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Bizarra Locomotiva – “Homem Máquina”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
18 Abril 2003


BIZARRA LOCOMOTIVA
Homem Máquina
Metrónomo, distri. Zona Música
7|10



Já que anda toda a gente a escarafunchar nos anos 80, porque não deitar o dente à boa e massacrante música industrial e à “electronic body music” que naquela década procurou revolucionar as rotações cardíacas e o ritmo das discotecas, através de agentes como os Front 242, Skinny Puppy, Controlled Bleeding ou Front Line Assembly? Verdade seja dita que a locomotiva conduzida por Armando Teixeira nunca circulou longe destes apeadeiros e que “Homem Máquina” não faz mais do que atualizar uma direção há muito encetada pelo grupo. Sobre temáticas como a simbiose homem-máquina (divergente do conceito de “man machine” dos Kraftwerk…), da mitificação demoníaca da heroína ou da relação de poder entre o escravo e o amo, “Homem Máquina” é pura maquinaria em ação de combate onde as noções de ludicidade, guerrilha mental e sexo se confundem em batidas do III Reich. Umas vezes assimilando a vertente “agit pop” dos Mão Morta ou, como, em “O meu anjo”, a sugerir que tipo de pop faria Abrunhosa se estivesse “agarrado” ao pó. “Um homem é um homem, uma máquina é uma máquina”, repete Armando Gama, obsessivamente, nas duas partes de “Homem máquina”. Frase que, repetida de forma maquinal, afirma exatamente o contrário do que enuncia. Bizarra? Os êmbolos da locomotiva trituram a carne e a mente na sua travessia pelo túnel.



Lesser – “Gearhound”

Y 2|FEVEREIRO|2001
escolhas|discos

LESSER
Gearhound
Matador, distri. Zona Música
7|10



J. Lesser, ISR, 157, Backfire, DJ 40 Year Old Woman (!), não importa como se apresenta. É um foragido de bandas rock que encontrou na eletrónica o último refúgio da “estética punk”. Trabalhou com Matmos e Kid606 (com quem prepara o projeto Sex Pixels…) e no horizonte está uma colaboração com os Blectum from Blechdom. Formou uma banda de covers dos Metallica, os Creeping Death, e ao vivo as suas atuações pautam-se pelo caos e destruição. Editou a cassete “I hate me”, acompanhada da oferta de uma lâmina de barbear (verdadeira) e um bocadinho de LSD (falso). Tudo junto explica este “Gearhound”, carga explosiva de eletrónica apocalíptica onde se misturam as influências dos Big Black, Sebadoh, Meat Beat Manifesto, Public Enemy e Negativland. Um dos temas, “Cheeseburger lady”, é uma réplica de “Hamburguer lady”, dos Throbbing Gristle. Dat Politics, Atari Teenage Riot e Speedy J não passam de easy-listening, comparados com a tareia sónica de J. Lesser.



Boris Ex Machina – “Tango Infernal”

POP ROCK

2 de Outubro de 1996

portugueses

Boris Ex Machina
Tango Infernal
ED. E DISTRI. SYMBIOSE


bem

O universo dos Boris Ex Machina tem tanto de literário como de musical. “Tango Infernal” vive de um conceito e de um leque de aproximações que se situam à margem do rock, alimentando-se de nostalgias várias e delas sugando uma essência de láudano mas deixando entender uma via apontada à experimentação e, até, ao confronto. Convergem nesta estreia discográfica do grupo a valsa-musette, obviamente o tango, o cabaré e os circuitos integrados, e um romantismo, por vezes trágico, que deixa a anos-luz de distância os vagidos funeral-nacionalistas dos Sétima Legião. Fumos de ópio e brumas pegajosas sobre o porto de Amsterdão – Brel a pairar como um espectro húmido. O acordeão do “outsider” Rini Luyks, a utilização de “samples” e da electrónica por vezes industrial e o sentimentalismo afectado da voz sugerem tanto a “chanson” francófona como a feira hermética dos Tuxedomoon ou o circo piegas de António Calvário. Os Boris Ex Machina sonham com um tempo mais antigo e aventuras e sentimentos suspeitos. De bares com má fama e vielas mal iluminadas onde, a cada esquina, espreita uma alucinação. Um arco obriga a chorar o contrabaixo, a máquina tanto levita num “sample” de vibrafone como estremece no “delirium tremens” de um saxofone alcoolizado. A valsa retorna, obsessiva, enquanto as palavras – do polivalente Armando Teixeira mas também, no tema final, de Mário de Sá-Carneiro – se perdem nos seus próprios meandros, tornando-se por vezes ininteligíveis e deixando espaços perigosos à imaginação. Pós-rock, ambiental não conformista, corsário na pilhagem das épocas e na manipulação das memórias colectivas, reais ou empilhadas dos livros e dos filmes, “Tango Infernal” traz para a superfície algo de brumoso e informe, materializando terrores vagos, pondo os monstros a cantar canções de variedades. (7)