre inusitado e a emoção do canto chegam para provocar arrepios.
Finalmente os portugueses Vai de Roda (Tentúgal sempre às voltas com as bruxas do terreiro) e Romanças (que recentemente andaram em digressão pelas Ilhas Britânicas) completam um programa recheado de nomes importantes, capaz de, a breve prazo, tornar estes “Encontros” num dos principais festivais europeus de música tradicional.

PROGRAMA DAS FESTAS
ÉVORA
Praça do Giraldo
6 de Julho Altan
Perlinpinin Folc (Irlanda)
(Occitânia / França) 10 de Julho Whippersnapper
Perlinpinpin Folc (Inglaterra)
(Occitânia / França)
10 de Julho Rosa Zaragoza

Robin Williamson (Catalunha / Espanha)
(Escócia) 11 de Julho La Grande Bande des Cornemuses (França)
11 de Julho Whippersnapper
Vai de Roda (Inglaterra)
(Portugal) 16 de Julho Romanças
Robin Williamson (Portugal)
(Escócia)
FAMALICÃO
Praça 9 de Abril Oeiras
Auditório do Complexo Social das Forças Armadas
3 de Julho Vai de Roda
Perlinpinpin Folc (Portugal)
(Occitânia / França) 6 de Julho La Grande Bande des Cornemuses (França)
5 de Julho Altan
Rosa Zaragoza (Irlanda)
(Catalunha / Espanha) 7 de Julho Altan
Rosa Zaragoza (Irlanda)
(Catalunha / Espanha)
9 de Julho Whippersnapper
La Grande Bande des Cornemuses (Inglaterra)
(França) 12 de Julho Whippersnapper
Vai de Roda (Inglaterra)
(Portugal)
12 de Julho Robin Williamson (Escócia) 13 de Julho Perlinpinpin Folc

Robin Williamson (Occitânia / França)
(Escócia)
GUIMARÃES
Praça do Santiago Todos os espectáculos são gratuitos e iniciam-se às 21h30
Excepcionalmente, a actuação de La Grande Bande des Cornemuses em Oeiras (6 de Julho) realiza-se no parque dos Anjos, em Algés
4 de Julho La Ciapa Rusa

Altan (Piemonte / Itália)
(Irlanda)



Hexagone – Vários – “Divulgados Segredos Do Hexágono”

Pop-Rock, Quarta-Feira, 03.07.1991


DIVULGADOS SEGREDOS DO HEXAGONO

A Hexagone foi a principal editora francesa dos anos 70, na área da música folk. Contando com o grupo Malicorne como cartão de visita, foi alargando o catálogo até albergar no seu seio tendências tão diversas como as experiências de renovação da música tradicional, de expressão francesa, a ortodoxia militante do tango de Juan José Mosalini, ou o genuíno reggae dos Steel Pulse. As capas, do tempo em que não era necessário poupar cartão, são pequenas maravilhas. Mas a mudança dos tempos implicou a reconversão para o formato CD de, para já, dez títulos deste catálogo, em boa hora distribuído entre nós pela MC-Mundo da Canção.



Surgidos na primeira metade dos anos 70, na altura em que, do outro lado da Mancha, o “folk revival” britânico atingia o apogeu, e em Frnaça, seguindo o exemplo do bretão Alan Stivell, se davam passos semelhantes, os Malicorne constituem, para muitos, o expoente máximo daquilo que é possível fazer de novo, sem atraiçoar o espírito original, a partir da infinita matriz da música tradicional.
Datado de 1974, “Malicorne” irrompe na cena folk com a imponência e majestade de um monarca que, por direito divino, se prepara para tomar posse do seu reino. Clássico nas premissas, o álbum evidencia já o leque de estímulos estéticos e a fabulosa capacidade geradora de imaginários luxuriantes fundados e forjados nas lendas e rituais celtas, de que a banda se viria a revelar formidável cultora.
Entre as rondas, “bourrées” e “branles” gaulesas, avultam as baladas divinamente interpretadas pelos irmãos Yacoub, Gabriel e Marie, e as sonoridades de ressonâncias medievais, arrancadas aos céus e aos abismos por uma instrumentação rica e diversificada, onde pontificavam o violino, “bouzouki”, saltério, bandolim, órgão de foles, cromorna, espineta e sanfona.
Para a história ficariam este e os álbuns seguintes, anteriores à decadência: “Malicorne” (foram editados três discos diferentes com a mesma designação), “Almanach”, “Malicorne”, “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” e “Le Bestiaire”.

Ciclos Mágicos

No ano seguinte, novo disco intitulado “Malicorne”. Histórias de guerras e de amores: a rendição amorosa de Henriette de France ao rei Carlos I de Inglaterra, em “Le mariage anglais”. Os passeios de Marion, “La fille aux chansons”, por um jardim encantado à beira-mar, até ser raptada por piratas. O voyeurismo juvenil do “galante indiscret” que olha a sua “nanette” na penumbra gelada da meia-noite. Motes gregorianos, “andros” bretões, canções nascidas das profundezas do cancioneiro occitano. Mil e uma maneiras de cantar o lado mágico do mundo.
“Almanach”, álbum conceptual, é um “pequeno almanaque das tradições, festas mágicas e procedimentos que devem ser seguidos durante os doze meses do ano”. Para Gabriel Yacoub, só o conhecimento das práticas mágicas e dos ciclos cerimoniais, relacionados com as estações do ano, permite “compreender em profundidade o fundo espiritual dos cantos tradicionais”.
“Malicorne”, álbum número quatro, aprofunda a vertente clássica do grupo: “Nous sommes sonneurs de sornettes”, gavota retirada de “Terpsichore”, recolha de danças antigas compiladas por Michael Pretorius, entre 1571 e 1621, “Daniel mon fils”, inspirada no canto litúrgico das “Vésperas”, ou “La fiancée du timbalier”, escrita com base numa “pastiche” de Victor Hugo sobre a poesia medieval, projectam os Malicorne na busca do alicerce definitivo que sustenta o mundo e fundamenta a liberdade. Histórias sem fim, cíclicas, de transformações, típicas da mitologia celta: “La blanche biche” conta as desventuras da deusa Sarv, meio mulher, meio raposa, numa complexa polifonia vocal, em que a voz de Marie Yacoub se eleva sobre um “órgão de vozes” celestial.
O sonho prosseguiria, já na Elektra, com “L’Extraordinaire Tour de France…” (viagem iniciática de um pedreiro-livre pelo país de França) e “Le Bestiaire”. “Le Balançoir en Feu” e “Les Cathédrales de l’Industrie” pouco ou nada têm que ver com a aventura inicial.

Quintas-essências

De certa forma discípulos dos Malicorne, os La Bamboche constituem outra importante coluna do templo. Com quatro álbuns gravados (dois de título homónimo, “Quitte Paris” e “Née da la Lune”), os La Bamboche, liderados por Jean Blanchard – músico que deverá vir a Portugal, durante os II Encontros da Tradição Europeia, a realizar brevemente -, enveredam, na fase Hexagone, por uma via mais tradicionalista, recorrendo às danças rurais e ao “sabor a terra” da sanfona, do acordeão e da rabeca. A editora optou, para já, pela edição da colectânea “Quintessence” (genérico igualmente utilizado para os Malicorne, num e noutro caso subintitulado “pequeno sumário das suas mais belas cnções…”).
“Le Grand Bal Folk” reúne os Malicorne, La Bamboche, La Chiffonie e Le Grand Rouge na celebração feérica das danças rurais (na capa referem-se as “bourrée”, valsa, polka, mazurka, marcha “scottish”, giga, gavota e “branle”…). Quem, nos tempos de hoje, sabe ainda dançar como mandam as regras?
Grupo emblemático da folk magiar, distante dos códigos enunciados pelos Vosjikas, Sebö Ensemble ou os Muzsikas, de Marta Sebestyen, só para citar alguns nomes editados em Portugal, os Kolinda caracterizam-se por uma aproximação sofisticada (e estilizada) ao folclore húngaro, sem renegarem as “vozes” de instrumentos tão característicos como o “gardon” (espécie de violoncelo esculpido num tronco de árvore), a espineta húngara ou o oboé turco (versão da popular bombarda bretã). Destaque para a voz profunda e misteriosa, de Agnes Zsigmondi e para os arranjos, tradutores da vertente mais soturna e dramática da sensibilidade magiar.
Completam a lista dos compactos agora editados pela Mundo da Canção os tangos de “Don Bandoneón”, superiormente interpretados a solo, no bandónio, por Juan José Mosalini, e a viagem guitarrística pelos universos de fábula de “Douar nevez” (“terra nova”), empreendida com algumas cedências de mau gosto ao rock por Dan Ar Bras, antigo companheiro de Alan Stivell, nos tempos de “Chemins de Terre”.
Do catálogo Hexagone constam ainda (por enquanto só em vinilo) outras obras dos já citados La Chiffonie, Kolinda, La Bamboche e Le Grand Rouge, bem como dos Vielleux du Bourbonnais (quatro sanfonineiros e dois gaiteiros), dos argentinos Lagrima e Tiempo Argentino e dos mexicanos Tequila. Por estas e por outras é que gostamos tanto dos franceses.

Milton Nascimento – “Os Artistas Vão Onde O Povo Está” (c/ António Curvelo – Pat Metheny)

Sexta-Feira / Fim De Semana – CONCERTOS, 28.06.1991


OS ARTISTAS VÃO ONDE O POVO ESTÁ (com António Curvelo)
MILTON NASCIMENTO



Domingo, 30 de Junho, 22h. Campo Pequeno. A Pat Metheny, já lhe chamaram “futurista moderado”. O guitarrista, um dos maiores de jazz dos anos 80, volta a tocar, desta vez em Lisboa, com Milton Nascimento, o cantor que levou o Brasil à terra de Metheny e que dá, agora, voz aos índios da Amazónia. Mais uma coincidência: ambos vão tocar a solo no Porto: primeiro, o brasileiro, depois será a vez do americano

“Todo o artista tem de ir aonde o povo está” – a afirmação pertence a Milton Nascimento e serve para definir uma atitude perante a arte e avida que, no seu caso, significam uma e a mesma coisa. Milton Nascimento, (voz militante das minorias, negra, índia, ou dessa raça em vias de extinção que é a humanidade), nasceu no Rio de Janeiro, há 49 anos, onde foi adoptado por uma família que o ensinou a partilhar “os campos e os rios, um céu belo não poluído e os jogos que as crianças de hoje não conhecem mais”. Percebe-se que nunca perdeu essa inocência, quando se ouve a voz sussurrar segredos, imensamente terna.
No Estado de Minas Gerais, forma, com Wagner Tiso, o grupo vocal “Luar de Prata” e diverte-se na rádio a fazer de “disc-jockey” ou de “crooner” em bailes populares, integrado nos “W’s Boys”. Wagner ajuda-o a transitar do rock para o jazz. Da voz, diz Elis Regina que “se Deus cantasse com toda a certeza o faria usando a voz de Milton Nascimento”.
Eumir Deodato, percussionista de jazz-rock, leva-o pela primeira vez, em 1968, aos Estados Unidos, para a gravação do álbum “Courage”, com Hubert Laws e Herbie Hancock, dois “jazzmen” conceituados. Hancock fica fascinado com a música do “negrão” cuja voz “parece vir de um lugar misterioso”, envolvendo todos “com o calor do sentimento humanop”. Milton, por seu lado, não resiste a introduzir no seu trabalho o verniz das grandes orquestrações, típico da “maneira de fazer” americana. Regressado a um Brasil então prenhe de mudanças sociais e políticas, grava “Clube da Esquina” (1972), prenunciando a obra-prima que o lançaria como embaixador da música brasileira no mundo: o duplo álbum “Milagre dos Peixes”, editado em 1973, com a colaboração do grupo “Som Imaginário”, do qual faziam parte, entre outros, Wagner Tiso e Nivaldo Ornelas. Nele, Milton, “porta-voz de todos quantos não têm possibilidade de se expressarem”, canta “os sonhos, as esperanças, angústias e frustrações do povo, a sua coragem e a sua força”. O suficiente para a censura proibir as letras. Mais permissiva, a América das patacas abre-lhe definitivamente as portas. “Native Dancer”, com o saxofonista Wayne Shorter, junta num discurso jazzístico a luminosidade da voz à negritude do sertão.
Acredita que “há um modo, ainda, de dizer a verdade: com o violão”, doa a quem doer: A verdade da atureza destruída pelo homem, a verdade do negro exilado e humilhado, a verdade do ódio, a verdade do amor”. “A arte é o caminho da liberdade” – afirma, com convicção lúcida da “Sentinela” que guarda os caminhos do mundo. Em “Missa dos Quilombos”, álbum de 1980, gravado ao vivo na igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Minas Gerais, celebra a morte e a ressurreição do povo negro, comparando-as à Paixão de Cristo.
O seu empenhamento político, ao lado da oposição contra o autoritarismo vigente, está bem patente nas obras “Paixão e Fé” (1985) e “Encontros e Despedidas” (1986) e na canção “Coração de Estudante”, transformada em hino do “Movimento para a democracia”. Tempo de luta, prosseguindo em “Barca dos Amantes” ao lado de outro resistente, o português Sérgio Godinho.
“Yauraté” (1987) assinala o apelo irresistível da selva amazónica e o abraçar de uma causa vital para o futuro do planeta. Participação especial de Paul Simon que retribui, convidando Milton para as festividades de “Rhythm of the Saints”. Finalmente, em 1989, “Txai” e a viagem colectiva ao “coração da luz”, subida do rio Jurua até à nescente e à música primordial dos índios Waipai, Kayapo e Surui. Reencontro com a pureza edénica de quem “se expressa através de tudo o que faz e não sabe fingir” – “eu cantava para eles e eles cantavam para mim. As crianças falavam com a lua e com as estrelas e nós tínhamos de formular os nossos desejos”. O de Milton Nascimento passa por devolver ao mundo a “humanidade perdida”.
Milton traz consigo ao Coliseu de Lisboa: Ronaldo Silva (percussão), Robertinho Silva (bateria), Vanderlei Silva (percussão), Túlio Mourão (teclados) e João Baptista (baixo).

PAT METHENY (António Curvelo)