fmstereo |


Este é um blog de homenagem ao maior crítico musical português de todos os tempos, precocemente desaparecido de entre nós. Usufruam da sua obra e, sobretudo, como ele desejaria, desfrutem da música que ele amava e sobre a qual escrevia.
                                                                                                               

                           

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5 leituras

12.10.2001
Rechenzentrum
The John Peel Session
Kitty-Yo, distri. Symbiose
8/10

LINK (Silence)

Sob o patrocínio do eterno dj John Peel, os Rechenzentrum tiveram a coragem de entrar em ruptura com o Groove a jacto que caracteriza o álbum anterior “Rechenzentrum”, um dos mais inteligentemente dançáveis do ano passado. “The John Peel Session” é uma experiência exploratória para fora desse território. “Vlotho exter” entra nos domínios da música acusmática, “Norden” é uma fantástica aliança de batimentos cardíacos e deflagrações industriais, “Vom boot zum haus” um interlúdio de música e câmara tentada pelo atonalismo, funcionando como separador de “Solaris”, e “Vertikal”, quinze minutos de tecno mutante, para dançar mas também para fugir de uma avalancha de pedregulhos. É que a música dos Rechenzentrum, de líquida passou a rochosa, como se as máquinas tivessem sido voluntariamente contaminadas por um vírus e obrigadas a enfrentar um bloqueio. “The John Peel Session” alinha-se, surpreendentemente, ao lado dos Mouse on Mars mais experimentais.

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7 leituras

12.10.2001
Fridge
Happiness
Domino, distri. Ananana
6/10

LINK

Do pós-rock, versão kraut britânico, de “Ceefax”, os Fridge reforçaram a componente electrónica nos dois álbuns seguintes, os magníficos “Semaphore” e “Eph”. “Happiness” tenta a surpresa, compondo uma imagem mais seca e acústica, ilustrada por títulos descritivos como “Drum machines and glockenspiels”, “Sample and clicks” ou “Drums bass sonics and edit”. A ênfase posta na descrição dos meios técnicos utilizados, aliada à divisão do tempo no tema de abertura, “Melodica and trombone”, remetem para “Four Organs/Phase Patterns”, supra-sumo do minimalismo, com assinatura, ainda nos anos 60, de Steve Reich. Mas o programa diverge no que resta de “Happiness”, um desfile de acordes de guitarra cansada e compassos tirados da sebenta do pós-rock, ocasionalmente cortados por breakbeats marotos ou, em “harmonics”, pedaços da orquestra do Café Pinguim. Não chega para proporcionar a felicidade.

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10 leituras

12.10.2001
T. Rex
Electric Warrior
A&M, distri. Universal
6/10

LINK

Antes de encolher para T. Rex, a banda de Marc Bolan chamava-se Tyranossaurus Rex e era um predador de cançonetas folk psicadélicas, gnomos e unicórnios, mais cândidas que os sonhos maus de Syd Barrett, embebidas no frasco de mitos dos Incredible String Band e animadas pelo tipo de maneirismos vocais de David Bowie. A passagem para T. Rex significou a adopção da electricidade, do glam e do rock ‘n’ roll pastilha elástica, metamorfose que chegou para levar o malogrado Bolan ao panteão das “stars”. “Electric Warrior”, de 1971, agora recuperado na edição remasterizada do seu 30º aniversário, pode comparar-se a uma versão simplista de “Ziggy Stardust”, entre o glam e o boogie futurista, restos da “consciência cósmica” do antigo dinossáurio e a entrada descarada no “mainstream”. O “hit” aqui é “Get in on”, o que não quer dizer nada.

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8 leituras

28.09.2001
The Residents
Icky Flix
Euro Ralph, distri. Ananana
8/10

LINK (Disc 1)
LINK (Disc 2)

Demente, belo e hollywoodesco, na sua dimensão de fábula da aliança entre o anjo e a Besta, “Icky Flix”, o mais recente trabalho dos “Fabulous eyeballs” (em CD e na versão integral, de três horas, em DVD) recupera o tom épico de “Not Available”. Um excerto de “The Third Reich ‘n’ Roll”, “Songs for swinging larvae” (adoptada pelos Renaldo and the Loaf) e a “suite” audiovisual “Vileness Fats”, genialmente transformada numa descida aos infernos filmada por um Spielberg zombie, a par dos mais recentes “Bad day on the midway” e “Gingerbread man”, ganham nova acutilância enquanto peças de um vasto jogo cujo alcance está ainda por decifrar. “Just for you (disfigured night, part 7)” segue pela estrada dos tijolos amarelos até ao palácio de um bruxo bem mais terrível que o feiticeiro de Oz. Assombradas pelas vozes de crianças perdidas, solto na vertigem de um carrocel montado pelo diabo, as canções de “Icky Flix”, trazem de novo o perigo para o coração da música pop. Esse mesmo coração que os Residents andam há anos a mastigar.

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14 leituras

21.09.2001
Tori Amos
Strange Little Girls
Atlantic, distri. Warner Music
7/10

LINK

O título é o de uma canção de 1982 dos Stranglers, tidas como uma das bandas mais machistas do planeta. É uma das canções-chave do novo álbum de Tori Amos, reflexão sobre “como os homens dizem as coisas e a forma como as mulheres o entendem”. Doze versões de “canções que ferem e canções que curam”, escritas por homens, sobre mulheres, que Tori Amos reinterpreta na perspectiva de outras tantas personagens retratadas na capa. O que poderia passar por uma concessão a uma tendência em voga é um exercício de introspecção sobre a visão masculina que Tori Amos reformula ao nível da recontextualização dos poemas e da arquitectura formal, originais de Neil Young, Eminem, Depeche Mode, Slayer, Lou Reed, Lennon/McCartney, Bob Geldof e Joe Jackson. Litania do feminino reflectida num espelho difícil de encarar à luz das convenções.

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6 leituras

21.09.2001
Dean Elliot
Zounds! What Sounds!
Basta, distri. Ananana
7/10

LINK (“College Confidential (1960)”)
pwd: youdont

Prosseguindo o louvável trabalho de desenterrar do baú dos anos 40 e 50 as mais incríveis excentricidades musicais, a Basta apresenta-nos agora “Zounds! What Sounds!” de Dean Elliot, a comprovar que Raymond Scott não era o único maluco Americano a envenenar os anos do swing e das big bands. A particularidade da música de Elliot está na combinação de efeitos “concretos”, habilmente montados e sincronizados em estúdio, com o desempenho “normal” da sua “big, big band”. Serrotes, chuva, trovões, talos de aipo (“os mais estaladiços”!…), relógios, pinos de bowling e a estrela da companhia, uma betoneira último modelo, assumem-se como parte activa da composição, estruturados como elementos rítmicos ou simplesmente ornamentais. O próprio Elliot explica como procedeu numa deliciosa entrevista que o livrete reproduz na íntegra. Delicioso este “easy listening” swingante que soa a um improvável casamento de Benny Goodman com os Negativland.

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28 leituras

21.09.2001
E Agora, O Quê?
Peter Hammill
What, Now?
Fie, distri. Megamúsica

LINK

“E agora, o quê?”, pergunta Peter Hammill. Chegado aos 53 anos, o músico, poeta e antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator, interroga-se, como não podia deixar de ser, sobre o tempo e as marcas da sua passagem. “What, Now?” provoca no admirador incondicional da obra deste trovador dos tempos modernos, impressões contraditórias. Em termos exclusivamente poéticos, o álbum pauta-se por um retorno aos grandes temas cósmicos e filosóficos – a solidão do indivíduo, a descoberta de um sentido para a vida ou a submissão religiosa, que caracterizavam obras máximas como “The Silent Corner and the Empty Stage”, “In Camera” e a trilogia a preto e branco, “The Future Now”, “PH7” e “A Black Box”. Neste particular, “What, Now?” contém temas merecedores de reflexão, por sinal os mais longos, nos quais Hammill se questiona sobre os limites da individualidade, da santidade e da paranóia, como “Here comes the talkies2, “Lunatic in Knots” e “Edge of the Road”. As palavras, saídas da experiência ou arrancadas ao inconsciente colectivo, que Hammill rompeu a golpes de uma introspecção violenta, são arrebatadoras na exposição, por vezes trágica, do homem apresentado na sua dimensão de divindade aprisonada. Pelo tempo, pela carne, pelo pensamento, pelos outros, por si próprio. “So many angels/ However man can there by, ghosts and djinns/Dancing on the head of a pin?/How many questions are left unresolved?/Exactly where do I begin/Now that the walls are closing in?/Who’s the lunatic/And who’s the sensible soul deep within the skin/Hanging on and listening in…?”, pergunta, em “Lunatic in Knots”, trazendo à lembrança a grande dilaceração entre o ego, os anjos e os demónios (os “djinns” bíblico…) da obra-prima dos Van Der Graaf, “Pawn Hearts”.
Mas há o reverso da medalha num álbum marcado pelas guitarras e pela electrónica épicas aos quais não terá correspondido, desta feita, uma produção à altura. Falta espaço e tridimensionalidade a este conjunto de canções marcadas por uma profunda tristeza. O tempo, sempre o tempo, não perdoa, e faz sentir os seus efeitos na voz. A “What, Now?” falta o “punch”, a força e a revolta de antanho que tornavam cada intervenção vocal de Peter Hammill num tornado ou numa prece tocada pelo fogo sagrado. O que parece indicar que esta tensão poética que em “Waht, Now?” subitamente se reacende, já não conseguirá traduzir-se numa catarse como a de “In Camera”, mas poderá continuar a desenvolver-se em terreno de excepção na veia mais intimista de “Fireships” ou dos recentes “This” e “None of the Above”. “The boy’s alive, the boy is in the man”, canta o poeta-músico em “Wendy & the lost boy”. Pressente-se o drama. O Peter Hammill de “What, Now?” não perdeu a pureza do Peter Hammill de “Fool’s Mate” (1971), mas o corpo enfraqueceu (as imagens da capa parecem contradizê-lo, numa série de fotos do músico em movimento, entre a prostração e a tentativa de voo). Porém, Hammill já venceu a morte e essa é a maior das suas vitórias, no decurso de uma longa ascese, sem precedentes na música deste século.
“What, Now?” dá ainda a conhecer o Hammill profeta, em “The American Girl”: “The American girl stubbed her toe on the old world/And the old world’s unforgiving rigidity/Well, times got hard/And talk came cheap/She found that finally/Something wasn´t right across the sea…/Now she´s stateless in all but her memory”. E agora, o quê?

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20 leituras

21.05.2001
Reedições
Arcebispos de Cantuária

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Caravan
If I Could Do It All Over Again, I´d Do It All Over Over You
9/10
In The Land of Grey And Pink
9/10
Waterloo Lily
8/10
For Girls Who Grow Plump In The Night
8/10
Caravan & The New Symphonia
6/10
Todos Deram, distri. Universal

Os cães ladram mas a caravana passa. Agora re-remasterizada (as anteriores versões já tinham o som melhorado mas estas fazem finalmente justiça à magnificência do vinil original). Os Caravan passam, de facto, por ser os mestres-escola de Canterbury. Quem pela primeira vez se depara com a música de “If I Could do it…” (1970) torna-se participante de uma história interminável de fascínio e descoberta. Do primeiro rezam as crónicas que o título-tema foi tocado de forma maníaca por John Peel no seu “Top Gear” até as espiras do disco se gastarem. Fabulosos o swing, a suavidade “naif” de um “riff” vocal viciante. As canções, pop até à medula, infiltradas por uma sensualidade quase hedonística, jogam xadrez com o paradoxo e o sonho, fundem-se com deambulações instrumentais de jazz psicadélico, descobrem o prazer da inflexão-surpresa, da respiração, da melodia voadora. “In The Land of Grey and Pink”, considerado pela revista “Mojo” um dos melhores dez discos de música Progressiva de sempre, separa o que em “If I Could…” estava ligado. Canções gloriosas de um lado, a longa “suite” “Nine feet underground”, de outro. Ouve-se de um trago, como um requintado licor auditivo. Canções como “Winter Wine” ou “golf girl” misturam a imprevisibilidade do jazz com a arquitectura melódica da pop e o sopro de uma narrativa aberta. A entrada em cena do piano eléctrico de Steve Miller, em substituição de David Sinclair, empurrou “Waterloo Lily” (1972) para sonoridade menos sensíveis à pureza juvenil dos álbuns anteriores, cultivando o rigor instrumental e uma menor elasticidade dos materiais de composição, tendência que se manteria em “For Girls Who Grow Plump in the Night” (1973), desta feita em estreita dependência da viola de arco de Geoffrey Richardson, enquanto o regressado David Sinclair garante o equilíbrio entre a complexidade e o swing, segundo aquela fórmula secreta das bandas de Canterbury. Apenas curiosa, a experiência com orquestra de “Caravan & The New Symphonia” (1974), corresponde à fase de maior sucesso e entrada nos “charts” britânicos do grupo. Mas “Cunning Stunts”, de 1975 (6/10), perdera em definitivo o sortilégio, sobrando canções que ainda assim retinham migalhas do antigo esplendor.

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18 leituras

04.07.1997
A Nova Idade dos Madredeus

LINK

O auditório do Inatel, na Costa da Caparica, foi o local escolhido pelos Madredeus para os ensaios e a apresentação da música do que será o seu próximo álbum de originais, a gravar em Itália no final deste mês. Num pequeno concerto aberto ao público, a nova formação, em quinteto, da banda portuguesa com maior sucesso no estrangeiro eu a conhecer uma música de contornos “new age”, em que a voz de Teresa Salgueiro se destaca cada vez mais.

Foi uma sonoridade nova aquela que os reformulados Madredeus – com baixo acústico do novo elemento Fernando Júdice, a ocupar o lugar dos dois dissidentes, Francisco Ribeiro e Gabriel Gomes – apresentaram, em três pequenos concertos realizados no auditório do Inatel, nas tardes de segunda, terça e quarta-feira passadas.
Tocaram uma dúzia de temas, “Coisas pequenas”, “Praia do mar”, “Claridade”, “Paraíso”, “À margem”, “A Tempestade”, “Não muito distante”, “Os dias são à noite”, “Andorinha da Primavera”, “O sonho”, “Alvorada” e “Canção dos novos”, os quais, segundo Pedro Aires Magalhães, serão todos gravados, ficando por decidir se serão, ou não, incluídos na sua totalidade no próximo álbum de originais, que começará a ser gravado no final deste mês, em Veneza, com edição provável no Outono.
Ontem mesmo o grupo seguiu para Itália, onde efectuará uma minidigressão, com ínício em Vicenza, que terminará no dia 10. Teresa Salgueiro não regressará com o grupo, ficando para actuar, como convidada, ao lado dos guitarristas António Chainho e Fernando Alvim, num espectáculo de fados clássicos, integrado no festival Sete Sóis Sete Luas.
O desaparecimento do som cheio do ioloncelo e do acordeão da antiga formação determinou uma saliência ainda maior das guitarras, ao mesmo tempo que trouxe novas responsabilidades e protagonismo ao teclista da banda, Carlos Maria Trindade. Este músico, que no seu álbum a solo, “Deep Travel”, criou uma larga paleta de sons electrónicos, circunscreve agora o seu desempenho nos Madredeus a uma serenidade e simplicidade de processos próximos da “new age”. “Seria agressivo introduzir no grupo uma electrónica mais pesada. Digamos que uso sons quase acústicos, emulações de timbres pacíficos”, diz.
Carlos Maria Trindade reconhece que os “ex libris” dos Madredeus são “a voz da Teresa e o trabalho de guitarra ibérica”. “Tudo o resto são ornamentações”, afirma o teclista, que, pelo seu lado, procura encontrar para cada arranjo uma determinada “cor tímbrica”, a tal cor que seria perigoso não substituir pela ausência do acordeão e do violoncelo”.
Também para José Peixoto, a ausência de Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro dos Madredeus não acarretou qualquer espécie de traumas. “percebemos que o Pedro, a Teresa, o Carlos e eu formávamos um núcleo principal auto-suficiente e que era possível trabalharmos os arranjos e a composição sem a sensação de falta”, diz o guitarrista, que subtilmente tem empurrado a música do grupo para as sonoridades mediterrânicas. Para o autor, a solo, de recente “A Voz dos Passos”, apenas “mudou a cor”. E um som que se tornou “mais coeso e objectivo”. Teresa Slagueiro, pelo contrário, acha que houve “nítidas mudanças”, como sempre existiram “de disco para disco”, só que agora muito mais nítidas, devido à instrumentação “completamente diferente e com arranjos muito mais simples”.
Para Fernando Júdice, o novo recruta, a principal dificuldade que sentiu na sua integração foi “compreender a música e encontrar o tipo de linguagem” que melhor se adequasse ao grupo. “Ainda estamos em fase de rflexão”, explica.
Pedro Ayres de Magalhães, autor da maior parte das músicas e letras dos Madredeus, considera que “depuração pode ser uma palavra pesada” para definir o novo som do grupo, até porque “o anterior não era impuro”. Mas admite que a música se tornou “ainda mais vocal”.
Parece óbvio que a actual combinação entre a expressividade vocal de Teresa Salgueiro e a serenidade cada vez mais acentuada do lado instrumental corresponde às expectativas criadas pelo público internacional, que recebeu da melhor maneira o álbum “O Espírito da Paz”. “Um pouco por todo o lado, pudemos sentir uma espécie de carinho pelo nosso projecto e também a confirmação de uma atenção que é justificada por aquilo que o grupo promete. Tomámos, então, como referência essespalcos tão diferentes em que tocámos. O critério da escolha dos novos temas e os respectivos arranjos têm muito a ver com essa experiência, em parte para responder a uma certa esperança que muita gente nos mostrou em relação ao futuro do grupo.”

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16 leituras

04.07.1997
INSTRUMENTO
Gaiteiro de Lisboa
nome: Paulo Marinho
instrumento: Gaita-de-Foles

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Paulo Marinho toca gaita-de-foles desde os 16 anos. Descobriu este instrumento em Valença do Minho, onde ia passar férias. “Numa aldeia chamada S. Pedro da Torre, mesmo junto ao rio Minho.” “Nessa altura começava a falar-se da gaita, na Galiza, de novos construtores e novas escolas”, recorda este músico que entrou no rock com os Sétima Legião e hoje faz parte dos Gaiteiros de Lisboa.
“Naquela altura também se fez reviver um bocado o Alan Stivell.” Paulo Marinho comprou uma gaita-de-foles galega. A primeira. “Muito barata, 4500 pesetas, e de fraca qualidade.” Começou a tocar. “Fui aprendendo um pouco por mim. A princípio foi um bocado mau, não conseguia. Depois comprei um livro, um manual, que me ajudou muito. Com aquelas informações básicas mas nas quais nunca tinha pensado antes.”
mais tarde, em 1983, Paulo Marinho entrou para o Centro Galego de Lisboa. “Já tocava um pouquinho, entrei para integrar o grupo folclórico os Anaquinhos da Terra, essencialmente reportório galego e algumas coisas mirandesas.” Foi por volta dessa época que entrou para os Sétima Legião. Dificuldades para integrar a gaita-de-foles numa linguagem rock, não sentiu muitas. “Tocávamos pouco, tecnicamente na altura. Percebe-se isso em ‘A Um Deus Desconhecido’. Era tudo espontâneo. A gaita fazia umas melodias, se cabiam, cabiam, todos tentávamos acompanhar-nos uns aos outros.”
A seguir a essa primeira gaita-de-foles, Paulo Marinho foi adquirindo material de melhor qualidade. “Uma das características da gaita-de-foles é ter elementos destacáveis. Comprei uma segunda gaita ao Raul Vaz, já um bocadinho melhor, ainda durou alguns anos. Depois é que comprei uma ainda melhor, da qual ainda conservo todos os elementos, menos o ponteiro. Também fui mudando de foles.” Esta gaita-de-foles tem afinação em dó. “A que se usa mais na Galiza.”
Para Paulo Marinho, a gaita-de-foles galega não é um instrumento especialmente difícil de tocar “Embora uma pessoa possa sempre exceder-se. Tocar como o Carlos Nunez é quase impossível…” Mas avisa: “Às vezes as pessoas não têm muito a noção da questão do controlo do fole. Algumas tocam flauta e depois tentam tocar gaita e percebem que é muito diferente. Tem de haver uma aprendizagem do controlo do fole, para o som sair com a menor oscilação possível.” Mas o gozo de tocar supera todas as dificuldades. Na memória do gaiteiro permanecem vivas datas como a da gravação do primeiro disco dos Sétima Legião ou quando entrou para os Anaquinhos da Terra. “Quando vesti pela primeira vez o fato, senti uma grande alegria, a alegria de ver as pessoas dançarem, se calhar uma alegria maior do que tocar para pessoas sentadas que batem palmas no fim.”
Além da gaita galega, Paulo Marinho possui também uma gaita mirandesa. “Consegui superar os problemas da afinação, fiz palhetas com fitas adesivas…”
“Dentro da enorme diversidade de gaitas que existem nos vários pontos do globo, há quem diga que a gaita seria mais ou menos única no Nordeste da Península Ibérica. Os galegos, a partir do século XIX, é que tentaram fazer uma gaita que pudesse tocar minimamente com os outros instrumentos. As gaitas galega e mirandesa são hoje diferentes, uma acompanhou os tempos e a outra não.”
Nos últimos tempos, tem-se assistido, um pouco em todo o lado, ao aperfeiçoamento das técnicas de construção da gaita-de-foles, evoluindo dos materiais tradicionais para os sintéticos. Paulo Marinho tem acompanhado esta evolução. “Na Escócia estão a fazer experiências com produtos sintéticos, com bons resultados. Eu gosto muito da madeira, ainda não tive muitos contactos com esses novos tipos de gaitas. Mas já experimentei, têm um som um bocado diferente. Sou a favor de tudo o que seja experiências, mas é claro que sinto alguma pena por meter algumas coisas de lado, por se perder a memória.”
Sabendo-se da diferença abissal do que se passa, hoje, em Portugal e na Galiza, onde existem actualmente milhares de praticantes e se multiplicam as escolas e construtores, Paulo Marinho é, porém, da opinião de que algo está a mudar, para melhor, no nosso país. “Estão a aparecer muitas pessoas a aprender. Algumas vêm ter comigo ao centro, onde, presentemente, estou a realizar ‘workshop’, nos quais dou noções gerais do instrumento.” Para a sua própria evolução, Paulo Marinho ouve a música dos outros, “ouvir muito, o máximo possível. Em relação às coisas galegas, vou bastante lá acima, estou em contacto com muita gente, posso dizer que tive muitos mestres, embora não queira destacar nomes.”
Heróis da gaita-de-foles? Paulo Marinho prefere não citar nenhum dos “monstros”. “Neste momento ando a ouvir cuidadosamente um gaiteiro de Rio de Onor, chamado Juan Prieto.”

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