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Este é um blog de homenagem ao maior crítico musical português de todos os tempos, precocemente desaparecido de entre nós. Usufruam da sua obra e, sobretudo, como ele desejaria, desfrutem da música que ele amava e sobre a qual escrevia.
                                                                                                               

                           

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31 leituras

06.02.2004

Wim Mertens
Skopos
Usura, distri. Megamúsica
6/10

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Wim Mertens tem um dilema. Empenhado na criação de uma obra monumental, nalguns casos impenetrável, dispersa por trilogias, tetralogias e infinitologias, sente-se, por outro lado, impelido a mostrar um lado mais acessível e “fácil” da sua música. “Skopos” pertence à categoria do Mertens “ligeiro” e “mainstream”. Armado do seu “ensemble”, o compositor flamengo cria um híbrido de estilos e sonoridades exóticas capazes de seduzir o ouvido pelo imediatismo. Flamenco e música árabe fazem a sua aparição em “Add growth can be heard”, “Further Hunting” é pretexto para percussões em compasso de “house” subliminar e “Swirling backwards” reinventa o lado erudito dos Tuxedomoon, enquanto “From out of which” retoma as velhas poanadas num registo pop próximo dos Penguin Cafe Orchestra e “Bold forgetting” e “Working the Ploughs” apostam no minimalismo romântico que depois de “O Piano” de Nyman não cessou de se repetir. Sem dúvida bonito, mas longe da estranha música de “Vergessen”, “Struggle for Pleasure” e “Maximizing the Audience”, aqui apenas igualada pelo belíssimo ( e Nymaníssimo…) epílogo, “Bewildering din”.

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23 leituras

23.01.2004

Tied & Tickled Trio
Observing Systems
Morr Music, distri. Ananana
8/10

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“Observing Systems” (termo criado no início dos anos 70 pelo teórico de sistemas cibernéticos Heinz von Foerster), quarto álbum da dupla germânica formada por Markus (bateria, programações) e Micha Acher (trompete, baixo), mistura estilos e sonoridades com o desplante de quem tem à sua disposição os arquivos da grande enciclopédia de música universal. “The long tomorrow” faz interagir o jazz, a electrónica e o pós-rock com Misha a empolgar-se numa personificação energética do Miles Davis de “In a Silent Way”, bem secundado pelos devaneios “free” de Johannes Enders, no sax tenor. Mas logo tudo se fragmenta em refracções “dub” ou atraindo a si os miasmas de nostalgia dos Tuxedomoon. Sucessivamente, vão emergindo paisagens “trip hop”, “avant jazz” e até, em “Motorik”, uma leitura bastante livre e jazzística do krautrock dos Neu!. Thelonius Monk e Sun Ra são igualmente objecto de presumíveis homenagens, respectivamente em “Ship Monk” e “Radio Sun”. A observação da observação leva a uma nova compreensão da realidade”, diz Foerster e os T&TT põem em prática. Delírio quântico ou regurgitação de informação em excesso, seja como for, está bem observado.

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39 leituras

23.01.2004

Vários
On Paper
2xCD Crónica, distri. Matéria Prima
8/10

O suicídio esclarecido de Sócrates, encarado como prova da imortalidade da alma, faz sentido em termos ontológicos. Acontece que, quando calha a nós, como diria Woody Allen, faz sentido, sim, mas “no papel”. Esta discrepância entre a Fé e a desconfiança da razão encontra eco no trabalho de “colagem/descolagem” empreendida por artistas sónicos portugueses como Vítor Joaquim, @C, Paulo Raposo, Longina e Pedro Tudela, a partir de um tema deste último, “Rasgão.aif”, e do papel, simultaneamente superfície rasa e suporte de informação. “Aceitar que se trata de uma matéria que acumula informação por camadas e conjugações” como ponto de partida, determina as múltiplas manipulações/funções de “On Paper” em que o som do papel (rasgado, dobrado, batido à máquina…) é processado electronicamente. Ao contrário da máxima de Allen, porém, resulta desta operação não a dúvida ou o medo, mas uma paleta diversificada de músicas inseridas no “industrial”, na música concreta, no ambientalismo digital sujo ou em abstracções órfãs de paternidade estética. Soa incómodo, no papel. Aos ouvidos, felizmente, ainda mais.

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69 leituras

30.01.2004

The Who
Tommy
2xCD Polydor, distri. Universal
9/10

The Who – A Ópera do Cérebro

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“Tommy, can you hear me?”, o grito, ouvido nos quatro cantos do mundo onde se ouve música rock, volta a ecoar, passados 35 anos. Tommy, o rapaz cego, surdo e mudo que se relacionava com a realidade através dos jogos de flippers, nos quais era imbatível, está de regresso. Agora em formato de super áudio CD (legível também nos leitores vulgares), em som Surround e aumentado para dois discos. Sujeito a nova remistura por Pete Townshend, o álbum tem agora a companhia de 17 temas extra, incluindo “demos” e apontamentos dispensáveis. Lamenta-se ainda, em comparação com a anterior reedição (em CD simples), a ausência e a eliminação do grafismo original.
Mas é “Tommy”, a ópera-rock, que renasce das cinzas. Na altura foi recebida com aclamações de “obra-prima” mas também como uma exploração chocante da temática do autismo e da violação (numa parte da narrativa, Tommy, ainda criança, é violado por um tio). “Tommy” é ambas as coisas, marcado pelo acesso de misticismo de Townshend, na altura influenciado pelas ideias de Meher Baba (o grande álbum da banda, “Who’s Next”, abriria mesmo com o tema-dedicatória “Baba O’Riley”).
Sexo, drogas (o ácido, claro, estava-se em 1969… e em 2004, o último número da Mojo dedica 40 páginas ao tema!…), ilusões, traumas, religião, falhanços e, em última instância, o triunfo e a glória do herói, metamorfoseado em Messias, reflectem as preocupações do líder e guitarrista do The Who, para quem a realidade não é percebida exclusivamente pelos sentidos mas por uma visão interior. “Tommy” é essa viagem de descoberta interior. O disco teve, aliás, títulos provisórios elucidativos, como “Amazing Journey”, “The Brain Opera”, “Journey into Space” e “Deaf, Dumb and Blind Boy”. Sofreu precalços. De grande música derivou para o espectáculo de pacotilha em que Ken Russell o transformou, ao fazer do tema matéria para o seu filme e, consequentemente, convocando para a banda sonora uma chusma de estrelas para interpretarem, no filme e no disco, as personagens idealizadas por Townshend. Esse, porém, é outro “Tommy”, porventura até mais conhecido.
As 24 canções de “Tommy” são jogadas acutilantes de pop e rock que integram elementos de psicadelismo (“Christmas”, “Cousin Kevin” ou “Smash the mirror”, por exemplo, mais do “The acid queen”, são suficientes para amolgar o cérebro), melodias de sedução e precisão notáveis e arranjos que desmentem em absoluto a ideia da ópera-rock ser um amontoado balofo de exibicionismo de meios e lugares-comuns. “It’s a boy”, “Pinball wizard” e “I´m free” são as canções mais conhecidas, aquelas às quais as rádios e as memórias se agarraram, mas é a sequência total que impressiona.
“See me, feel me, touch me, heal me” é o pedido de auxílio, lançado insistentemente pelo deus dos “flippers”. “Tommy”, o disco, faz o mesmo apelo.

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54 leituras

09.01.2004

Enon
Hocus-Pocus
Southern, distri. Sabotage
6/10

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Uma voz de menina inocente, sapatos de ritmo com marca “new wave”, energia com escape livre, electrónica convenientemente adaptada à tendência “electro-punk” em voga. Canções com cabeça, tronco e membros, não necessariamente por esta ordem. A combinação resulta. Há quem tente definir esta banda sediada em Brooklyn através do recurso a citações aos Tom Tom Club, The Cure iniciais e Love. Os primeiros a sustentar a faceta “new wave” musculada, os segundos tentando contextualizar a sonoridade de um tema como “UTZ”, os Love garantindo a credibilidade do lado psicadélico do grupo, cultivado em “Storm and gates”. Há ainda o exotismo resultante das vocalizações da cantora japonesa Toko Yasuda, sabendo-se da capacidade das vocalistas japonesas para soarem como bonecas mecânicas capazes de soletrar toda a gama de emoções situadas entre a inocência e a perversidade (“Mikazuka”, “Monsoon”). Se juntarmos a tudo isto um lado teatral e o glam-punk do Bowie de Ziggy Stardust (“Litter in the glitter”) ou a balada final que dá título ao álbum, embalada em guitarra acústica e sintetizadores-realejo, compreenderemos melhor que o principal problema dos Enon estará nesta altura em encontrar um fio condutor que os transforme de banda cheia de ideias em banda com rosto próprio.

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60 leituras

26.11.2004

Samuel Jerónimo

Redra Andra Endre de Fase
Ed. e distri. Thisco
8/10

A surpresa vem de onde menos se espera. “redra…” é uma pedrada no charco do panorama da electrónica portuguesa. O seu autor, 25 anos, admirador de Fripp, Steve Hackett, Steve Howe, Berg, Debussy, Schönberg, Reich e Terry Riley, assinara antes peças de guitarra, uma “suite” de 36 min. Para grupo rock e um ensaio de “Redra” incluído na compilação da This..Co. “Thisobidience: These Guys Gone Out!”. O álbum de estreia é um “tour de force” de música minimal onde se combinam equações de piano, marimbas inspiradas, nas orquestras gamelão, electrónica pontilhística e tratamento de computador. Das três composições, “redra” desenvolve-se ao longo de 33 minutos de amor à causa “música minimal repetitiva” (MMR), sem sossobrar nos “clichés”. A influência de Reich é inquestionável mas também se detectam sinais de “A Walk in the Woods” de Mikel Rouse. Jerónimo “ataca” o piano com o vigor de um Keith Emerson da MMR e põe as marimbas a fazer sessão de hipnose. Atrás das melodias principais, os duplos harmónicos criam uma rede de melodias secundárias que se substituem umas às outras num efeito de eternidade suspensa. É um objecto único e fascinante.

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124 leituras

21.05.1997

Vários
Sacrilege (6)
2XCD Spoon, distri. BMG

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)
LINK (Parte 3)

Filme de Monstros

Sacrilégio ou não, o projecto de remisturar a música dos Can, há muito acalentado por Daniel Miller, patrão da Mute e admirador da banda germânica desde “Monster Movie”, não é tanto a recriação da música do grupo, como uma derivação dos seus métodos de trabalho. Daniel Miller prefere, aliás, chamar-lhe “reinvenção”, em vez de “remistura”.
Dos 16 temas que compõem “Sacrilege”, poucos são os que se preocupam minimamente em preservar o material original. Não se trata, pois, de um álbum de música dos Can, como Daniel Miller também faz questão de salientar, mas de uma sua extensão, etapa do “work in progress” que, em última análise, e segundo Irmin Schmidt, constituiria a essência de toda a música do grupo. Nesta operação de manipulação e apropriação não espanta que tivessem sido os representantes da música de dança a responder aformativamente ao convite formulado por Miller. Do lado do rock, a disponibilidade foi menor. Julian Cope, Mark E. Smith, dos The Fall, ou John Lydon, assumidamente influenciados pelos Can, recusaram participar no projecto, alegando ser a música dos alemães demasiado boa para ser modificada.
Uma questão moral que não se levantou a gente como A Guy Called Gerald, Sunroof, System 7, Carl Craig, 3P ou Air Liquide, atendendo à facilidade com que transformaram em exercícios “jungle”, “drum ‘n’ bass” e tecno ambiental a organicidade de temas como “Tango whiskyman”, “Oh yeah”, “Blue bag (inside paper)”, “Future Days”, “Flow Motion” e “You do right”. Todos eles se inserem numa estética corrente que faz coincidir as noções de “composição” com as de “reciclagem” e “manipulação”.
Ao desafio de fazer música utilizando o material de uma banda que se situou nos antípodas desta estética, só era possível responder de duas maneiras: ou com o total desrespeito evidenciado pela “dance people”, cujas versões tornaram irreconhecíveis os temas originais (“Não reconheci ‘Tango whiskyman’”, disse a propósito da versão deste tema, pelos A Guy Called Gerald, Irmin Schmidt), ou a devoção. No primeiro caso tanto fazia que fossem os Can ou outro grupo qualquer a servir de pretexto. No segundo, o resultado saldou-se num esvaziamento dos originais, do qual é paradigmático a técnica de maquilhagem aplicada pelos UNKLE a “Vitamin C”. Mesmo sabendo-se que a música gravada dos Can foi, quase toda ela, obtida a partir de um trbalho de edição de horas de contínua improvisação. Só que a filosofia era outra.
Compreendeu bem o problema, Brian Eno, que revela a posição mais lúcida diante desta encruzilhada. Numa carta endereçada aos homenageados, escreveu: “Melhor do que ninguém, vocês capturaram o espírito de uma época e de um lugar, indissociável de uma comunidade musical específica, revelando uma atitude em relação ao acto de tocar, uma filosofia. Não era só a música.” E, mais à frente: “Se querem fazer discos para outras pessoas misturarem, então não os façam tão brilhantes em primeiro lugar!2 Em consonância, Eno optou por não remisturar material prévio, mas pela composição de um tema original que tenta reproduzir esse mesmo espírito. Com modéstia, propôs a sua utilização como interlúdio. O tema de abertura que assina em “Sacrilege”, “Pnoom”, dir-se-ia extraído das “Ethnological forgery series”, constituindo a excepção, num álbum saturado de “breakbeats” que trocam a batida hipnótica dos magos de Colónia pela sucessão monótona de bits agitados pela neurose, segundo a já estafada fórmula da “tensãp do pré-milénio”. O espírito de “jam session” tribal dos Can não se resolveu nessa tensão.
Ressalvem-se ainda as prestações dos Sonic Youth, em “Spoon”, uma clonagem do original a sustentar pinceladas de guitarras em estado de decomposição, dos Westbam e The Orb, com mutações subtis, respectivamente de “I want more” e “Hallelujah”. O computador “Deep Blue” venceu Kasparov. Mas a programação não derrotou o ritual.

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125 leituras

18.09.1998

Vega, Vaisanen, Vainio
Endless (8)
Blast First, import. Symbiose

Essa Terrível Agonia

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Alan Vega foi fulminado por um raio lançado por Elvis Presley. Mas essa visão que lhe macera a carne e o espírito esteve sempre acompanhada por uma terapia de electrochoques como única maneira de impedir a possessão definitiva. Se Presley personificava uma sexualidade enfiada num frasco de obscenidade perfumada, Vega cultiva o erotismo da fúria e a paixão pela morte. O “rockabilly”, na versão apocalíptica do ex-Suicide, é um eixo de metal incandescente que, à semelhança de Presley (e do mito em que a memória o transformou), trespassa o coração da América de lado a lado. Mas onde Presley promovia estranhas cumplicidades com Eros, Vega espalha armadilhas com a ajuda de Tanathos. Com os Suicide o sangue escorria carregado por dez mil volts de castigo. De “Cheree”, a derradeira canção de amor sem remédio nem sentido, ao suicídio e loucura narrados nesses dez minutos de inferno que são “Frankie teardrop”, a música dos Suicide subverteu num par de álbuns (“Suicide”, de 1977 e “Alan Vega – Martin Rev – Suicide”, de 1980) a memória do rock ‘n’ roll, amarrando à cadeira eléctrica a banana fálica dos Velvet Underground.
Com a extinção dos Suicide, a consequente carreira a solo do cantor derivou para uma acumulação de equívocos. O “rockabilly” e as entoações presleyanas caíram numa caricatura. Faltava o estímulo de Martin Rev, cuja serração electrónica funcionava nos Suicide como o casino onde Vega, “crooner” da maldição americana, soltava sem entraves os seus fantasmas.
“Cubist Blues”, editado há dois anos, representou o regresso em força de Alan Vega em direcção ao “paraíso” perdido dos Suicide, tendo por companhia Alex Chilton e Ben Vaughn. Mas, se o espírito dos Suicide estava aí já presente, faltava ainda o palco formal que garantisse e potenciasse uma nova sistematização da loucura. Foram dois noruegueses, Mika Vainio e Ilpo Vaisanen, a preencher, dezoito anos volvidos sobre o último disco de originais da dupla – que nos concertos ao vivo tinha como hábito lutar corpo-a-corpo com o seu público, – o lugar de Martin Rev. Mika Vainio e Ilpo Vaisanen, dos Pan Sonic, funcionam como uma fábrica de ritmos gelados em comparação com os quais os Kraftwerk, soam como uma dança tropical. Mas aos primeiros sons de “Endless” sente-se a estocada: os Suicide ressuscitaram. Golpe a golpe, fere-nos a mesma orgia electrónica de sequências psicóticas, sonorizações de claustrofobia, equações sobre a termodinâmica do desespero. Que Alan Vega aproveita de forma sublime, se é que o termo se pode aplicar a este acto de tragédia que esconde, ainda e sempre, uma ânsia desamparada de amor.
“Pesadelo! Pesadelo! Pesadelo!”, grita Vega no vórtice do descontrolo emocional, sobre um martírio electrónico de alta tensão elaborado pelos dois nórdicos, em “Outrage for the frontpage”, um dos temas que reactiva de forma mais mortífera os centros nervosos dos Suicide. Mika Vainio e Ilpo Vaisanen furam com brocas de dentista a ténue camada de resistência com que tentamos fazer frente ao medo. E é a cavalo no medo que Alan Vega invectiva, soluça e enlouquece, em sobreposições infinitas de ecos, reverberações, rupturas, duplicações e outros distúrbios vocais, numa agonia sem fim.

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124 leituras

25.07.1997

Tarwater
Rabbit Moon Remixed (7)
Kitty-Yo, distri. Ananana

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O enigma Tarwater esclarece-se aos poucos, à medida que a sua música se vai cristalizando numa fórmula cujos contornos são agora mais visíveis do que no anterior “11/6 12/10”. Dirigindo as suas operações a partir de Berlim, esta banda germânica liderada por Markus Popp (também elemento dos Oval e dos Microstoria) dificilmente se pode enquadrar no movimento pós-rock, sendo antes a sua música uma derivação mutante da música industrial e de um tipo de conceptualismo experimental onde se vislumbram tanto as sinfonias de sampler de Holger Hiller, do período “Oben im Eck”, como o ambientalismo doentio dos ditos Oval e Microstoria, e tentativas ténues de abertura a programações mais próximas da pop.
“Rabbit Moon Remixed” não explicita a autoria das misturas, mas é lícito concluir que estas se devem aos próprios músicos da banda, que aqui recicla, tornando totalmente irreconhecíveis, temas do álbum anterior, como “11/6 12/10”, “Inversnaid”, “Euroslut” e “Rome”. Se “11/6 12/10” causava estranheza sobretudo nos momentos em que a música descarrilava para bizarras divagações pelo “jazz”, num sax e num vibrafone que pareciam querer libertar-se da asfixia, esta “lua do coelho” fecha-se num mundo de sombras e pulsações distorcidas onde as percussões se orgulham da mesma majestade diabólicas dos Laibach e os sintetizadores soltam labaredas frias, na criação da banda sonora febril das 24 horas na vida de um escritório cibernético. A onda de remisturas que assola a ala radical dos “electro-rockers”, dos Kreidler, com “Resport”, aos Microstoria, com “Reprovisers”, tem nos Tarwater um passe de bruxaria.

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121 leituras

12.11.1999

Yes
The Ladder (7)
Eagle, distri. Música Alternativa

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Nos anos 70 e na óptica dos 80, os Yes tinham um grave defeito: sabiam tocar bem os seus instrumentos. Para os punks era ofensivo, sobretudo quando se pretendia facturar recorrendo a todos os expedientes e a música passava para um plano secundário. Lançava-se o argumento da energia, mas mesmo aí a energia que os Yes produziam em dez segundos era superior ao que uma banda punk conseguia suar durante uma carreira inteira. Foi então, quando os Buggles entraram para o grupo, numa tentativa desesperada de modernização do som, que o caldo entornou. Os Yes nem eram os “velhos” capazes de satisfazer os velhos fãs, nem uma nova banda capaz de agradar às gerações mais novas. Os anos 90 assistiram à reentrada do grupo na sua música de sempre, graças à edição dos dois volumes duplos de “Keys to Ascension”. “The Ladder” prossegue o reatamento de uma via precocemente interrompida. Com a formação clássica composta por Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire e Alan White, neste disco aumentada por um segundo guitarrista, Billy Sherwood, e pelo teclista Igor Khoroshev, os Yes conseguiram a proeza de dar frescura a uma música que insiste em permanecer viva à entrada do novo milénio. Jon Anderson continua a cantar como um andrógino, Howe e White respiram saúde, enquanto o novo teclista se apossou do estilo dos seus antecessores Rick Wakeman e Patrick Moraz. Longas viagens interplanetárias instrumentais, o misticismo do costume e uma homenagem a Bob Marley (“The Messgae”) não envergonham, antes reciclam, um passado ilustre. Até a capa é de Roger Dean.

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