Vários – “XV Festa Do ‘Avante’ Tradição Na Revolução” (festivais / concertos)

Secção Cultura Quinta-Feira, 25.07.1991


XV Festa Do “Avante”
Tradição Na Revolução



Por incrível que pareça os comunistas portugueses não têm só defeitos, também têm qualidades. Sobretudo a partir do momento em que desistiram de comer criancinhas, a sua popularidade aumentou enormemente. Tornaram-se mesmo quase simpáticos. Mas não só a mudança de hábitos alimentares é digna de elogios. Também a sua reconhecida capacidade de organização e mobilização das massas.
Assim voltará a ser, nos dias 6, 7 e 8 de Setembro, na Atalaia, Amora, Seixal, com a Festa do “Avante” a entrar na sua XV edição. Em matéria de música, o programa insiste, e bem, numa política de diversificação. Dos oito cabeças de cartaz, metade inclui-se na área da música folk, ou tradicional: June Tabor, Oyster Band (está prevista a actuação conjunta da voz abissal da primeira com a euforia etilizada dos segundos, repetindo a magia discográfica de “Freedom and Rain”), Boys of the Lough, irlandeses da estirpe de uns Chieftains, Altan ou Patrick Street, onde pontifica o violinista Aly Bain, e Savourna Stevenson, uma das grandes intérpretes da “clarsach”, ou harpa escocesa, da actualidade.
No capítulo do rock a escolha recaiu na italiana Gianna Naninni, que, espera-se, causará escândalo, com a energia e entrega evidenciadas no álbum “Scandalo”. O vídeo recente tem a assinatura de um louco, Dieter Meier, membro dos inclassificáveis Yello.
O trio do pianista Cedar Walton, o “acompanhador perfeito”, como lhe chamaram, tocou a o lado de lendas como Charlie Parker, Dizzy Gilespie ou John Coltrane), que virá acompanhado pela bateria de Billy Higgins e o baixo de David Williams, fará decerto as delícias dos amantes do jazz.
Os Bogus Brothers são o primeiro nome internacional na história da Festa do “Avante” a reincidir. O êxito do ano passado forçou o regresso em força da “soul” e dos “rhythm and blues”. O flamenco estará presente através da guitarra cigana de Rafael Riqueni, para alguns o digno dicípulo de Paco de Lucia. Estes os nomes sonantes. Para além deles, os portugueses vão mostrar que a festa também sabe ser aqué,-fronteiras: Delfins, Pop Dell’Arte (no rock), Júlio Pereira (Folk-rock) e os grupos de José Eduardo e António Pinho Vargas (jazz-música contemporânea) garantem à partida grandes momentos musicais.
Mas nem só de música se faz a Festa do “Avante”. Uma bienal de pintura, na sua sétima edição, ou o Avanteatro, são algumas das realizações com que o PCP se propõe agitar e dinamizar durante três dias, o nosso tradicionalmente “morno” meio cultural. No grandioso palco 25 de Abril (agora transformado em anfiteatro), no pavilhão 1º de Maio ou em qualquer recanto onde a festa possa acontecer.
O resto é o folclore e a ideologia do costume, nos inúmeros pavilhões espalhados pelo recinto ou no inevitável discurso do camarada Álvaro Cunhal (ainda por cima com legislativas à porta), em festa que, ninguém duvide, constitui um dos acontecimentos culturais mais importantes, a nível nacional. Pelo menos uma vez por ano, os comunistas portugueses estão de parabéns. Até porque neste o partido cumpre a bonita idade de 70 anos. Avante camaradas.

Tom Petty And The Heartbreakers – “Into The Great Wide Open”

Pop-Rock Quarta-Feira, 24.07.1991


TRABALHO DE PROFISSIONAL

TOM PETTY AND THE HEARTBREAKERS
Into The Great Wide Open
LP / MC / CD /, MCA, distri. BMG


“Gostava de abrir novos caminhos e deixar alguma marca na música, que todos identifiquemos como nossa – é isso que eu estou a tentar fazer”



Foi o que disse um dia Tom Petty, levantando a ponta do véu sobre as suas intenções relativamente às suas ambições musicais. Disse “tentar fazer” e disse muito bem. O problema está menos nas intenções, cem por cento louváveis, e mais nos resultados. É que, até agora, por mais tentativas que faça, e já leva 20 anos de música no activo, Tom Petty não consegue abrir caminho nenhum. Quanto à “música que todos identifiquemos como nossa” não se percebe muito bem o que quer dizer. Devia estar bêbedo.
“Into The Great Wide Open” é rock and rol suave, fluente, com a cadência fácil e sem atritos de um automóvel rolando em quinta velocidade numa auto-estrada americana. Mas nem sempre o que parece girar sobre esferas é o mais interessante e, muito menos, o mais original. Como Tom Petty, há dezenas de outros músicos que “gostavam de abrir novos caminhos” (na maior parte das vezes em vez de abrir, fecham-nos), a borbulhar na sopa requentada dos tops norte-americanos.
Bruce Springsteen deu o mote dos “contadores de histórias” solitários, eternamente “on the road”, à procura da América mítica e de si próprios. Mas nem todos podem ser como Tom Waits ou Stan Ridgway, das poucas excepções à regra geral, pautada pela mediocridade. Há neste disco uma complacência irritante que deixa adivinhar o vício mais grave da preguiça. Sente-se que aquilo que Petty faz, fá-lo com uma perna às costas, com a destreza e a competência de um profissional. Seria desculpável, segundo a máxima “quem faz o que pode e sabe a mais não é obrigado”, se Tom Petty não desse mostras de poder fazer muitomais. Se não faz é porque não quer, até porque, assim como assim, os discos vendem que se fartam. Nota-se que o guitarrista poderia tr ido bem mais longe na exploração do filão melódico patente em faixas como “Into the great wide open”, “All or nothin’” ou “Too good to be true”, em que as imagens de uma América à beira da desolação (“morning on the outskirts of town / sitting in the traffic alone, you don’t know what it means to be free”) formam um filme negro coerente, servido pelo argumento plausível da “rock ‘n’ rol way of life”. Talvez o defeito esteja na produção, demasiado adocicada, de Jeff Lynne, o homem da Electric Light Orchestra. Seja como for, a música não está de modo nenhum ao nível das palavras e dos ambientes que se procuram evocar.
Ao contrário do que Tom Petty afirma, as canções não estão “em qualquer lado para onde se olha”. Se assim fosse, só os cegos não fariam música. E o pior cego é aquele que não quer ver.
**

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

Santana – “Mística”

Pop-Rock Quarta-Feira, 24.07.1991


Santana – Mística



“Acredito em anjos. Continuo a sentir um arrepio ao pensar em algo que não vem de mim ,as passa através de mim”. Segundo esta sua declaração, Carlos Santana seria uma (ou mais) das seguintes coisas: a) um mistificador; b) um louco; c) alguém debaixo do efeito pernicioso de drogas fortemente alucinogénias; d) um místico genuíno. Pondo de parte a primeira hipótese, por falta de provas.
Carlos Santana desde cedo enveredou pela carreira de músico. Durante a juventude tocou num bar suspeito, em condições que o terão marcado para o resto da vida, fazendo eclodir na sua alma juvenil, por contraste, uma grande ânsia de pureza e espiritualidade. Nessa “cantina”, como lhe chamava, Carlos tocava guitarra das quatro às cinco da madrugada, para dar lugar, a seguir, a sessões de “strip-tease” com prostitutas. Visões de um mundo sórdido que apenas a droga permitiria apagar. Após essa experiência traumática e de ter lavado pratos num restaurante, formou finalmente os Santana Blues Band, banda à qual, mais tarde, retiraria os dois últimos nomes.
Na época, o mundo explodia, em plena “feérie” psicadélica. Em São Francisco, centro floral da cultura “hippy”, o jovem Carlos foi seduzido pela liberdade de costumes e a mistura de tudo que aí proliferava. Os Sanatna projectavam-se definitivamente na cena mundial, através de uma memorável actuação no mítico Woodstock. Nessa ocasião, entre a grandiosa desorganização vigente, Carlos terá cometido um erro de cálculo ao ingerir doses consideráveis de mescalina como preparativo para o concerto programado para mais tarde. Só que alguém o terá empurrado para o palco, dando-lhe tempo apenas de pedir ajuda a Deus para “não desafinar” e de deslumbrar uma multidão rendida ao poder de “Soul Sacrifice”.
Em 1972, instigado por John McLaughlin, converteu-se aos ensinamentos do guru Sri Chinmoy. Deixou de fumar, de beber e de outras coisas. Hoje renegou o mestre – “Os gurus tornam-se paranóicos quando os estudantes transcendem a sua filosofia” – a partir daí, dispensando os intermediários entre si e a divindade. A nova filosofia de vida, de carácter gnóstico, resume-a do seguinte modo: “Deus revela-me que há uma luz vermelha que me diz para parar, uma verde para seguir e uma amarela para abrandar”.
Para Carlos Santana era o consumo cada vez mais desenfreado de drogas e a imersão total no universo da transcendência. Torna-se-lhe progressivamenre mais difícil distinguir a realidade da ilusão. Quando diz que a legião de fumadores de haxixe de Woodstock equivalia à Resistência francesa ou que tocou com Herbie Hancock, Wayne Shorter, Willie Nelson, Buddy Miles, John Lee Hooker e Alice Coltrane, sentimos ao mesmo tempo piedade e simpatia. Refere-se, a propósito do actual ressurgimento do seu nome, à música, como “água pura, paciente, que sempre acaba por penetrar a rocha”. Acenamos que sim, que estaremos todos em Alvalade.