Tomahawk – “Tomahawk – O Míssil Vai Cair No Minho” (concertos / festivais)

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18 Julho 2003

Ao segundo lançamento, os Tomahawk, de Mike Patton, limparam o campo de batalha. “Limparam” é uma força de expressão. “Mit Gas”, o novo álbum, cheira a carne queimada. O “barbecue” será montado e servido em Vilar de Mouros.


Tomahawk
o míssil vai cair no Minho



Provocador e inclassificável. Barulhento e alienado para uns. Um génio de Aladino que faz brotar filosofia do “nonsense”, para outros. É Mike Patton, mentor de múltiplos projetos que incluem os já extintos Faith No More, Mr. Bungle e Fantômas e, nos próximos tempos, se estenderão a uma colaboração com os X-Ecutioners, à estreia dos Peeping Tom (com o japonês Dan the Automator, produtor dos Gorillaz) e a uma aventura a dois com Chico Moreno, dos Deftones. Já para não falar dos “pequenos crimes cometidos entre amigos” que são os seus álbuns a solo gravados na editora Tzadik, de John Zorn, como o, para muitos, intragável “Pranzo Oltranzista”.
E os Tomahawk, é claro – com Duane Denison (ex-Jesus Lizard), Kevin Rutmanis (The Melvins) e John Stanier (Helmet) –, cujo novo álbum, “Mit Gas”, é uma portentosa correria a galope no dorso do caos mas também um violento corretivo aplicado ao rock ‘n’ roll. O alvo está desenhado no palco principal do Festival de Vilar de Mouros e a queda do projétil programada para domingo.
No centro do ciclone ergue-se uma voz que grita, vomita, escarra palavras como se fossem sangue (que o diga quem assistiu ao desempenho do homem, ao lado dos Naked City, de John Zorn, num memorável e caótico concerto dado há anos, em Lisboa) mas também uma voz capaz de destilar, em doses proporcionais, humor e veneno, sonho e alienação, fazendo o “crooning” de uma história deturpada da música pop, como acontece no fabuloso e inclassificável “California”, dos Mr. Bungle, eleito pelo PÚBLICO o melhor álbum pop de 1999. Houve quem visse na conceção deste álbum, que parece disparar em redor a tudo o que mexe, a eclosão de um novo Frank Zappa para o novo milénio. Porém, Zappa não. Não na estratégia delineada por Mike Patton, aplicada tanto aos seus projetos pessoais como à editora que recentemente criou, a IPECAC, sobre a qual exerce, qual oficial superior de campo, controlo total. Nem Zappa nem ninguém: “Gosto de alguma da música dele a par de outra a que não ligo. A faceta instrumental dos primeiros tempos é melhor do que as gravações mais recentes”, como disse Patton em conversa com o Y. E, de uma só vassourada: “Em todos os géneros de música há porcaria e coisas muito boas. Cada um escolhe aquilo de que gosta. Não importa aquilo que chamam à minha música. Pôr-lhe este ou aquele rótulo revela uma atitude preguiçosa. Quando se fazem comparações, isso significa não ter o trabalho de a descobrir por si próprio”, diz, com o desdém de quem tem uma guerra a ganhar.

cheira a conflito. Por isso, o melhor mesmo talvez seja deitar para o caixote de lixo associações de ideias feitas, com base em “Mit Gas”, que ligavam um tema como “Harlem clowns” aos Negativland, através da fita danificada onde estão gravados os nomes de artistas “mainstream”, habituais açambarcadores dos tops, entre os quais os U2. “Is there any escape from noise?” Há alguma fuga ao ruído?, uivavam os músicos da banda da contracosta americana. O “noise” dos Tomahawk é outro, produzido por máquinas de chumbo fundido e o lança-chamas da voz de Patton, na sua “option: screamer”. Negativland? Pura coincidência, garante Mike Patton. “Não é nenhum sample dos Negativland. Nessa canção menciono bandas que apenas se preocupam em ganhar dinheiro, como os U2, embora o seu álbum de estreia até seja bastante bom. As pessoas podem ver uma quantidade de coisas nas minhas canções, mas isso não quer dizer que haja uma intenção explícita da minha parte”.
Coincidência ou não, os mesmos Negativland chamaram aos U2 “a pior banda do universo”, fazendo dela os seus inimigos de estimação, brincando aos plágios e ridicularizando a indústria, com as consequências que se conhecem: processo crime, encerramento do estúdio, apreensão do disco (o single “U2”) e ameaça de falência.
Mike Patton faz o que faz por puro instinto. Mesmo quando enverga a farda de polícia nas fotos de propaganda de “Mit Gas”. “Era uma chatice se fosse apenas um cantor ou um “gritador”. Não seria divertido para ninguém”. “California” é divertido. “Mit Gas” nem tanto. O opus experimental “Pranzo Oltranzista”, não, absolutamente. Na sua cabeça, porém, não são feitas grandes separações, uma vez que, como diz “a diferença entre o material mais experimental e o outro está apenas nos ouvidos das pessoas. Trata-se apenas de modos distintos de comunicação. Não há nenhum plano pré-estabelecido”.
O plano, de exploração de tesouros entre as trincheiras inimigas, entre as curvas e contracurvas, becos, arame farpado e precipícios, em “Mit Gas”, já se adivinhava, está nas nossas mãos. Ou, melhor dizendo, nos nossos narizes. Porque afinal, “the answer, my friend, is blowing in the wind”: “A minha música espalha-se em várias direções como um perfume. Um maravilhoso perfume feito com fezes humanas. Um perfume que se espalha pelo ar, como o vento…”.
Os quatro cavaleiros do apocalipse estão a chegar e cheira-nos que vai haver conflito. “Mit Gas”, com os seus obuses e luzes de alarme, em faixas como “Mayday”, “Captain midnight”, “Desastre natural”, “When the stars begin to fall” e “Aktion F14F13”, chega-se à frente de batalha. O míssil Tomahawk vai cair no Minho.



Lou Reed – “United States Of Lou Reed” (artigo de opinião)

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4 Julho 2003

capa


United States of Lou Reed

Traz a Coimbra “NYC Man” e “The Raven”, peças do “puzzle” da vida de um homem do tamanho de Nova Iorque.



“Duas guitarras, baixo, bateria. Qualquer banda os pode tocar. É disto que gosto nas minhas canções: Pode-se ter o QI de uma tartaruga e tocar-se uma canção de Lou Reed. É também o que aprecio no rock ‘n’ roll. Qualquer um consegue tocar rock‘n’roll, incluindo eu. Três acordes chegam-me perfeitamente. Não me interessa aprender mais nenhum. Prefiro dominar estes três. Se são suficientemente bons para John Lee Hooker, também são bons para mim”.
É deste modo que Lou Reed comenta “Heroin”, uma das canções emblemáticas da sua carreira, incluída na antologia “NYC Man”, que serve de base ao alinhamento do duplo concerto em Coimbra, hoje e amanhã, pelas 22h, no Jardim da Sereia. Atitude de modéstia que, de certa forma, é contrariada pela grandiloquência de “The Raven”, o seu mais recente álbum, com as suas orquestrações e uma complexidade, musical e poética, que desmente a teoria dos três acordes. Já nos estávamos a esquecer: Lou Reed também é capaz de contar uma boa anedota.
Claro que a voz é monocórdica e que a estrutura das canções permanece, regra geral, fiel aos mandamentos do rock‘n’roll, o que não obsta a que a obra gravada de Lou Reed possa ser considerada um dos blocos de apontamentos – onde este nova-iorquino de 59 anos anotou de tudo um pouco – mais ricos da música popular dos nossos dias. Entre as exceções, contam-se a descarga de ruído elétrico em bruto de “Metal Machine Music” (cuidadosamente remasterizado numa edição recente, Lou Reed dá muita importância à qualidade de som), “The Bells”, que o próprio define como uma “mini sinfonia rock” (cuidado, António Manuel Ribeiro!), com a participação do trompetista oriundo do “free jazz” Don Cherry, e o novo “The Raven”, obra conceptual inspirada na literatura fantástica de Edgar Allan Poe.
É igualmente claro, ou escuro, que discos como “Berlin”, uma daquelas obras que nos faz provar o sangue e a noite por um cálice do mais puro cristal, “Transformer”, que alguns arrumaram rapidamente na gaveta do “glam rock”, ou “Magic and Loss”, requiem, de uma beleza dolorosa, por um amigo morto, estão longe de se confinar à constelação do rock‘n’roll e que aquela asserção de Reed deverá ser entendida à luz da ironia. Ou, melhor dizendo, do sarcasmo.

auto-retrato. O que Lou Reed apresentará ao vivo em Coimbra, depois do concerto semifalhado que constituiu a sua anterior apresentação em Portugal, no encerramento da Expo-98, foge às regras de funcionamento habituais dos concertos “antológicos”. À semelhança de “NYC Man”, não se trata tanto de um “best of” de propaganda dos “maiores êxitos”, mas de uma espécie de filme (ou documentário, Reed chama-lhe um auto-retrato) em que cada canção se relaciona com as que lhe estão próximas, segundo um encadeamento onde prevalecem as conotações subterrâneas, as afinidades psicológicas ou geográficas (em que Nova Iorque aparece, obviamente, como uma das personagens em destaque) ou inusitadas coincidências da matéria sonora propriamente dita (o “riff” de guitarra de “Ecstasy”, de 2000, remete e é o prolongamento natural de um outro “riff” de guitarra, de “Sweet Jane”, dos VU de 1970).
Funcionar de acordo com estes parâmetros até às suas últimas consequências, no disco e em concerto, requer a consciência de um vigilante e um pulso de ferro. Assim se compreende que tenha sido o próprio Lou Reed a determinar um alinhamento onde as evidências são passagens através de buracos negros, ligando mundos que a olho nu parecem tão afastados entre si como o sonho da rotina do quotidiano.
De que outra forma se poderá explicar que, na compilação, “Who am I?”, de “The Raven” (2002), desemboque em “Sweet Jane”, dos Velvet, ou que “Kill your sons” (gravação ao vivo de 1984) se interponha entre “Walk on the wild side” e “Vicious”, ambas de “Transformer”, embora neste caso, a própria sequência de títulos atire já a imaginação para um enredo perturbante? Ou que a evocação termine nos recônditos, mas tão atuais, sons de “Pale blue eyes”, dos Velvet do álbum homónimo de 1969 (ao vivo será “Candy says”)?
Ainda o comentário mordaz: “Quando se faz uma compilação, a última pessoa com quem se fala é o artista. Geralmente até se espera que ele já esteja morto de maneira a não incomodar com as suas sugestões.” Em “NYC Man”, pelo contrário, Lou Reed foi contactado e foi ele quem selecionou e sequenciou esta história de 25 anos na qual se interligam e justapõem – numa imagem de aparente caos que será, afinal, uma ordem, a mesma ordem babilónica sobre a qual se constroem os múltiplos ritmos e existências de Nova Iorque –, como se diz no disco, o melodrama e a tragicomédia, rock visceral e música ambiental austera. Tudo isto que nos concertos de Coimbra estará representado através do mítico “The Velvet Underground & Nico” – com a inclusão no alinhamento de “Sunday morning”, “Venus in furs” e “All tomorrow parties” (Laurie Anderson suportará a presença do fantasma de Nico?) – e da obra-prima de 1973, com “Men of good fortune” e a desolação de “The bed”.

o artista está “alto”. Há quem diga que o estranho da história é o facto de Lou Reed ainda estar vivo. Que o “anjo do bizarro”, parafraseando o título de um conto de Edgar Allan Poe, sorria ainda ao explicar que o “lado negro” e o “lado claro” não são mais do que os dois lados de uma mesma moeda a que chama a “vida real” e que é impossível sermos sempre infelizes ou felizes (embora uma canção como “Perfect day” mostre que é possível ser-se ambas as coisas ao mesmo tempo), ou que canções que nos habituámos a associar a um estado de depressão crónica do artista sejam afinal, como “Vicious”, o resultado de bons momentos e de “great fun” vividos no estúdio na companhia de amigos como Mick Ronson ou Bowie.
Sobrevivente dos tempos em que a sua única amiga era a heroína ou diletante hedonista, cronista pop da fauna da “Big Apple” ou poeta iluminado que ousa comparar as palavras de “Street hassle” a um monólogo de Tennesse Williams, Lou Reed é o puto sem grande voz que queria ser o artista que matou a arte, no circo dada antipsicadélico com o cartaz Velvet Underground, mas que acabaria por se tornar o grande edifício urbano, tão “alto” como o “empire state human” de que falavam os Human League. Lou Reed, o escarro, e Lou Reed, o esteta. Lou Reed, que se atrapalhou quando, em 1972, na gravação do álbum de estreia, “Lou Reed”, lhe puseram pela frente dois dinossauros do rock progressivo, Rick Wakeman e Steve Howe (ambos dos Yes!), e, anos mais tarde, viria a casar-se com a avatar da arte de vanguarda chamada Laurie Anderson. Um corpo, dois rostos. Laurie Anderson, a autora do megadocumento multimédia “United States of America”, Lou Reed, capaz de injetar na veia de uma canção de três minutos o reservatório completo de ADN (ácido desoxirribonucleico, embora o autor de “Heroin” tivesse especial predileção pelo pó branco) do rock & roll. Cada um deles alter-ego do outro. Ambos representantes dos estados unidos da música popular. Mais especificamente: estados alterados.

metal e magia. Lou Reed, que se pode gabar de, por sugestão da heroína, ter gravado o álbum mais inaudível da música popular, o atrás citado “Metal Machine Music”, cuja audição, na íntegra (coisa que, diz-se à laia de anedota, até ao presente ninguém logrou aguentar), equivalente a uma radiografia sonora do cérebro de um condenado à cadeira eléctrica no momento da execução. Lou Reed, o contador de histórias ternas, das tardes que assassinam o tempo, a ver “the animals in the zoo”. Lou Reed das fantasmagorias, nas asas do corvo alimentado com os poemas putrefactos, o álcool e o ópio de Poe, em “The Raven”. Lou Reed, sem receio de empunhar o escalpelo de Édipo em “Rock minuet”. Lou Reed, a fazer soar os sinos subliminares da loucura, em “The Bells”. Lou Reed, a dançar nos mais datados “nightclubs” de “disco sound” de NYC, em “Sally Can´t Dance”. Lou Reed da grande perda, que em vez de se abandonar ao abraço uterino da morte, e correr para a porta de saída, optou por seguir a seta a indicar a (re)entrada na vida, em “Magic and Loss”. E, no entanto, a sua voz continua a ser monocórdica. Quantas histórias cabem numa só corda da garganta?
Lou Reed virá a Coimbra acompanhado por Fernando Saunders (baixo), Mike Rathke (guitarra), Jane Scarpantoni (violoncelo) e Antony (o “crooner” do momento, com voz de “castratto”, que atuou recentemente em Portugal ao lado dos Current 93). Sentado algures no palco estará o mestre Guang Yi Ren, professor de artes marciais e terapeuta. Terapia por terapia, antes ouvir “Metal Machine Music” de ponta a ponta.


os discos do concerto

Na atual digressão, o “NYC Man” recuou aos primórdios da sua obra, dela tirando a percentagem maior de canções para o alinhamento dos concertos. Com o corvo a sobrevoar.

VELVET UNDERGROUND & NICO (1967)

O álbum da banana é o álbum que jamais teria existido sem o patrocínio de Andy Warhol, o homem-banana. Geralmente considerado como um marco e das obras mais seminais do rock contemporâneo (seria fastidioso enumerar as bandas para quem os VU são a fundação), “The Velvet Underground & Nico” desvia-se apenas por esse pequeno senão de não ser um álbum rock. O tribalismo rítmico deriva antes dos mantras minimalistas de La Monte Young e do monolitismo hipnótico de Tony Conrad, outro frequentador do “Teatro da Música Eterna”, do qual John Cale fizera parte, aliada ao dadaísmo do circo Exploding Plastic Inevitable (Warhol, hidra de muitas cabeças). Só que “VU&N” desce à praça pública da música popular, servida com uma violência inaudita. E uma voz sem fundo refletida nas águas do poço. Sem Nico, a música deste disco teria sido raiva e pedregulhos. Com ela, a passagem do veludo pela pele deixa a sensação da cobra. Fria. Porém, tão pura como a noite.

TRANSFORMER (1972)

A ideia era fazer de Lou Reed uma estrela de rock. Missão cumprida. “Transformer” entrou nos tops rodeado de uma aura de vício e “glamour”, tudo o que Warhol lhe ensinara mas que só a produção e os arranjos da dupla David Bowie (também ele fascinado por Warhol) e Mick Ronson conseguiram transformar num objeto apelativamente pop. O inesquecível solo de guitarra de Ronson em “Vicious”, os coros de “Andy’s chest”, de construção ostensivamente bowieana, a inexorabilidade melódica de “Perfect Day” e “Walk on the wild side”, clássicos eternos, polos apenas aparentemente contrários de uma única vivência no fio da navalha, não fazem esquece ro “vaudeville” ressacado de “Goodnight ladies”, o martelo-pilão dos Velvets, “Hangin’ round”, ou o “flash” que daria capa de revista, “New York telephone conversation”. “Transformer” poderia ter sido um disco de Bowie. Elegância e teatro. Reed imprimiu-lhe algo mais: a crueldade.

BERLIN (1973)

Não é um disco para se ouvir muitas vezes. Faz-nos sentir como neve. Quando o gravou, Lou Reed nunca tinha estado nesta cidade. Que importa, se o resultado é fiel? Álbum da solidão e decadência, começa com a recordação impossível de uma última valsa do pós-guerra dançada num cabaré de espectros, mas logo um eco isola a voz numa cápsula de vazio e ausência. Eis a Berlim onde cada um desce quando nada resta, pátria dos isolados, seringa de sonhos sem cor. Desprende-se de “Berlin” uma atmosfera de desolação grandiosa, de perda da inocência. “Man of good fortune” é um estalo desferido por quem diz “I don’t care at all”. E quando o corpo se deixa cair em “The bed”, sentimo-nos deslizar para o interior de um caixão. Escutando-se ainda a voz de uma mulher que já lá não está. “This is the place where we used to live…”. Adeus. “What a feeling”. O que sobra desta obra-prima intemporal é dito como se não pudese ser de outra forma: “Sad song”. Com orquestra, bandeiras e foguetes a disfarçar a dor.

THE RAVEN (2002)

Em Poe viu Lou Reed uma alma gémea. Às mesmas perguntas: “Quem sou eu?”, “Porque é que amamos aquilo que não podemos ter?”, “Porque nos apaixonamos pelas coisas erradas?” responderam ambos com o excesso. “The Raven” reúne material composto por Reed para um projeto mais vasto, “POE-Try”, com encenação de Robert Wilson. Duas edições distintas divergem no conteúdo. Versão simples composta maioritariamente por canções. Versão dupla com texto declamado, passagens instrumentais e uma visão mais lata do universo de Poe onde cabem o sexo e as drogas. Duas canções antigas, “Perfect day” e “The bed”, foram objeto de novos arranjos e a lista de músicos inclui Laurie Anderson, David Bowie, Kate & Anna McGarrigle e a lenda do “free jazz”, Ornette Coleman.

O corvo ou a pop nas asas do horror

Reed não foi o único, na pop, a perder-se nos horrores de Poe. Também Peter Hammill e Diamanda Galas traduziram a decadência e a morte que ensombram os seus contos.

“The Raven”, o corvo que Lou Reed arrancou do túmulo de Edgar Allan Poe para sobre ele construir uma sinfonia lúgrube que é como um manto de sombras tombado sobre uma Nova Iorque crepuscular, de símbolos e entes decaídos, inscreve-se numa linha de “rock fantástico”, que deve a sua inspiração sobretudo, aos escritores simbolistas do séc. XIX. Entre estes, o novelista e poeta norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) exerce um poderoso fascínio sobre a cultura pop, enquanto transdutor de mitologias em que o medo, o mistério e o sobrenatural assumem papel de relevo.
Poe (como H. P. Lovecraft, outro construtor de horrores, no limite da racionalidade mais alucinada, que poucos se atreveram a assumir como brasão da pop, ainda que um grupo psicadélico americano, dos anos 60 se tenha apropriado do seu nome), fornece, através da sua obra, maioritariamente composta por narrativas curtas, todo um imaginário em que o sobrenatural surge não tanto como uma emanação da transcendência, mas como uma deformação do real – o monstro da irracionalidade que se infiltra por uma brecha no cérebro e provoca a alteração das perceções. O corvo que traz as más novas do Inferno e amaldiçoa a normalidade. A apropriação deste imaginário por Lou Reed seria então mais do que uma fuga para mundos idealizados ou a queda nos abismos infernais, a fixação/sublimação do hiper-realismo que desde sempre pautou a sua produção discográfica. As alucinações de ópio do autor de “O anjo do bizarro”, “Berenice”, “O poço e o pêndulo” e “O barril de amontillado” vivem em paralelo com as mutações e aberrações da Nova Iorque das mil e uma taras, da heroína e da paranóia, das criaturas marginais, “freaks” perdidos nessa outra alucinação que advém da alienação, da separação e, em última instância, da esquizofrenia que corta em absoluto as amarras que ligam o indivíduo ao tecido social.
Outros exemplos se podem apontar da relação entre o universo literário fantástico de Poe e a pop. O músico e poeta Peter Hammill, ex-líder dos Van Der Graaf Generator, preparou durante mais de 20 anos aquele que poderia ter sido – mas não foi – o seu “opus” máximo, uma ópera inteiramente baseada em “A Queda da Casa de Usher”, escrita pelo escritor natural de Baltimore em 1839. Duas versões diferentes deste trabalho comprovam a inadequação entre duas personalidades demasiado próximas ou mesmo irmãs. Hammill, considerado por alguns um dos grandes poetas ingleses vivos, quebrou a sua imagem contra a reflexão que o espelho de Poe lhe devolveu. O seu “In Camera”, álbum de 1974, é uma obra tão aterradora como os piores pesadelos do escritor simbolista e, de igual forma, uma prova de génio. Deste álbum, a passagem dos demónios “Gog” e “Magog” pelo espírito deixa marcas difíceis de apagar. Hammill é o Poe dos tempos atuais. Igualmente capaz de gelar não o espírito, mas o sangue é a maneira como a cantora e compositora Diamanda Galas ajustou uma das metáforas de Poe sobre a peste, a morte e a punição divina, “A Máscara da Morte Vermelha”, à sua própria trilogia sobre a maldição e a sida, “Mask of the Red Death”, obra sanguinolenta, no sentido infetado, tanto literal como metafísico do termo.
Considere-se ainda, como “fait-divers”, o álbum “Tales of Mystery and Imagination”, de Alan Parsons Project, inspirado em contos sortidos de Poe, que, apesar de provocar tantos arrepios como uma viagem de comboio-fantasma na feira popular, consegue, mesmo assim, ser o melhor álbum entre a fraca discografia do engenheiro de som de “Dark Side of the Moon”, dos Pink Floyd.
E se, no campo do minimalismo, Philip Galss baseou uma das suas óperas-a-vapor também em “A Queda da Casa de Usher”, registe-se, como final tenebroso, que os Dark Runner aspiraram os miasmas da obra de Poe para regurgitar a sua eletro-tecno-industrial nos álbuns “Master Save Us” e “Gentle Sin…”. O corvo exulta com a putrefação.

Tomahawk – “Mit Gas”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
20 Junho 2003


TOMAHAWK
Mit Gas
Ipecac, distri. Sabotage
8|10



A capa é um delírio de arabescos e dourados à maneira de Rabih Abou-Khalil mas mal se põe a rodela no leitor, sente-se a queimadela. “Mit Gas” é um disco de rock daquele que rola e esmaga e queima. Os Tomahawk são um dos múltiplos projetos de Mike Patton, mas aqui não há nem a raiva cega dos Faith no More nem o humor alucinado dos Mr. Bungle, embora tenha um pouco dos dois. É rock, mesmo, de “caterpillar”, com níveis elevados de inteligência e espírito de risco. Guitarras esparramadas em “wall of sound” de mil e uma gravidades, eletrónica radiofónica, “free noise” e vocalizações que exalam o mau-hálito do inferno convergem num espetáculo de “grand guignol” que ata a fúria do punk à Broadway de espectros de Jim Thirlwell, quando travestido de Scrapping Foetus off the Wheel. Patton, como sempre, está bêbedo de ideias. Canta em espanhol em “Desastre natural”, soletra anedoticamente os Radiohead na entrada de “Capt midnight”, faz de “crooner” (Zappa em “Harelib”, Beefheart em “Aktion 13F14”), sampla os Negativland de “Is there any escape from noise?”, em “Harlem clowns” e em toda a sequência final de “Mit Gas” é uma queda no abismo da incongruência. Espantosa é a forma como os Tomahawk colam os cacos e constroem um painel que reflete a psicose dos dias de hoje. O rock, esse, foi uma vez mais salvo sobre a linha de chegada.