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| By N2H | ||||||




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12.10.2001
Mafalda Arnauth – O Espírito Permanecerá
LINK (“Encantamento” – 2003)
Entre o espectáculo de apresentação, apadrinhada por João Braga, e a edição do último, e segundo álbum, “Esta Voz que me Atravessa”, Mafalda Arnauth evoluiu de intérprete fenomenal de Amália para uma das mais poderosas e emotivas vozes femininas do fado. O espectáculo de amanhã, na Culturgest, Às 21h30, será o de mais uma consagração.
Nasceu em Lisboa, há 27 anos. Estava longe de pensar que faria do fado profissão. Mas isso foi no início de carreira, quando poucos conheciam o dom da sua voz. Hoje, com dois álbuns editados, o último dos quais considerado um dos grandes discos de música portuguesa deste ano, foi “arrastada” pela mais “estranha forma de vida” que se possa imaginar. Destino inevitável das divas.
Recentemente tornou-se a primeira artista portuguesa a ser representada internacionalmente pela Virgin, com o novo disco a ser editado neste selo na Bélgica, França e Espanha.
Será acompanhada na Culturgest por José Elmiro Nunes (guitarra portuguesa), José António Mendes (viola de fado), Rodrigo Serrão (contrabaixo) e, como convidado em dois temas, João Courinha (saxofone).
FM – O facto de agora fazer parte do catálogo da Virgin é um indício de um reconhecimento internacional?
Mafalda Arnauth – É uma situação sem precedentes. Além de que ter uma editora a apostar em mim lá fora é diferente do que ter de ir aos vários países apresentar-me a um número restrito de pessoas. É uma conquista fantástica.
FM – Ainda se lembra de quando afirmava que jamais lhe passaria pela cabeça viver do fado?
Mafalda Arnauth – (risos) Lembro-me! Ainda há dias recebi um telefonema de um colega de curso [Veterinária] a perguntar-me como é que eu ia fazer com os exames! Existe essa pressão, mas o fado é mais forte do que eu…
FM – Ainda seria possível voltar atrás?
Mafalda Arnauth – Jamais. O fado como “hobby” tornou-se impossível, com a carteira de trabalho que já tenho e que domina a minha vida para os próximos meses. Mas não gosto de pensar no futuro, se vou conseguir cá estar daqui a 50 anos e com tudo a correr sempre bem… É importante viver cada período de cada vez; depois, pelo caminho, acontece sempre qualquer coisa, até precisar de parar um pouco e respirar fundo. Mas o fado tornou-se a minha opção.
FM – Foi graças a si que as portas se abriram a fadistas da sua geração?
Mafalda Arnauth – O meu disco surgiu há dois anos, quando não havia um único disco de fado das pessoas da minha geração. A Cristina Branco já tinha editado alguns, mas só na Holanda. Agora, apareceu o disco da Kátia Guerreiro; surgirá, esperemos, o da Ana Sofia Varela. Sinto que se sou exemplo de algo, é da necessidade de ter uma identidade. Alguns dos projectos que vão surgindo fogem cada vez mais à cópia. Só pelas fotos do artigo que saiu há algum tempo no Y se percebe que todas as fadistas são diferentes e que todas elas andam à procura dessa identidade, independentemente de ser encontrada um “nova Amália”… Pretendemos fugir a isso. Até por respeito à própria Amália Rodrigues.
FM – O facto de ir actuar com mais frequência no estrangeiro, para pessoas que já conhecem o seu disco, vai alterar a estrutura dos seus espectáculos?
Mafalda Arnauth – Estou numa fase de fazer cada vez menos concessões. Mesmo em Portugal, a tendência é a de privilegiar a exposição de quem sou na e não a de receber muitas palmas. Isto implica que nos espectáculos faça apenas o que me apetece. Se estiver a cantar para um público que prefere marchas, sei que se cantar um espectáculo inteiro de marchas vou sentir que não estou a ser verdadeira.
FM – Os recentes acontecimentos no mundo, depois de 11 de Setembro, reflectiram-se na sua maneira de compor, de viver e de cantar?
Mafalda Arnauth – Uma das primeiras sensações que tive quando estava a olhar para a televisão foi de que estava a ver um filme. Levou tempo até interiorizar o que estava a acontecer. Há um mundo cá fora e um mundo dentro de nós. E dentro de nós haverá provavelmente muitas “twin towers” tão vulneráveis como aquelas. Preciso cada vez mais de paz interior, o que se torna cada vez mais difícil. Tudo o que aconteceu vai ter consequências e não sei se temos consciência disso. Os valores de sobrevivência podem ser postos em causa. As pessoas vão ter que pensar no que é mais importante: se a matéria (estamos cheios de medo que o planeta rebente de uma vez) ou se a própria espiritualidade do mundo, que está de rastos. Violência gera violência.
FM – Como é que encontra essa paz interior?
Mafalda Arnauth – Passa pela auto-estima e auto-estima não é considerarmo-nos a melhor pessoa do mundo, mas aceitarmo-nos e aos outros. O meu corpo é o lugar onde habita o meu espírito. Se amanhã desaparecer o meu espírito há-de permanecer. A paz vem daí.
02.07.2004
Tuxedomoon
Cabin In The Sky
Crammed, distri. Megamúsica
8/10
Tuxedomoon – Cabine de Provas
Notícia excitante: os Tuxedomoon estão vivos. Melhor ainda: gravaram um álbum novo. Chama-se “Cabin in the Sky” e é, pelo menos, tão bom, como os álbuns clássicos da banda de São Francisco que se estreou com “Half-Mute” na mesma editora dos Residents e assinou a obra-prima “Desire” ou o angustiante e subterrâneo “Suite en Sous-Sol”. Corriam os anos 80, o tempo passou entretanto, mas o melhor permanece intacto – uma sonoridade única e canções que parecem querer desmoronar-se a qualquer instante mas acabam por se aguentar orgulhosas na sua própria lógica. O saxofone e teclados de Steven Brown e o violino de Blaine L. Reininger fazem o som. Um romantismo estranho (é costume dizer-se, e é capaz de ser verdade, que os Tuxedomoon são a banda mais europeia da América) e estranhas combinações de letras em italiano (“Diario de un egoísta”, “Luther Blisse”) e ambientes cinematográficos fazem as canções. A folha de promoção não poupa nos elogios e, ao tentar definir “Cabin in the Sky”, garante que o disco suscita no ouvinte “impressões simultâneas de Miles Davis, electrónica alemã, Paolo Conte, Radiohead, Debussy, ciber-ciganos, Michael Nyman, Velvet Underground e uma dúzia de outros”. Descontando o prazer que é sempre ver citado Paolo Conte, o álbum é Tuxedomoon “vintage”, ainda que, desta feita, o grupo se tenha socorrido das colaborações de John McEntire, Akasak Maboul, Tarwater, Marc Collin, Juryman e DJHell. Mais a propósito, a mesma folha, abre um catálogo de pintura e lança os nomes de Pollock, Bacon, Miró e Dali. Já faz mais sentido. Cada canção é um híbrido que abarca várias influências, constituindo-se em quadros de disformidade e de uma beleza que atinge os píncaros do surrealismo em “La Piu Bella”, construído a partir de um sample com a voz de um anónimo italiano. No extremo oposto, “Here ‘til Xmas” é electro, graças à presença de DJHEll, o mesmo que há dois anos gravou uma série de remisturas de um dos temas mais antigos dos Tuxedomoon, “No Tears”, e “Chinese mike” combina elementos dos Cabaret Voltaire, respiração asmática, uma secção de sopros e batida falsamente “house”, enquanto “The Island” cola ondas de poluição a ruído rosa, sintetizador borbulhante e um saxofone lânguido, num tom mais experimental semelhante ao dos álbuns a solo de Peter Principle, e “Luther Blisset” (de novo com letra em italiano) é irresistível na junção de ritmo tecno com “free jazz”. Há os habituais ambientes de feira, nostalgia gelada, um baixo poderoso (“A home away” esmurra-nos o estômago), acordeão, programações poderosas, jazz de bordel e de grandes canções, como “Baron Brown”, entre a declamação e uma “catchiness” com algo a fazer lembrar os finlandeses Wigwam. A atitude já não é tão punk como nos primórdios mas a inteligência e a desfaçatez continuam intactas.
Os Tuxedomoon tornaram-se uma das grandes bandas do séc. XXI e “Cabin in the Sky” tem a elegância de um fato Armani.
16.01.1998
WORLD/CELTA
Remissão Dos Pecados
Se nalguns casos a passagem do tempo pode descaracterizar a música, noutros tem como efeito o apuro de qualidade e de um estilo. Foi o que aconteceu a três nomes conceituados da folk céltica, cujas gravações nem sempre têm estado à altura dos seus pergaminhos: Dan Ar Braz, Na lúa e Ceolberg. Os respectivos novos álbuns são, qualquer deles, agradáveis surpresas. O som das harpas continua a ser de luz, a julgar pelos novos trabalhos de Wendy Stewart e das Sileas.
Bem-vindo, senhor Dan Ar Braz, ao grupo dos que recusam o supérfluo e a mistificação. Para este antigo guitarrista de Alan Stivell abriram-se de novo portas que pareciam estar em definitivo encerradas pela fase inicial do seu percurso a solo – marcado por exercícios de estilo em torno de um certo “celtic jazz” com tradições na Bretanha, mas envolto numa aura de “easy listening” pouco exigente. Mas Dan Ar Braz emendou a mão, oferecendo-nos em “Finisterres” uma lição sobre como fazer uma música endereçada às maiorias, sem ceder a fórmulas de massificação gratuita.
Mais ainda que “L´Héritage des Celtes”, que passou a servir de designação ao colectivo de participantes, “Finisterres” começa por ser uma agremiação arrepiante de nomes sonates da música de raiz celta europeia: Donal Lunny, Noel Bridgeman, Nollaig Casey, Jacques Pellen, Donald Shaw, Gilles LeBigot, Carlos Nunez, Sharon Shannon, Karen Matheson, Maíre Ní Chatasaigh, Gilles Servat, Mairtin O’Connor, Liam O’Flynn e a Bagad Kemper, entre outros de menor nomeada.
Poderia ser um catálogo de venda a retalho, mas não é. Com alguma surpresa, dados os antecedentes, “Finisterres” demonstra um propósito e uma unidade fora do comum. Evidentemente, tudo funciona na mesma escala de proporção de peso dos nomes presentes, mas sem que alguma vez se sinta esse outro peso, bem menos dignificante, do excesso.
Sabe bem escutar Carlos Nunez, por uma vez liberto da tentação do protagonismo fácil, retomando o gosto pela singeleza, no tradicional “La Costa De Galicia”, com arranjo seu e de Donal Lunny a quem coube a produção geral do projecto. Também é preciso dizer que tem a seu lado, neste tema, Sharon shannon, para o pôr no lugar.
Há aqui de tudo para todos, pop e tradição enlaçados, vozes antigas e modernas, pormenores de excelência técnica inseridos no sítio certo, confeccionados como um bolo, no qual, desta feita, Dan Ar Braz se preocupou menos com a cobertura de açucar do que com a qualidade da massa.
Fusão? Sem dúvida, da tradição mais antiga com a linguagem da electricidade e da actualidade, como exemplarmente é ilustrado por “Labroella”, tema onde a ancestralidade do canto de Manu Lanhuel se enquadra de forma natural no estilo, quase progressivo, das guitarras, eléctricas e de 12 cordas acústicas de Dan Ar Braz e Jacques Pellen. Outro apontamento digno de registo desta aliança entre dois tempos diferentes encontra-se, logo a seguir, no magnífico diálogo a três mantido entre as “uillean pipes” de Ronan Le Bars, o violino de Nollaig Casey e o acordeão diatónico de Donald Shaw, num “irish breton folk rock” cheio de vitalidade e frescura (Saint George, distri, Sony Música, 7).
Com 18 anos de existência os escoceses Ceolbeg têm tido uma carreira atribulada, marcada quer pela troca de músicos quer pela escassa, e nem sempre exemplar, produção discográfica. “Ceolbeg 5”, como o nome indica, o quinto álbum desta banda – que já actuou ao vivo entre nós, num concerto na Amadora -, merece rasgados elogios. Se num passado recente, em álbuns como “Seeds To The Wind” e “An Unfair Dance”, a dinâmica musical funcionava com base na alternância entre baladas vocais, nem sempre interpretadas de forma imaculada (os Ceolbeg nunca brilharam por ter bons vocalistas…) e instrumentais construídos sobre uma rítmica declaradamente rock, em “Ceolbeg 5”, verifica-se uma inflexão de 180 graus.
desapareceu o rock e apareceu em seu lugar uma subtileza instrumental (antes a tónica era posta na energia) que há muito não se via no grupo. Os Ceolbeg são, pelo menos por agora, um grupo clássico, capaz de viajar com a mesma segurança pelo “drive” poderoso das “Highland pipes”, em todos os “sets” a que é chamado a participar o novo elemento Mike Katz, e a poesia da voz, da “clarsach” (harpa escocesa), ou da harpa electrificada de Wendy Stewart, que neste álbum alarga os seus dotes de executante à concertina.
Como que não querendo cortar de forma abrupta com um passado feito de algumas cedências, os Ceolbeg ficaram-se desta vez, felizmente, em termos de “fusão”, apenas pela escrita. Assim, o “jazz funk” mencionado no tema inicial é sobretudo um estado de espírito que anima a incandescência das “pipes”, bem como o “reggae” (que ainda há bem pouco fez naufragar os Ceolbeg nas águas de algum mau gosto…) não passa de nota de rodapé numa composição de Robert Burns (“Willie Wastle”), onde se projecta uma hipotética passagem deste noma mítico da música e da poesia escocesas pela Jamaica.
Mesmo em “The Nodding Song”, outra composição de Robert Burns, o compasso de ressonâncias jamaicanas dilui-se no fraseado da harpa e na fluência e acentos, absolutamente célticos, da gaita-de-foles de Mike Katz. O último tema, “The Gaberlunzie Man”, reforça de forma definitiva o novo estatuto dos Ceolbeg: é uma balada de extraordinária beleza, cujas entoações vocais mergulham no mais puro estilo tradicional e onde todas as partes, do tapete de teclas clássicas, à harpa e às “Highland pipes”, funcionam ao serviço da magia desta composição épica. Está ao nível do melhor que se pode encontrar no clássico “Celtic Hotel”, dos Battlefield Band, aos quais os Ceolbeg começam a morder os calcanhares.
Temos Ceolbeg naquele que é, sem sombra de dúvida, o seu melhor álbum de sempre (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
Wendy Stewart, harpista dos Ceolbeg, prossegue com “About Time 2” a sua aventura a solo, iniciada em moldes semelhantes na estreia, “About Time”. Nas variantes acústica e electrificada da harpa, em concertina, e voz, Wendy faz-se acompanhar neste seu segundo registo por três seus antigos companheiros no grupo, Gary West, nas “scottish small pipes” e “low whistles”; Colin Matheson, na guitarra; e Jim Walker, em tambor e percussões.
Álbum feito de delicadeza, sempre que a harpa murmura os seus “airs” e marchas tecidas em filigrana, “About Time” apresenta uma curiosa selecção de temas, que inclui, além de tradicionais e originais da harpista, versões de “The Kitchen Piper”, de Donald McLeod, “The January Man”, de Dave Goulder (cuja vocalização faz lembrar uma June Tabor de voz mais doce), e “Fotheringay”, um dos temas mais antigos dos Fairport Convention, com a assinatura de Sandy Denny, aqui mergulhando numa melancolia tão ou mais forte que a do original. “Rachael Rae” transporta colorações da música árabe da Idade Média para a harpa, “Fish Feis” é “swingante” e “jazzy” à maneira de uma Savourna Stevenson, a gaita-de-foles balouça com languidez em “Probabobaly”, a “tentativa de composição de uma marcha, em estado de embriaguez, dos Ceolbeg, descrita pelo baterista do grupo como ‘probabobaly the best tune in the world…’”.
Um álbum para ouvir em rectao em locais como Sintra, nas margens de um lago subterrâneo, ou num castelo por cima das nuvens (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
A harpa domina ainda “Play on Light”, quarto álbum, depois de “Delighted With Harps”, “Beating Harps” e “Harpbreakers”, das Sileas, um duo formado por dois expoentes deste instrumento, as escocesas Mary MacMaster e Patsy Seddon, também pertencentes às Poozies e aos Clan Alba. Muito mais que o disco de Wendy Stewart, “Play on Light” é em primeiro lugar um trabalho dedicado em exclusivo a um instrumento específico, a harpa, que agradará sobretudo aos apreciadores dos estilos e da sonoridade deste instrumento, mas ao qual um ouvido mais generalista não conseguirá ficar indiferente. A este impressionará, provavelmente, mais do que os pormenores técnicos e de expressão das duas executantes, a beleza das baladas vocalizadas, a solo ou em suaves harmonizações em dueto, por uma e por outra. Para entrar em bicos de pés e com os ouvidos, muito, muito limpos. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
Confessamos o nosso relativo desapego pela música dos galegos Na Lúa, cuja principal virtude terá sido, até agora, a de revelar a voz da nossa bem conhecida Uxia. Como acontece com inusitada frequência na Galiza, a música dos Na Lúa padeceu quase sempre de indefinição, hesitando entre uma prática fusionista e comercial e a entrega a uma leitura mais profunda do reportório tradicional galego. Na mesma altura em que pela primeira vez surge no nosso mercado o álbum de estreia do grupo, “Na Lúa”, marcado por alguma incipiência técnica mas onde são já visíveis as diversas e díspares vertentes que determinariam a posterior evolução do grupo, este novo “Os Tempos Son Chegados” vem revelar algumas qualidades pouco exploradas na sua obra anterior. Sem abandonar o gosto por outras músicas, aqui expreso, por exemplo, no cunho cubano imprimido ao título-tema, muito Sierra Maestra (Santiago de Compostela ligada por laços invisíveis a Santiago de Cuba?…), os Na Lúa, por força da insistência numa sonoridade híbrida, acabaram por criar com “Os Tempos Son Chegados” um objecto de extraordinária originalidade.
Curiosamente, pelo desejo de afirmação de uma nação galega universal, ponto de confluência de tradições múltiplas, é impossível não pensar numa idêntica visão – embora com desenvolvimentos e implicações, não só musicais como também políticas, bem mais importantes – cultivada em toda a sua produção recente pelos Milladoiro. Mas atenção, que apesar de o seu mundo ter as fronteiras mais apertadas, os Na Lúa chegam a pousar num lugar tão longínquo quanto o seu nome deixa adivinhar. A Galiza de um tema como “De Andar Camino” tem as raízes no planeta Terra e os olhos postos na Lua. “Muineiras” negras (“Ribeirana”), e “cajun” (“Cantar de Canteiros”), um coreto a comandar passos de valsa com sabor a tango (“Liberación”), a Arábia coberta de verde (“aryel”), vinho com sabor a petróleo em condutas “hornpipe” (“A aventura dos pipelines”), o Minho mais belo do que nunca (“Coro das Maçadeiras”), a Galiza dos Na Lúa enlouqueceu. Os tempos parecem, de facto, chegados para os Na Lúa afirmarem a sua diferença. As fotografias do interior da capa são magníficas. Rendemo-nos! (Do Fol, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
14.11.1997
Reedições
O Céu Pintado De Estrelas
Talvez porque o Natal está à porta, o mercado português está a ser inundado por uma quantidade de colectâneas e redições das chamadas “estrelas”. É uma boa oportunidade para decorar a estante com caixas de êxitos que, na maior parte dos casos, já toda a gente conhece.
Do monte de colectâneas e reedições que chegam ao mercado nesta altura, a caixa mais importante é, sem dúvida, a dupla correspondente à reedição de “200 Motels”, de Frank Zappa, obra de fôlego composta pelo génio entre 1967 e 1971 para a banda-sonora do mesmo nome. O álbum faz parte de uma nova série de “OST” (“Original Soundtrack”, “soundtrack”, em português, “som de traque”), da Rykodisc, cujo primeiro pacote inclui ainda as bandas-sonoras de “Carrie”, “Chitty, Chitty, Bang, Bang”, “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” e “Octopussy” (da série James Bond), todas em “Deluxe Edition”, com apresentações impecáveis e uma reprodução dos “posters” de lançamento originais. Inexplicavelmente, estou a usar uma quantidade absurda de termos estrangeiros. Mas voltemos a Zappa. “200 Motels” não é o melhor álbum, longe disso, do homem dos bigodes. Mistura, em doses desiquilibradas, mas sem dúvida capazes de impressionar o desprevenido consumidor de pop no ingénuo ano da graça de 1971, sequências clássicas pela Royal Philharmonic Orchestra, apontamentos humorísticos e “rock ‘n’ roll (“roca e rola”, chega de estrangeirsmos) na veia (na veia?) dos Mothers of Invention (“Matas da Invenção”), como “Magic Fingers”, em duas versões. A reedição inclui ainda quatro “spots” (“potes”) publicitários originais feitos para a rádio e um livrete cheio de informação e fotos da fita. Sendo uma boa amostra da faceta mais erudita de Frank Vincent Zappa, “200 Motels”, não obstante, não se livra de cair ocasionalmente no aborrecimento, o que, sendo o seu autor quem era, não deixa de ser surpreendente. 200 motéis é muito motel. (Rykodisc, distri. MVM, 6)
Outro músico importante que já não petence ao mundo dos viivos é John Lennon, cuja memória volta a ressuscitar através de “Lennon Legend”, subintitulado “The Very Best of John Lennon”. É uma colectânea sem surpresas, que parte da apresentação de alguns dos temas mais famosos do ex-Beatle, como “Imagine”, “Mother”, “Jealous Guy”, sem esquecer a faceta mais politizada dos Plastic Ono Band, de “Instant Karma2 e “Power to the People”, o Lennon “rocker” de “Cold Turkey” e “Whatever gets you thru’ the night”, e o baladeiro romântico, de “Woman”, e esquerdista, de “Working Class hero2, passando pelo “reggae” de “Borrowed time”. O álbum termina, adequadamente, numa nota natalícia, com os manifestos pacifistas “Happy Xmas (war is over)” de “Give peace a chance”. Lennon ficou para a História como o Beatle rebelde, em oposição à imagem de esteta que ficou colada a Paul McCartney. Chamem-me nomes, mas a realidade é que o primeiro nunca chegou aos calcanhares do segundo, em matéria de composição de boas, clássicas canções. Mas é claro que Lennon sempre representou com outra convicção os valores politicamente correctos da sua geração, mesmo que os seus melhores momentos como compositor revelassem, afinal, um incorrigível romântico, capaz de escrever coisas tão belas e tão simples como “Love”, uma das grandes canções desta “Lenda”, que conservou até hoje toda a sua frescura. Só por isso devemos dar algum desconto a Yoko Ono. (Parlophone, distri. EMI-VC, 7).
Avancemos para gente para quem a rebeldia é conceito totalmente desconhecido. Mike Oldfield, menino-prodígio dos anos 70 que encheu os bolsos ao patrão da Virgin à custa do megasucesso “Tubular Bells”, transformou-se nos últimos anos num dos gurus da “new age”, ultrapassada a fase criativa que caracteriza os primeiros álbuns, “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations” e “Five Miles Out”, regressando ainda no mais tardio “Amarok”, antes de se eclipsar nas traseiras da vulgaridade. Foi então que o multiinstrumentista se lembrou da fábula da galinha dos ovos de ouro, partindo para um “Tubular Bells 2” de má memória que, mesmo assim, lhe terá feito reembolsar mais alguns milhões. A má notícia é que, a julgar pelo último tema desta colectânea, há já um “Tubular Bells 3” no prelo. Mas “XXV – The Essential Mike Oldfield” (XXV porque o velho Mike já leva XXV anos de carreira…) dirige-se, em primeiro lugar, aos saudosistas, reunindo excertos das longas composições que ocupavam invariavelmente lados inteiros dos discos em vinilo, pertencentes aos quatro primeiros álbuns, atrás mencionados, seguidos de uma canção gira de “Crises”, “Moonlight Shadow”, vocalizada por Maggie Reilly, e do “single” “Portsmouth”. Depois vem o pior, dois temas de “Tubular Bells 2” juntos com nacos de “Songs of Distant Earth” de “Voyager”, típicos da fase “tecno prog” do músico. Informa-se ainda V. Excªs que Mike Oldfield era o extraordinário guitarrista que acompanhava Kevin Ayers, no não menos extraordinário grupo The Whole World. Mudam-se os tempos… (Warner Bros., distri. Warner Music, 5).
Podia perfeitamente ter pertencido ao grupo de cantoras que, ao longo dos anos, foram dando voz feminina à música de Mike Oldfield, como Maggie Reilly e Sally Oldfield. Só não aconteceu porque não calhou. Para Enya, o destino foi outro. Depois de abandonar os Clannad em 1982, para onde entrara já na fase descendente do grupo, Enya criou o seu estilo pessoal, tirando partido de uma voz incomparavelmente doce e de um tipo de produção dirigido ao mercado “new age” de influência “celta” (a “celtic ambient”, como já lhe chamam na “Folk Roots”…), o que lhe valeu a conquista do prémio de “melhor álbum” nesta categoria, em 1995, com “The Memory of Trees”, e de um “Grammy”, quatro anos antes, com “Sheperd Moons”. “Paint the Sky with Stars: The Best of Enya” passa em revista alguns dos melhores momentos da cantora, incluindo, a abrir, o altamente trauteável “Orinoco Flow” e “The Celts”, título-tema do álbum que melhor soube recriar as envolvências celtas que sempre a inspiraram. Os indefectíveis têma ainda ao seu dispor um par de inéditos, “Only if…” e “Paint the sky with stars”, um belo título, ao nível do cuidado extremo posto na embalagem, jogando nas cores e nas texturas de uma proposta musical e de um rosto que, goste-se ou não, possuem um incomparável poder de sedução. (Warner Bros. distri. Warner Music, 6)
Mais uma senhora, a terminar. Esta mais recente e cultivadora de outro tipo de imagem. Falamos de Sheryl Crow, que em “Special Edition” (o álbum editado recentemente, “Sheryl Crow”, acrescentado de um segundo CD com actuações ao vivo) confirma estar alguns furos acima da chusma de candidatas a estrelas que todos os dias vão aparecendo com o fito de tentar chegar aos “tops”. Feita a aposta numa produção seca e numa criteriosa selecção de canções, tudo se conjuga para fazer brilhar ao máximo a voz de Sheryl, que aqui se revela capaz, tanto de recriar o neo-country, em “Redemption Day”, como de fazer a evocação de John Lennon, em “Ordinary Morning”, ou de se afirmar como veículo de uma “rocker” de cabelos ao vento. Para os registos, fica uma canção absolutamente a guardar no cofre das excepções, a belíssima e interiorizada “The Book”, virando as mesmas folhas de Suzanne Vega, e a ideia de que um corte no alinhamento poderia valorizar ainda mais um álbum onde o sentido comercial não dispensa um elevado nível de exigência. (A&M, dustri. Polygram, 6).
31.10.1997
World
Prendas de Natal
“Celtic Twilight”, “Celtic Lullaby”, “Celtic Odissey”, “Celtic Legacy”, “Celtic Heartbeat”, “Celtic Potatoes”, “Celtic Shit”. Socorro, tirem-me daqui! Desamparem-me a loja. Se isto é música céltica, eu sou australiano. Mas era de prever. As pessoas precisam de lenitivos, de sonhos, de coisas bonitas, como diria Artur Jorge. “Celtic” tornou-se sinónimo de conforto por medida.
Agarre-se num postal ilustrado, de preferência com um lago e muita verdura (um castelo também calha bem), numa harpa e numa menina de olhos verdes e cabeleira loura e pronto, está composto um cenário “celta”. As pessoas adoram.
O pior é que a música tradicional de raiz céltica, que de facto existe e que, apesar de tudo, goza de boa saúde, tem pouco ou nada a ver com estas séries “celtic” que vão aparecendo um pouco por todo o lado.
É a velha operaçãod e liofilização do produto, tão do agrado da indústria, quando se trata de controlar e desvirtuar determinada música situada fora dos parâmetros “mainstream”. Por regra, as produções são asépticas, com as tais capas postal-ilustrado e a música produzida por gente, alguma dela com responsabilidades, cuja preocupação principal é ganhar dinheiro. Deitemos, de qualquer modo, um olho ao pacote mais recente.
A série “Celtic Heartbeat”, com distribuição MCA, acaba de lançar o que, para muitos, será a prenda de natal ideal. “The Roots of Riverdance”, de Bill Whelan, sucede ao multipremiado espectáculo “Riverdance”, capitalizando em obras anteriores deste especialista na composição de “suites” orquestrais que, regra geral, contam com grandes músicos da tradição irlandesa. Estão neste caso “The Sevilla Suite” e “The Spirit of Mayo”, onde marcam presença, entre outros, Eileen Ivers, Dónal Lunny, Nollaig Casey, Mairtin O’Connor e Tommy Hayes, a par de excertos de “EastWind”, de Andy Irvine e Davy Spillane, e de “Riverdance”. Tudo o que foi possível arranjar com a participação de Bill Whelan. Mesmo assim é, de longe, o melhor disco do lote. (7)
Declan Masterson é, em termos rigorosamente técnicos, um bom executante de “uillean pipes”. Infelizmente o bom-gosto não impera na composição e nos arranjos de “Drifting Through the Hazel Woods”, um pastelão de programações do piorio. Comparado com o nível médio dos discos de ouro “piper” de gostos semelhantes, Davy Spillane, é bastante pior. (3)
“Omnis”, do colectivo vocal Anúna, consegue ser boa música de fundo. O álbum de estreia do grupo era bom. O mercado encarregou-se de tornar inócuas estas harmonias que parecem descer dos céus mas que na verdade não passam de um rigoroso trabalho de cosmética laboratorial. (5)
Outra obra de fôlego é “The Children of Lir”, de Patrick Cassidy. Neste caso, a “folk” desaparece para dar lugar a uma composição sinfónica, com ocasionais intromissões profanas de sabor “rock”, no qual participa uma das mais notáveis formações de música antiga da actualidade, os Tallis Choir. Ouve-se com outros ouvidos, embora a faceta ecorativa não tenha sido totalmente leiminada. (6)
Thomas Loefke é um alemão apaixonado pelas tradições irlandesas e pelo imaginário celta mais delicodoce. Para romper os véus de Tir Nan Aog, nada melhor do que fazer passar os dedos por uma harpa céltica. Se assim pensou, melhor o fez. “Nordland Wind” é uma versão plastificada que junta o pior Alan Stivel à frivolidade de um William Jackson, amparado em vocalizações de duas senhoras que, entre imitarem as inglesas June Tabor e Sandy Denny, revelam uma total incapacidade para compreender os segredos do genuíno canto irlandês no feminino. (5)
Frances Black tem boa voz, mas não a confundam com uma cantora “folk”. “Talk to me” agradará aos apreciadores de canções de variedades, ponto final. (3)
E já que se falou em prendas de natal, era natural que na Celtic Heartbeat se lançasse, com a devida antecipação, um objecto destinado a esse fim. Então aí temos “A Celtic Heartbeat Christmas”, cuja embalagem explica melhor do que mil palavras o conceito subjacente: um violino misturado com enfeites de Natal. A escolha dos celebrantes, em excertos de discos já editados antes, enfia os Altan ao lado dos “maus” Clannad, os “vendidos” Nightnoise (com senhores e uma senhora que já pertenceram aos Botty Band…), Thoms Loefke, Anúna, Declan Masterson, Brian Dunning (um ex-Gryphon, vejam lá…) e Cormac Breatnach, entre outros. Feliz Natal para eles e para todos nós. (5)
Também com a etiqueta “celtic” apareceu outra colectânea, desta feita com canções de embalar, “The Celtic Lullaby”, num selo do qual não se esperaria, tão cedo, cedências deste tipo, a Ellipsis Arts…, e com um anjinho na capa. Como, por regra, se trata de um género lento, funciona às mil maravilhas. Colaboram alguns nomes interessantes, alguns deles com pergaminhos: Tommy Sands, Plethyn, Jean Redpath, Mac-Talla e Alison Kinnaird. O melhor elogio que se pode fazer é que cumpre na perfeição o objectivo de pôr, mesmo o adulto mais “stressado”, a dormir. Como um anjinho, claro. (Ellipsis Arts…, distri. Megamúsica, 5).
Reservamos para o final uma surpresa agradável, o mais recente de Loreena McKennitt, “The Book of Secrets”. Embora insistindo na mesma tónica de sempre, uma abordagem leve da música antiga e da “folk” do ciclo Arturiano, com ramificações nas músicas do Oriente, na efabulação de um panceltismo planetário, o álbum oferece não poucos motivos de deleite, indo mais fundo do que os anteriores. Tmas longos, construídos sobre o equilíbrio de programações electrónicas mais discretas do que o habitual e uma vasta e sofisticada gama de sonoridades acústicas. “The Book of Secrets” regista dois excelentes momentos: “The Mummer’s Dance”, enobrecido pelo “swing” medieval do convidado Nigel Eaton, na sanfona, e os dez minutos de “The Highwayman”, onde a diversidade de registos e entoações vocais, verdadeiramente encantatórias, de Loreena McKennitt se consegue equiparar aos melhores momentos de Maddy Prior com os Carnival Band (Quinlan Road, distri. Warner Music, 6).
17.09.2004
Elizabeth Anka Vajagic
Stand With The Stillness Of This Day
Constellation, distri. Sabotage
6/10
Passar 40 minutos a gemer em agonia num disco não é proeza ao alcance de qualquer um. Elizabeth Anja Vangajic não só o consegue como deixa quem o ouve de rastos. É mais uma artista da Constellation e está tudo dito. A coisa passa-se assim: Elizabeth esvai-se em cada canção enquanto por detrás se fazem ouvir omnipresentes “drones” de violinos sepulcrais, mais pianos gélidos, guitarras sem alma, lascas de mármore e ruídos de electrónica de tempestade, como em “Around here”. Existe um som Constellation, sem dúvida, e para acentuar tal facto nem faltam neste disco as colaborações de elementos dos gybe! E dos A Silver Mt. Zion. Significa que o já tradicional movimento “vai acima, vai abaixo”, leia-se subidas e descidas musico-emocionais, entre clímaxes de “noise” orquestral e a depuração máxima, funciona em pleno. A capa também não engana, com as suas estátuas, portos desertos à chuva e templos em ruínas, em tons de pastel escuro. Estranhamente, o tema de abertura, quase podia fazer lembrar os Radiohead à hora da morte. É que Anka não perdoa, ao cantar palavras versos lapidares como “I Saw your face when you killed yourself/Smashed your face and you killed yourself”. Está visto que o Verão acabou.
24.10.1997
World
Águas Em Fúria
Cabalismos klezmer possuídos pela ira contra os deuses, ritmos do Nilo, cantos e danças do Piemonte italiano e, da Suécia, ainda um projecto com o envolvimento de Ale Möller e Lena Willemark, entre a tradição e a improvisação. Quadrantes de um mesmo mundo que a cada instante se redescobre e reinventa através da música.
“Drummers of the Nile” é uma viagem musical através do rio Nilo, das suas tradições e dos seus mistérios. Navega-se por ele a bordo das percussões mas também das vozes, com as contribuições de um acordeão e de um trompete, quando a nau lança a âncora nas vielas e nos bares mal afamados do Cairo. Entre o mar e o deserto, os tambores do maestro Mahmoud Fadl transportam-nos ao longo das diversas tradições conotadas com este rio desde sempre envolvido numa aura de mistério e cujos fluxos e refluxos das águas permaneceram durante séculos por explicar. Música clássica do Egipto, ritmos dos beduínos, cantos e cadências das mulheres, imitações de camelos, danças tradicionais a acompanhar cerimónias de casamento, variantes específicas e diversos ritmos, nubianos ou do Sudão (como o “dishka”, dança de protesto das prostitutas contra a proibição da sua actividade, decretada no Sudão, que alguns consideram ser o “avô do reggae”) são alguns dos pontos por onde passam as percussões e as vozes destes “Drummers of the Nile”. “A night on Mohammed Ali street” retrata, por seu lado, as condições de pobreza e sofrimento que enfermam as ruas de um dos bairros mais miseráveis da cidade do Cairo. É isso: a complexidade de alguns dos temas, em contraste com a extrema simplicidade de outros, num registo de pura etnicidade, são o corpo musical de uma entidade viva e pujante, o Nilo, reflectindo as suas paisagens e o modo de sentir das suas gentes. (Piranha, distri. Megamúsica, 8).
Não muito longe, um bando de judeus endemoninhados desafia o Criador e as tábuas da Lei. “Porque é que o Todo Poderoso passou os primeiros cinco livros da sua Bíblia a escrever sobrte questões confusas e de moralidade problemática?” é a pergunta colocada por Tony Kushner na longa apresentação que fez de “Possessed”, acrescentando logo de seguida que “é preciso lutar contra o Todo Poderoso”. Tony Kushner é o autor de uma adaptação para teatro, “A Dybbuk Between Two Worlds”, da obra clássica de S. An-ski, “The Dybbuk” que, a par de um enredo de amor e possessão, constitui um autêntico manual de folclore “yiddish”, para a qual os Klezmatics compuseram a banda sonora, compreendida nos temas 9 a 17 do disco. Quem já conhece esta banda pela audição do alucinante exercício sobre música klezmer contido em “Rhythms + Jews” encontrará aqui o mesmo espírito iconoclasta, embora envolto num esquema, dado o carácter específico deste disco, necessariamente mais rígido. O “jazz” e o teatro encontram-se com a folk, o “ska”, as “novas músicas” e baladas de recorte cristalino, como “Mizmor shir lehanef”, animados pelo mesmo espírito que ajudou a criar a identidade (e pluralidade, por vezes convulsiva) da nação judaica contemporânea, de Mahler a Schoenberg, passando por Marx e Freud. São estes fantasmas que os Klezmatics exorcizam com a fúria e convicção dos eleitos, desafiando, eles próprios, as regras da Torah (a Lei divina). (Piranha, distri. Megamúsica,
Seguindo a direito pelo Mediterrâneo encontramos os nossos velhos amigos celtas do Piemonte, no Norte de Itália, em plena corte dos La Ciapa Rusa, reis incontestados da música desta região. Como acontece com “Drummers of the Nile”, em relação ao Nilo, cujo caudal sofre cheias periódicas, também o álbum “Omi e Paiz”, dos Tre Martelli, está marcado pela fúria das águas, neste caso pelas cheias que assolaram a zona de Alessandria em Novembro de 1994 e, inclusive, puseram em risco a própria existência do grupo. O reportório é constituído pelos “brandos”, “alessandrine” e “monferrine” da praxe, alternando com baladas vocalizadas de extrema sensualidade, características do estilo do Piemonte, onde brilham as vozes de Simone Boglia e Andrea Sibilio, num registo de menor sofisticação comparado aos “internacionais” Ciapa Rusa e Barabàn. (Robi Droli, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
De súbito, uma rajada gelada tolhe-nos os membros, fazendo-nos tremer. Por momentos o frio faz-nos perder o sentido de orientação. É meia-noite mas o sol brilha sobre o horizonte. É claro, saltámos muito para Norte e viemos cair na Suécia. Porém, a música que nos chega através de “Enteli”, consegue fazer-nos esquecer o frio. Reconhecemos, no colectivo designado por Enteli, a presença, uma vez mais, de Ale Möller e Lena Willemark, numa música que toma as baladas medievais ou as tradições xamânicas das danças “sufi” como inspiração para um exercício de liberdade que está mais próximo do “jazz” e do requinte de um Jan Garbarek que da música tradicional, recuperando todo o virtuosismo mas também as tendências heréticas da escola escandinava, marcadas tanto pelo furor instrumental como por um sentido apurado da poesia e de um ambientalismo “sui generis”, fruto da eterna promiscuidade entre o sol e a lua. (Phono Suecia, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
17.09.2004
Black Ox Orkestar
Ver Tanzt?
Constellation, distri. Sabotage
6/10
Estranha combinação a dos Black Ox Orkestar. São canadianos mas tocam, dizem, “canções klezmer tradicionais através de uma sensibilidade moldada pelo ‘indie rock’ e o ‘free jazz’. “Ver Tanzt?” (“Quem está a dançar”, em “Yiddish”), o título tema, é uma violenta diatribe contra Israel mas a música dos Black Ox Orkestar acaba por não ser nem a recapitulação exaltada das sonoridades “klezmer” nem a fúria “punk” que a sua atitude interventiva poderia justificar, mas uma pesada arca cheia das habituais “drones” da editora canadiana, vozes moribundas e folk rock com a bússola apontada à tradição hebraica. O ambiente geral é de nostalgia e não de dança, como se os Black Ox Orkestar se deixassem afogar num mar de desesperança (“vivemos na nossa língua, como cegos caminhando à beira do abismo, uma linguagem carregada de catástrofes futuras”, lê-se numa citação do livrete). A instrumentação, exótica q.b. (contrabaixo, clarinete baixo, bandolim, cymbalon, violino, órgão de foles…) nem sempre é bem aproveitada (o cymbalon e o contrabaixo constituem a excepção, em “Skocne”) mas o resultado final, apesar da imensa tristeza, cria situações auditivas interessantes.
17.10.1997
O Céu A Seu Dono
Joe Jackson & Friends
Heaven & Hell (7)
Sony Classical, distri. Sony Música
Katharco Consort
La Divina Comedia (7)
Lyricon, distri. MC – Mundo da Canção
O céu e o inferno. Deus e o demónio. O tema da eterna luta entre o bem e o mal, da salvação ou condenação do homem, têm sido tratados ao longo dos séculos em todas as formas de arte, ocupando um lugar de destaque no imaginário do final deste século. No universo da Pop os anjos e mafarricos também têm tido o seu tempo de antena, com mais ou menos cheiro a incenso ou a enxofre. Joe Jackson, nascido em berço “new wave” mas cada vez mais assumido como autor erudito, abordou o tema de uma forma curiosa. “Heaven & Hell” não é tanto um álbum que pegue no tema na sua generalidade mas uma sequência de sete canções, mais um prelúdio, correspondentes aos sete pecados mortais. Cada uma destas canções possui dosi títulos, um luminoso, visível, e outro negativo, como o seu contrário, ou duplo, que é o do próprio pecado. É no prelúdio e nas duas fugas que abrem e fecham a série dos sete pecados mortais que se fazem sentir com mais intensidade as influências clássicas de Joe Jackson, como já se manifestavam no álbum anterior, “Night Music”. Uma escrita que, segundo o seu autor, se prende com o excesso (ainda, segundo ele, um excesso de notas) inerente à noção de pecado. Mas onde “Heaven & Hell se mostra verdadeiramente interessante é nos casos em que a vertente mais formalista se combina de forma admirável com o formato de canção pop, servido por uma não menos notável intuição melódica, como acontece em “Passacaglia / A bud and a slice” (correspondente ao pecado da preguiça). “Right” (sobre o pecado da ira), por outro lado, alterna a agressividade de ruídos de tráfego e o combate de gladiadores entre dois bateristas, com a fragilidade de uma melodia quase suplicante. “Tuzla” desloca o tema da avareza para o palco da guerra na Bósnia, apontando o dedo aos que da tragédia procuram tirar lucros. As aparições de Suzanne Vega, no papel de anjo caído, em “Angel”, e de Jane Siberry, em “The Bridge” (sobre a inveja) não são determinantes, passando quase despercebidas ao lado das qualidades solísticas da violinista Nadja Salerno-Sonnenberg. “Heaven & Hell” oferece ainda um apêndice em CD-ROM com comentários de Joe Jackson a cada um dos temas e, para os mais literatos, a capa inclui citações de Robert Browning e da teosófica Helena Petrovna Blavatsky, sobre as relações entre Deus e o diabo.
A mesma temática do céu e do inferno é retomada pelos Katharco Consort, ou Katharco Early Music Consort, para a editora espanhola Lyricon, vocacionada para o lançamento de produtos híbridos entre a “new age” e a música antiga. Os Katharco Consort, liderados por Marco Ambrosini (viola d’amore, violino de bolso e voz) inserem-se na mesma linha de grupos como os Vox, cuja paixão pela música antiga não dispensa uma utilização, por vezes extensiva, da electrónica. Nesta “La Divina Comedia” inspirada directamente no clássico de Dante Alighieri, Ambrosini optou por uma leitura que situa o tema, para além dos seus aspectos obviamente espirituais, nos termos de uma “viagem iniciática pelo interior do corpo humano”. A peça divide-se em cinco andamentos, um prólogo e um epílogo, ambos curtos, e três motivos centrais de 15 minutos cada subordinados ao “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”. O “Inferno”, como é hábito, diz-se aqui através das percussões, mas também de uma gaita-de-foles (durante muito tempo proibida pela igreja católica que via nela um “instrumento do diabo”) da Macedónia e sopros vários, ora em colisão dissonante ora swingando sobre as chamas do “jazz”. “purgatorio”, com uma estrutura harmónica mais clara, simboliza a espera e a incerteza, o sofrimento antes da luz. O andamento é um “andante” sinuoso, uma voz conduz primeiro as almas sobre as ondas do mar, depois um clarinete cede progressivamente a vez à harpa até que um naipe de cordas chega, fazendo já ouvir as promessas do paraíso. Já no lugar de eleição uma flauta de bisel desenha melodias celestiais sobre o dedilhar sereno da harpa, com as cordas cumprindo o seu papel de “coro eterno” numa demonstração da beleza do que se poderá chamar, seguindo a lógica do paradoxo, “nova música antiga”, mas que também não anda longe do “Heaven & Hell” da autoria do grego Vangelis. Num final apoteótico um órgão de igreja MIDI descansa por fim sobre as batidas de um tambor xamânico, simbolizando não só a fusão das almas no Uno como também a conciliação do Passado com a tecnologia. É bonita, embora previsível, a música que se faz ouvir no paraíso dos Katharco Consort.
10.09.2004
Luar na Lubre
Hai um Paraíso
Warner Music Spain, distri. Warner
5/10
Faz pena assistir à decadência dos Luar na Lubre. A queda processou-se pela via do costume, da simplificação rítmica através da utilização exaustiva dos sequenciadores e caixas-de-ritmo, o que transformou a banda galega numa espécie de emulação de Hevia. Não que as gaitas não estejam onde lhes compete e que as melodias não sejam, nalguns casos, de uma beleza estonteante. Mas por que raio é que uma pandeireta ou uma bateria não chegam os ritmos? A utilização da electrónica na folk céltica sempre foi polémica mas parece ser evidente que nos Luar na Lubre tem a ver com a internacionalização e as cedências que esta transição implica. O resultado é o empobrecimento da música e a desvalorização de temas como “Hai um paraíso”e “Uah lua”, transformados em exercícios de má música de dança. Pontos positivos são “Rivadavia”, com uma bela intervenção na gaita de Bieito Romero, “Corme”, que prima pela simplicidade, e “Achega-te a mim, maruxa”, boa versão do tema popularizado por José Afonso. Há duas Galizas distintas que se digladiam na música dos Luar na Lubre.