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John Surman – “Free And Equal” + John Taylor, Marc Johnson, Joey Baron – “Rosslyn” + Tord Gustavsen Trio – “Changing Places” + Christian Wallumred Ensemble – “Sofienberg Variations”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 21 Junho 2003

A liberdade e a igualdade entre os homens, segundo John Surman, estendem-se ao jazz que se faz hoje na Europa. Da Inglaterra à Escandinávia, mudam-se os sons e troca-se de lugares.


O inglês romântico

JOHN SURMAN
Free and Equal
8 | 10

JOHN TAYLOR, MARC JOHNSON, JOEY BARON
Rosslyn
8 | 10

TORD GUSTAVSEN TRIO
Changing Places
7 | 10

CHRISTIAN WALLUMRED ENSEMBLE
Sofienberg Variations
7 | 10

Todos ECM, distri. Dargil



Começou por ser um dos avatares do novo jazz inglês dos anos 60/70, como elemento dos revolucionáros Trio e, a solo, assinando clássicos como “How Many Clouds Can you See?”, “Tales of the Algonquin” e “Westering Home” (fusão pioneira com ambiências célticas). A entrada para a ECM assinalou o início de um percurso que fazia a síntese entre a escola minimalista, a eletrónica e o jazz ambiental, numa série extensa de obras entre as quais se incluem “Upon Reflection”, “The Amazing Adventures of Simon Simon”, “Such Winters of Memory”, “Witholding Pattern”, “Private City” e “Road to St. Ives”.
Coincidindo com o abandono do sintetizador, instrumento que de início funcionou como principal elemento estruturador das sequências repetitivas mas que, progressivamente, se veio a revelar limitador de um discurso mais amplo, Surman encetou um percurso de regresso a um jazz, se não mais standardizado, pelo menos adequado a formatos instrumentais mais clássicos, fase de que é exemplar o álbum “Adventure Playground”, já dos anos 90.
Através da criação do coletivo The Brass Project (com John Warren) assiste-se a uma consequente ênfase numa escrita mais vasta, para big band, de que “Proverbs and Songs” e “Coruscating” tinham constituído já magnífica amostra. O novo “Free and Equal”, inspirado na Declaração dos Direitos Humanos, decretada pelas Nações Unidas em 1948, e gravado ao vivo no Queen Elizabeth Hall, em Londres, no concerto de abertura do Festival de Meltdown (de que Robert Wyatt foi o programador), reúne Surman (nos habituais saxofones soprano e barítono e clarinete baixo), Jack DeJohnette (bateria e piano) e a orquestra de metais London Brass, reatando-se deste modo uma colaboração entre estes dois músicos que remontava, no contexto da música de câmara, a um trabalho conjunto com os Balanescu Quartet.
“Free and Equal” alterna sequências instrumentais majestosas – por vezes timbricamente próximas das conceções de Carla Bley e Michael Mantler (“Groundwork”, “Sea change”), também de Michael Gibbs, ou completamente imbuídas do espírito do barroco e do pré-barroco (sendo que o reportório da London Brass tem em Gabrielli um dos seus compositores emblemáticos), como “Back and Forth”, onde também afloram as frases melódicas e o romantismo característicos de Surman, bem como o espírito de um Michael Nyman, em qualquer caso em sintonia com uma inequívoca “britishness” – e secções improvisadas. O equilíbrio ou, parafraseando o título, a liberdade e igualdade de direitos, entre ambas as vertentes é perfeito. Da escrita e texturas de banda larga com os diálogos mais soltos entre os dois solistas. Entre Surman, o melodista inesgotável (“Debased line” não é uma linha, é uma estrela), e DeJohnette, o “cantor” de ritmos. Notável.
Recolhamo-nos agora ao mais clássico dos clássicos formatos do jazz, o trio piano/contrabaixo/bateria, com John Taylor (piano), Marc Johnson (contrabaixo, o homem dos Bass Desires), Joey Baron (bateria, Mr. Downtown), em “Rosslyn”. Companheiro de Surman nos anos de descoberta e aventura da “free music” inglesa, no fantástico “Pause, and Think again”, fundador dos Azimuth, Taylor possui a introspeção de Paul Bley, a intuição melódica de Jarrett e uma parte da alma moldada por Bill Evans. “Rosslyn” oferece, em conformidade, o tom contemplativo e a nostalgia mas também a firmeza. E o impressionismo em desenho “new age” (não é um disco da Windham Hill mas quase parece…), no dulcíssimo título-tema.
Periodicamente o jazz escandinavo marca presença na ECM, desta feita ainda sob a égide do trio piano/contrabaixo/bateria, respetivamente às ordens de Tord Gustavsen, Harald Johnsen e Jarle Vespestad. “Changing Places” reforça a tecla Bill Evans de “Rosslyn”. São jardins e salões abandonados no fim das férias de Verão. Lembranças gravadas na areia que a maré apaga. O tempo e paixões esvaídas no eco de palavras imprecisas. Fica-se em silêncio, a escutar “Changing Places”, em lugares que geralmente associamos a canções.
Outra das marcas inconfundíveis da editora de Manfred Eicher, evidenciada sobretudo ao longo da última década, é uma abordagem classizante, mais ou menos regada por elementos étnicos, estética que, vinda destas latitudes, teve em Jan Garbarek e Edward Vesala os precursores. As “Sofienberg Variations” do Christian Wallumred Ensemble – Christian Wallumred (piano e “harmonium”), Nils Økland (violino, “hardanger fiddle”), Arve Henriksen (trompete) e Per Oddvar Johansen (bateria), com o convidado Trygve Seim (saxofone tenor) – representam a variante mais académica e sisuda do género, sem a luminosidade de um Terje Rypdal nem o humor de um Vesala, o que pode significar algum aborrecimento. Formalmente interessantes, falta fulgor a estas sarabandas, “small pictures” e uma “liturgia” com algo de messiaenico… Está certo que deve haver respeito quando se reza e estas “Sofienberg Variations” até conseguem fazer-nos ajoelhar quando o seu ofício verdadeiramente se aproxima do arrepio do Sagrado, como em “Psalm”, algures já no território sacro de uns Hilliard Ensemble. Mas manter a concentração e a elevação não significa esquecer o deslumbramento, o espanto e o riso que o contacto com transcendência também provoca. Aspeto em que estas variações variam pouco.

Randy Weston – “Ancient Future/Blue” + Eric Watson – “Sketches of Solitude” + Kenny Werner – “Beat Degeneration” + Gábor Winand – “Corners of my Mind” + Gábor Gadó Quartet – “Orthodoxia” + Mihály Dresch Quartet & Archie Shepp – “Hungarian Bebop”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 8 Março 2003

Um piano de África. Outro de solidão. Outro que não chega a viajar. Já na Hungria o jazz diz-se de maneira diferente. Com canções folk e cimbalon. E Archie Shepp lá metido, mestre de cerimónias fascinantes.


Viagens ao piano com escala na Hungria

Randy Weston
Ancient Future/Blue
2xCD Mutable Music
8 | 10

Eric Watson
Sketches of Solitude
Night Bird Music
8 | 10

Kenny Werner
Beat Degeneration
Night Bird Music
6 | 10

Gábor Winand
Corners of my Mind
Budapest Music Centre
6 | 10

Gábor Gadó Quartet
Orthodoxia
Budapest Music Centre
7 | 10

Mihály Dresch Quartet & Archie Shepp
Hungarian Bebop
Budapest Music Centre
8 | 10

Todos distri. Multidisc



Randy Weston é um dos clássicos pianistas da história do jazz cuja música se encontra mais próxima das raízes africanas. Influenciado por Monk, menos regionalista que Abdullah Ibrahim, outro intérprete deste instrumento com o coração mergulhado no continente negro, fundador do projeto Ekaya, Weston toma em “Ancient Future” (2001) como ponto de partida uma viagem ao Egito e o consequente contacto com a cultura núbia. Sobre esta premissa e inspirado pelo livro “Ancient Future: The Teachings and Prophetic Wisdom of the Seven Hermetic Laws of Ancient Egypt”, de Wayne Chandler, Weston constrói todo um edifício em piano solo (no caso um digníssimo Bosendorfer) em redor dos mitos associados a Osíris e às transfigurações do tempo, corporizado no ser humano.
Passado, presente e futuro enovelam-se numa música de ressonâncias profundas (literalmente falando, Weston remete-se amiúde à exploração sistemática dos registos mais graves do teclado, usando e abusando do pedal de reverberação) que serve ainda de motivo a dedicatórias várias, ou “retratos”, prática aliás recorrente na sua produção a solo. No caso, a cantora egípcia Oum Keltoum, Monk (de quem chega a decalcar algumas notas), Ellington, Count Basie e Melba Liston, trombonista e arranjadora de algumas das obras orquestrais do pianista. Como Monk, Weston é homem de golpes fundos e curvaturas abruptas, de “clusters” abissais que de súbito se descobrem silêncio, grito ou oração. Não se procure em “Ancient Future” rendilhados nem flores. Descubra-se antes o rio dos “blues”, os acordes maciços, o telurismo, a procura de uma espiritualidade entranhada na terra.
Um segundo CD de piano solo, gravado em 1984, com o genérico “Blue”, foi incluído na presente edição, completando-a com outra incursão, mais “selvagem”, no “blues” e no piano “honky tonk”, servida por nova dose de africanismo e dedicatórias, desta feita a parentes mais chegados (a filha, o pai) e, de novo, Ellington e Melba Liston. Um dos temas, “Earth birth”, daria mesmo origem a um álbum inteiro, bem mais enfezado, com este nome, com arranjos de Melba para orquestra de cordas. Comparando os dois, apetece dizer que “Blue” escava a parte menos funda do poço, abrindo galerias a golpes de “riffing”, ficando a cargo de “Ancient Blue” a tarefa de libertar as criaturas e os espíritos que se escondem nas suas profundezas.
O piano de Eric Watson move-se noutras águas. Se o de Weston é épico, o de Watson é lírico. São já Bill Evans (“Re: Person I knew” é uma leitura bastante literal do estilo do autor de “Alone”) e Mal Waldron a estender-lhe as mãos. Também em piano solo, “Sketches of Solitude” é o oposto de “Ancient Future”. Se neste disco Weston convoca os espíritos da terra e a universalidade da sua música tem berço num continente, os “sketches” de Watson são exercícios de interioridade e suspensão, de solidão assumida. Onde Weston recusa a balada, Watson estende-se sobre ela, à sombra, ainda, de Monk (será, de resto, possível escapar à sua sombra?) mas pela fluência — nunca linear — da narrativa. Com “Ancient Future” sentimos a excitação de caçar a fera. “Sketches of Solitude” faz descer uma névoa e soltar a lágrima que teimamos em fazer nascer do amor. Dois álbuns de piano carregados de sentimentos antagónicos, para ouvir e usufruir em momentos distintos.
Feche-se o tampo do piano com “Beat Degeneration”, de Kenny Werner, gravado ao vivo no Sunside Club de Paris.). Jazz e um teclado mais voltados para os prazeres imediatos da interação interpretativa em formato de trio (com o baixista e o baterista alemães, Johannes Weidenmueller e Ari Hoenig, que já tinham tocado com Werner em “Beauty Secrets”, de 99) e para a introspeção do que para as conjeturas arquitetónicas da composição. Kerouak e Ginsberg podem continuar a descansar em paz. A alucinação e a viagem não passam por aqui.
Para desanuviar, sobretudo dos estados provocados por “Sketches of Solitude”, nada melhor do que viajar (fugir?) para outras paragens. Até à Hungria, por exemplo, onde o jazz habita de outra maneira na cabeça dos músicos. Que o diga o cantor Gábor Winand que em “Corners of my mind” escolheu como motivo principal — senhoras e senhores, preparem-se para o choque — o… amor. Gábor canta mais como um cantor pop do que como um cantor jazz mas recebeu a bênção de Al Jarreau. Ora se veste com o fato confortável de um Chris Isaak disfarçado de “crooner” ora surpreende pela escolha de um “scat” folk, muito pouco virtuosístico mas indubitavelmente original, como em “Lovely Molly”. Talvez pela especificidade da língua este scat soa nalguns casos como um gago a tentar soletrar uma frase, porém o exotismo compensa.
A nível instrumental as coisas também batem de lado. Há um trombone beberolas, uma guitarra distraída e saxofones redondos como os do jazzrock, mais jazz do que rock, inglês dos anos 70 (apetece mastigar o soprano, em “Every morning”). “Diversion” propõe pistas interessantes para a instauração de uma nova “world music” europeia. No todo, “Corners of my Mind” confirma a ideia de que na Hungria a tradição folk é bastante mais forte que a do jazz. Podem ser a borracha um do outro e apagar-se mutuamente…
E, no entanto, é difícil não ceder ao fascínio provocado pela música de outro Gábor, Gábor Gado, em “Orthodoxia”. Gábor é um guitarrista bem letrado na tradição (em Charlie Christian, por exemplo, ou Frisell) que neste disco se faz acompanhar por um quarteto (saxofone tenor, contrabaixo e bateria) de pendor contemplativo. Com títulos como “Orthodoxia”, “Cathedral” e “Syberiada” não custa imaginar estepes geladas e catedrais apontadas ao céu. “Stalker” inspira-se diretamente no filme de Tarkovsky e cabe ao contrabaixo limpar as armadilhas do caminho, da mesma forma que não poderia soar mais “limpo” e elegante o tenor de Matthieu Donarier, neste tema a fazer lembrar curiosamente certas facetas tímbricas de Jimmy Giuffre. A Leste, portanto, nada de novo, mas “Orthodoxia” é bem capaz de arrancar, com a sua inegável religiosidade, alguns arrepios aos mais dependentes daquele “som ECM” que se conhece…
Um terceiro músico húngaro, Mihály Dresch (saxofone soprano e tenor, flauta) foi mais longe do que qualquer dos seus outros dois compatriotas. “Hungarian Bebop” distingue-se, logo à partida, pela “boutade” do título, numa música toda ela marcada por fascínios e pontes de encontro. Aqui a música tradicional está presente como ponto de fuga mas também como alimento de sensibilidades arreigadamente jazzísticas, mesmo quando as notas são produzidas por um tambor étnico ou pelo tradicional Cimbalon (saltério de grandes dimensões). Depois, e este é um enorme depois, o quarteto (com Ferenc Kovács, no violino, Máyás Szandal, no contrabaixo, e István Baló, na bateria) conta com um convidado de peso, Archie Shepp, um apaixonado pela música húngara. Shepp e Dresch funcionam como duplos um do outro, num jogo de múltiplos cambiantes e refrações. Shepp adapta-se facilmente às modalidades tradicionais, incluindo a música cigana, da mesma forma que Dresch assimila sem problemas o fraseado e os tempos do americano. Exemplar desta fusão em que nada se perde e tudo se transforma é o modo como uma das composições emblemáticas de Shepp, “Steam”, se converte num corpo autónomo, organizado sobre as vozes do sax tenor do húngaro e do violino, remetendo-se o compositor ao acompanhamento no piano. Shepp que em “Sorrow, sorrow” arranca um dos momentos mágicos de “Hungarian Bebop”. Escutamos vozes e sons (o cimbalon encharcado em nostalgia) de séculos passados, castelos abandonados e amores esquecidos. Subitamente encontramo-nos num lugar imaginário, de solidões partilhadas. De um lado um Oriente mal curado de feridas de séculos. Do outro, a voz surpreendida e comovida de um continente novo e de uma música, o jazz negro, que aí descobre, numa humildade encantada, o reverso da sua exaltação. Encontram-se algures. E isso basta.



Ran Blake – “Wende” + Beaver Harris – “African Drums” + Aldo Romano – “Alma Latina” + Aldo Romano & Joe Lovano – “Ten Tales” + Dave Liebman – “Homage To John Coltrane” + Michel Petrucciani, Jean François Jenny-Clark, Aldo Romano – “????” + Jeanne Lee – “Natural Affinities” + Bob Mintzer & Gil Goldstein – “(Longing)”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 25 Janeiro 2003

Reedições da editora francesa Owl dão a conhecer o melhor e o pior do jazz moderno. Realce para uma grande voz feminina pouco conhecida, Jeanne Lee, e para o duo Romano/Lovano.


Afinidades naturais


Ran Blake
Wende
8/10



Com inclinações e formação “third stream” (Stravinsky, Bartok e Ives contam-se entre as suas influências) mas permeável ao espírito de Monk e ao conceptualismo “futurista” de George Russell, Blake é o típico pianista multifacetado que toca como se realizasse um filme. A sua música, aqui no formato de piano solo, recorrente na sua obra, evoca sentimentos, épocas e visões, num sobressalto anímico em que, sem paroxismos, os sons desenrolam-se com a naturalidade da vida, com todos os seus contrastes, passando do lirismo mais depurado para uma frase de “blues”, desta para um ataque às teclas de uma violência extrema, para logo a seguir sussurrar em “pianíssimos” de recorte fantasmático. Entre a música clássica e o jazz, Blake apenas se preocupa com a lógica interna das suas motivações. “Conhece-te a ti mesmo” sempre foi uma máxima seguida pelos grandes músicos.

Beaver Harris
African Drums
7/10




Ao invés da grande tribo de tambores reunida por Max Roach no clássico “M’Boom”, ou da selvajaria ritual de Kahil El’Zabar, “African Drums” (1977) é uma celebração mais contida das pulsações rítmicas africanas. É seu autor o baterista Beaver Harris, homem de largo passado e reconhecidas apetências “free”, nos anos 60, ao lado de Archie Shepp e Albert Ayler, mas que na década seguinte se aproximou progressivamente da tradição. “African Drums” é uma sucessão ininterrupta de solos, ou um único e prolongado solo, de bateria que, no título-tema, funciona como base para uma intervenção no sax tenor de David S. Ware, avatar da “free music” atual. Convulsão de fogo a sublimar as respirações da terra. Harris é África, Ware um outro mundo.

Aldo Romano
Alma Latina
3/10



Chamar a “Alma Latina” jazzrock ou fusão é ofender um género cultivado por Miles ou pelos Weather Report. Philip Catherine toca guitarra como se fizesse um frete, Benoit Wideman, com ligações ao rock progressivo, limita-se a teclar para efeitos de decoração e Romano chega a ser básico. Coisas como “Santa Maria Novella”, “Alma latina” e “La derniére chanson” (pop de variedades francesa do piorio) deviam ser proibidas. O que é que lhes deu?

Aldo Romano & Joe Lovano
Ten Tales
9/10



Nunca o saberemos. Mas podemos perdoar o baterista pelo que, ao lado do saxofonista Joe Lovano, nos oferece em “Tem Tales”, gravado em 1989 ao vivo e em direto no estúdio para um gravador de duas pistas. “A auto-análise esconde surpresas”, diz Romano, considerando ainda que neste desafio a dois, raro desde os anos 60, e na senda de “Interstellar Space”, de 1967, de Coltrane com o percussionista Rashied Ali, foi mesmo necessário “ir ao fundo de si mesmo”. Improvisação, comunicação, provocação, suspensa do instante e da eternidade, da energia e da dinâmica interativa. Lovano nunca terá sido tão Coltraniano, na intensidade, articulação e liberdade de discurso, como aqui. Romano cria, combate e descobre a cada passo, em constante metamorfose. Essencial.

Dave Liebman
Homage to John Coltrane
7/10


“Hot”, sério, mas nem sempre para ser levado a sério. Eis Dave Liebman, discípulo de Charles Lloyd e “sideman” de Miles, um dos muitos saxofonistas de costela coltraniana a homenagear a figura e a música do mestre. “Crescent” e “Love” sobem em agudos vertiginosos no soprano (o tenor fora entretanto posto de lado). Na balada, no “hard bop” ou no “free”, o grupo, onde não faltam um sintetizador e oboés, escala quanto pode as escalas do autor de “Ascension”, mas é Liebman quem segura a corda e trepa até aos extremos. “India”, embora transformado em solo de sintetizador jazzroqueiro, não envergonha o jazz, mas tem consciência de que o público do rock está ali mesmo ao lado, atento, a olhar. E, depois, Coltrane não era apenas drama nem tragédia.


Michel Petrucciani, Jean François Jenny-Clark, Aldo Romano
7/10


O pianista Michel Petrucciani, o contrabaixista Jean François Jenny-Clark e o baterista Aldo Romano dispensam outra apresentação para além dos seus nomes nesta gravação de 1981. Como Bill Evans, Petrucciani é um pianista “miniatural”, de ângulos e arestas pouco pronunciados e de melodias rendilhadas. Jenny Clark e Romano estão lá para pontuar, sustentar ou contrapor. Nenhum dos três fala do que tem medo mas este é um jazz que procura esconjurar dores e apaziguar-se nas águas de um lago. Sugestões de bossanova, de “Chiado Terrace”, momentos em que a melancolia sabe bem.


Jeanne Lee
Natural Affinities
9/10



Começa com um monólogo-citação de Mingus sobre a alma e os seus caminhos. Início de uma viagem de afinidades várias, da música e dos músicos, da palavra e dos sons que magicamente as formam, conduzidas pela voz de Jeanne Lee. Uma grande voz diferente das outras grandes vozes do jazz. Cantou com Ran Blake, Archie Shepp, Gunter Hampel (com quem casou e integrou a Galaxie Dream Band), Anthony Braxton, Sunny Murray, Marion Brown, Carla Bley, Andrew Cyrille, Roland Kirk e Lauren Newton. E John Cage. Em “Natural Affinities” (1992), tem a companhia de Hampel (vibrafone e flauta), Dave Holland (baixo), Amina Claudine Meyers (piano e voz) e Wadada Leo Smith (trompete) entre outros. O tom da sua voz é grave, declamativo, timbre de veludo e camurça, “scat” e poesia disponíveis para a descoberta, a sensualidade e o risco. Surgem vozes de vozes, em “reverse” e em sonhos. Nos vários “Peace Chorale”, o jazz penetra em territórios inóspitos, desmultiplicando-se em camadas harmónicas sobrepostas, avançando em uníssonos com os saxofones, quebrando as notas e os compassos para finalmente desaguar numa praia do Brasil, na “Celebration of a state of grace”.

Bob Mintzer & Gil Goldstein
(Longing)

8/10


Bob Mintzer (sax tenor e clarinete baixo) e Gil Goldstein (piano e acordeão) fecham em duo o voo do mocho. Ambos arranjadores, resolveram experimentar a difícil arte do diálogo. Ouvem-se na perfeição um ao outro, o que é meio caminho andado para espantar a conversa fiada. Percebe-se que se admiram mutuamente pelo teor e incisão das palavras e porque nenhum deles levanta a voz mais do que o necessário para se fazer compreender. Jazz de intimismos, exige que se lhe peça licença para nos intrometermos. “Comotion” é um título que tem dentro a compreensão da corrente que por aqui passa em ambos os sentidos. Riso, luz, plenitude.

O mocho piou 8 vezes. Com som remasterizado, embalagens digipak e distribuição pela Universal.