Arquivo da Categoria: Artigos 1994

Balanço do Ano de 1993 – World Music

Pop Rock

5 JANEIRO 1994

O ANO EM WORLD

O ANO DO DILÚVIO


moller

Para muitos, cada vez mais, a música tradicional, ou de raiz tradicional, é a música do futuro. Uma música que nasceu com o nascimento da própria música. Que religa e se projecta nas três dimensões que cruzam o ser: Deus, Homem, e Natureza. Uma música que incessantemente muda de forma sem perder o coração. Eixo de sons, terreiro de danças. De palavras que contam histórias. Arquétipos da vivência humana, transmitidos de geração em geração. A “world music” – designação que neste suplemento, por conveniência de arrumação, se aplica num sentido lato a todas as músicas que integrem elementos tradicionais – ganha a cada dia novos adeptos e maior vitalidade. Na Europa é visível a importância crescente do género, na multiplicação dos lançamentos discográficos e dos festivais, na criação de novos organismos e circuitos de divulgação e edição. Em Portugal são também em cada vez maior número aqueles que descobrem na folk, na étnica, nas diversas sínteses do novo mundo um universo interminável de múltiplas geografias, exteriores e interiores.

Se em anos não tão afastados como isso, era difícil aos amantes desta música encontrarem no mercado português os discos pretendidos, essa situação inverteu-se totalmente nos últimos tempos. E, se os discos ainda não chegam aos nossos escaparates na sua totalidade (o que será das pobres carteiras do melómano consumidor quando tal acontecer?!…), para lá caminhamos, com os CD a chegarem em quantidade e em ritmo regular não só às discotecas da especialidade, como também às secções (por vezes escondidas e ainda dando mostras de uma certa timidez, fruto do medo de arriscar e de alguma ignorância na matéria…) dedicadas a este tipo de música.
Maurizio Martinotti e Beppe Greppi, dos Ciapa Rusa, estiveram entre 28 de Maio e 2 de Junho em Castro Verde, no Alentejo, para gravarem o “cante” do grupo Ganhões desta localidade, cuja edição em compacto está prevista para breve na Robi Droli, em Itália, e que no nosso país terá o selo Etnia, que entretanto alargou o seu campo de actividades à edição discográfica. Neste selo foi já lançado, no final do ano, a estreia em compacto dos Toque de Caixa, “Histórias do Som”, que será objecto de análise numa das próximas edições do Pop Rock.
Também este ano duas novas revistas dedicadas à folk vieram juntar-se à “Folk Roots”. Primeiro a “Trad. Magazine” francesa, a que se seguiu, alguns meses depois, a “The Living Tradition” escocesa, uma “principiante absoluta” nestas andanças. Ambas distribuídas pela MC – Mundo da Canção que – três vivas! – começará igualmente, já a partir de Janeiro, a distribuir também a “Dirty Linen”, uma das melhores publicações do género.
A este acompanhamento “em cima do acontecimento” do que se passou lá fora não correspondeu, infelizmente, a edição, em quantidade e qualidade, de discos portugueses. Descontando o já citado álbum dos Toque de Caixa, foi o deserto. Resta-nos a consolação de sabermos ainda em existência de grupos da velha guarda como os Almanaque, Raízes, Ronda dos Quatro Caminhos e Brigada Victor Jara. Para quando novos discos? Os Romanças preparam material novo, enquanto circulam alguns rumores sobre o novo capítulo da saga de Manuel Tentúgal, com ou sem os Vai de Roda, a seguir ao magnífico “Terreiro das Bruxas”.
As senhoras trocaram ideias, mas não houve meio de chegarem a acordo quanto ao famigerado grupo de supervozes femininas. Filipa Pais, Teresa Salgueiro, Minela e, mais a norte, na Galiza, Uxia para já não se entendem. Quem se esteve nas tintas e continuou a cantar de forma soberba foi Amélia Muge, cujas “múgi cas” estão prestes a reincidir num álbum novo que, diz quem já ouviu algumas maquetas será ainda melhor que a estreia da cantora. Amélia Muge que, por seu lado, prepara também ela um grupo com algumas colegas de ofício, entre as quais Margarida Antunes, do coro feminino Cramol. Maria João, a grande senhora do país do jazz, após alguns “flirts” com a música tradicional portuguesa parece querer mergulhar de corpo e voz nas raízes. O disco, a acontecer, vai fazer ondas.
Os homens, esses, organizam-se. Dois novos grupos prometem fazer furor no ano que agora se inicia: o Grupo de Gaiteiros de Lisboa, de Paulo Marinho, Carlos Guerreiro, Rui Vaz e, acabado de recrutar dos Almanaque, José Manuel David, bem como os Realejo, de Fernando Meireles. 1994 poderá bem ser o ano de arranque para novo “boom” da MPP, recuperando o elo perdido dos anos 70 e início dos 80. Sobre a “música popularucha portuguesa” e alguns discos que apareceram por aí a tentar vender banha da cobra basta dizer que os oportunismos não vingarão e que o joio apenas medrou porque as espigas de trigo não cresceram (falta de adubo?). Esperemos pela nova colheita.
De discos nacionais de música tradicional, de recolha ou de adaptações com novos arranjos, estamos conversados. Pura e simplesmente, com as excepções já mencionadas, não existiram. Mas há quem do outro lado da barricada, não desista. José Alberto Sardinha – antigo músico dos Almanaque e autor dos três volumes de recolha de música tradicional da Beira Baixa e Trás-os-Montes, publicados em 1982, de genérico “Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa” e de “Viola Campaniça – Um Outro Alentejo”, em 1986 – tem no prelo o livro “Tradições Musicais da Estremadura”, que a Imprensa Nacional, “por não estar na sua ordem de prioridades”, se recusou a editar.
De entre o dilúvio de álbuns chegados no ano findo ao nosso mercado, o destaque vai para a invasão nórdica iniciada em 1992 na Europa, mas que só este ano chegou até nós numa onda que trouxe os Hedningarna, Värttina, Möller, Willemark & Gudmunson, Niekku e Angelyn Tytot e que deverá prosseguir o longo deste ano (atenção também para as vagas árabes e da Europa do Mediterrâneo!) com a chegada de nova horda “viking”.



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Regiões Autónomas da “New Age” – artigo de opinião (balanço português de 1994)

Pop Rock

28 de Dezembro de 1994

Balanço Português 94

REGIÕES AUTÓNOMAS DA “NEW AGE”


Biombos

A estética “new age” parece ter ganho este ano em Portugal novos adeptos. O registo ambiental, a espiritualidade e a função apaziguadora e terapêutica dos sons são algumas das linhas de força presentes nos novos trabalhos de artistas como Madredeus, com “O Espírito da Paz”, Rão Kyao, com “Águas Livres”, Fredo Mergner, com “À Sombra da Figueira” e, inserido num outro tipo de pesquisa, os Telectu, com “Biombos”.
Cada um destes discos foge ao discurso linear e à imposição de esquemas rígidos da música. Põem o ênfase na criação de ambientes, em detrimento do formato tradicional de canção. Não ilustram uma cena, não contam uma história, antes buscam criar um estado de espírito e investigam no interior dos próprios sons. De igual modo, embora com menor evidência, também Né Ladeiras, em “Traz os Montes”, e José Peixoto, em “Taifa”, não são indiferentes a este conceito paisagístico da música, mas aqui interligado com as raízes étnicas, transmontanas (no caso de Né) ou árabes e inseridas numa lógica improvisacional e jazzística (no que diz respeito a José Peixoto).
De resto, quaisquer dos artistas, nos álbuns mencionados, mesmo os Telectu, não quebram os elos de ligação à música tradicional de matriz lusófona, uma preocupação que os coloca num lugar da “new age” de carácter regionalista, em comparação com a atitude “cósmica” e aquariana dos seus congéneres estrangeiros. Torna-se por outro lado curiosa a inexistência em Portugal de projectos que façam a conexão da “new age” com a música de dança, seja na chamada “ambient house” ou na mais recente “etnotechno”, duas correntes fortes actualmente na Europa. Ou por falta (ainda) dos meios tecnológicos necessários ou devido à inexperiência neste campo dos produtores, o facto é que, até agora, ninguém ensaiou explorar as vias deixadas em aberto há uns anos por Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro, em “Mr. Wollogallu”.

torrent

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Guardiãs Da Tradição – artigo de opinião

Pop Rock

28 de Dezembro de 1994

Balanço Português 94

GUARDIÃS DA TRADIÇÃO


nl

Poucas vezes, como no ano que agora finda, a música tradicional terá servido de matéria-prima para a feitura de tantos álbuns de produção nacional. Em si, o fenómeno não é novo, mas uma prova do interesse cada vez maior que as chamadas músicas do mundo provocam nas mais diversas áreas musicais. Fruto ou não do esgotamento da pop e do rock, o certo é que proliferam um pouco por todo o lado os discos de música étnica, folk, “world music” ou o que se lhes quiser chamar. Portugal não foge à regra. Há no entanto um aspecto curioso a realçar. Se no final dos anos 70 e ao longo da década seguinte eram os grupos de música tradicional, ou de raiz tradicional – na linha dura do G.A.C. até à sofisticação dos Vai de Roda, Brigada, Almanaque, Ronda, Terra a Terra ou Raízes . a proceder ao trabalho de recolha, adaptação e gravação dos temas tradicionais, a tendência recente, acentuada no ano que passou, passa um pouco a seu lado. O que se verificou em 1994 foi, em vez disso, o investimento em força na música tradicional por parte de artistas consagrados, alguns deles representantes da denominada MPP, que este ano ressurgiram com novos álbuns onde as raízes tradicionais se inscrevem em discursos pessoais há muito sedimentados. Estão neste caso os álbuns de Janita Salomé (“Raiano”), Júlio Pereira (“Acústico”), Fausto (“Crónicas da Terra Ardente”) e Pedro Barroso (“Cantos d’Antiga Idade”), qualquer deles, quanto a nós, uma desilusão, à excepção das novas estratégias acústicas de Júlio Pereira. Entre os novos valores, o destaque vai para Paulo Bragança, com “Amai”, cruzamento barroco e decadentista do fado com a música ligeira e o folclore ibérico. Os Quinta do Bill, apesar do sucesso alcançado pelo tema que dá nome ao álbum, prestaram um mau serviço à música tradicional, na pseudodesbunda de “pub music” à portuguesa, em copos de plástico, levada a efeito em “Os Filhos da Nação”.
Na vertente étnica passou despercebido, permanecendo embora como exemplo a seguir, o álbum de canto alentejano, primeiro de sempre editado em compacto, dos Ganhões de Castro Verde, “Modas”, resultante da carolice dos portugueses da Etnia em conjugação com a dos italianos da Robi Droli, Beppe Greppi e Maurizio Martinotti, também músios dos Ciapa Rusa. Em termos de grupos de música de raiz tradicional o ano foi parco em novidades. Enquanto Tentúgal faz aumentar a expectativa em redor do próximo projecto dos Vai de Roda, a Brigada Victor Jara não se decide a retomar a caminhada e os Realejo e os Gaiteiros de Lisboa não gravam, coube aos Romanças salvar a honra do convento, com “Azuldesejo”, um disco gravado em plena serra sagrada – Sintra – onde são sensíveis uma aproximação ao legado de José Afonso e a procura de novos sons, num trabalho de experimentação apurado, ao nível dos arranjos. Vítor Reino, como é triste ter que dizer isto, persistiu na sua via populista e de demagogia, com os Maio Moço, enterrando um pouco mais fundo o passado da Ronda dos Quatro Caminhos, nuns infantilistas “Amores Perfeitos”.
Resumindo – e após uma vista geral sobre um panorama apesar de tudo prometedor –, chega-se à conclusão de que a qualidade acabou por surgir de um campo indeterminado, alheio às catalogações, dominado por três mulheres que, cada uma à sua maneira, souberam dar sentidos inovadores e, porque não, provocadores, à música tradicional: Amélia Muge, com “Todos os Dias”, Filipa Pais, com “L’Amar” e Né Ladeiras, com “Traz os Montes”. Mais ligado a coordenadas antigas (José Afonso, José Mário Branco) mas servido por uma voz portentosa, o de Amélia Muge. Um pouco tímido, mas imbuído de grande lirismo (a que não é alheia a presença tutelar de Vitorino) o de Filipa Pais. Surpreendente e inovador, irmanado com as forças da terra e as luzes do céu, o de Né Ladeiras. A tradição falou do futuro – no feminino.

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