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Carlos Santana – “Carlos Santana Antecipa Concerto De Alvalade – Amor, Devoção E Rendição” (concertos)

Secção Cultura Sexta-Feira, 26.07.1991


Carlos Santana Antecipa Concerto De Alvalade
Amor, Devoção E Rendição


Durante três horas de música e misticismo, Carlos Santana vai mostrar por que é considerado um herói da guitarra e depositário fiel dos ideais dos anos 60. Não receia o embate com as gerações mais novas. Afinal, “os jovens também têm coração”.



Há místicos e místicos. Ou seja há místicos e mistificadores, o que não é bem a mesma coisa. No primeiro caso estão Santo Agostinho, Santa Teresa D’Ávila, Vasco Gonçalves, Sousa Cintra ou o arcebispo de Braga. São pessoas que se inflamam facilmente, possuídos pela chama divina, entrando em transe para melhor receberem as directivas do alto e depois as transmitirem aos subalternos. No segundo incluem-se os que fingem sentir o que não sentem. São os chamados macacos de imitação que, em matéria de transporte místico, o melhor que conseguem é apanhar o autocarro para o Calvário. Há muitos. Quase todos. Na música abundam as duas espécies. Os compositores medievais, John Coltrane, Duke Ellington, Keith Jarrett, John McLaughlin e Amália Rodrigues são místicos. Sting e Roberto Carlos são mistificadores. E Carlos Santana, o que é? Vamos ver.
É preciso não esquecer que o guitarrista integrou a geração “hippy” dos anos 60, de Woodstock, paz, amor e “flower-power” – “basicamente um punhado de adolescentes que recusaram o Vietname e fizeram frente à autoridade”. Isso, e a descoberta de um novo mundo proporcionada pela ingestão industrial de alucinogéneos – “muita gente morreu por ter tomado as drogas erradas, mentes fracas que não conseguem suportar o confronto com a realidade cósmica derradeira e acabam por atirar-se de uma janela”. Ele tomou as certas: LSD, mescalina e peyote (um cogumelo pouco recomendado em culinária).

Experiência Religiosa

Em Woodstock viu “muita beleza e potencial e um oceano de carne, olhos, dentes e braços, a oposição à América oficial”. “Hoje é diferente” – opina – “as gerações mais novas tomam drogas como a cocaína ou a heroína para fugirem e se alienarem, não para uma elevação espiritual.” De Altamont recorda a sensação de “uma presença demoníaca” e, nos olhos de Mick Jaegger e Keith Richards, a expressão da “paranoia total, incontrolável”.
Não tem nada contra os Happy Mondays, que “não conhece bem”, embora preferisse partilhar o concerto com “músicos africanos, ou com uma sensibilidade mais próxima” da sua, nem receia um mau acolhimento da sua música, por parte da camada mais jovem do público, vinda para ouvir a banda de Shaun Ryder – “os mais novos também têm coração”.
Para Carlos Santana a música constitui “uma experiência religiosa, uma forma de processo espiritual” – música que não “vem” dele, mas “passa através” dele, como faz questão, amiúde, de frisar. Títulos como “Lotus”, “Moonflower”, “Inner secrets”, “Silver dreams & golden reality” ou “Spirits dancing in the flesh” não enganam ninguém.
Dois Johns, como ele também iluminados, desempenham um papel importante na sua vida: Coltrane e McLaughlin. O primeiro é influência assumida, na espiritualidade ou na pilhagem do título “Welcome”. O jovem músico terá chegado mesmo a dormir ao som de gravações do saxofonista e autor de “Blue Train”, durante a noite inteira. De qualquer modo gravou com Alice Coltrane o álbum “Illuminations”.

Adeus Guru

Com John McLaughlin deixou para a posteridade as vibrações de “Love, devotion, surrender”, apesar de na altura ter achado a experiência intimidatória – “John McLaughlin era e é como um oceano de música e luz”. Carlos Santana não passava, então, de um “adolescente hesitante”. Através de John McLaughlin travou conhecimento com as doutrinas do guru Sri Chinmoy que renegaria, após anos de devoção e sacrifício, quando percebeu tratar-se afinal de “uma mera questão de poder”. Miles Davis, a quem chama “o Muhammad Ali da música”, é outra das fontes inspiradoras que gosta de citar.
Chega a Portugal com umas décadas de atraso mas não se preocupa muito com isso. Ele que em tempos afirmara: “Os músicos vêm como por um rio. Cavalgam os rápidos até chegarem a águas mais clamas e depois seguem, substituídos pelos mais novos que juntam á corrente a sua própria energia e inspiração”. Em relação ao concerto de amanhã, apenas deseja, como disse ao PÚBLICO, que as pessoas se “sintam felizes”.

Santana – “Mística”

Pop-Rock Quarta-Feira, 24.07.1991


Santana – Mística



“Acredito em anjos. Continuo a sentir um arrepio ao pensar em algo que não vem de mim ,as passa através de mim”. Segundo esta sua declaração, Carlos Santana seria uma (ou mais) das seguintes coisas: a) um mistificador; b) um louco; c) alguém debaixo do efeito pernicioso de drogas fortemente alucinogénias; d) um místico genuíno. Pondo de parte a primeira hipótese, por falta de provas.
Carlos Santana desde cedo enveredou pela carreira de músico. Durante a juventude tocou num bar suspeito, em condições que o terão marcado para o resto da vida, fazendo eclodir na sua alma juvenil, por contraste, uma grande ânsia de pureza e espiritualidade. Nessa “cantina”, como lhe chamava, Carlos tocava guitarra das quatro às cinco da madrugada, para dar lugar, a seguir, a sessões de “strip-tease” com prostitutas. Visões de um mundo sórdido que apenas a droga permitiria apagar. Após essa experiência traumática e de ter lavado pratos num restaurante, formou finalmente os Santana Blues Band, banda à qual, mais tarde, retiraria os dois últimos nomes.
Na época, o mundo explodia, em plena “feérie” psicadélica. Em São Francisco, centro floral da cultura “hippy”, o jovem Carlos foi seduzido pela liberdade de costumes e a mistura de tudo que aí proliferava. Os Sanatna projectavam-se definitivamente na cena mundial, através de uma memorável actuação no mítico Woodstock. Nessa ocasião, entre a grandiosa desorganização vigente, Carlos terá cometido um erro de cálculo ao ingerir doses consideráveis de mescalina como preparativo para o concerto programado para mais tarde. Só que alguém o terá empurrado para o palco, dando-lhe tempo apenas de pedir ajuda a Deus para “não desafinar” e de deslumbrar uma multidão rendida ao poder de “Soul Sacrifice”.
Em 1972, instigado por John McLaughlin, converteu-se aos ensinamentos do guru Sri Chinmoy. Deixou de fumar, de beber e de outras coisas. Hoje renegou o mestre – “Os gurus tornam-se paranóicos quando os estudantes transcendem a sua filosofia” – a partir daí, dispensando os intermediários entre si e a divindade. A nova filosofia de vida, de carácter gnóstico, resume-a do seguinte modo: “Deus revela-me que há uma luz vermelha que me diz para parar, uma verde para seguir e uma amarela para abrandar”.
Para Carlos Santana era o consumo cada vez mais desenfreado de drogas e a imersão total no universo da transcendência. Torna-se-lhe progressivamenre mais difícil distinguir a realidade da ilusão. Quando diz que a legião de fumadores de haxixe de Woodstock equivalia à Resistência francesa ou que tocou com Herbie Hancock, Wayne Shorter, Willie Nelson, Buddy Miles, John Lee Hooker e Alice Coltrane, sentimos ao mesmo tempo piedade e simpatia. Refere-se, a propósito do actual ressurgimento do seu nome, à música, como “água pura, paciente, que sempre acaba por penetrar a rocha”. Acenamos que sim, que estaremos todos em Alvalade.

Santana – “Discos”

Pop-Rock Quarta-Feira, 24.07.1991


Santana – Discos

Droga, religião, guitarras, ritmo são termos-chave no percurso discográfico e pessoal de Carlos Santana, um músico para quem a música é mais do que simples sons. No seu caso, trata-se antes de um caminho em direcção ao autoconhecimento e à contemplação das grandes verdades cósmicas. Mas nem sempre foi assim. Os discos citados, extraídos do lote até à data disponível em Portugal, representam momentos significativos das fases “antes” e “depois” da conversão. O terceiro é importante na medida em que sumariza os principais marcos da viagem.

ABRAXAS

Celebração eufórica de latinidade e da pujança rítmica de raiz afro-cubana, “Abraxas” consegue juntar, sem perdas para qualquer dos lados, a energia do rock, a sensualidade e o fogo da América Latina. Na altura de edição de “Santana”, o disco estreia, o mercado fora apanhado de surpresa pelo “cocktail” explosivo de “Soul Sacrifice”. “Abraxas” confirmou a solidez da proposta, atirnado com o álbum para o topo dos tops. Pertencem-lhe os temas mais insistentemente recordados e que fizeram a fama da banda: “Oye como va”, “Samba pa ti” e “Black magic woman”, indiscutíveis em qualquer convívio ou discoteca da altura. Apetecia de facto, ao ouvi-las, agarrar num corpo disponível e com ele dançar ao som da lava produzida pela guitarra sinuosa de Carlos, então ainda não “devadip”, e o batuque hipnótico arrancado às entranhas da terra por uma secção rítmica onde pontificava a bateria poderosa de Michael Shrieve. Antecipnado a vaga de fundo da “World music”, das grandes sínteses musicais planetárias, o exotismo plurifacetado dos Santana, nascido das mestiçagens permitidas pela geração Woodstock, surgiu cedo de mais. Depois de “Abraxas”, a música teria forçosamente que ser outra.

LOVE, DEVOTION, SURRENDER

O disco vale essencialmente como ponto de partida para uma apreciação da vertente mística que Carlos Santana até hoje não deixou de cultivar. “Love, Devotion, Surrender”, na teoria, procura traduzir musicalmente as doutrinas propagandeadas pelo guru Sri Chinmoy, o que, na prática, resultou em assombrosos solos de guitarra, a solo ou em dueto com “Mahavishnu” John McLaughlin, ambos discípulos na senda ascética, mas senhores absolutos dos respectivos instrumentos. Mesmo levando em conta a alegada insegurança, Carlos Santana confessou ter sido durante as gravações, intimado à rapidez, os conhecimentos e o virtuosismo do companheiro. O disco constitui como que o contraponto ao perfeccionismo colectivo e ultra-estruturado de “Birds of Fire” da Mahavishnu Orchestra (que aqui contribuiu com o baterista Billy Cobham e o teclista de Hammer). Dois temas de John Coltrane (“A supreme” e “Naima”) e o mantra “Meditation” ajudaram a “subir” muito boa gente, com o recurso extra a substãncias químicas auxiliares. Mas como diz o ditado: quanto maior a subida, maior é a queda.

THE BEST OF SANTANA

Neste “Best of” agora editado, a escolha dos temas foi acertada na medida em que permite mostrar as diversas vertentes de uma banda e um músico que sempre souberam evitar a mediocridade, mesmo se na altura se tenham rendido em áreas mais secas e vendáveis. “Os clássicos” já citados espalham-se pelo primeiro disco, intercalados com temas menos conhecidos, como “Juga” ou “Jin-go-lo-“ comprometendo se mais interessantes aquela que vai de 1969 a 1977. Em relação ao segundo disco houve a preocupação de mostrar o virtuosismo dos músicos, bem patente nos temas mais longos, de que “Dance dance” (de “Amigos”, com os seus muitos minutos de imbatível balanço são exemplo paradigmático. Na fluência dos ritmos latinos com o jazz rock, a música dos Santana permanece hoje na crista do rock “mainstream” sem (demasiadas) concessões.