David S. Ware Quartet – “Freedom Suite” + Daniel Carter & Reuben Radding – “Luminescence” + Alexander Von Slippenbach – “The Living Music” + Fred Van Hove – “Complete Vogel Recordings” + Maneri Ensemble – “Going To Church” + Manfred Schoof – “European Echoes” + Brötzmann, Van Hove, Bennink – “Balls” + Sun Ra & His Arkestra – “Music From Tomorrow’s World”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 10 Maio 2003

A liberdade que David S. Ware recria hoje por via da obra de Sonny Rollins é a mesma liberdade que 30 anos antes se espraiava pelas formações de “free music” europeias, agora recuperadas pela Unheard Music Series.


Música livre, música viva

DAVID S. WARE QUARTET
Freedom Suite
Aum Fidelity
8|10

DANIEL CARTER & REUBEN RADDING
Luminescence
Aum Fidelity
8|10

ALEXANDER VON SLIPPENBACH
The Living Music
Unheard Music Series
9|10

FRED VAN HOVE
Complete Vogel Recordings
2xCD Unheard Music Series
8|10

MANERI ENSEMBLE
Going to Church
Aum Fidelity
7|10

MANFRED SCHOOF
European Echoes
Unheard Music Series
9|10

BRÖTZMANN, VAN HOVE, BENNINK
Balls
Unheard Music Series
8|10

SUN RA & HIS ARKESTRA
Music from Tomorrow’s World
Unheard Music Series
7|10

Todos distri. Ananana



David S. Ware lança-se na “Freedom Suite” de Sonny Rollins, repetindo o que Branford Marsalis já fizera, ao incluir a mesma peça em “Footsteps of Our Fathers”, à qual, juntara, aliás, o “Love Supreme” de Coltrane. Rollins e Coltrane, dois músicos para quem os conceitos de composição e improvisação se confundiam na plasticidade de um discurso sempre renovado. Ware, provavelmente o mais coltraniano dos tenoristas da nova geração, entrega-se à tarefa “rollinsoniana” (ele que já recriara, deste compositor, “East Broadway Run Down”) com uma paixão que chega a ser avassaladora. Acompanham-no o habitual quarteto formado por Matthew Shipp (piano), William Parker (baixo) e Guillermo E. Brown (bateria), imprimindo em conjunto um sentido ascensional a uma obra que em Rollins se desenrola à luz de um sentido lúdico e de uma liberdade mais “horizontal”. Sem atingir os paroxismos de espiritualidade de “Godspellized”, esta “Freedom Suite” confirma, ainda assim, Ware como um dos expoentes do jazz contemporâneo.
Matthew Shipp é um dos participantes em “Going to Church”, do Maneri Ensemble, do pai, Joe (clarinete, saxofones alto e tenor) e do filho, Mat (viola de arco), numa formação que integra ainda Roy Campbell (trompete), Barre Phillips (baixo) e Randy Peterson (bateria). Álbum de devoção (à liberdade de improvisação), é composto por três únicos temas, dos quais se destaca “Blood and body”, 31 minutos de desmantelamento harmónico e melódico pautado pelos diálogos entre pai e filho, sob a supervisão do piano de Shipp e a intromissão de “drones”, gritos, entropia rítmica e sessões de catarse.
Na mesma editora, uma estimulante surpresa: “Luminescence”, de Daniel Carter (saxofone alto) e Reuben Radding (contrabaixo). Forçado pelas circunstâncias a limitar-se ao sax alto, Daniel Carter (o saxofonista, parceiro de projetos de “neo free” como Other Dimensions in Music Test, toca uma parafernália de sopros, mas o atentado de 11 de Setembro impediu que os transportasse a todos nos porões do avião…) concentra-se na exploração conjunta com o contrabaixo telúrico de Radding (amiúde tocado com arco) de microuniversos concentracionários como “Ancestral voyage-mystery suceed” e de um “free” de baixas e íntimas frequências, cruzadas pelo “hard” e pelos “blues” (“Refracted light and grace”, “Vignettes”) com o recurso a uma depuração de meios que, por vezes, lembra Joe McPhee, embora Carter faça questão de manter intactas e “redondas” as suas estruturas, feitas, como se diz no tema de fecho, de “Occurrences, places, entities and the sea”.

Sons da Europa livre
Recuemos ao passado, até ao período de transição dos anos 60 para os 70. Na Europa fervilhava uma música libertária que adaptava o manifesto “free” dos negros americanos às idiossincrasias da música contemporânea, do serialismo e da improvisação sobre moldes “folk”, clássicos, etc. No mais recente pacote de reedições da Unheard Music Series/Atavistic, compiladas pelo escritor, jornalista e músico John Corbett, a partir de arquivos da FMP (Free Music Productions), encontram-se raridades e entidades mutantes do novo jazz que então se produzia longe das margens do “mainstream”, álbuns feéricos, deslumbrantes, desconcertantes ou desopilantes, tão representativos como ignorados, deste intenso período de atividade do jazz europeu.
“European Echoes” é um “monstro” gravado em 1969 por um coletivo de 16 elementos liderados pelo trompetista alemão Manfred Schoof, que aglutinava uma série de pequenos combos onde estavam presentes, entre outros, Enrico Rava, Peter Brötzmann, Gerd Dudek, Evan Parker, Paul Rutherford, Derek Bailey, Fred van Hove, Alexander von Slippenbach, Ireen Schweizer, Peter Kowald, Han Bennink e Pierre Favre, a nata da música improvisada de então. A sessão, aproveitando a convergência musical, mas sobretudo ideológica, que unia todos estes músicos, teve como base uma sessão radiofónica em Bremen. Três pianistas, três baixistas, três trompetistas, três saxofonistas, dois bateristas unidos na criação de um magma explosivo de ideias, o fragor e a excitação do “free” tornado palco de batalha, mas também lugar de exteriorização de uma energia sem limites. Não convém estar no meio quando os pianos de Slippenbach, Van Hove e Schweizer partem a louça e as convenções, nem quando Han Bennink e Pierre Favre juntam forças para fazer deflagrar os seus torpedos e granadas. Seria como ser-se esmagado por placas tectónicas.
No mesmo ano, alguns destes músicos voltariam a reunir-se em “The Living Music”, num grupo mais reduzido, desta feita sob a liderança de Alexander von Slippenbach, estando presentes, além do mentor da Globe Unity Orchestra, Peter Brötzmann, Paul Rutherford, Han Bennink e J. B.Niebergall, participando pela primeira vez Michel Pilz, no clarinete baixo e saxofone barítono. A gravação decorreu sob a égide do engenheiro de som alemão Conny Plank, responsável nos anos 70 por inúmeros álbuns importantes do “krautrock”. E sente-se a sua mão.
Se “European Echoes” é um vulcão em atividade, “The Living Music” é “free music” com assento na eletro-acústica mais sofisticada e segundo a mesma conceção de som “cósmico”, ou espacial, que marca inconfundivelmente toda a produção de Conny Plank (convém esclarecer que, na Alemanha, o “krautrock” rondou de perto, neste período, o jazz. Wolfgang Dauner cortejou a música eletrónica e o rock progressivo, Jaki Liebezeit, baterista dos Can, integrou a Globe Unity Orchestra, Mani Neumeier, baterista dos Guru Guru fez parte de várias formações de “free jazz”…). As percussões e o piano ganham dimensões extra, abrindo novas hipóteses de exploração interna. Vislumbra-se o gozo da revisitação aos primórdios do “free”, em “Into the staggerin”, mas o que de facto permanece como absolutamente atuante e atual é a extrema vitalidade e organicidade desta música, que ousou, mais do que romper a tradição, revolvê-la e introduzir nas suas entranhas novos enxertos e sementes.
Em “Balls” (1970) já só encontramos Peter Brötzmann e o seu tenor embruxado, Fred van Hove, e as suas marionetas de piano, e Han Bennink, fabricante de percussões ilimitadas. Dois temas extra, “Untitled 1” e “2”, foram acrescentados ao alinhamento original do que foi a primeira gravação oficial do trio. Brötzmann é de uma fisicalidade extrema, levando a estética do grito contínuo ao esgotamento e, finalmente, ao silêncio. Fred van Hove dá uma amostra da heterodoxia que pauta o seu discurso pianístico, Bennink inventa ritmos como uma criança que constantemente troca de brinquedo. Quem tem “balls” que apare os golpes desta música lançada como facas aos que a ela se encostam como simples figurantes.
Posto à venda originalmente em edição limitada, “Complete Vogel Recordings” reúne as duas gravações efetuadas pelo pianista belga Fred van Hove entre 1972 e 1974, para o selo Vogel: “Live at the University”, piano solo registado nas universidades de Bruxelas e Antuérpia, e “Een Tweede Vogel”, em duo e em estúdio com o saxofonista tenor Cel Overberghe, mais um 45 rotações raro. A solo, Fred van Hove vai dos delírios mais livres ao “ragtime”, da balada e da marcha funerária ao exibicionismo, ao romantismo traficado e ao teatro burlesco, sem esquecer o ricochete de bolas de pingue-pongue nas cordas do piano. Já os duetos com o saxofonista vão do “free” e do exercício de escalas (num irónico “Bas la police”) até “New Orleans”. Em “Alle eendjes”, Van Hove troca o piano pelo órgão Hammond, enquanto no tema seguinte, introduzido por um excerto
de música concreta, é a vez de
Overberghe trocar, graças ao
“overdubbing”, o saxofone pelo
baixo e pela bateria.
Aproximemo-nos, por fim, do outro mundo, com “Music from Tomorrow’s World”, de Sun Ra e da sua Arkestra, captado ao vivo em 1960 na Wonder Inn de Chicago e, em estúdio, num obscuro The Majestic Hall. Infelizmente, o som ao vivo é pavoroso, o que faz diminuir um pouco o prazer de acompanhar as sessões quase clandestinas realizadas de madrugada pela Arkestra, ao longo de um ano de residência, entre mesas apinhadas e as paredes apertadas de uma taberna. Por lá passaram, como assistentes e participantes, Roland Kirk e Stan Getz (John Coltrane também quis, mas, reza a lenda, o porteiro ou quaisquer outras razões misteriosas não terão permitido a sua entrada…). Lá dentro, o som de uma festa. A Arkestra a tocar uma música primitiva, swing, batuques, cânticos de “music hall”, ritmos e flautas infantis (“Spontaneous simplicity” poderia pertencer a Raymond Scott) e fanfarra (Roscoe Mitchell e Joseph Jarman assistiram igualmente a estas sessões, aprendendo com elas muito do que viriam a pôr em prática nos Art Ensemble of Chicago), aos poucos fazendo coincidir “primitivo” com “ancestral”, levando os sons da selva para o desconhecido ou para a música de salão, nas várias versões de “Majestic”. Música de magos. Em mangas de camisa.

The Bad Plus – “These Are The Vistas” + Mark O’Connors Hot Swing Trio – “In Full Swing” + Judy Niemark – “About Time” + Clare Teal – “Orsino’s Songs” + Alexi Tuomarila Quartet – “02” + Christian McBride – “Vertical Vision” + Kenny Garrett – “Standard Of Language” + Marty Ehrlich – “The Long View”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 3 Maio 2003

O ponto de vista determina a visão da música. Há jazz para se ouvir de pantufas, jazz para não se pensar em nada e jazz que obriga a pensar. Descubra o leitor o lugar onde se sente mais confortável.


Vistas, vision, view

THE BAD PLUS
These are the Vistas
Columbia, distri. Sony Music
7|10

Os músicos não têm aspeto de músicos de jazz, conforme os cânones vigentes na “Enciclopédia dos Mitos do Jazz” (ed. Parker & Son, 1990), mais parecendo uma trupe de “grunge”, e “These are the Vistas” também não será um disco de jazz convencional. Os Bad Plus não são, aliás, normais. Reid Anderson (baixo), Ethan Iverson (bateria) e Dave King (piano) são descritos como um “power piano trio” de arrasar e é de facto sobre a torrente energética deste instrumento que o poder se instala. Encaixadas entre os vários originais do grupo, chamam a atenção as versões de “Smells like teen spirit”, dos Nirvana, “Flim”, de Aphex Twin, e “Heart of glass”, dos Blondie. O tema dos Nirvana chove com tristeza e beleza inauditas, com o piano de King a fazer lembrar os tempos de Roger Miller com os Birdsongs of the Mesozoic: notas soltas, marteladas, musculadas em regime de romantismo machista, clusters e cordas percutidas. Com a energia do rock & roll. King swinga como se estivesse na parada, de armas na mão, de compasso preparado para a batalha. Não é um pianista subtil, o seu “approach” refugia-se na dureza e no desafio, quando o lirismo assoma, tem ainda o jeito desengonçado dos pesos-pesados apaixonados pelos “blues”, como em “Guilty”, ou o sabor na boca dos impressionistas, como em “Silence is the question”. “Flim” (com o “gimmick” de um megafone traficado) e “Heart of glass” são, por sua vez, sujeitos a um processo de desconstrução que, de caminho, transforma as melodias em mutantes. Pós-jazz, se quiserem, a música dos Bad Plus é a de rapazes malcomportados com bom coração.

MARK O’CONNORS HOT SWING TRIO
In Full Swing
Odyssey, distri. Sony Music
7|10

Mark O’Connors (violino) e Frank Vignola (guitarra) recuperam em “In Full Swing” a estética “duelística” do violinista cigano Stéphane Grapelli e do guitarrista, também cigano, Django Reinhardt, no célebre Quinteto do Hot Clube de Paris, em meados dos anos 30. O “swing” acontece quando tudo entra nos eixos na “performance” de um músico ou de um grupo. “In Full Swing” swinga, não no modo “full”, mas com a fluência e o rigor de quem estudou bem a lição. Wynton Marsalis é o trompetista convidado (é interessante escutá-lo nos pouco usuais registos de “ragtime”) e Jane Monheit dá voz a “standards” ultra-explorados como “Honeysuckle Rose”, “Misty” e “As time goes by”. Escutamos a música de Grapelli e Django como se estivesse simultaneamente perto e longe. Sentem-se as afinidades mas percebe-se, por mais tecnicistas que O’Connors e Vignola se revelem, que o génio é fogo intransmissível.

JUDY NIEMARK
About Time
Ed. e distri. Sony Music
6|10

Já que se fala de jazz tradicional e bonito, porque não deixarmo-nos embalar pelas vozes de Judy Niemark e Clare Teal? Judy Niemark tem um registo próximo do de Matilde Santing, morno e insinuante, e a música de “About time” serve-a às mil maravilhas. Uma música que flutua nas ondas da bossa nova, no vibrafone etéreo de David Friedman, no baixo estival de Eddie Gomez e no saxofone, aqui também sonhador, de Lee Konitz. Sem riscos nem coriscos, o programa percorre “standards” de Rodgers/Hart e Bernstein, “’Round midnight” de Monk, “Time remembered”, de Bill Evans e “Time after time”, de Cindy Lauper. Curiosamente, a totalidade dos doze temas refere-se ao tempo e Judy não perde tempo em tentar seduzir-nos. Se nos refastelarmos num sofá, descansa e conforta. Quem procurar demónios, esqueça!

CLARE TEAL
Orsino’s Songs
Candid, distri. Dargil
7|10

Se a voz de Judy é veludo, a de Clare Teal alia aos tecidos macios um “vibrato” que, quando quer, sabe arranhar. Embora o início não pudesse ser mais soalheiro, com uma estonteante versão de “California dreamin”, hino do “flower power” popularizado nos anos 60 pelos The Mamas and The Papas, massajado por um solo de rebuçado de saxofone alto por Alan Barnes. Mas depois anoitece e desce-se aos bares e Clare senta-se ao balcão como Jessica Rabbit no filme, cromo animado de enredos de sedução que já não há. “The way you look tonight”, Porter, Rodgers/Hart, Gershwin e um pacote de originais confirmam o calor, a plasticidade e o “feeling” vocal da cantora. Continua a ser jazz para se ouvir de pantufas (“Ready for love to begin” é “Mary Poppins”…) mas, com mil raios, sabe tão bem fechar os olhos e sonhar…

ALEXI TUOMARILA QUARTET
02
Finlandia, distri. Warner Music
7|10

O jazz nórdico também vive fora da ECM. Oriundo da Finlândia, o quarteto do jovem pianista Alexi Tuomarila, se não é uma locomotiva que leve esta música às estações terminais, confirma pelo menos que o “mainstream” não está seguro por alfinetes. Tuomarila estudou pop e jazz em Oulunkylä, passou pelo Conservatório de Bruxelas e as suas principais influências são Keith Jarrett, Bill Evans, Bobo Stenson e Brad Meldhau que, na capa, lhe tece os mais rasgados elogios, enaltecendo o seu sentido rítmico. Sibelius (“Sacrament”) e o quinteto de Miles Davis (presente, aliás, na assinatura de um dos temas, “Solar”) são igualmente apontados como balizas. “Noàdi” e um “Goodbye little godfather” jarrettiano comprovam a força e naturalidade do “riffing”, acentuando essa proficiência rítmica que lhe é apontada, mas é o lirismo distendido de Bill Evans que amiúde prevalece no desenho melódico. Como segundo solista, o saxofonista Nicolas Kummert revela-se um bom discípulo da escola, com raízes nas tradições nórdicas, de Jan Garbarek.

CHRISTIAN MCBRIDE
Vertical Vision
Warner Bros., distri. Warner Music
7|10

Começa com uma “blague”: quinze segundos de um velho vinilo riscado com música dos primórdios do jazz. “No, no, put another record!”, grita uma voz, e “Vertical Vision” embrenha-se nos meandros do “jazz rock” através de um “groove” alimentado pelo baixo de McBride. Jazz moderno não será lá muito, mas o “funk” tornou-se uma benesse nos dias atuais de “lounge” e espuma. E “funk” mais “funky” que o do tema de Joe Zawinul (“Boogie woogie waltz”) que fecha esta visão vertical, não há. Ron Blake é razoavelmente plástico nas ornamentações dos saxofones tenor e soprano e David Gilmore mostra-se um competente guitarrista de rock, sedento de eletricidade. São “riffs” e motivos transcritos dos anos 70 e do “jazz rock” de bandas como os Soft Machine, Nucleus, Passport e Soft Heap (“Taihitian pearl” assenta a matar no gosto dos apreciadores de jazz progressivo) ou da fase mais “groovy” de Herbie Hancock. A boa notícia é que McBride e os seus companheiros entregam-se à música com uma jovialidade que dá a entender que esta foi uma sessão feliz.

KENNY GARRETT
Standard of Language
Warner Bros., distri. Warner Music
8|10

Outra boa notícia é que Kenny Garrett deixou de lado as concessões ao “bonito para pendurar na parede” que marcavam o disco anterior, “Happy People”, regressando em “Standard of Language” a uma música pujante que faz jus ao estatuto alcançado por este antigo “sideman” de Miles Davis. Digitação fluida, timbre cheio e uma imaginação em ação permanente, a impedir o recurso ao bordão dos “clichés”, caracterizam este retorno ao grande jazz, enquanto discurso que passa de dentro para fora e não o contrário. O hard-bop está na massa do sangue de “Standard of language”, seja na recriação do “standard” de Cole Porter, “What is this thing called love?”, seja na citação a McCoy Tyner de “Chief blackwater”, seja ainda nos três movimentos que constituem o título-tema, um tratado de swing e a confirmação da extraordinária coesão de um grupo que parece ter ressuscitado de “Happy People” para este novo registo, com particular evidência para o pianista Vernell Brown e o baterista Chris Dave.

MARTY EHRLICH
The Long View
Enja, distri. Dargil
8|10

Impressionista, a música de Marty Ehrlich (saxofones soprano, alto e tenor, clarinete baixo, flauta), como a de Satie ou Debussy, justapõe células melódicas, harmónicas e rítmicas de modo a criar uma estrutura que vive tanto da sua arquitetura intrínseca como da relação sensorial e afetiva com o ouvinte. “The Long View” é uma “suite” em seis movimentos e um poslúdio, cada um deles correspondente a um quadro do pintor Oliver Jackson, com quem Ehrlich travou conhecimento nos anos 70, através de Julius Hemphill, e cujas obras, estamos em crer, já por várias vezes foram aproveitadas graficamente para algumas capas de álbuns do saxofonista. Como numa auto-estrada de múltiplas faixas de rodagem, os solos e as sequências coletivas caminham lado a lado em velocidades diferentes, criando ilusões de aceleração e retardamento em que apenas a visão aérea, ou a “long view” do título, permitem distinguir a totalidade e intensidade gerais do tráfego. Sequências de pura matemática instrumental, interlúdios de música de câmara, instantes de lirismo (como os criados pelo piano de Wayne Horvitz no “Movement IV”), pinceladas “free”, instantes de pausa num bar da “downtown” e os “blues” (num “Movement V” etilizado pelo trombone de Ray Anderson) convergem numa obra de fôlego que, entre os vários participantes, conta com Ned Rothenberg, Mark Dresser, Mark Feldman, Bobby Previte, e os já citados Ray Anderson e Wayne Horvitz.

Nina Simone – “Nina Simone (1933-2003)” / “A indomável” / “Nina Simone, rainha da música negra” (artigo de opinião / obituário)

(público >> cultura >> jazz >> artigo de opinião)
quarta-feira, 23 Abril 2003


Nina Simone (1933-2003)

A indomável




Nina Simone, rainha da música negra

Sacerdotisa da “soul” e do “gospel”, cantora de jazz, intérprete de Brel, Nina Simone foi acima de tudo uma voz do tamanho do mundo que lutou contra os preconceitos. Musicais e raciais. Encontrou-se a si própria a sós com um piano. Morreu na segunda-feira

Amada e odiada. Quase sempre incompreendida. Nina Simone esteve sempre à margem de onde queriam que estivesse. E quando a encontravam, mudava de lugar. O jazz olhou-a de soslaio. A pop condescendeu em aceitá-la. Não foi nem uma cantora de jazz nem uma cantora pop. Foi uma cantora. Morreu na segunda-feira, aos 70 anos, em casa, em Carry-le-Rouet, nos arredores de Marselha, e o corpo vai ser cremado na sexta-feira, no cemitério de Saint-Pierre, na mesma cidade.
“Se tiver que ser chamada alguma coisa” – escreveu na autobiografia “I Put a Spell on You”, de 1991 – “que seja cantora folk, porque houve mais folk e blues do que jazz na minha música”.
“I put a spell on you”, também a emblemática canção de Screamin’ Jay Hawkins, e que integrou no seu reportório, define na perfeição a sua atitude perante a música e os que a ouviam. Folk era gospel na sua indomável voz de contralto de vagabunda entre o céu e o inferno. E gospel é “God” e “spell”, Deus e feitiço.
Nina Simone lançou um feitiço, uma maldição. Impacientava-se e exigia dos outros o que muitas vezes não exigia de si. Uma entrevista mal conduzida, um ruído entre a assistência, eram suficientes para a exasperar. Como consequência, e de acordo com o efeito de retorno que é uma das principais leis da magia, foi paga na mesma moeda: a sua música leva, por sua vez, alguns ouvintes ao desespero.
Houve, sem dúvida, cedências e falhas na gestão da sua carreira. De gosto e de coerência. Que se perdoam. Nina Simone era uma força da Natureza, um grito gutural num momento, uma oração rezada em segredo, no outro. É difícil descobrir o centro do ciclone, o ponto onde o orgulho e a revolta, a visão e o caos, o grito e o silêncio nela se reconciliaram em obra de arte. Mas ele existe e assombranos e essa obra tem nome: “Nina Simone and the Piano!”, álbum de 1969, reeditado pela primeira vez em CD, em versão remasterizada, pela RCA, no ano passado, e considerado pela crítica de jazz nacional como uma das reedições do ano.
“Nina Simone and the Piano!” apresenta a cantora e compositora no formato mais despojado e intenso que é possível desejar. Voz e piano, energia e disciplina, por uma vez unem-se com a finalidade de nos fazer estremecer. É um álbum de gospel e de blues, de périplos solitários, de ascese e queda. Para alguns soará como o seu álbum mais incompreensível, porque absolutamente criado no interior de uma espécie de universo paralelo onde as emoções e o instinto se casam segundo uma lógica indecifrável pela razão. Mas esse é precisamente o caminho que não se deve seguir para dar com a música de Nina Simone. Pelo contrário, se nos abandonarmos ao vento (“Wild is the Wind” é o título de um dos seus álbuns), à água e ao fogo, à tempestade e à bonança, aí sim, encontraremos o sentido mágico em que todas as partes se juntam para revelar a imagem do Todo. Uma das canções do álbum, “Everyone’s gone to the moon”, é “crooning” astral, rito de passagem de alguém eternamente em trânsito, de uma sociedade injusta e desumanizada – que Nina sempre condenou – para um mundo ideal onde se diz que vivem os poetas.
Nina, a nómada, que viajou na música como pela vida, deixando os EUA em 1973, falida e divorciada, para habitar na Libéria, Barbados, Suíça, Holanda, Inglaterra e França, onde se estabeleceu há oito anos, vindo aí a morrer. Nina, a “jazz singer” que o jazz esteve perto de condenar ao degredo. A ela que, numa entrevista, confessara: “Foi sempre meu propósito permanecer afastada de quaisquer categorias – é a minha liberdade. Porém, liberdade é, para mim, a própria definição do jazz, por isso não posso afirmar que não sou uma cantora de jazz.”
Noutra canção de “Nina Simone and Piano!”, “Who am I?”, de Leonard Bernstein, é mostrada outra faceta, a do seu próprio espanto frente ao espelho, mas também a transcendência. “Acreditas na encarnação? Já aqui estiveste? Tiveste essa experiência? Então deverás questionar todas as verdades conhecidas…” Foi o que ela fez.

Jovem, prendada e negra
Eunice Kathleen Waymon (o seu verdadeiro nome) nasceu em Tryon, Carolina do Norte, há 70 anos. Filha de músicos, estudou órgão e piano na prestigiada Juilliard School, de Nova Iorque, encetando a sua carreira como pianista em 1954, num bar-churrascaria de Atlantic City, ao mesmo tempo que assumia o nome artístico por que ficou conhecida, Nina Simone, para não ser descoberta pela mãe.
Entre dois churrascos e uma escala de piano, pediram-lhe, ou forçaram-na, a cantar. Nina cantou como se fosse Billie Holiday. Ou, por outras palavras, como se cantar fosse uma forma de sobrevivência. Já nessa altura havia quem, entretido a deglutir um bife, não se deixasse tocar. Nina vingava-se, carregando, ao piano, nas notas do classicismo, compondo a figura paradoxal de um piano de fraque a dançar com uma voz de guerreira-amazona.
Em 1957 assinou o seu primeiro contrato discográfico, com o selo Bethlehem, conseguindo o primeiro “hit” com “I loves you, Porgy”, um tema de Gershwin extraído do musical ”Porgy and Bess”, dispersando a partir daí a sua extensa discografia (demasiado extensa e pouco criteriosa, bradam os porta-vozes do cepticismo) pela Colpix, Charly, Roulette, Philips, Verve, Mercury, Canyon, Carrere, Accord e RCA, entre outras editoras. “Nina Simone and her Friends” (1957), “The Amazing Nina Simone” (1959), “Pastel Blues” (1965), “I Put a Spell on you” (1965), “Nina Simone Sings the Blues” 1966), “Wild is the Wind” (1966), “Silk and Soul” (1967), “High Priestess of Soul” (1966), “Emergency Ward!” (1973), “Baltimore” (1978), “Live at Ronnie Scott’s” (1984) e “A Single Woman” (1993, o disco que marcou a sua reentrada no mercado norte-americano) são exemplos de uma coleção infindável de registos nos quais se inclui uma percentagem elevada de gravações ao vivo. Nina Simone actuou em Portugal, no Casino do Estoril, em Setembro de 1987.

Cantora de protesto
Tudo cabia nesta voz que levou talvez longe de mais o seu poder mas que deixou marcas em Aretha Franklin, Roberta Flack, Laura Nyro, Dee Dee Bridgewater, Rickie Lee Jones, Norah Jones e, surpreendentemente, Beth Gibbons, vocalista dos Portishead. De onde se depreende que a ”soul” girava com mais intensidade. Chamaram-lhe, aliás, “the high priestess of soul” (como o álbum), a suma sacerdotisa
da “soul”.
Gospel, blues, jazz, pop, cabaré foram atravessados pela sua voz sem fronteiras. E a canção de protesto, fruto de uma aguda consciência social e política, que veiculou em canções como “Mississipi goddamn”, composta em resposta ao assassínio de Medgar Evers, um advogado defensor dos direitos civis da população negra, o manifesto feminista “Four women”, “Why the king of love is dead”, inspirada no assassínio de Martin Luther King Jr. e “To be young, gifted and black”, de Simone e Weldon Irvine Jr., posteriormente interpretada por Aretha Franklin e eregida hino do “black pride” norte-americano. Posição que terá levado algumas vozes críticas, como as do jornalista nova-iorquino Whitney Balliett, a afirmar que Nina se tornara “mais interessada na mensagem das suas canções do que na maneira de as cantar”. Hollie West, do “Washington Post”, preferiu chamar-lhe a representante da “indomabilidade humana”. Há cerca de cinco anos, interrogada sobre o estado do racismo nos EUA, Nina Simone declarou simplesmente: “Pior do que nunca!”
Nina Simone cantou George e Ira Gershwin, Richard Rodgers, Billie Holiday, Duke Ellington, Weill/Brecht (“Pirate Jenny”, enquanto reflexão amarga da experiência das populações negras africanas e americanas), Jacques Brel (há quem prefira a sua versão de “Ne me quitte pas” ao original), Bob Dylan, Leonard Cohen (“Suzanne”), Bee Gees (“To love somebody”), George Harrison (“My sweet Lord”) e um tema do musical ”Hair”, “Aint’t got no – I got life”.
Cantou como se o mundo fosse acabar num minuto e se recompusesse no seguinte. De certa forma foi isso que aconteceu quando uma das suas canções mais antigas, “My baby just cares for me”, foi usada em 1987 num anúncio de televisão do perfume Chanel e se tornou um êxito.
Em “Nina Simone and the Piano!” alberga-se ainda uma canção, “The desperate ones”, cujos versos poderiam servir de epitáfio: “The desperate ones, they walk without a sound, the desperate ones”. Os desesperados caminham sem um ruído, os desesperados. Nina Simone disfarçou tal facto, cantando com quanta força tinha.

DISCOS PARA RECORDAR NINA SIMONE
“My baby just cares for me”
“Don’t explain”

Escolho duas canções, duas interpretações fabulosas, “My baby just cares for me” e “Don’t explain”. Ao ouvi-las, penso no legado de Billie Holliday, de Sarah Vaughan, sinto uma grande afinidade com o meu universo. Sendo Nina Simone uma cantora tão versátil, nesses dois temas consegue estar muito próxima do jazz.
Bernardo Moreira, contrabaixista

“Nina’s Choice”
É uma cantora que opta por cantar a partir do coração, da alma, de dentro. Isso dá-lhe um carisma e verdade que passa através de tudo o que ela canta. E cantar é isso. É-me difícil eleger um disco. Opto por escolher um pelo título, um álbum que se chama “Nina’s Choice”, porque se a escolha é dela certamente é soberba.
Anamar, cantora e atriz

“Nina Simone and Piano!”
Qualquer tema cantado em inglês, desde que tenha o tempo lento em que ela era genial. Qualquer disco em que ela também toque piano. Todos vão escolher a interpretação de “Ne
me quitte pas”, de Jacques Brel, uma obra genial cantada com o sotaque americano/francês. Como os grandes autores que são intérpretes, nunca ninguém cantou ou cantará como ela esta canção de Brel.
José Duarte, crítico de jazz

“In Concert/I Put a Spell on You”
“The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”

Não escolho tanto discos, mas antes canções. “Feeling good” foi a primeira música que descobri da Nina Simone. Ouvi primeiro a versão dos Mighty Bop e depois cheguei à da Nina Simone, é do CD “In Concert/I Put a Spell on You”. Fiquei completamente apaixonada. Já fiz três desfiles com músicas dela, as outras duas são “Mr. Bojangles” e “My father/dialog”, do disco “The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”.
Maria Gambina, criadora de moda

“I loves you Porgy”
A canção que melhor recordo é “I loves you Porgy”. Das muitas versões que existem do “Porgy & Bess”, a maior de todas é a dela. É de uma negritude, uma declaração de raça absolutamente tocante, maravilhosa. Como cantora foi uma referência, tinha uma voz magnificamente grave, muito emotiva. Mas as duas experiências que tive com ela em festivais foram horrorosas – era uma pessoa insuportável.
Maria João, cantora

“Feeling good”
“Feeling good” foi uma canção de Nina Simone que escolhi para o [filme] “Jaime”. Havia mais canções previstas, mas esta foi a única que ficou. Eu tinha visto a imagem final com essa canção, o tom e a letra adequavam-se, havia uma ambiguidade na voz, alguém a convencer-se que é feliz. Era uma grande voz, inconfundível.”
António-Pedro de Vasconcelos, cineasta

“The Blues”
A arte de Nina Simone é ausente de complacência. A sua maneira de cantar leva-nos ao fundo da emoção, ao coração da vida. A sua representação do mundo está na sua obra e é isso que a torna única e universal.
Mísia, fadista