Arquivo da Categoria: Entrevistas 1993

Miguel Teixeira – Entrevista

Pop Rock

18 de Junho de 1994
EM PÚBLICO

MIGUEL TEIXEIRA *


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Qual é o seu percurso anterior aos Toque de Caixa?
Comecei a tocar com 14, 15 anos, e a ouvir muita música sul-americana, toquei nalguns grupos que praticavam este tipo de música. Entretanto, comecei a interessar-me pela música tradicional portuguesa, com o Zeca Afonso e o Adriano – convém dizer que tenho 36 anos… Toquei também num grupo chamado Siga a Rusga, que durou dez anos e lançou dois discos. O Siga a Rusga acabou e fui convidado pelo Tentúgal para fazer parte da segunda formação dos Vai de Roda e, quase ao mesmo tempo, para integrar a formação do actual Toque de Caixa.

De uma vez por todas, aceita a comparação que muita gente faz dos Toque de Caixa com os Vai de Roda?
Há uma confusão. O estigma de dois grupos serem idênticos em termos de arranjos. Mas as pessoas não se podem esquecer de que o Vai de Roda, para além do director musical comum com o Toque de Caixa que era o Tentúgal, tinha três músicos que agora estão no Toque de Caixa. Pessoas com formação musical e a tendência para pôr a sua maneira de tocar no grupo. No meu caso, a minha forma de tocar esteve presente no Vai de Roda e em particular no álbum “Terreiro das Bruxas” quando se começou a fazer arranjos baseados na música sul-americana.

Tanto quanto se sabe as relações actuais entre os dois grupos não são as melhores. Quer explicar as razões por que isso acontece?
A minha relação pessoal com o Tentúgal não é boa nem é má, é de “bom dia, boa tarde, estás bom, pouco gosto em ver-te e poucas vezes”… Houve coisas que se passaram em relação ao Manuel Tentúgal e ao Vai de Roda, nomeadamente com alguns elementos do grupo que não foram muito correctos para com o actual Toque de Caixa. Por uma razão ou por outra, eles não tiveram um comportamento à altura, nem de músicos, nem de amigos que éramos.
O problema concreto surgiu porque ensaiávamos todos no mesmo sítio e, a determinada altura, começaram a surgir problemas de dinheiro, enfim, um problema de afirmação de um grupo perante outro. O Manuel Tentúgal achou que os músicos deviam tocar ou num grupo ou noutro e que o local de ensaio deveria ser apenas de um deles. Houve uma opção do Bilão, que na altura era o dono do espaço onde ensaiávamos e puseram o Toque de Caixa lá para fora. Não aceitámos isso com muito bons olhos e daí as relações terem esfriado.

O vosso primeiro álbum, “Histórias do Som”, pode considerar-se bastante experimental, dentro do campo da chamada música de raiz tradicional. Como se processa a relação do grupo com a tradição?
Não é nada complicada. Como já disse, o meu percurso tem a ver com a música tradicional portuguesa e da América latina. No grupo, procuramos dar um determinado cariz à música tradicional, com um tipo de arranjos que estejam de acordo com a nossa forma de sentir actual. Não estamos muito preocupados em pegar em temas tradicionais e em tratá-los de forma a que as pessoas achem ou não fiel. Embora neste campo tenhamos muita coisa recolhida, desde material escrito em pauta, recolhido de livros, coisas que vamos buscar aos alfarrabistas, muito antigas e que pouca gente conhece, até gravações que tanto podem ser feitas por nós em locais que visitamos como de gravações pré-existentes, caso dos discos do Giacometti.

No seu caso e na qualidade de principal compositor do grupo, como articula a sua escrita com o material tradicional?
Há sempre qualquer coisa naquilo que componho que é “tradicional”, na forma que tenho de ver a música. É uma coisa que está dentro do corpo. Para além disso, há outro tipo de músicas que vão entrando…

Como a dos Penguin Cafe Orchestra, por exemplo, uma das influências óbvias do Toque de Caixa?
É capaz de ser normal porque é um grupo que, se repararmos bem, tem também uma influência – nomeadamente com a introdução do “Cuatro” – dos ritmos e baixos sul-americanos. É um tipo de música onde eu pessoalmente me sinto à vontade, porque o facto de ter tocado e ouvido durante tantos anos música sul-americana me dá um grande à-vontade em termos de tempos e contratempos – esse tipo de coisas. Ainda agora acabei de oferecer, como presente de aniversário a um dos membros do grupo – o Horácio –, um disco da Linda Ronstadt, da fase em que ela cantava música sul-americana. Sempre que posso, aprendo com os sul-americanos, nomeadamente em termos de ritmo instrumental.

Concorda que a música dos Toque de Caixa privilegia um certo classicismo formal, em detrimento da espontaneidade que, por regra, se associa aos grupos ligados à música tradicional?
Penso que ainda há muito pouco à-vontade… este é o primeiro disco gravado pelo Toque de Caixa. Além disso, o conceito de estúdio põe às pessoas um problema que é o de ter de trabalhar o mais depressa possível, porque o estúdio é caro. Nos grupos de música tradicional, isto torna-se ainda mais evidente. Sentimos que em estúdio somos mais pressionados. Fora isso, os arranjos que fazemos são igualmente para serem tocados em estúdio e ao vivo. É evidente que ao vivo as coisas resultam de outra forma. Por exemplo, no disco, o tema “Aula de música”, com a miúda a cantar. Experimentámos duas vezes ao vivo e não resultou, porque a miúda não estava à vontade. Então passámos a ser nós a fazer essa parte, com um grande berreiro. O que, em estúdio, não resultou, porque ninguém conseguiu reproduzir esse ambiente de festa. Pelo contrário, em estúdio, a voz da miúda resultou perfeitamente.

Uma das características comuns a muitos grupos portugueses da vossa área é o número elevado de elementos dos grupos, como é o vosso caso. Na Irlanda, por exemplo, dois ou três chegam para fazer muito boa música. A que se deve tal facto? Não será uma dificuldade adicional? Ou, pelo contrário, serve para disfarçar insuficiências técnicas?
Sim, provoca algumas dificuldades, nomeadamente logísticas. Temos sempre o problema de sermos nove elementos, para ir a qualquer sítio. Mas é de facto um apanágio dos grupos portugueses, terem sete, oito músicos. Quanto ao aspecto de execução técnica, como sabe, nem o Toque de Caixa, nem a maioria dos grupos portugueses são formados por músicos profissionais. Daí não podermos ensaiar nem todos os dias, nem sequer dia sim dia não.
A esse nível, há de facto falta de ensaios, se levarmos em conta que um grupo profissional tem pelo menos que ensaiar todos os dias, estar agarrado ao instrumento umas horas por dia. Talvez essa seja uma das razões e nós tenhamos que nos apoiar, podendo haver um músico que colmata as dificuldades do outro. Mas não sei até que ponto isso não será um falso problema, porque dentro deste género de grupos existem muito bons instrumentistas. Mas ao vivo há de facto que ter mais cuidado, são muitas pessoas, com cabos, problemas de equilíbrio de som. Aí sim, é pior.

Como se explica que o Toque de Caixa seja um dos grupos portugueses ligados à música tradicional que mais actua no estrangeiro?
A Etnia tem sido até agora uma das vias que nos tem permitido chegar mais facilmente ao estrangeiro. Mas temos tocado bastante em Espanha, ou em França, sem termos nada que ver com a Etnia. Temos os nossos canais privados e enviamos discos a pessoas que conhecemos e estão bem colocados ao nível de organização de concertos e festivais. O facto de o Toque de Caixa ter uma postura agradável em palco talvez também ajude.

Depois de “Histórias de Som” têm já algum novo projecto em perspectiva?
Estamos a pensar muito seriamente em começar a gravar o segundo disco no início do ano que vem. Já estamos a fazer ensaios, a trabalhar nos arranjos. Só estamos à espera que a editora [Numérica, do Porto] em Janeiro dê o sim ou o não.

* Director musical e multi-instrumentista dos Toque de Caixa que recentemente editaram o álbum “Histórias do Som” e actuaram com sucesso no Festival Intercéltico do Porto.



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Nóirín Ní Riain – Entrevista

Pop Rock

24 NOVEMBRO 1993

“AQUELE QUE CANTA REZA DUAS VEZES”

Nóirín Ní Riain, “Vox de Nube” vem cantar a Portugal. Com uma voz que “vem de Deus”. A mesma que fez John Cage chorar e que um velho monge de Glenstal definiu como a “erotização do canto”.


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A música tradicional religiosa é o templo onde se comunica com o divino. Com os monges do mosteiro de Glenstal, numa peça de Hildegard von Bingen ou num campo de refugiados na Croácia, a irlandesa assume o canto como liturgia da Redenção. Mas também como algo de sensual e orgásmico. Capaz de a levar da igreja para um grupo de jazz.
PÚBLICO – O que a levou a dedicar-se ao canto religioso, em detrimento das canções gaélicas tradicionais.
Nóirín Ní Riain – Aprendi o primeiro cântico religioso aos 18 anos de idade. Comecei por cantar canções “seculares” e não sagradas. Quando escutei pela primeira vez a canção “The seven sorrows of the Virgin Mary” [incluída no álbum “Caioneadh na Maighdine” ou “Vox Clamantis in Deserto”, de 1980, já disponível em importação VGM] fiquei siderada. É uma das canções mais antigas da tradição irlandesa, trazida pelos franciscanos, que chegaram por volta de 1226. Depois surgiu a trilogia que gravei com os monges beneditinos do mosteiro de Glenstal, por sinal a única ordem beneditina masculina existente na Irlanda.
P. – Quais são as principais diferenças entre esses três discos?
R. – O primeiro, “Vox Clamantis in Deserto” foi feito em 1980, quando comecei a fazer intercâmbio de canções com os monges de Glenstal, dava-lhes e cantava canções tradicionais religiosas e eles retribuíam com cântico gregoriano. Trata-se então de um disco em que predomina aquele tipo de canções, algumas nunca gravadas anteriormente. Seguiu-se “Vox Populi – Good People All”, em 1982, que se centrou noutro tipo de tradição, dos “carols” de Natal, mas não do tipo popular cantado nas congregações religiosas. “Vox de Nube”, de 1989, é uma gravação com a música por que nos interessávamos na altura, uma mistura de estilos tradicionais na qual usei instrumentos e técnicas vocais indianos, experiência que encetei por volta de 1987. Foi também o disco em que cantámos pela primeira vez música de Hildegard von Bingen, a abadessa beneditina.
P. – Tradição e Religião. O que as une?
R. – Uma das frases que mais me influenciou foi escrita cerca do século IV e diz o seguinte: “aquele que canta reza duas vezes”. Também é verdade que “cantar é amar”. O canto e as canções centram-se na voz que é algo de poderoso e espiritual. Certa vez cantei na Polónia com uma cantora russa. Dizia-me ela que na sua aldeia não lhe pagavam por cantar, embora fosse uma cantora profissional. Os outros músicos eram pagos, ela não, porque, dizia, a “voz vem de Deus”. Não se recebe por algo que é transcendente. Felizmente que não se passa o mesmo na Irlanda.
P. – Que papel desempenhou a religião católica quando da sua chegada à Irlanda?
R. – Não existe na Irlanda uma tradição de hinos vernaculares, ao contrário do que acontece noutros países. Diria que a Igreja católica teve sobre a Irlanda como que um efeito secundário. A maioria dos temas religiosos irlandeses aparece fora da instituição sendo em primeiro lugar uma expressão singela de Fé. Falam de temas como a Virgem Maria a dar à luz o seu Filho que expressam sentimentos e emoções mais do que conceitos como a Imaculada Concepção ou a Assunção. Quando as mulheres irlandesas rezavam não o faziam a um Deus ou a uma Nossa Senhora elevados e imponentes, mas a alguém mais humano com que se pudessem identificar.
P. – Tem consciência da manifestação do diabo na sociedade moderna?
R. – Sobre isso existe um provérbio alemão que diz: “onde há alguém que canta não receies a maldade, porque as pessoas diabólicas não têm alma”. O canto é algo de benévolo. A voz, como já se disse, vem de Deus. O diabo surge quando alguém usa o canto para influenciar as pessoas de uma forma negativa.
P. – A música pode salvar?
R. – Em Setembro um grupo de ingleses esteve na Croácia, num campo de refugiados. Quando perguntaram aos refugiados o que é que queriam, responderam: “música!”. Estive lá há pouco tempo e vi pessoas no meio da maior pobreza, no meio da neve, esfomeadas, abandonadas… se conseguisse através do meu canto fazê-los transcender tudo isso, nem que fosse por um minuto…
P. – Como aconteceu e em que termos se processou o seu encontro com John Cage?
R. – Encontrei John Cage na Califórnia em 1989, num concerto em que participávamos os dois. Perguntou-me se conhecia o cantor irlandês Joe Heaney [Seosamh Ó hÉanay, em gaélico…] que foi precisamente com quem aprendi grande parte das minhas canções religiosas. Comecei a cantar-lhe uma delas e John Cage desatou a chorar. Falou-me de uma peça que pensava escrever para Joe Heaney cantar. Depois andámos juntos numa digressão de um festival de música moderna por Inglaterra. Fiquei a conhecê-lo bastante bem. Quando morreu organizou-se em Nova Iorque uma homenagem em que foram convidados os seus amigos para cantarem em sua memória. Fui um dos convidados.
P. – Fale-nos da sua experiência musical fora do contexto religioso.
R. – Comecei a trabalhar com o trompetista Markkus Stockausen. Fiz um concerto com ele e a sua banda A Paris, na Irlanda, há duas semanas. Devo voltar a vê-lo na próxima Primavera, na Alemanha. Foi deste modo que cheguei à arena da música moderna. Actualmente sou cantora num grupo local chamado Hiberno Jazz. A ideia de música contemporânea fascina-me já que o que eu faço é contemporâneo algo que é muito antigo. Refiro-me à improvisação, ponto fulcral do meu trabalho.
P. – Sente afinidades com Hildegard von Bingen, de quem já interpretou canções, em “Vox de Nube”?
R. – Claro que sinto. Mas convém não esquecer que Hildegard foi não só compositora como também visionária, ecologista, cosmóloga, dramaturga, pregadora, professora e profetiza… O papel de “Anima” que desempenhei numa das suas peças foi bastante fácil. Quase como se fizesse parte de mim. Acontece-me o mesmo com a sua música. Sou capaz de cantar as suas longas, longas sequências sem ter um único lapso de memória.
P. – Cantar é pois para si uma experiência religiosa…
R. – Há uma parte de um “Kyrie eleison”, em “Vox de Nube”, que não reduzo ao canto. Em certas ocasiões sou capaz de sentir cheiros e sabores. Até de ver cores.
P. – Há algo de erótico nessa descrição…
R. – Absolutamente. Lembro-me de uma vez, no mosteiro de Glenstal, quando cantava a música de Hildegard, um dos monges mais idosos descrever o processo como uma “erotização” do canto. É na verdade bastante sensual, de um ponto de vista feminino. Hildegard era mulher e escrevia para mulheres. Trata-se sem dúvida de uma experiência orgásmica.

CONVENTO DO BEATO, LISBOA
Dia 27 de Novembro



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Mike Oldfield – Sinosite (Entrevista)

Pop Rock

22 de Setembro de 1993

SINOSITE

Mike Oldfield: um homem, uma guitarra de som inconfundível, uma personalidade instável e um disco onde coube tudo: “Tubular Bells”. Em dois volumes, separados por duas décadas, a marcarem a distância entre o génio e a banalidade.


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O autor de um dos discos mais vendidos a música Rock, “Tubular Bells”, o primeiro, pois claro, vai tocar numa praça de touros. Uma actuação em registo orquestral a exigir enorme concentração. Com a guitarra, vários tipos de guitarra, no comando das operações. Menos a portuguesa, de que Mike Oldfield, estranhamente, nunca ouviu falar.
PÚBLICO – Que motivos o levaram a gravar “Tubular Bells II”?
Mike Oldfield – Pensei que fosse uma boa ideia e agradou-me imenso fazê-lo. Tinha essa intenção já há cerca de cinco anos, mas queria fazê-lo com uma nova editora. Já não me sentia feliz na Virgin e tive de romper o contrato.
P. – Por que razão se aborreceu com a editora?
R. – As pessoas originais foram-se embora e as que vieram não eram grandes apreciadoras de música instrumental. Pensavam que era um formato difícil de promover. Depois, Richard Branson estava mais preocupado com a sua companhia de aviação, enquanto no passado se preocupava mais com a música. Foram 17 anos na mesma editora e achei que era tempo de mudar.
P. – Poderia ter feito “Tubular Bells II” com música original, mas em vez disso preferiu apenas alterar os arranjos. Porquê essa opção?
R. – As sequências não são as mesmas… mas porque é que me está sempre a perguntar “porquê”?

TubularBellsII

P. – Porque o público português quer ficar a saber…
R. – Oh! (suspiro). Não há uma razão para tudo o que faço, portanto não faz sentido perguntar-me “porquê”. Não tenho explicação para as coisas. Não sei por que razão há seres humanos sobre o planeta, não sei explicar os enigmas do universo. As coisas simplesmente existem. Eu faço coisas não por este ou aquele motivo. Faço-as e pronto.
P. – A sua obra tem-se caracterizado por dois campos musicais separados: longas peças instrumentais e, por outro lado, pequenas canções curtas…
R. – Resolvi deixar essas canções de lado por uns tempos. Comecei a sentir aborrecimento a escrever canções, que me estava a repetir. Há muitas pessoas no mundo a escrever canções mas muito poucas a compor peças instrumentais. Uso um pouco as vozes, é claro, mas não no formato tradicional de canções.
P. – Mas, sobretudo nos últimos anos, foram essas canções que lhe deram mais dinheiro…
R. – Nunca fiz nada por dinheiro. À parte quando era muito novo e trabalhava porque necessitava dele. Passei a ter sempre dinheiro desde “Tubular Bells”. A maioria das pessoas pensa que se age sempre a pensar em dinheiro, mas eu faço as coisas por outras razões, pelo prazer que sinto, por exemplo. Quando deixar de sentir esse prazer, paro, e vou fazer outra coisa.
P. – Passados todos estes anos, continua a sentir prazer em tocar ao vivo?
R. – Sim, especialmente nesta digressão, em que os processos utilizados são diferentes. Não vai ser como em digressões anteriores, em que fazia versões rock dos álbuns. Tinha já tudo escrito, como se fosse uma peça orquestral, os músicos vão cingir-se às respectivas partituras. Os actuais concertos soam bastante aos álbuns, embora num contexto “ao vivo”, com várias partes separadas que se complementam e que exigem uma grande concentração, de modo a conseguir-se a ordem correcta. Têm a duração de uma hora e meia, o que, nos dias que correm, pode parecer um pouco curto. Não se trata de preguiça, mas sim da tal concentração.
P. – Vão ser tocados temas novos ou só os arranjos é que variam?
R. – Novos arranjos. Vou tocar um pouco de “Tubular Bells II”, um pouco de flamenco, que adoro…
P. – Sempre mostrou interesse pela música tradicional, nomeadamente de inspiração celta… Tocou recentemente num clube de música tradicional na Galiza…
R. – É verdade. A minha namorada é galega e fomos visitar os pais dela. Conheci o grupo Luar na Lubre e tocámos juntos nesse clube. Adoro música celta.
P. – Continua a viver no campo?
R. – Sim, em Inglaterra, algumas vezes.
P. – Tem medo da cidade?
R. – Tenho uma casa em Los Angeles que é uma das maiores cidades dos Estados Unidos, só que fica um pouco à margem, no alto de um monte. Gosto de me sentir próximo da cidade, mas não no meio dela.
P. – Descontando “Tubular Bells II”, pensa regressar ao estilo e à complexidade de um álbum como “Amarok”, por sinal excelente?
R. – Complexo, sim, mas feito de forma muito espontânea. Costumava levantar-me de manhã e pensar em algo, uma técnica de composição que resultou bem. Há nesse disco secções maravilhosas, mas, na generalidade, é um disco em que existe raiva, um disco negativo. Não estou a dizer que seja mau…
P. – Sabe-se que costuma ser sensível a estes aspectos negativos, mas o curioso é que se desprende da sua música uma sensação de harmonia. Usa a música como terapia?
R. – Sim, é uma espécie de terapia. Nos primeiros tempos, a música era algo que me fazia sentir feliz e seguro, mas se se reparasse bem, não era uma máusica feliz, embora possa dizer que era uma música positiva.
P. – Define-se primeiro que tudo como um guitarrista?
R. – Absolutamente. Quando vir o concerto reparará que me concentro muito na guitarra. Vou tocar vários tipos de guitarra: espanhola, clássica, eléctrica…
P. – E guitarra portuguesa?
R. – O quê? Nunca vi uma guitarra portuguesa, o que é isso?
P. – Não sabe o que é?
R. – Não, mas vou tentar investigar, manter os ouvidos abertos para ela.

DIA 22, DRAMÁTICO DE CASCAIS, 21H30



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