Arquivo da Categoria: Críticas 1993

Ensemble Kolkhetsi – “Shavtvala Gogona”

Pop Rock

24 NOVEMBRO 1993
WORLD

Ensemble Kolkhetsi
Shavtvala Gogona

Pan, distri. Etnia


ek

Não sendo incondicional admirador do canto polifónico, por uma questão de sensibilidade pessoal (o que significa que não chego a tocar o céu quando ouço as vozes búlgaras), confesso que sofri um choque com a audição do tema inicial de “Shavtvala Gogona” – canções tradicionais da Geórgia (região da ex-União Soviética situada a norte da Turquia, Arménia e Azerbaijão) que formam o primeiro volume de uma antologia de música da região do Cáucaso. O tema em questão, intitulado “Mtiuluri namgerebi”, uma canção dos montanheses da zona de Mtiul sobre um homem apaixonado que se dirige à sua dama, é até hoje aquilo que, no campo da música tradicional, considero o exemplo mais perfeito que me foi dado ouvir da elevação espiritual através do canto. A todos para quem a expressão “movimento da alma” faz sentido, a audição deste tema constituirá decerto uma revelação. Para trás ficou mesmo a majestosidade dos temas religiosos de “Georgian Voices”, pelo Rustavi Choir, álbum (ainda) disponível, surgido já há alguns meses no mercado.
O resto do álbum mantém a mesma altíssima craveira, embora não volte a repetir-se o êxtase do primeiro embate. As vozes dos sete cantores do Ensemble Kolkhetsi, acompanhadas ou “a capella”, soam-nos estranhamente familiares. Há algo nesta música que nos toca de perto. “Shavtvala Gogona” (“Oh! Rapariga dos olhos negros” – da tradução inglesa “Oh! Black Eyes Girl”) chama-nos, no apelo de canções de amor, combate, lamento e sobre os ciclos da vida e das estações, capazes de nos reconciliarem com tudo de importante de que estamos separados. (10)

aqui



Abdu Dagir – “Malik At-Taqasin” + Elie Achkar – “Moyen Orient – Chants du Qanun” + Marc Loopuyt – “Les Orients du Luth” + Rabih Abou-Khalil – “Tarab”

Pop Rock

3 NOVEMBRO 1993
WORLD

SULTÕES DO “TAQASIN”

A propósito da hipotética visita do líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, a Portugal, aproveitamos fazer uma chamada de atenção para a música árabe – clássica, tradicional e de fusão – e para alguns dos seus discos disponíveis no mercado nacional com distribuição Dargil. Aqui ficam eventuais entradas para o reino mágico das mil e uma noites.

ABDU DAGIR
Malik At-Taqasin

Enja


AD

O título significa “o rei do Taqasin”, isto é, da “improvisação instrumental” – a própria essência da música árabe. Abdu Dagir é um violinista egípcio e autodidacta, hoje com 56 anos, que teve de fugir do pai (batia-lhe, queria que o filho fosse advogado…) para poder dedicar-se à sua paixão.
Fiel à tradição musical do vale do Nilo, Abdu Dagir recusou sempre o registo fonográfico da sua música, com o pretexto de que tal acarretaria perder a sua alma. “Malik At-taqasin”, gravado ao vivo na Holanda – com tosses pelo meio e palmas no final – constitui assim uma excepção.
A música é quente e cheia, resultante da combinação violino/violoncelo e da própria afinação do violino, numa escala abaixo do habitual, ao modo “tabaqa”, típica do “rabab”, parente étnico do violino.
A flauta “nay”, as percussões “mazhar”, “riqq” e “bendir”, bem como o “ud” (alaúde árabe), completam o leque instrumental, com a curiosidade de uma composição de Roman Bunka (ex-guitarrista da banda alemã Embryo), “Quarter tone bycicle”, onde ele explora, de acordo com as regras dos “blues”, as possibilidades oferecidas pelas escalas tonais árabes “maqamat” (que, tal como as indianas, transcendem a dicotomia modo maior/menos da música ocidental), escavando tão fundo quanto possível nos intervalos de quarto de tom.
Repare-se que quanto menores forem os intervalos entre duas notas, mais complexa e fluida se torna a música, permitindo ainda uma maior liberdade nas modulações. O que em parte explica a sensualidade (líquida, serpentiforme, sinuosa, intuitiva – atributos da feminilidade) que se desprende da música árabe em geral. (7)

torrent



ELIE ACHKAR
Moyen Orient – Chants du Qanun

Buda


EA

A música árabe, como quem não quer a coisa, vai tomando de assalto os castelos da Europa. E desta vez não há D. Afonso Henriques nem cruzados que lhe valham. Ainda bem. Entremos pois sem preconceitos no jardim das delícias. Ao som do “qanun” ou cítara árabe, afinal uma variante de saltério com a caixa de ressonância em pele.
Em “Chants du qanun” o compositor libanês Elie Achkar apresenta uma antologia dos vários estilos característicos da música árabe erudita, inspirado, como não podia deixar de ser, nas virtualidades concedidas pelos intervalos microtonais das escalas “maqam”. Além do “qanum” podem ouvir-se nesta obra os sons da “kawala” (flauta), do “kaman” (violino), do “reqq” (tambor), da “darbouka” (equivalente da “tabla” indiana) e do já nosso conhecido “ud” (alaúde árabe).
A tónica é dada aos aspectos ritualísticos e iniciáticos da arte musical árabe. Aspecto que, importa salientar, preside ao acto de improvisação no seu sentido mais elevado. Pois que improvisar é actualizar (pôr em acto, enformar) o que está latente e oculto, passar do silêncio à fala, da potência à existência, unir o alto ao baixo.
Através da “taqasin”, palavra árabe que nomeia a improvisação, pretende-se o diaólogo entre o músico e os auditores, o músico e o instrumento, o músico e a música. Para, partindo dos três elementos básicos – melodia, ritmo e harmonia –, se criarem novas tríades e estímulos. Os gregos chamavam “taxis” a este processo. Apanhemos o de Elie Achkar, que está livre. (7)

aqui



MARC LOOPUYT
Les Orients du Luth

Buda


ml

Com Marc Loopuyt chega-se perto do “ud”, do qual Marc Loopuyt usa três variedades: o “kwîtra” marroquino, um modelo arménio do princípio deste século, e outro, mais actual, de fabrico suíço. Acompanham-nos as percussões de Adel Shams El Din: “darbouka”, “daff”, “tbilât” e “riq” (que é diferente de “reqq”…).
Os “Orients” – os quatro pontos cardeais recortados em forma de rosa-dos-ventos sobre a caixa de ressonância (ver foto) – apontam a música da região do Magrebe, mas também da Arábia Saudita e da Turquia. O caminho norteado pela “taqasin”, em redes milimétricas de micro-universos em movimento de colisão. Batalhas interiores cujos ecos se deixam escutar numa noite cheia de estrelas e silêncio. Entre a cal e a areia. Entre um olhar e outro olhar. No espaço que nos ficou por fechar ao sul. Onde nos espera uma moira encantada. (8)



RABIH ABOU-KHALIL
Tarab

Enja


rak

Depois do glorioso “Nafas”, editado na ECM, o mágico do alaúde árabe regressa com novas viagens pelas Arábias e o futuro na palma das mãos. Porque na obra de Rabih Abou-Khalil a tradição não é baú de velharias, mas antes o “hall” de entrada para um mundo onde o Norte, o Sul, o Oeste, e o Este se reúnem e confrontam no florescer de novas formas musicais.
Elementos das culturas tradicionais semita, bizantino-helenística, cristã, persa, visigótica e berbere, contribuíram ao longo dos séculos para o desenvolvimento dos que se convencionou chamar “música árabe”.
Na guerra “santa” que só na música deixou de ser travada entre Ocidente e Oriente, perderam-se as oportunidades para a criação de um mundo novo reunificado. Muito por culpa da estúpida “razão” de que, do lado do sol poente, tanto nos orgulhamos. Foi Hector Berlioz quem afirmou um dia que, “musicalmente, os chineses e os indianos ainda estão nas profundezas da barbárie, perdidos numa inocência quase infantil. Ao que os orientais chamam música chamamos nós miados. Para eles o hediondo é o maravilhoso”. Não é difícil imaginar o que tão distinto compositor chamaria à “música dos mouros”…
Felizmente que músicos como Rabih Abou-Khalil vão aos poucos abolindo fronteiras e destruindo preconceitos. Para ele, tão próximo do passado como do futuro (já tocou com os Kronos Quartet), a música, sem qualquer adjectivo, é um processo sempre inacabado.
“Tarab”, o “arrebatamento da alma”, recupera as vozes dos ancestrais “ud”, “nay” e percussões várias, para as projectar num discurso actual e actuante, em que se percebe finalmente a pouca distância que existe entre o “taqasin” e a improvisação jazzística.
De uma riqueza rítmica imensa, elaborada pelas percussões de Nabil Khaiat e Ramesh Shotham, e o contrabaixo de Glen Moore (dos Oregon), no limite da conflagração cósmica, “Tarab” revela ter um cérebro e um coração. “Chakras” principais de um corpo total que começa numa lamentação gutural no deserto (“Bushman in the desert”) e acaba a voar na centrifugação vertiginosa do “ud”, em “Arabian waltz”. (9)

aqui



Yole – “L’Amour d’Eloїse”

Pop Rock

21 JULHO 1993
WORLD

A ARTE DA JARDINAGEM

YOLE
L’Amour d’Eloїse

CD Several, distri. MC-Mundo da Canção


yole

Em primeiro lugar, esqueça-se o título, capaz de desencorajar qualquer um. Mas não, não tem nada a ver com Richard Clayderman. Agora – segurem-se bem – a melhor parte: “L’Amour d’Eloїse” é um sério candidato a ocupar um lugar de mérito na corte onde reinam os Lo Jai, com a sua obra-magna “Acrobates et Musiciens”, agora finalmente disponível em quantidades decentes nas lojas do costume. Os Yole são um quinteto francês, cujos membros (não vale a pena dizer os nomes porque ninguém os conhece) tocam uma quantidade apreciável de instrumentos: acordeão, harmónica, guitarra, baixo, sanfona, gaita-de-foles, clarinete, saxofone, oboé, violino, percussões e bateria (desculpem se gasto várias linhas a nomear a instrumentação, mas penso que esta serve para dar uma ideia da tonalidade, de uma concepção geral do som…). Dedicam-se a inventariar e, melhor ainda, a enriquecer a música tradicional da região de Vendée, um enclave situado na costa atlântica, a sul da Bretanha. Percebe-se a vizinhança. Nas formas vocais de canto e resposta, na construção sincopada dos compassos, embora menos bruscos que no Norte. A diferença está em que, divergindo das duas principais tendências seguidas pelos grupos bretões – uma de fidelidade extrema às raízes, caso dos Skolvan, Storvan, Stronibell ou Gwerz, outra, oposta, de fusão com o jazz e o rock, caso dos Gwendal, Triskell, Bleizi Ruz ou Sonerien Du –, os Yole são antes, utilizando o título de uma canção dos Malicorne, “jardineiros do convento”. Expressão, neste tipo de música, equivalente ao trabalho do jardineiro que transforma, adapta e recria a vegetação natural, de maneira a transformá-la num jardim. Escute-se, por exemplo, o resultado, no canteiro de delícias que é “Bonsoir madame la mariée/Pás d’ êté”. O mesmo que fizeram os Lo Jai, no álbum citado (o primeiro, “Musiques Traditionelles du Limousin”, é outra coisa) e, anos antes, grupos como os Maluzerne, Mélusine, Malicorne ou La Bamboche. Uma visão “palaciana” e aristocrata da folk francesa, já de si bastante sofisticada na forma e na variedade, cujo objectivo principal é a procura de uma essência, de um som ideal, obtido a partir da depuração e transformação do material étnico original. Dentro desta corrente, ““L’Amour d’Eloїse” pode desde já considerar-se uma das grandes surpresas deste ano. (9)