Tony Banks – “Still”

Pop-Rock Quarta-Feira, 03.07.1991


Tony Banks
Still
LP / MC / CD, Virgin, distri. Edisom


Ainda por cá, Tony? Para quem não sabe, Tony Banks é o teclista dos Genesis, banda outrora importante, transformada, a partir do momento em que Phil Collins tomou conta das operações, num placebo grotesco, destinado aos consumidores das massas viciadas no “som FM”. “Still” é o vazio, a ausência completa de ideias, de originalidade, de um estilo próprio, de música, enfim. Como quase sempre acontecve nestes casos de degenerescência avançada, procura-se tapar o buraco recorrendo à utilização maciça de massa (pouco) consistente, feita de músicos convidados, escolhidos mais ou menos ao acaso. Em “Still” calhou aos vocalistas Nik Kershaw, Andy Taylor e Fish, o homem que gostaria de ter nascido Peter Gabriel, tentarem fazer passar por canções meros arranjos de estúdio. Uma referência final, elogiosa, para a vocalista feminina Jayney Klimek, que, levando em consideração a fotografia inclusa, desde já aconselhamos vivamente a trocar a música pelo cinema ou por uma carreira de modelo. Quanto ao resto, “Still” não existe.
*

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

Vários – “Encontros Da Tradição Europeia Arrancam Hoje Em Famalicão – O Baile Vai Começar” (concertos / festivais / etno / céltica / world)

Secção Cultura Quarta-Feira, 03.07.1991


Encontros Da Tradição Europeia Arrancam Hoje Em Famalicão
O Baile Vai Começar




Da Occitânia à Catalunha, do Piemonte à Irlanda e Escócia, sem esquecer o Portugal de ressonâncias celtas, a aposta na divulgação de uma herança musical que, fluindo embora por diferentes leitos, nasceu e desagua em águas comuns. Europa de novo confluente no seu extremo geográfico e anímico mais ocidental.

Em Famalicão têm hoje início os 2ºs Encontros da Tradição Europeia, que também decorrerão em Oeiras, Évora e Guimarães. Como no ano passado, são organizados pela Cooperativa Cultural Etnia. Durante treze dias, a música tradicional ocupa o centro das atenções. De Norte a Sul, desenhando um quadrilátero (ou uma cruz) arquitectado com a energia animada, dizia Pascoais, pela “saudade do Futuro”. Compreender esta expressão é compreender o sentido do tempo e a maneira como a cultura se estratificou na Europa, varrida nos primórdios por ventos e ideais do Oriente.
Dos brâmanes hindus e bardos celtas aos novos trovadores que, entre o cimento das grandes metrópoles, de novo erguem o bordão e a “estela”, são ainda e sempre os eternos peregrinos do novo mundo, a calcorrear estradas e eras de São Tiago, entre pedras e estrelas, até Compostela, a buscar o infinito.

Oito Descobertas

Oito caminhos, outras tantas descobertas: Altan (Irlanda), Robin Williamson (Escócia), Whippersnapper (Inglaterra), Perlinpinpin Folc (Occitânia, França), La Grande Bande des Cornemuses (França), La Ciapa Rusa (Piemonte, Itália), Rosa Zaragoza (Catalunha, Espanha), Vai de Roda e Romanças (Portugal).
Com três álbuns gravados, “Altan”, “Horse with no heart” e o recente “The red crow”, os Altan constituem uma das grandes revelações da “Folk” irlandesa dos últimos anos, da estirpe de grupos lendários como os Bothy Band ou Planxty. Mairead Ni Mhaonaigh (violino e voz), Frankie Kennedy (flauta), Ciaran Curran (bouzouki), Mark Kelly (guitarra), Paul O’ Shaughnessy (violino) e Ciaran Tourish (violino) dão corpo e voz a um ritmo endiabrado e a melodias inspiradas no gaélico, que, no cruzamento entre o antigo e o novo, recuperam a jovialidade e o ritual de encontro com a terra.
A Oriente da “terra da ira”, os Whippersnapper fazem dos instrumentos de corda reis da festa. São três (Dave Swarbrick, violinista louco dos seminais Fairport Convention, abandonou recentemente): Martin Jenkins e Kevin Dempsey (antigos membros de uma das bandas mais interessantes da “Progressive Folk” dos anos 70, os Dando Shaft) e Chris Leslie. Juntam o “mandocello”, o bandolim, as guitarras e a flauta aos sintetizadores, aliando a doçura dos “airs” à electrónica e a um discurso por vezes próximo do “jazz”.
O terceiro representante das Ilhas Britânicas é Robin Williamson, novo bardo escocês, harpista como mandam as regras do segredo. Integrou, ao lado de Mike Heron, uma das bandas mais estranhas de sempre, os Incredible String Band, mistura exótica de mil e um instrumentos, mantras hipnóticos e mitologia celta, com o rock e o “senhor doa néis” de permeio. A dada altura optou pelo que julgou ser o essencial: a harpa, o mundo antigo, as lendas e histórias para crianças. A solo ou com os Merry Band. Vinte e seis álbuns gravados e uma recusa sistemática em se entregar aos esquemas da indústria, conferiram-lhe o estatuto de referência obrigatória no capítulo dos grandes músicos populares do nosso tempo.

A Vassoura Também Toca

Perlinpinpin Folc e La Ciapa Rusa repetem a presença nos Encontros. Regresso inteiramente justificado, já que constituíram dois dos melhores momentos da edição do ano passado. Ambos recuperam, de forma deslumbrante, a música popular das respectivas regiões (Occitânia e Piemonte), enriquecendo-a com um bom gosto e uma mestria técnica notáveis, servidos por arranjos inovadores. Fabulosos, no caso dos italianos, a voz divinal de Donatta Pinti e o modo como manejam as sanfonas, de fazer corar o espalhafato supérfluo das “estrelas do rock ‘n’ roll”. Quanto aos franceses não espanta vê-los tocar um saxofone feito de um cabo de vassoura ou uma espécie de realejo de vidro, enquanto as vozes se vão ocupando de intricadas polifonias.
Momento especial será decerto aquele proporcionado pela Grande Bande de Cornemuses, grupo de 10 tocadores de gaitas-de-foles, oriundo de Lyon, dirigido por Jean Blanchard (membro fundador dos La Bamboche), preparado para, logo no primeiro dia, animar as ruas de Algés, contando para tal com a encenação de Laurent Figuière, baseada na relação ancestral entre o homem e a Natureza.
Em Rosa Zaragoza encontram os judeus sefarditas do Sul de Espanha uma das suas vozes mais empenhadas, em álbuns como “Cançons de noces dels jueus catalans” ou “Cançons de Bressol del Mediterrani”. No mais recente, “Les nenes bonés van al cel, les dolents, a tot arreu”, (as meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado…) manifesto a favor das tais que “vão para todo o lado”, defende esta e outras minorias, como a cigana e a índia. Rosa vem acompanhada de quatro músicos, mas só o timbre inusitado e a emoção do canto chegam para provocar arrepios.
Finalmente os portugueses Vai de Roda (Tentúgal sempre às voltas com as bruxas do terreiro) e Romanças (que recentemente andaram em digressão pelas Ilhas Britânicas) completam um programa recheado de nomes importantes, capaz de, a breve prazo, tornar estes “Encontros” num dos principais festivais europeus de música tradicional.

PROGRAMA DAS FESTAS
ÉVORA
Praça do Giraldo
6 de Julho Altan
Perlinpinin Folc (Irlanda)
(Occitânia / França) 10 de Julho Whippersnapper
Perlinpinpin Folc (Inglaterra)
(Occitânia / França)
10 de Julho Rosa Zaragoza

Robin Williamson (Catalunha / Espanha)
(Escócia) 11 de Julho La Grande Bande des Cornemuses (França)
11 de Julho Whippersnapper
Vai de Roda (Inglaterra)
(Portugal) 16 de Julho Romanças
Robin Williamson (Portugal)
(Escócia)
FAMALICÃO
Praça 9 de Abril Oeiras
Auditório do Complexo Social das Forças Armadas
3 de Julho Vai de Roda
Perlinpinpin Folc (Portugal)
(Occitânia / França) 6 de Julho La Grande Bande des Cornemuses (França)
5 de Julho Altan
Rosa Zaragoza (Irlanda)
(Catalunha / Espanha) 7 de Julho Altan
Rosa Zaragoza (Irlanda)
(Catalunha / Espanha)
9 de Julho Whippersnapper
La Grande Bande des Cornemuses (Inglaterra)
(França) 12 de Julho Whippersnapper
Vai de Roda (Inglaterra)
(Portugal)
12 de Julho Robin Williamson (Escócia) 13 de Julho Perlinpinpin Folc

Robin Williamson (Occitânia / França)
(Escócia)
GUIMARÃES
Praça do Santiago Todos os espectáculos são gratuitos e iniciam-se às 21h30
Excepcionalmente, a actuação de La Grande Bande des Cornemuses em Oeiras (6 de Julho) realiza-se no parque dos Anjos, em Algés
4 de Julho La Ciapa Rusa

Altan (Piemonte / Itália)
(Irlanda)



The Beach Boys – “Collection”

Pop-Rock, Quarta-Feira, 03.07.1991
Reedições


THE BEACH BOYS
Collection
LP duplo / CD, Capitol, ed. EMI – Valentim de Carvalho



Na prática a única diferença entre a colectânea agora editada e a do ano passado, “Summer Dreams”, é o rótulo de “anunciado na TV” que aquela ostenta, orgulhosa, na capa e o corte de algumas canções de carácter mais intimista. De resto é a lista de clássicos do costume, as notas (breves) em português e a embalagem saloia a puxar idas à Caparica, de “tijolo” às costas. Onde “Summer Dreams” procurava inserir-se num contexto nostálgico, de Verões perenes, passados ao sol de uma época e de uma Califórnia míticas, destacando a faceta de compositor genial de Brian Wilson, “Collection” vai mais pelo lado “gelado de limão”, procurando impor a imagem duns Beach Boys adeptos de uma filosofia de vida simplista, que compunham melodias facilmente trauteáveis, ideais como acompanhamento para os prazeres do “surf” ou de “flirts” de ocasião.

Não seria possível, por uma vez, trocar a jogada oportunista dos “hits” pela edição dos discos originais? Dito isto, as canções aqui colecionadas, quase todas tornadas “clássicos”, permanecem intocáveis. Daí a classificação atribuída.
****

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único